Erros do Passado
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Edward andava impaciente às voltas pela casa à procura da tia e da mãe. Dirigia-se agora para a biblioteca. Esta situava-se no lado da casa oposto ao salão. Por esse motivo, nada dava a entender que naquele preciso momento uma festa decorria. Deixara já de escutar os burburinhos das pessoas. Tudo estava silencioso, o único ruído que podia atentar era o do seu próprio andar e o do ranger de soalho, envelhecido pelo tempo. Foi então que ele começou a escutar vozes vindas da biblioteca.
Aproximou-se da porta mas deteve-se ao escutar o seu nome. Esperando que ainda não tivessem dado pela sua presença parou atrás da porta.
- Tenho a certeza que Isabella se entenderá bem com Edward. Afinal eles já foram tão amigos – Falava Elisabeth.
- Bem sei minha irmã, mas ela é muito mais reservada agora do que era em criança. Vive enclausurada naquele quarto. Como mãe, talvez devesse ficar feliz por ter uma filha tão recatada. Mas às vezes me preocupa a falta de interesse que ela demonstra em sair, em viver. A culpa disso é do meu marido. Sempre a tratou da mesma forma que Dean, brincando com a menina como se ela fosse um rapaz. É claro que ela sofreu muito quando ele começou a exigir dela, atitudes de uma mulher.
- A companhia de Edward vai-lhe fazer bem certamente. Eles têm muito a dar um ao outro.
- Eles já não são crianças Elisabeth. Eu tenho muito receio que Isabella não esteja devidamente preparada para o casamento e para as responsabilidades que ele acarreta.
Admirando Renée podia perfeitamente saber-se de onde Isabella herdara toda a sua beleza. Tal como a filha ela era, apesar da idade, muito bela. Possuía uma pele muito branca bem cuidada e reluzente, ainda com poucas rugas, que causava a inveja de muitas damas.
- Charlie ficou imensamente contente com o pedido de Edward – Continuou Renée — Ele é o marido que sempre sonhamos para a nossa filha. Mas preocupa-me muito saber que Isabella vive aterrorizada pelo casamento infeliz do irmão. A influência de Dean e Alice tem sido muito negativa na compreensão dela da ideia de casamento.
- Não te lembras como foi connosco? Nosso pai também decidiu os nossos casamentos, é assim que as coisas acontecem. E nem todos os casamentos arranjados são infelizes, nós aprendemos senão a amar, a respeitar nossos maridos. E ambas construímos uma família da qual nos orgulhamos. Sabes que cuidarei muito bem da minha sobrinha – Tranquilizou-a Elisabeth
- O mal da minha filha é sonhar demais, com uma vida diferente de todas as outras mulheres, mais livre.
- Como se isso fosse possível para uma menina da condição social dela. Viveria como por ia largada no mundo? Como é que se iria sustentar? Como poderia viver sem a protecção de um homem? Não te preocupes que o tempo vai encarregar-se de lhe mostrar que tomou a decisão certa. Ela será muito feliz.
- O que me descansa é saber que Edward ama a minha filha, que ela vai estar entregue aos teus cuidados e que não vai para longe de mim. Seria muito pior para ela casar-se com um completo estranho.
No lado de fora da biblioteca Edward sentiu-se agoniar. Ele ingenuamente sempre pensara que Isabella o escolhera também, que aceitara o seu convite de livre vontade, mas pelo que agora percebia, provavelmente não lhe tinha sido dada grande escolha.
Ele era filho único e homem, como tal, sempre sentiu que lhe fora dada pelo Pai, toda a liberdade e livre arbítrio para fazer as suas próprias escolhas. O Pai sempre lhe disse que ele poderia escolher para esposa quem ele quisesse, desde que fosse de boas famílias.
Isabella não tivera a mesma sorte. Finalmente podia entender o motivo da frieza dela para com ele e a constatação daquele facto tinha-lhe doído como uma bofetada repentina.
A insegurança que tinha sentido minutos antes parecia agora explodir-lhe por todos os poros, incapacitando-o. A dúvida assaltou-lhe o espírito. E se ela estivesse apaixonada por outro homem? Só essa ideia já o amargurava. Sentia-se a viver o pior dos seus pesadelos, a diferença era que tudo surgia demasiado real. O que poderia fazer agora? Se Isabella amava outro homem pelos vistos Charlie era claramente contra esse relacionamento. Se ele desistisse do casamento provavelmente era uma questão de tempo até Charlie tentar arranjar para ela um novo casamento. E quem se quereria casar com uma moça deixada no altar? Isabella seria falada por todos os cantos da cidade. Edward sabia que não podia deixar que tal lhe acontecesse, não a ela. Não iria suportar vê-la sofrer. Era tarde demais para voltar atrás, estava de mãos atadas. Casar-se com ele podia não ser o sonho de Isabella mas ela era a pessoa que ele mais amava e admirava. Então ele sentiu naquele momento que merecia uma oportunidade de lhe provar que podia fazê-la feliz.
Não havia volta a dar àquela situação. Teria que enfrentar o problema de frente. Assim avançou com toda a confiança que conseguiu reunir, abriu a porta e irrompeu pela biblioteca. As duas senhoras assustaram-se com a sua entrada repentina.
- Então o que fazem as duas senhoras trancadas na biblioteca, no dia do meu casamento? A casa está repleta de gente – Disse tentando esforçar-se para manter a postura. Não queria que a sua expressão denunciasse o que verdadeiramente sentida, então esforçou-se por sorrir.
- Meu filho, tens toda a razão! Estávamos aqui apenas a ter uma conversa de mães. Distraímo-nos completamente nas horas, já devíamos ter descido.
- Pusemo-nos aqui com nostalgias, o teu tio deve estar furioso com o nosso atraso. Estão o noivo está feliz? — Perguntou Renée.
- Muito – Suspirou Edward, tentando não fraquejar. Estava decido a mostrar-se bem e confiante.
- Bem então, vocês dois vão indo para o salão. Edward por favor avise o seu tio que eu vou ajudar a minha filha a terminar de preparar-se. Ela está lá em cima com as gémeas e a Alice. Vão fazendo sala aos convidados até à hora de partir para a igreja.
No andar de cima, nos seus aposentos, Isabella preparava-se para o “grande” dia.
Estava mergulhada na banheira. As irmãs tinham-lhe preparado um banho especial com sais marinhos perfumados. Esfregavam suavemente a pele da noiva e lavavam os seus longos cabelos cuidadosamente. O ritual de preparação para o casamento era muito especial tanto para a noiva como para as familiares mais próximas.
Alice também estava ali com elas, ajoelhada perto da banheira, encarando Isabella com um ar tristonho.
- Vou buscar o perfume. Isabella tem que estar perfumada por demais hoje. Para encantar o noivo – Disse Adriel, rindo feliz.
- Eu vou contigo e trago as toalhas para secar a nossa irmã – Disse Eval tão eufórica quando a sua irmã gémea.
Isabella estava ansiosa por ficar a sós com Alice. Para poder conversar com a sua amiga e falar sobre os seus receios.
- Como é estar sozinha com um homem? Expor a nossa intimidade, sentir o seu toque, os seus beijos. Estou tão angustiada com isso, Alice.
- Eu não sou a melhor pessoa para te responder a isso Bella. Penso que em vez de te atenuar os medos, te causaria ainda mais.
- Tu és casada, eu não entendo nada da intimidade entre um homem e uma mulher.
- O meu casamento é um pesadelo. O teu irmão só se deita comigo quando bebe além da conta. Ele repudia-me por completo – Uma lágrima grossa escorreu pela face perfeita de Alice. A tristeza e o assombro estavam espelhados no seu lindo rosto – Desculpa não ter nada de bonito para te falar, nenhuma história romântica para te contar. Tenho imensa pena de não te poder dizer que a primeira noite de casamento é um momento lindo. Para mim teve nada de encantador.
- Desculpa! – Disse Isabella – Desculpa por tudo o que ele te faz passar. Sinto tanto.
- Tu devias estar feliz. Vais ter uma sorte completamente diferente da minha. Isso vê-se pela forma que ele te olha, pela forma como sorri para ti. Ele ri-se de tudo o que fazes e os seus olhos brilham quando te vêem. Edward vai fazer com que os teus pés percam o chão, com que o teu corpo se incendeie, vai fazer-te levitar. Porque o amor é isso. Se soubesse o quando te invejo, se imaginasses o que é a minha vida, não estarias com essas carinha de carneiro pronto para o sacrifício.
- Quero ver como vai ser essa minha vida feliz que vês na tua imaginação quando ele descobrir que eu não sou nada do que ele espera, quando a desilusão o assolar. Quando eu não conseguir corresponder às altas expectativas que deposita sobre mim. E o que vai ser de mim quando realmente comprovar que não tenho qualquer afinidade com o homem com quem viverei para o resto da minha vida?
- Enganas-te tanto a respeito de Edward. Queres tanto afastar a ideia do casamento de ti que começaste a pensar nele como uma espécie de monstro. Ele ama-te como tu és, por certo que não te quereria de outra forma. Estás a ser demasiado egoísta e exigente. Afinal o que queres tu para a tua vida? Confesso que não consigo perceber-te. Não te queres apaixonar?
- Muito Alice, muito mesmo. Queria muito ser arrebatada. Mas apaixonar-me é muito diferente de acomodar-me. Quero alguém que não esteja preso a convenções. Que não me imponha nada. Que abale o meu mundo, agite a minha vida e me deixe ser livre. Que olhe para mim como uma igual e se preocupe em ensinar-me, não apenas a fazer por mim. O que vou fazer da minha vida de hoje em diante? Vou ficar presa em casa na companhia da minha tia, enquanto espero que o meu marido chegue a casa. Depois mais tarde cuidarei dos filhos que ele quererá ter. Uma rotina que nunca terá fim. A minha vida nunca me pertencerá verdadeiramente, hoje pertence aos meus pais e amanha ao meu marido.
- E porque é que Edward não pode ser essa pessoa com quem tanto sonhas? Porque o conheces desde criança? Esqueces-te de algo muito importante, ele era criança e tu também. Não sabes nada sobre ele, nem sobre a pessoa em quem se tornou, nunca quiseste saber. No fundo tu parecias adivinhar que este momento chegaria e afastaste-o de ti por completo. Então não partas do princípio que o conheces porque não é verdade.
Isabella meditou naquelas palavras de Alice. Era verdade o que ela dizia. Ela não conhecia nada de Edward. Desde que tinha chegado aquela casa, Alice tinha-se tornado mais próxima de Edward do que ela. Quando ele vinha da fazenda e passava uns dias na casa dos tios, era com Alice e Dean que ele passava muito do seu tempo. Isabella estava com ele nas refeições e nos serões, sempre nos momentos em que toda a família estava reunida. Evitava sempre ao máximo ficar sozinha com o primo. Enfiava-se no quarto ou na biblioteca, isolando-se. Sabia que ele gostava da companhia dela porque sempre tentava abordá-la para falarem, mas Isabella esquivava-se, receando aproximações.
- Tenho pena de nós Bella, de mim pela vida triste que tenho e de ti que sonhas com o impossível, com o que não existe.
- Demoramos propositadamente – Disse Eval entrando de rompante.
- Para que pudessem trocar confidencias sobre a noite de núpcias – Continuou Adriel, completando a frase da irmã como era habitual entre ambas.
- Meninas, isso não é assunto para vocês, não tem idade para essa conversas – gritou Alice com elas.
- Nós sabemos muito mais do que vocês quando tinham a nossa idade.
- Isso é o que me preocupa – Disse Isabella, rindo da espontaneidade das duas.
Os preparativos em redor da noiva continuaram, até que Isabella estivesse envolta num belo e sumptuoso vestido branco de renda pormenorizadamente trabalhada. Estava soberba.
Enquanto as duas irmãs lhe penteavam os longos cabelos castanhos, ligeiramente ondulados, que tinha herdado da mãe, ela olhava-se ao espelho, mas não se reconhecia. Nunca antes se sentira tão artificial. Tornara-se no que os outros gostariam que ela fosse, não naquilo que ela própria gostaria de ser.
Por mais que Alice tivesse razão, ela não se sentia ainda preparada para partilhar uma vida ao lado de alguém, viver presa a regras e a deveres conjugais.
Os pensamentos de Isabella foram dissipados com a entrada de rompante de Renée no quarto. Esta aproximou-se da filha e deu-lhe um doce beijo na testa.
- Vinha ajudar mas vejo que já estás pronta filha. E em boa hora pois os convidados já devem ter começado a seguir para a igreja. Alice, meninas, por favor podem descer. Quero apenas trocar umas palavras com Isabella, nós já vos seguimos.
Alice e as gémeas saíram assim do quarto, deixando Isabella e a mãe sozinhas.
- Hoje não minha Mãe, por favor. Já ouvi tudo o que a senhora e o pai tinham para me dizer. Cá estou, conforme queriam, pronta a seguir o caminho que escolheram para mim. Poupe-me aos habituais sermões.
- Isabella isto não é um sermão – Disse Renée segurando o rosto da filha — Eu tento falar contigo e tu nunca me ouves. Abanas a cabeça como se escutasses o que te digo mas estás sempre longe. A minha vida são os meus filhos, são vocês que dão sentido à minha existência. E eu sei que um dia poderás perceber isso. Por agora só queria que entendesses o quão importante para mim é a tua felicidade.
- Eu sei disso minha Mãe – Disse Isabella abraçando-a — Só que os meus sonhos não são os mesmos que os seus. A minha ideia de felicidade é bem distinta da sua.
- Somos nós que temos que construir a nossa própria felicidade. Ela não cai do céu como tu esperas.
Isabella encarou a Mãe mas não disse mais nada. Simplesmente não adiantava.
- Para que a tua vida, a partir de hoje não se torne difícil, para que não deixes escapar a tua felicidade, tudo o que te peço é que lhe dês uma oportunidade. Deixa que se dê a conhecer, que se mostre. Permite que Edward tente conquistar a mulher que ama. Se abrires o teu coração o mais certo é vires a gostar do que vais encontrar. Faz o que a tua mãe te pede, não te feches só nesse teu mundo.
- Farei como me diz – Disse Isabella com o intuito de tranquilizar a Mãe.
Ela admirava muito a Mãe e a sua determinação. Embora a vida que a sua Mãe tinha era tudo o que Isabella não queria para si. Renée passara a vida dedicada aos filhos e ao marido negligenciando-se, colocando-se sempre em segundo plano.
Desceram ao encontro de Alice, das gémeas e do Pai que as esperava junto da carruagem, para ir com elas para a igreja. Todos os restantes já tinham seguido viagem. Na casa ficariam apenas os criados que se movimentavam, de um lado para o outro, velozes, garantindo que tudo estaria perfeito para a festa depois da cerimónia.
Charlie observou encantado a filha. Dirigiu-se até ela e proferiu-lhe um suave beijo na testa.
- Estás linda. Estou muito orgulhoso de ti.
Isabella lutou para sorrir, queria que o Pai se orgulhasse novamente dela por motivos menos fúteis do que um casamento.
Notas finais
Estão a gostar do curso da história?
Por favor comentem porque tem imensa importância para mim, quando vejo os reviews dá-me logo vontade de continuar a escrever mais desta história...
Ansiosas pelo casamento? É já no próximo capitulo :)
Obrigada
Bjs, Ana
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