Notas iniciais
O trabalho consistia em escrever uma história ambientada em um aeroporto e que tivesse estas quatro coisas: padre, tartaruga, velha mexicana e saca-rolhas.
Escrevi isso enquanto eu mesmo estava experienciando um caso severo de privação de sono, só sabia que queria algo engraçado e muitos xingamentos em espanhol.
Fiquem com essa obra repleta de insônia:

Tempestades são uma de minhas coisas prediletas.

Quando criança, enquanto que meus irmãos se escondiam sob as cobertas em posição fetal, tremendo de terror a cada trovão ribombante, eu ficava colado à vidraça, observando como o vento e a água são capazes de castigar a terra e as árvores sem demonstrar remorso.

Paciência é uma virtude que, modéstia à parte, eu possuía em abundância, todavia, não importa o quanto você amasse tempestades e fosse paciente, quando seu voo é postergado pela trigésima vez devido às péssimas condições climáticas, você com certeza vai ficar um pouco irritado, principalmente se estiver experienciando um caso severo de privação de sono pelo simples fato de o chão encerado e frígido do aeroporto ser um tanto desconfortável para uma naninha, além de o próprio ambiente ser uma cacofonia descomunal até mesmo em altas horas.

Aparentemente, assim como hospitais, aeroportos não dormem.

Confesso que já adormeci em locais piores; no ônibus, no banco de uma praça após uma longa noite de bebedeira, até mesmo na casinha de meu finado cachorro enquanto que meu cérebro infantil processava o luto, portanto, deitado sobre meu casaco com a cabeça apoiada em minha bagagem, abraçando uma pequena mala-de-mão como um ursinho de pelúcia improvisado, eu esperava deslizar suave e imediatamente para os braços de Morfeu e concretizar este anseio biológico. Mas, obviamente, eu necessitava aprender a manter minhas expectativas tangíveis.

Inspirei fundo, abrindo e erguendo meus olhos pela centésima vez naquela noite eternal para verificar se havia alguma atualização de meu voo e, como todas as outras noventa e nove vezes, o quadro continuava imutável, assim como a chuva torrencial lá fora.

Emudecido, levantei-me, juntei meus pertences e saí para uma caminhada visto que cochilar estava fora de questão. As rodinhas de minha mala ganiam enquanto que a arrastava atrás de mim como uma alma penada levando suas correntes, e não deixei de notar alguns olhares de censura de outros passageiros cansados, porém eu estava com insônia, e, para a sorte deles, eu faria disto um problema coletivo se meu pouco juízo se esgotasse. Engraçado como ficamos insuportáveis e arredios quando exaustos, não?

Na verdade, estou dando muito crédito à minha pessoa, quem decidiu por abrir os portões do inferno e liberar todos os demônios existentes foi uma velhinha corcunda e seca, que gritava impropérios em uma língua estrangeira — depois reconheci como sendo espanhol, mais especificamente do México — para um dos pobres funcionários, responsável por realizar a revista magnética e o raio-x das malas.

Meu espanhol é uma porcaria. Sempre fui mais achegado à língua inglesa no ensino fundamental, talvez porque meu Nintendo 64 era configurado para essa língua. O máximo que eu sabia falar em espanhol era “donde esta la biblioteca?” e “yo no lo conoszco, señor”, isto é, desconsiderando-se o uso da arma milenar chamada “portunhol”. Porém, pela maneira como ela estava vermelha como um tomate maduro e gritando feito uma condenada, não era difícil interpretar a situação.

Não sou fofoqueiro, contudo, não consegui evitar quando minhas pernas me arrastaram para mais perto de aquela zaragata.

— Senhora, por favor, acalme-se! – Dizia o funcionário em inglês. – A senhora será liberada quando colocar todos seus itens na esteira.

— Hijo de puta! – Respondeu ela. – Callate, perro! Deja de joderme!

— Senhora. – Tornou a dizer o funcionário, enfadado visivelmente. – Coloque seus pertences na esteira, por favor.

— Vete al diablo! – Retrucou. O homem fez uma careta de descontentamento e falou algo no comunicador preso a sua lapela. Não demorou 2 minutos, regados por mais xingamentos dirigidos a sua pessoa, para que um segurança se achegasse.

— Senhora, por favor, acompanhe-me. – Disse o segurança em português com um leve sotaque baiano. Um sorriso me crispou a face, mesmo nos confins da Nova Zelândia, encontrava-se um brasileiro, assim como eu. Realmente, não havíamos conquistado o mundo por pura preguiça.

— Me tiene hasta los cojones, cabrón! – Gritou, sacudindo o punho em zanga.

Nenhum dos homens, tanto funcionário, tanto segurança, conseguiam se fazer entender. A senhora mexicana vociferava agruras capazes de amaldiçoar até a quinta geração de suas respectivas famílias. Neste ponto, havia se formado uma pequena plateia junto a mim para observar aquele espetáculo.

Um estranho tocou meu braço e falou alguma coisa em Maori, porém eu só consegui responder com um “sorry?” chocho.

— O que está acontecendo? Quem é a velha doida? – Ele repetiu, desta vez em inglês.

— A velha mexicana está xingando os funcionários por causa da revista. – Expliquei na mesma língua, após dar de ombros. O homem murmurou alguma coisa, que assumi sendo algum palavrão de exasperação, e trocou algumas palavras com seu acompanhante, que soltou uma gargalhada divertida e um comentário em Maori.

O segurança brasileiro decidiu utilizar a arma milenar, e arranhou um portunhol incerto. Isto pareceu surtir efeito, a velha se calou e olhou fixamente para ele. Por um momento, a imagem de um urso observando predatoriamente um salmão, preso em uma piscina adjacente, surgiu em minha mente cansada.

A velha desceu o verbo no segurança, berrava tão rápido que pude apenas perceber que ela estava reclamando do funcionário da revista. A pobre vítima encarou o chão com os ombros caídos em notória derrota, provavelmente se questionando se seu salário realmente valia aquela amolação, enquanto que o homem ouvia as lamentações da velha com um leve olhar de pânico.

Eu acreditava que algum funcionário que falasse espanhol fosse aparecer e resolver a situação, porém foi uma grande surpresa quando um velho baixinho, vestindo uma bata de clérigo, aproximou-se da balburdia devagar, tentando não chamar atenção, e jogou algum líquido transparente de um frasquinho bem na cara da velha mexicana.

Todos ficaram estáticos, assim como a mulher, que olhou desnorteada para ele, tentando processar o porquê de estar molhada e de ele estar com uma garrafinha de vidro vazia nas mãos.

— Em nome do grande e poderoso salvador Deus, eu ordeno que se retire do corpo desta pobre senhora, demônio! – Vociferou o padre em inglês.

A calmaria durou três exatos segundos após sua fala.

O segurança foi rápido, porém, e conseguiu segurar a velha quando esta avançou para cima do clérigo com um saca-rolhas que ela, inesperadamente, puxara da bolsa de tricô que carregava a tiracolo; gritando “malparido comemierda!”.

O padre seguiu entoando orações e cânticos, a maior parte em inglês, porém alguns em latim, e fazendo gestos amplos que formavam uma cruz. Por incrível que pareça, algumas pessoas ao meu redor se juntaram à sessão de exorcismo improvisada e faziam preces em suas próprias línguas maternas; tanto que até avistei alguns terços e rosários com minha visão periférica. O segurança brasileiro lutava com um esforço descomunal para evitar que a velha mexicana destrinchasse o clérigo com seu saca-rolhas, enquanto que tentava alcançar seu rádio para pedir reforços, e o funcionário da revista, ainda amuado, observava a tudo com uma expressão de quem estava à beira das lágrimas, todavia não pude decifrar se eram de frustração ou de pura euforia perante ao que se discorria.

Durante esta zorra, a mala da velha, que estava sobre a esteira e aparentemente encontrava-se entreaberta sem o uso do zíper, abriu-se totalmente e, languidamente, uma tartaruga — mais especificamente um cágado — saiu de seu interior com uma calçola presa em sua carapaça.

Eu provavelmente não fui o único a notar o animal, visto que o coro religioso foi esmorecendo até todos ficarem em silêncio, encarando o cágado se arrastar pela esteira com a roupa íntima de estampa de zebrinha em seu encalço.

O padre cessou sua sessão de exorcismo abruptamente ao notar que não tinha mais apoio da plateia, e se virou para descobrir o motivo, acompanhando nosso olhar até o bicho.

A velha mexicana, esbaforida, mas ainda com o saca-rolhas em riste, fez o mesmo, assim como o segurança e o funcionário.

Em questões de alguns segundos, todos os olhares de todos no aeroporto estavam sobre a tartaruga que vestia calçolas de zebrinha.

Eu não me orgulho muito do que direi a seguir, porém você precisa compreender que eu não dormia há quase 28 horas. Meu cérebro estava rodando muitas funções importantes em segundo plano para preservar a pouca energia que eu tinha no objetivo de evitar que eu caísse de cara no chão e começasse a roncar. Portanto, a visão daquele réptil de calcinha estampada sobre a esteira do aeroporto foi o suficiente para me fazer rir.

Todos estavam mudos, porém quebrei o silêncio sepulcral com uma gargalhada genuína e descrente, sendo logo acompanhado por todos ao meu redor.

A velha ficou vermelha feito um tomate maduro, porém, desta vez, de vergonha.

O segurança brasileiro soltou um “puta que pariu” por sobre sua risada, dando tapinhas no ombro do funcionário da revista, que tinha um sorriso de orelha a orelha e tentava disfarçar com a mão.

Alguém me empurrou, e uma jovem abriu passagem pela multidão. Ela arregalou os olhos, assustada.

— Abuela, no te digues para no traer tu tortuguita! Ella no puede viajar comnosco! – Gritou para a velha mexicana, correndo segurar o animal antes que ele caísse da esteira.

— Maria, mi amado Juan se va a quitar molejo se no dormir conmigo! – Explicou-se.

— Eu sinto muito, seu guarda. – Murmurou a menina, dirigindo-se ao segurança brasileiro, em um inglês perfeito. – Eu só fui ao banheiro por cinco minutos. O que ela fez? Por favor, perdoe-nos! Perdoe-nos! – Choramingou, provavelmente temendo ser deportada junto da avó pela conduta irreparável da velha.

Ainda me recuperando do acesso de riso, vi que a multidão foi se dispersando à medida que a situação se mostrava estar resolvida pela súbita aparição da jovem de nome Maria.

Talvez, assim como a Virgem Maria, esta Maria também trouxe um milagre: o som tão bem aguardado do painel de escalas sendo atualizado soou como a trombeta de um arcanjo. Eu corri, eufórico, minha mala quicando logo atrás de tão excitado que eu estava, para perto do quadro e, com um grito animalesco de pura felicidade, constei que meu voo finalmente havia recebido aval para partir dali 30 minutos. A tempestade havia passado, e o céu nublado era cortado por escassos raios da alvorada.

Encaminhei-me até meu portão, realizei todos os tramites necessários, e sentei em minha poltrona localizada no centro da aeronave.

Quando o freio de pouso deixou a pista, eu já estava em sono profundo, sonhando com tartarugas de calçola de zebrinha, e velhas mexicanas afugentando padres aspirantes ao “O Exorcista” com saca-rolhas.

Notas finais
Eu sei que o espanhol provavelmente está errado, porém estou cansado demais para corrigir no dado momento.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!