Escolhas
2 I
Notas iniciais
Os corredores de Hogwarts nunca foram tão vazios. A morena compreendia o porquê daquilo, mas jamais iria aceitar. A guerra havia acabado não fazia tanto tempo assim, talvez, quem sabe, há algumas longas três horas. Mas que diferença aquilo faria na vida da garota? Nenhuma, afinal, sua família estava morta, muitos de seus amigos estavam mortos e os que não estavam se dividiam entre se pegarem pelos corredores ou chorarem pelos familiares perdidos. O Lorde das Trevas estava morto, Harry Potter se certificou bem disto, alguns Comensais da Morte ainda insistiam em tentar atacar alguns alunos, mas Minerva logo aparecia e fazia com que a pequena festa dos ajudantes das trevas acabasse.
Mais uma vez a pergunta rodou pela cabeça da morena: “Qual a infeliz diferença de tudo isso?”. A resposta imediatamente apareceu em sua cabeça, nenhuma. Sabia que sua dor não era maior do que a da maioria que estava naquele momento no grande salão ao lado dos corpos sem vida, mas sua dor... Ela já não compreendia ao certo o que sentia. Na verdade, simplesmente não sabia se aquilo era dor ou apenas o vazio gritando para que sentisse algo. Talvez fossem ambos os sentimentos, o vazio era a ausência de um sentimento e a dor, bom, a dor era essa ausência.
Parou no meio de um dos corredores e olhou a sua volta. Não havia ninguém. “Perfeito” foi o que pensou. Encostou-se em uma das enormes paredes e deixou que seu corpo descesse até o chão, deitou-se ali mesmo em posição fetal e agarrando fortemente os joelhos, chorou. Era um choro silencioso, repleto de sentimentos ruins e negativos que necessitavam sair de uma vez. Ela viu tantos irem embora, tantos morrerem, mas jamais achou que seu pai fosse também. Eles haviam acabado de se conhecer, não eram amigos ou inimigos, eram apenas conhecidos e isso já bastava para ela. Com o passar do tempo já haviam se tornado colegas, às vezes trocavam alguns sorrisos imperceptíveis pelos corredores da escola de magia, alguns apertos de mãos foram trocados, mas nada faria com que a morena esquecesse o abraço, o abraço mais quente e verdadeiro que recebeu de seu pai em toda a sua vida.
Agarrando seu próprio corpo a menina chorou alto, gritou. Sentia sua garganta rasgar ao soltar o que a tanto havia sido guardado. Seu peito doía ao sentir a solidão e a perda. Porém, acima de tudo seu corpo reclamava por aquele calor ao menos mais uma vez, ela precisava sentir que ele estava ali, com ela e por ela. Aquilo não poderia ter sido apenas um sonho. Mais uma vez o eco de seu grito foi ouvido pelo longo corredor.
~.~
Ele estava parado no inicio do corredor, ia seguir em frente e sequer se dar ao trabalho de virar ali, mas o grito mudou tudo. Ele conhecia aquela voz. Sem pensar duas vezes correu o mais rápido que pode ao encontro da menina. Parou em frente ao corpo encolhido no chão, podia notar que ela tremia, não conseguia entender o porquê. Mas ele sabia, sabia que aquele não era o momento para perguntar e sim ajudar. A melhor maneira de ajuda-la seria a acolhendo, palavras não seriam necessárias.
Sentou-se ao chão e puxou o corpo esguio a sua frente. Apertava-a com força, sentia seu ombro ser molhado, mas de nada aquilo o importava no momento. A única coisa que realmente queria era que aquela dor fosse embora. Ela se agarrou com o resto de suas forças ao corpo masculino que lhe oferecia colo, seu choro era ainda mais alto, mas qual era a importância daquilo? Ela apenas queria um colo, e foi isso o que Jorge a ofereceu sem hesitar.
Dominique sentia que o cansaço a cada momento ganhava um pouco mais de seu corpo, estava começando a sentir tudo girar a sua volta e talvez tenha sido por esta razão que de um momento para o outro tudo ficou escuro, seu corpo ficou frágil e o ruivo era quem aguentava todo o seu peso.
~.~
Era possível escutar algum tipo de barulho, não era alto, mas incomodava Dominique que abria os olhos com muita calma, lentamente. Havia a luz de um lampião alto ao lado e por este motivo a garota fechou os olhos novamente, tentou mais uma vez. Quando os abriu por fim piscou inúmeras vezes procurando se acostumar com a iluminação tão próxima.
–Me perdoe por ter colocado aqui. –Ouviu Jorge falar baixo e retirar o lampião de perto de si o levando para longe da cabeceira da cama. –Minha mãe insistiu dizendo que a luminosidade a manteria mais calma.
Olhando a sua volta, a morena não pode compreender ao certo onde se encontrava, sabia que estava em um quarto. Não era tão grande, mas ali cabia uma cômoda, uma cama de solteiro, muito confortável por sinal, e uma poltrona onde agora Jorge estava sentado a olhando.
–Onde estamos? –A voz feminina era falha.
–Estamos em minha casa, quer dizer, minha nova casa. –O garoto suspirou e olhou em volta passando as mãos de forma frenética pelas próprias pernas.
–Sua nova... Casa? –Tentando se sentar, Dominique apoiou os ombros sobre a cama e sentiu por alguns segundos sua cabeça girar.
–Nique, por favor, vá com calma. –O ruivo levantou-se e ajudou a morena a sentar de forma mais confortável na cama.
A menina paralisou, seus olhos negros voltaram-se calmamente para Jorge. Sentada sobre a cama ainda podia sentir o leve respirar do rapaz próximo aos seus cabelos. O Weasley depositou um beijo sobre o topo da cabeça feminina e voltou a sentar-se na poltrona apenas a olhando. Seus olhos se encontraram como a muito não acontecia e ela respirou fundo.
–Nós o pegamos... –Jorge disse receoso desviando o olhar para o lampião que antes se encontrava ao lado da moça.
–E o que fizeram? –Dominique engoliu seco após deixar com que as palavras saíssem por seus lábios. Sabia que o ruivo referia-se ao seu pai, Severus Snape.
–Decidimos apenas enterra-lo, caso prefira cremar posso lhe ajudar depois. –Aquela com toda certeza não era a melhor conversa para se ter naquele momento, mas ambos sabiam que seria o único que teriam a sós.
–Mais tarde eu penso quanto a isto. –A moça olhou para Jorge e sorriu de leve. Era um sorriso doloroso, ambos sabiam, mas era verdadeiro.
O rapaz sorriu e aproximou-se, sentou ao lado do corpo ainda ferido da menor e levemente passou o braço direito sobre seu ombro. A abraçou daquela forma e ali os dois ficaram por longas horas, em silêncio observando a luz do lampião fraquejar e em seguida voltar a brilhar forte. Eles precisavam daquilo, daquele silêncio, daquele meio abraço, precisavam um do outro e tinham.
‘Toc Toc’. O som de alguém batendo na porta fez com que o maior erguesse um pouco o olhar para a porta. A Sra. Weasley adentrou com um sorriso amarelo entre os lábios, aproximou-se do casal e olhando nos olhos da menina respirou fundo procurando no ar as forças que lhe faltavam para falar.
–O jantar está servido, querida. –Seu sorriso aumentou ao finalizar a frase.
Jorge entendeu o recado e retirou-se do quarto dando apenas um breve beijo na testa da morena. A mais velha apenas continuou a olha-la.
–Quer descer para jantar na mesa, ou prefere que eu traga? –A pergunta foi feita em um tom doce.
–Gostaria de descer, ou ao menos tentar se não for ser muito incomodo. –Seus ombros se encolheram e a voz pareceu sair um pouco fraca por conta da vergonha, odiava ter que ocupar as pessoas como aparentemente estava fazendo.
–Claro que não! Será um prazer a ter na mesa conosco. –Sra. Wesley sorriu docemente e estendeu o braço para que Dominique pudesse se apoiar e levantar.
Desceram as escadas com um pouco de dificuldade, Dominique não havia percebido antes, mas sua perna estava realmente machucada e todo aquele esforço doía. Quando finalmente chegaram à sala de jantar Jorge corria de um lado para o outro colocando comida em um prato.
–Jorge... –A mãe o chamou calmamente e quando o menino virou-se para olhá-la notou a morena em pé ao seu lado.
–Ah sim, tudo bem. –Sua mão pareceu tremer um pouco e as bochechas automaticamente coraram. –Sente-se aqui, Nique.
Havia uma cadeira vazia entre Jorge e Hermione, com um pouco de dificuldade a morena aproximou-se e puxou a cadeira sentando-se. Quando o ruivo ia lhe entregar um prato vazio a mão feminina acompanhou o movimento o parando.
–Por que não me entrega o prato que já estava fazendo para mim? –A voz feminina saiu calma e inconscientemente uma leve risada pode ser ouvida pela sala de jantar.
–Tudo... Tudo bem então. –O prato que já estava feito foi posto de fronte para a morena que sorrindo pegou o garfo para comer –Se quiser algo mais me avise.
–Sim Senhor! –Dominique sorriu começando a comer. Seu estômago estava almejando por aquele momento desde que havia acordado e agora finalmente estava saciando a tão perturbadora fome.
Durante o jantar o silêncio foi o que mais participou. Hermione e Gina conversavam baixo algumas vezes, procuravam não sentir todo aquele incomodo que parecia fazer parte da mesa. Harry olhava apenas para sua própria comida, brincando com a mesma sem levar a boca sequer uma garfada da deliciosa refeição que a Sra. Wesley havia preparado. Os únicos que ainda trocavam olhares eram Jorge e Dominique, o ruivo estava preocupado quanto à comida que a menina degustava. Quando por fim Nique terminou seu jantar Jorge apenas levantou-se para ajuda-la a fazer o mesmo.
–Podemos ficar um pouco na sala? –Enquanto levantava a menina olhou para o rapaz que a ajudava pedinte, sentia-se um tanto cansada de passar tanto tempo no quarto apenas deitada.
–Claro! Vamos ficar lá um pouco. –O ruivo sorriu pela primeira vez desde toda a guerra. O por que? Bom, ele viu nos olhos negros e femininos o que há muito tempo não via era à vontade de seguir em frente mesmo que aquilo causasse algumas dores.
Aos poucos quase todos os que residiam nos Weasley encontravam-se sentados na sala. Rony e Hermione estavam sentados em uma única poltrona, o rapaz estava mais de lado e a menina encontrava-se com metade do corpo em seu colo e a outra metade na poltrona. Harry e Gina estavam sentados no chão, ambos abraçados para tentar expulsar um pouco mais do frio, em cima dos dois havia uma colcha não muito pesada que a própria Sra. Wesley havia feito. Já Dominique e Jorge estavam sentados no sofá maior, a menina olhava para o teto havia um espaço grande entre os dois, Jorge odiava aquilo, queria poder ficar perto da morena como Harry estava de Gina. Foi então que Nique sentiu-se um pouco desconfortável, olhou a sua volta e por fim deitou-se sobre o colo do ruivo que prendeu a respiração por alguns minutos até então poder olha-la e sorrir, fazendo um leve carinho em seus longos cabelos castanho avermelhados.
Os seis ficaram por longas horas observando o nada, de vez em quando surgia algum assunto, mas era logo cortado por outro. Assim foi durante cerca de duas horas, até que Dominique não se aguentou e olhando para Hermione a perguntou:
–Teremos que voltar para Hogwarts? –Todos os olhares se voltaram para a moça de olhos negros.
–Acredito que sim, teremos que fazer o último ano corretamente. –A resposta era simples.
Dominique respirou profundamente e mirou o teto. Todos a compreenderam, até mesmo Jorge que preferia fingir não compreender. Voltar para Hogwarts, isso significava muito mais para a morena, ela teria que rever pessoas que não desejava, passar pelos corredores ou passagens que antes eram pontos de encontro com seu pai e, talvez, o pior de todos os motivos, teria que rever Draco Malfoy. Sabia que não teria outra saída, queria simplesmente poder virar as costas para a escola, mas naquele momento seu coração bateu forte, era um pedido. Um pedido estranho e que um dia ela havia jurado nunca mais ter. Ela precisa rever os corredores, recordar-se de tudo e mais do que tudo isso queria olhar nos olhos acinzentados do menino Malfoy.
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