Escrevendo O Destino

11 10. Quando o corpo pede um pouco mais de alma


Notas iniciais
Oi, leitores amados! Sei que prometi um capítulo pro fim de semana passado, mas é que meu braço ainda não melhorou... vou ficar de molho um tempo maior do que eu achava. Pra compensar, o capítulo de hoje é daqueles grandões!

Quero agradecer a recomendação da leitora Suzzane Freitas! Obrigada, linda!! Obrigada também a todos que deixam reviews sempre!! Já chegamos à marca de 200 reviews!

A música que o DC canta hoje é essa aqui: http://www.youtube.com/watch?v=je-RTYbzoEk&feature=player_embedded

Vamos ao capítulo?

Boa leitura!

Capítulo 10

Quando o corpo pede um pouco mais de alma



– Marina… esse beijo tava no roteiro? – Nimbus perguntou em estado de choque.

– Não! Eles improvisaram! Mas eu achei que a cena ficou ótima.

Meu irmão fez um sinal de joinha pra mim, com um sorrisinho no canto da boca.

Droga. Ele nunca mais ia parar de falar sobre isso. A ideia da Mônica de manter tudo em segredo de repente fazia muito sentido.



Depois da gravação, chegando em casa, tudo ocorreu como o esperado. Nimbus me seguiu até meu quarto e começou o interrogatório.

– DC?! Como assim, cara? Você beijou a Mônica!! Até que enfim!!

– A gente tá fazendo um filme, cabeção. Era interpretação.

– Ah, não era não. Nem tinha no roteiro aquele beijo! Aí tem coisa, não adianta esconder de mim.

– Resolvemos incluir de última hora, ué.

– Joga a real pra mim, mano. Esse foi o primeiro beijo de vocês?

Eu não consigo mentir pro meu irmão. Era melhor contar tudo logo.

– Não.

Ele abriu a boca em espanto.

– E você não ia contar pra mim? Depois de todo o incentivo, todo o apoio que eu te dei, é assim que você devolve?

– Eu sou diferente dos outros meninos. Não gosto de ficar me gabando.

– Mas conta aí, mano, rolou mais alguma coisa?

– Mais alguma coisa o quê, ô Mandrake?

– Ah, você sabe. Se você tiver qualquer dúvida sobre esse assunto, é só perguntar. Irmão mais velho é pra essas coisas.

– Corta essa, Nimbus! Eu não vou falar de sexo com você.

– Quer dizer que rolou então?

– Não!! Não rolou e não vai rolar! Eu tô indo pro outro lado do mundo, cara! Eu não vou dar um passo grande assim agora.

– Ela não quis, né?

Ah, se ele soubesse o quanto ela quer! Mas é melhor mesmo que não saiba.

– Foi uma decisão tomada pelos dois.

– Quer dizer que vocês já conversaram sobre isso. Vai ser a primeira vez dela também, eu suponho.

– Também. Por isso é melhor a gente esperar o momento certo.

– Vocês tão namorando, é?

– Não.

– O que vocês tão fazendo então?

– A gente tá, tipo… não-namorando.

– Ah, tá. Entendi. É o jeito a la Do Contra de namorar. Que bonitinho. Por isso a Mô rejeitou o careca. Porque ela tá gostando de você.

– Talvez.

– Uma pena você ter que viajar justo agora. Mas se eu fosse você, cara, não ficava preso nessa ideia de “vou viajar e não posso me envolver sério”. Vai que, quando você voltar, ela já mudou de ideia? Já teve a primeira vez dela com outro? Do mesmo jeito que o Cebola vacilou e você aproveitou a deixa, vai ter uma fila de rapazes esperando seu vacilo também.

Nimbus tinha razão. Será que eu deveria correr esse risco? Deixar a Mônica aqui sozinha todo esse tempo, com tantos concorrentes na cola? E se ela transasse com outro? Se ela não conseguisse me esperar? Com todo o fogo que ela tinha, era bem capaz mesmo de ela não aguentar. Será que não era melhor ceder logo? Deixar minha impressão nela? Ou era melhor insistir com ela pra garantir um compromisso?



Duas semanas se passaram. Nosso trabalho de Literatura foi um sucesso total. Tiramos a nota máxima. O filme foi exibido pra toda a escola, e o professor de Artes pediu pra usar o texto na peça do final do semestre.

Nesse período, Mônica e eu ficamos próximos como nunca. Os dias eram todos mais ou menos iguais. Por causa do trabalho, a gente ficava junto o dia inteiro, e ela pulava minha janela à noite porque não conseguia dormir sem mim. Eu fazia cafuné nela, e cantava pra ela pegar no sono.

Eu sabia que, agora, eu era o melhor amigo dela, aquele em quem ela mais confiava. A amizade dela com o Cebola não era mais uma ameaça pra mim.

Vez ou outra o clima esquentava, e eu a levava até um orgasmo, mas sem deixar que ela me tocasse. Resolvi levar adiante a história de só ceder quando ela aceitasse um compromisso sério. Ela esperneava, chorava, mas no fim ela entendia que as coisas iam ser do meu jeito. E eu entendia os motivos pra ela dizer não, mas eu ficaria muito mais tranquilo a essa distância toda se a gente já se amarrasse logo.



Depois de apresentar o trabalho, faltavam apenas duas semanas pra minha viagem. Deixei de ir à escola, e aproveitei pra fazer um estudo intensivo da língua japonesa em casa. Queria chegar lá afiado no idioma. Por sorte, minha mãe era ótima professora.

Estava estudando no escritório há horas. Minha concentração é quebrada por uma batida na porta. Minha mãe entra no escritório e me entrega o telefone.

– Telefone pra você, filho. É a Mônica – ela me deu um sorriso cúmplice. Não adianta, eu sou péssimo em esconder meus sentimentos. Todo mundo já tava sabendo do meu não-namoro.

– Valeu, mãe.

Ela saiu do escritório, me deixando à vontade.

– Oi, linda.

– Oi! Você não atende o celular não, é?

– Ah, deixei lá no quarto. Foi mal.

– Tá estudando? Não quero atrapalhar.

– Na real, você tá atrapalhando sim. Mas eu não ligo.

– Agora que as filmagens do trabalho acabaram, eu tenho que vir pra casa e ficar aqui sem fazer nada. Daí resolvi ligar, pra ver se você quer fazer alguma coisa.

– Tá com saudade, é?

– Eu não, seu chato.

– Você que é chata. O que você quer fazer?

– Que tal um piquenique no parque? Quero aproveitar esse dia de sol depois de tanta chuva.

– Pode ser!

– Daqui a 40 minutos te encontro lá então. E leva seus patins!

– Tá certo, linda.

– Beijo e tchau!

– Tchau e beijo!

Eu podia sentir o sorriso bobo na minha cara. Nunca achei que pudesse ser tão bom me sentir de um jeito tão… normal.



No parque, encontro a Mônica sentada numa toalha estendida, com uma cesta de comidinhas. Me sentei ao lado dela.

– Tchau.

– Oi, DC.

– Você ficou com saudade de mim sim, que eu sei.

– Não fiquei, seu chato.

– Ficou sim – dei um beijo em seu pescoço. Senti ela se arrepiar.

– DC, não começa… Ai, tá bom, eu morri de saudade, agora chega.

– Eu também fiquei com saudade, linda. Como foi na escola hoje?

– Bem entediante. Sem você lá pra pegar no meu pé, não é a mesma coisa.

– Não por isso. Eu posso pegar no seu pé agora.

Peguei seus pés, tirei suas sandálias e beijei os dedinhos. Ela me acertou o Sansão.

– DC, é sério! Parou.

– Por que, linda?

– A gente tá num local público.

– Eu só tô beijando seus pés. O que isso tem de mais?

– Você sabe muito bem.

– Você tem medo de perder a cabeça, é? De me agarrar aqui mesmo?

– DC, por que você me provoca, se você não vai até o fim? É muita maldade comigo.

– Já falei. Preciso te deixar curiosa. Mostrar o trailer pra você saber o filmão que tá perdendo.

– E pra ver o filme inteiro, tenho que pagar o ingresso, que é um anel de compromisso.

– Tipo isso.

– Mas você já sabe que não vai rolar, então não me tente! Que diabos!

– Quanto mais você me falar pra não te tentar, mais eu vou.

– Você tá é precisando gastar essas suas energias, e já que você não quer sexo, eu tive uma ideia. Vamos andar de patins.

– Você nunca foi fã de patins.

– De repente me deu vontade, ué.

– De repente, do nada, você tá tendo um monte de vontades estranhas. Vontade de mim, por exemplo.

– Anda, calça os patins. Vem logo.

Ela começou a patinar, enquanto eu me calçava. Ó, céus. Ela é um desastre. Levou dois tombos em um minuto. Eu precisava intervir.

– Você tem certeza que quer fazer isso, linda?

– Na verdade, eu queria mesmo era patinar no gelo, mas isso aqui vai ter que servir. E não precisa me olhar com essa cara de quem tá assistindo o naufrágio do Titanic.

– Mas linda… a gente tem que ser realista… você não é… muito boa nisso.

– Um dia você vai mudar de ideia. Você vai me achar ótima. Mas eu só vou ficar boa se treinar. E, se você não treinar junto, não vai conseguir me alcançar.

Ela patinou pra longe de mim, e eu a alcancei a tempo de segurar na mão dela e evitar que ela caísse de novo.

– É, não vai ter jeito. Acho que vou ter que tomar umas lições com o Felipe.

– E por que com o Felipe? Tem tanta gente pra te ensinar a andar de patins.

– Tá com ciúme, DC?

– E-eu não. Sua convencida. Mas é que o Felipe é um atleta profissional, ele não tem muito tempo. Pede pra Magá te ensinar.

– Mas é que o Felipe já se prontificou a me ensinar. Ele arrumou um tempo na agenda dele só pra isso.

– Eu sei o que ele tá querendo te ensinar! Moleque abusado.

– DC, não fala assim. Ele é legal.

– A Amanda é legal também. Vou ligar pra ela me dar umas aulinhas.

Mônica ficou nervosa. Eu sabia exatamente o ponto fraco dela.

– Aulinhas de quê? Aquela piriguete não sabe fazer nada, além de se atirar em cima dos meninos.

– É mesmo. Mas eu posso ensinar ela a tocar bateria, ué. Ela se amarra.

– Tá bom, você venceu. Eu não peço pro Felipe, tá? Vou pedir pra Magali e pro Cascão me ensinarem.

– Melhor assim, linda. Eu até gosto de concorrência acirrada, mas só quando tô por perto pra me garantir – murmurei contra seus lábios.



Patinamos o resto da tarde, e cada um foi pra sua casa. À noite, fiquei esperando dar onze horas pra ela subir pela minha janela.

– Oi, DC – ela cumprimentou, entrando no quarto.

– Oi, linda.

– Trouxe uma coisa pra você.

Ela me entregou uma caixinha pequena.

Dentro, uma pequena pérola.

– Uma… pérola!?

– É. Eu queria te dar de presente de despedida.

– Que presente…. diferente. Adorei! Mas isso deve ter sido caro, Mô. Eu não posso aceitar.

– Eu peguei de uma joia que tenho desde criança. Infelizmente, não tinha dinheiro pra te comprar uma nova.

– Não precisava, linda. Mas… por que uma pérola?

– Eu vi num sonho que, um dia, você vai presentear a mulher da sua vida com uma pérola, como símbolo do seu amor por ela. Mas não vai ser uma pérola como essa, comum. Vai ser uma pérola rara, cheia de significado.

Olhei pra ela, zangado.

– Agora, em vez de ler mãos, você tem sonhos.

– Às vezes.

– E nesse sonho você viu que eu vou presentear com uma pérola a mulher da minha vida.

– Isso.

– De novo você com essa história, Mônica. Insinuando que a mulher da minha vida é outra pessoa. Pois eu lamento discordar de você. Acho que seu sonho tá errado.

– Eu acho que não, DC.

– Tá sim, sabe por quê? Porque eu sei muito bem quem é a mulher da minha vida, Mô. Eu sei que ela não tá num futuro próximo, pois ela tá bem aqui na minha frente.

– Do Contra, não fala o que você vai falar, por favor.

– Falo, Mônica. Você é a mulher da minha vida, e mais nenhuma outra. Eu gosto de você desde os seis anos. Desde os seis anos, Mônica! Já são quase dez anos! Sabe o que isso significa? Que eu nem sequer tenho memórias da época em que eu ainda não gostava de você. Eu gosto de você desde que eu me lembro de existir! Então você não venha aqui me dizer que a mulher da minha vida é outra.

Ela não respondeu.

– E também não venha me dizer que as coisas mudam, que eu posso mudar de ideia, porque eu não posso. Eu te amo, Mônica, te amei minha vida inteira, vou te amar até o dia em que eu morrer, e se tiver alguma vida depois desta, eu vou te amar nela também.

O que eu tinha acabado de dizer não era segredo pra ninguém, mas eu nunca tinha dito isso em voz alta. Às vezes eu sussurrava um “te amo” pra ela durante o sono, mas pela primeira vez eu falei em alto e bom tom. Era um alívio colocar isso pra fora depois de nove anos.

Ela continuou calada.

Eu não queria acreditar. Depois que eu coloquei todas as cartas na mesa, ela ainda ia insistir em esconder o jogo dela. Ou será que ela não tá escondendo jogo nenhum? Que o que ela sente por mim é só físico?

– Eu sei que, quando a gente se declara, não deve esperar de volta uma resposta igual, Mônica. Mas você bem que podia dizer alguma coisa. Qualquer coisa.

Ela estava emocionada. Dava pra ver pelos olhos marejados.

– Eu… eu queria muito poder dizer o mesmo pra você, DC. Mas eu não posso. Ainda não.

– Você só quer o meu corpo, Mônica? Você não sente nada por mim além de atração física?

– Você sabe que não é só atração.

– Eu só sei o que você me conta. O que você demonstra.

– Só o que eu posso fazer agora é falar por enigmas. E você tem que tentar ler nas entrelinhas, DC. Lembra? Agora vemos em parte, mas nós vamos ver por inteiro.

Ela me puxou pra um abraço, e sussurrou no meu ouvido:

– O amor “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá. Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.”

Abraçados, nos deitamos pra dormir.

Fazendo cafuné nela, cantei no pé de seu ouvido:



Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma

Até quando o corpo pede um pouco mais de alma

A vida não para


Enquanto o tempo acelera e pede pressa

Eu me recuso, faço hora, vou na valsa

A vida é tão rara


Enquanto todo mundo espera a cura do mal

E a loucura finge que isso tudo é normal

Eu finjo ter paciência

E o mundo vai girando cada vez mais veloz

A gente espera do mundo e o mundo espera de nós

Um pouco mais de paciência


Será que é tempo que lhe falta pra perceber

Será que temos esse tempo pra perder

E quem quer saber

A vida é tão rara


Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma

Até quando o corpo pede um pouco mais de alma

Eu sei, a vida não para

A vida não para não



Olhei pra ela dormindo. Em silêncio, ela não mente. O que ela tanto esconde? De que tanto ela tem medo?

Eu sei que ela me ama. Seja com passagens bíblicas, seja com pérolas, ela demonstra isso.

Um dia, não vai ser só o corpo dela dizendo que me quer. Eu só tinha que ter paciência. Eu já tinha esperado por ela minha vida toda. E eu esperaria o tempo que fosse por ela.

Notas finais
Pra quem não conhece a passagem bíblica que a Mô cita, é a mesma que inspirou a música "Monte Castelo" (que eles cantaram no capítulo passado): I Coríntios, 13.

Vou postar outro capítulo assim que ficar pronto, e a partir de amanhã começo a responder os reviews atrasados. Não deixem de comentar, por favor! Eu não tou conseguindo responder, mas leio todos os comentários... eles significam muito pra mim.

Beijos a todos!