Tudo o que eu queria era acordar! Acordar deste pesadelo e me tranquilizar, sabendo que tudo estava bem e que tudo não passou de um sonho. Mas não era um sonho...

À medida em que as lembranças me veem na cabeça, me encolho mais e mais na cama, tentando abafar o som do choro contra o travesseiro.


- O que você quer falar comigo, Vanessa? — perguntou Beto, com uma expressão de curiosidade no rosto.

- Na verdade, eu nem sei como dizer – diz Vanessa – Mas...tem a ver com nós dois – diz se aproximando dele.

- Com nós dois? — perguntou ele, sem entender.

- Sim – diz ela – Eu gosto de você! — E em seguida o beijou.


De repente, a porta se abre, me tirando dos meus pensamentos, e escuto a voz da minha amiga, Milena, falando comigo.


- Si, você já escolheu o seu vestido para a festa de gala?


Estávamos em um acampamento de jovens. Era o nosso terceiro dia, e ainda tínhamos mais dois dias de acampamento. Hoje é o dia da festa, que foi organizada pelos membros da igreja de Pilar do Sul, com o tema de gala.


- Não! — disse a ela, enquanto me sentava na cama, disfarçando às lágrimas – Na verdade, eu nem quero ir mais à essa festa.

- O QUE? — gritou ela – Como assim?


Nesse momento, entrou a Luana, nossa outra amiga.


- O que foi isso meninas? — perguntou ela – Deu para ouvir o grito lá de fora.

- Não foi eu – disse.

- Acontece, Lu, que a nossa amiga aqui, disse que não vai na festa – disse a Milena.

- O QUE? — foi a vez da Luana gritar – Como assim?

- Hoje vocês escolheram o dia para gritar comigo, foi? — perguntei.

- Não é isso – disse Luana – Mas você tem que ir na festa.

- Isso mesmo – concordou Milena.

- Eu só não quero ir – disse a elas.

- Si, o que aconteceu? — perguntou Milena, enquanto se sentava ao meu lado e me encarava — Você ficou animada com a festa.


Tentei disfarçar a minha tristeza, mas não consigo mentir para elas. Afinal, elas são as minhas únicas e melhores amigas.


- É verdade, a Milena tem razão — disse Luana – E você nunca desiste de alguma coisa por nada.

- Fala com a gente, Si, o que aconteceu? — elas continuam insistindo.

- É que...- as lágrimas já insistiam em derramar em meu rosto.

- É que?... — elas perguntaram, em uma única voz.

- Eu vi o Beto e a Vanessa se beijando – disse de uma vez, enquanto chorava.

- O QUE? — elas ficaram indignadas.

- Isso mesmo – disse a elas.

- Como assim, Si? — perguntou Luana – Isso não pode ser verdade.

- É a verdade – disse – Eu vi com os meus próprios olhos.

- Não pode ser, logo agora – disse Milena.

- Logo agora? — perguntei, sem entender nada.

- Nada, Si – disse Milena, tentando disfarçar o que havia dito – O Beto não gosta dela. E você vai me desculpando, por mais que ela seja a sua prima, ela é muito oferecida e o Beto não é deste tipo.

- Bom, para ele ter aceitado o beijo, talvez ele tenha gostado – disse a elas – Eu sou uma boba, meninas, o Beto nunca gostou de mim de outra maneira, a não ser como amiga. Eu tenho que parar de sonhar acordada.

- Hey, não diga isso, amiga – disse Luana – Pode ser que tenha sido um mal entendido. Você ficou até o final para ver o que ele fez?

- Na verdade, não — respondi.

- Então pronto! – disse Milena, se levantando – Isso não prova nada de que ele gosta dela.

- E não prova nada que ele gosta de mim – disse a elas – O amor não é para mim.

- Não diga isso, Si – disse Milena — Não se diminua desta forma. Você é uma joia rara. A menina dos olhos de Deus.

- Pode ter certeza de que Deus tem uma linda estória de amor escrita para você — disse Luana — Só não deixe de acreditar e confiar, que logo, logo irá acontecer.

- Que no caso será hoje – disse Milena, bem baixinho.

- O que? — perguntei.

- Nada – disse Luana, olhando torto para Milena.

- Vocês dizem isso porque já têm os seus parceiros – disse.

- Senhor, que menina cabeça dura – disse Milena – Si, por favor, vamos na festa, você não vai se arrepender.

- Hoje, tudo vai mudar – disse Luana – E pra melhor.

- Pra melhor? — questionei elas – O que vocês estão aprontando? E por que insistem tanto em que eu vá na festa?

- É, é... — gaguejou Milena — É que somos suas melhoras amigas, e você não vai nos deixar sozinhas.

- Mas vocês estão na companhia dos seus namorados. Eu que vou ficar sozinha, deslocada no meio da multidão – disse a elas.

- Mas queremos ficar com você — disse Luana – Ainda mais depois do que aconteceu.

- E queremos que você aproveite cada momento – disse Milena — Você não vai se arrepender.

- Vocês estão me assustando – disse.

- Por favor, por favor...-insistiam elas.


Meu Deus, seja o que o Senhor quiser.


- Está bem – disse e elas pularam de alegria.

- Você não vai se arrepender – disse Luana – vamos nos divertir muito.

- E agora, vamos nos arrumar – disse Milena — Você tem que estar deslumbrante essa noite.


{...}


- E agora pessoal, chegamos na última atração desta noite! — disse Léo — E assim, todos poderão aproveitar o resto da festa. E agora, com vocês, Beto.


Todos começaram aplaudir e a gritarem eufóricos, principalmente a minha prima, Vanessa. Até então, eu não estava olhando para direção do palco, mas ao ouvir a sua voz, foi inevitável.


- Boa noite, pessoal!


Olhei em sua direção. Ele estava vestido de acordo com o tema da festa, segurando o seu violão e com o seu sorriso contagiante. E continuou falando:


- Bom, neste momento, eu gostaria de cantar uma música, para uma pessoa muito especial para mim.


Nesse momento, todos vibraram de alegria e querendo saber quem era a pessoa. Eu fiquei em choque, tentando me controlar para não chorar. E ao olhar em direção à minha prima, vi ela mudar de postura, alegre e confiante de que o Beto estava falando dela. Num impulso, ameacei me levantar, mas fui puxada de volta para a cadeira, pela Luana e a Milena.


- Não saí, Si, por favor — disse Milena.

- Eu não sei se quero ver isso — disse.

- Confia na gente — disse Luana — Vai valer a pena.

- O que está acontecendo? — perguntei — Por que insistem tanto em que eu esteja aqui?

- Você vai ver — responderam juntas

- Eu só espero que ela entenda, que estou dedicando para ela — disse Beto, enquanto começou a cantar:


Meu bem, me dê a sua mão

Ao entrarmos juntos na embarcação

Pro outro lado do mar

Além do que o olho vê

Com o vento em nosso favor

Não temos o que temer


Nossos olhares começaram a se encarar, e eu fiquei em choque. É uma música que conheço e que também gosto.


Tempestades certamente irão nos alcançar

Longe no alto mar sem uma estrela a nos guiar

Mas a calmaria virá

Com águas tranquilas em mãos

Na luz que dá nome a manhã

Mais perto estaremos do lar


Conforme ele canta, ele continua me olhando. Sinto às lágrimas caírem no meu rosto e um aperto em cada uma das minhas mãos. Quando olho para os lados, vejo as minhas amigas sorrindo para mim.


Meu bem não esqueça caneta e papel

Pra pôr em palavras o que iremos ver

Na rota diante de nós

Descrita por nossas mãos


E quando volto a olhar para o Beto, vejo ele sorrindo para mim. Só agora então que consigo compreender. Ele está dedicando a música para mim. Ele gosta de mim, assim como eu também gosto dele.

Mas, para chegarmos até aqui, trilhamos um longo caminho, desafios, medos, tristezas e alegrias, confiando e sendo sustentados pela mão de Deus. Te convido para conhecer mais dessa estória.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.