Escrava do destino

10 Tristeza misturada com beijos


Sehra se sentia confusa, não sabia o que responder primeiro ao ver Zen no seu quintal a esperando.

— Obrigada por cuidar deles. – Disse Sehra sorrindo, um sorriso que não chegou aos olhos.

— Está...tudo bem? – A voz dele era trêmula.

— Não sei – Ela sentou na calçada da sua casa. – Eu não sei nem como começar.

Zen caminha até ela e se ajoelhou pegando as mãos de Sehra.

— Me conte tudo, princesa, por favor. – Sua voz era suava, seus olhos não estavam brilhando como de costume. – Como foi o encontro?

— O encontro foi ótimo – Zen apertou só de leve suas mãos, mas seu rosto não expressava nada. – Tomamos sorvete e conversamos sobre hobbys, férias e tudo mais, mas... – Sehra estremeceu ao lembrar do beco e dos homens e seus toques. Ela soltou a mão do Zen e ficou em pé. — Quando eu em vinha... – Sehra esfregava os braços com as mãos — sem querer entrei em um beco e já estava escuro, não tinha como eu correr, a pulseira ficou escura e... – Sehra olhava para a porta da sua casa e para Zen, ela estava o tempo todo dizendo que estava bem, estava em casa, nada acontecera.

— Homens me agarraram e me bateram... eles...eles queriam fazer algo comigo – Zen olhava cada parte do corpo dela, procurando por algo, seus olhos estavam arregalados, suas mãos em punhos na lateral do seu corpo. – E quando eu tentava me livrar das mãos deles, eu não conseguia e eles me batiam mais, eu desmaiei e alguém me socorreu.

Zen a interrompe: — Você lembra de como eles eram? – Sua voz estava fria.

— Eu não sei, Zen – Sehra falava apressada – Estava escuro, mas aquele que veio me deixar no carro disse que estava passando próximo quando ouviu as amaças, me levou para a casa dele... e de alguma forma não estou com nenhum ferimento em meu corpo .

Zen encarava Sehra e tentou tocar seu braço, quando ela deu um passo para atras, ele recuou.

— Eu senti você desaparecer de novo, mais uma vez...eu não sei o que está acontecendo – Zen falava agoniado, esfregava os cabelos. – Eu convoquei os outros e saímos a sua procura...eu ligava para você, mas seu celular não dava sinal, os outros ainda estão procurando por você e eu vim colocar seus pais para dormirem...- Zen deu mais um passo em direção a Sehra.

— Zen, obrigada, mais uma vez...de verdade – Ela encarava Zen – Eu sei que vocês fizeram o que pode, eu estou bem...veja – Ela mostrou seus braços e seu rosto. – Mas estou tão cansada...eu só quero dormir. – Ela entrou na sua casa e fechou a porta.

Sehra entrou no quarto e se dirigiu para o banheiro retirando suas roupas e jogando no balde de roupas sujas, entrou na banheira, girou a torneira, enquanto enchia despejou algumas gotas de seu sabonete favorito, fechou a torneira e começou o processo de esfregar o corpo com a esponja. Sua mente estava silenciosa, tão silenciosa que quando olhou o local em que esfregava, estava tão vermelho que se admirou por não ter sangrado. Largou a esponja de lado e deitou na banheira, deixando só o nariz de fora, sem se importar de molhar o cabelo. Sehra adormeceu na banheira .

E mais uma vez Sehra sonhou preto e branco. Ela sabia que estava em um sonho, pois apenas ela estava colorida. Ela arranhou seu próprio braço com a unha e viu que ali ela podia se ferir. Estava em um campo de batalha, tendas armadas, guerreiros preparados para lutar, humanos e anjos, ela sabia que tinha anjos ali, porque viu um homem sem camisa e as costas dele evidenciavam que uma vez ele tivera asas. Uma pena, pensou Sehra, ela gostaria de ver como eram as asas de anjos. Ela não entendia o que aquele povo estava dizendo e continuou andando em direção a maior tenda. Ela já sabia quem iria encontrar lá, ela já sabia que iria encontrar uma mulher e um homem, lindos e com aquela áurea de soberanos. Estavam sérios, estavam olhando para um mapa e quando Sehra se aproximou para olhar o mapa mais de perto , ela acordou.

Mais uma vez Sehra se viu perguntando como que não morreu afogada na banheira, já estava virando costume dormir assim. Sehra adoeceu mais uma vez e não foi as aulas ou aos treinos por 3 dias e escreveu mais uma vez seus sonhos em preto e branco.

A tarde, o grupo foram ao seu encontro e bateram no vidro da janela como da outra vez, ela já estava esperando eles irem, só não tinha certeza da hora.

— "Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha." – Disse Naruse com a expressão séria, o que era raro de se ver. Os quatros se ajoelharam e falaram em uma só voz:

— Nos perdoe pela falha em te proteger, princesa.

Sehra não disse nada, caminhou até a poltrona e sentou com as pernas cruzadas e seus joelhos ao encontro dos seus seios, seu olhar era neutro, era indecifrável.

— Sabemos que você não está bem, mas precisamos conversar. – Disse Obi. – O que está acontecendo a sua volta não é nada normal. Primeiro o pesadelo, agora esse acontecimento no beco, e sem falar do Zen sentir você desaparecer. – Uma pausa. – Achamos que vocês dois tem algum tipo de ligação, mas não sabemos o quê ainda, além disso, como já havia dito antes, talvez eles já te encontrarem e sabem sobre sua localização.

Sehra não dizia nada, nem mesmo movimentava a cabeça.

— E sobre isso princesa, iremos vigiar você 24h. – Concluiu Zen. – Você entende que a situação exige isso, princesa?

Sehra encarou Zen por alguns segundos, se ergueu da poltrona e andou em direção aos livros.

— Sabe... — Começou Sehra – Eu estaria mentindo se dissesse que não estou com medo – Ela passou os dedos nos livros e se virou em direção ao grupo. – Mas eu não quero que isso seja motivo para vocês me seguirem por 24h, mas eu entendo que vocês querem cumprir a missão de vocês...mas eu preciso respirar também, passei a minha vida toda desejando viver sem ser vigiada pelos meus pais, viver uma vida normal.

Eles se olharam e acenaram com a cabeça em afirmação para ela.

— Bom.

— Precisamos que você entenda – disse Fiona – que precisamos te proteger porque você é a escolhida para derrotar o mal que irá assolar mais uma vez a terra.

— Eu sei, mas – respondeu Sehra colocando a mão sobre seu coração – preciso que vocês entendam que até pouco tempo eu viva uma vida “normal” – ela fez os sinais de aspas ao falar a palavra normal – e que do nada no dia do meu aniversario vocês aparecem falando para eu lutar por algo dito no passado. – Uma pausa. – Antes disso, só em filmes, séries, livros de ficção, animes. – Sehra balançava a cabeça — E falo mais, eu não irei aceitar tudo isso de braços abertos, se eu souber...se eu ouvir um boato, uma frase de que posso pular o barco, eu não medirei esforços para não sair desse Titanic. – Sehra havia pensado bastante sobre quais palavras usar para impactar eles, e essas foram as únicas em que ela havia pensado. Ela sabia que o que acontecera não era culpa deles, ela havia proibido eles de vigiar o encontro, mas estava tão chateada por esta passando por isso.

Depois dessas palavras, todos foram embora, exceto Zen. Ele estava triste, calado, seus olhos não brilhavam. Ele sentou na cama de Sehra e ficou encarando o chão. Ela não falou nada por um momento e já estava preocupada por que Zen também não falava nada. Ate que finalmente ele falou e Sehra soltou um ar de alivio pela boca.

— Princesa...- dessa vez ele encarou Sehra. – As coisas não são como você está pensando.– Ele sacudia a cabeça. – Não cairá dos céus algo que possa...como você mesmo insinuou nas palavras ditas agora a pouca...é... quebrar suas correntes invisíveis a esse destino. – Seus olhos estavam cansados, porque Zen aparentava estar tão cansado? Ela se perguntava, mas temia perguntar. – É inevitável fugir do destino.

Ela pensou ter visto uma lagrima nos olhos de Zen, mas ele se levantou rápido e caminhou ate ela, o sol estava se pondo, o quarto estava escurecendo. Ele colocou suas mãos nos braços de Sehra. Olhava fixamente nos olhos dela e ela não conseguia sair das mãos dele.

— Você acha...- ele falava suavemente – que se houvesse alguma forma para te tirar dessa, eu já não teria te avisado? – Ele levantou a cabeça e olhava para o teto – Você fala como se a culpa fosse nossa...como se a gente tivesse te escolhido para isso. – Sehra estava de boca aberta sem acreditar no que Zen estava falando. – Nós...nós não temos culpa disso. Fomos criados e treinados para lutar ao seu lado, para te guiar. Apenas isso. – Ele agora olhava para Sehra, olhava para o rosto, os olhos, o nariz, a testa, o colar e por ultimo a boca de Sehra.

Sehra estava confusa. Suas palavras foram cruéis demais? Se bem que ela falou a verdade. Mas...ela nunca quis jogar a culpa neles, ela apenas.

“- Droga.” — Pensava Sehra.

— Desculpa, Zen – gaguejou Sehra – Eu nunca quis...jogar a culpa para cima de vocês.

Zen se aproximou mais um pouco de Sehra e seus batimentos cardíacos estavam acelerado e ela podia jurar que ele estava ouvindo também. Suas bochechas coraram e Zen continuava encarando seus lábios, a mão direita de Zen retirou uma mecha dos cabelos de Sehra do rosto, colocando atras da orelha dela. Ela estava imóvel. Sua respiração acelerada. Ele aproximou os lábios da orelha de Sehra e sussurrou:

— Você não sabe...- ele falava com dificuldade – o quanto eu rezei para nada ter acontecido com você naquele dia. Eu implorei aos céus para que você estivesse viva...estivesse bem. Nos três dias que você faltou as aulas, eu fiquei em cima da sua casa...vigiando...vigiando você – Sehra ao ouvir aqui ligou ao fato dele está cansado – e eu sei porque você adoeceu...você sentiu tanto medo e repulsa de pensar no que poderia ter acontecido, que adoeceu. – A respiração de Zen era quente e suave – Eu sentir, através de seja lá o que entre nós dois, toda a sua agonia dentro deste quarto e eu não pude fazer nada...eu me sentir tão inútil...tão incapacitado...que a única coisa que eu fiz foi vigiar a sua casa.

Zen se afastou e Sehra estava em lagrimas, tremendo como uma criança.

— Não...não chore, por favor, princesa. – Ele se aproximou mais e começou a beijar os caminhos que as lagrimas faziam no rosto da Sehra. Ele parou e afastou o seu rosto, ela não disse uma palavra. Ela encarava o azul celeste, o azul vivo e brilhante dos olhos dele e ele a beijou. Um beijo suave, meio salgado devido as lagrimas, meio doce e quente e lento. Ele a envolveu em seus braços, uma de suas mãos dançava nas costas dela e a outra em sua nuca.

Sehra nunca tinha sentido aquelas sensações, seus corpos colados um no outro, seus batimentos cardíacos eram um só. Eles mal paravam de se beijar, somente para respirar, e voltavam rapidamente. As mãos de Sehra subiam e desciam das costas de Zen, iam na nuca e no pescoço, e ele arquejava com isso. Ele estava ficando louco. Louco pelo toque dela. Ela se sentia maravilhada com aquilo tudo, era a primeira vez que alguém a tocava com desejo...com carinho...com cuidado.

Ele caminhou fazendo com que Sehra andasse de costas e se encostasse na parede do seu quarto. Ele beijava a bochecha, o nariz e o queixo, desceu mais um pouco e beijou o pescoço de Sehra, Sehra arqueou as costas e soltou um suspiro que fez Zen sorrir e ela sentiu o hálito saindo da boca dele em seu pescoço, ele mais uma vez a beijou e a envolveu com mais força. Sehra enfiou uma das mãos na parte de trás da camisa de Zen e ele respirou fundo ao notar o que aconteceu. Sehra arrastava sua mão que estava em contato com a pele de Zen por dentro da camisa, trazendo para o abdômen quando escuta a porta da sala fechando e ela escuta seus pais conversando após chegarem do trabalho. Eles pararam de se beijar, o coração de Sehra estava acelerado. Zen estava sorrindo para ela. Ele deu um longo e caloroso beijo na testa dela e foi embora sem dizer nada.

Sehra caminhou até a cama e se deitou sem acreditar no que acabara de acontecer.