Notas iniciais
Neste terceiro capitulo voltaremos a Isabella e aos seus confusos sentimentos...

Isabella deitou-se sobre a cama e sentiu o seu corpo pesar, passara o dia enfiada naquele quarto tentando mentalizar-se para o que a esperava no dia seguinte. Uma estranha moleza apoderou-se de si, bocejou e lentamente deixou-se afundar num sono profundo…

Levantou-se de repente assustada, à sua volta uma floresta de cinza e de fumo, fora transportada para um cenário assustador. Chamas flamejavam á sua volta. Sentiu-se consumida pelo medo. Observava agora uma enorme carruagem acidentada ao longe. No interior da mesma alguém gritava desesperadamente. Tentou mexer-se, queria correr para bem longe dali, precisava ajudar alguém que gritava por socorro no interior da carruagem. Mas algo que não compreendia impedia-a, uma espécie de corda invisível amarrava o seu corpo estranhamente. Percebeu que o medo que sentia era o único responsável pela sua paralisia.

Reparou horrorizada que alguém jazia ao seu lado, era um copo de homem envolto numa manta negra, soltava uma espécie de luz que feria os seus olhos sensíveis de cada vez que o tentava enxergar, a única coisa que conseguia perceber é que o homem, fosse lá quem fosse parecia morto. Por mais que se esforçasse era-lhe impossível ver as feições dele, não conseguia mexer-se, quando mais tentava libertar-se mais presa se sentia. O seu corpo estava arranhado e amachucado e começou a sentir dor que era cada vez mais forte e profunda. Isabella sentia-se prestes a rebentar de tanta agonia, a dor de cabeça era tão violenta, que chegou a pensar que esta iria literalmente rachar. Olhou em frente desesperada, como que procurando ajuda, procurando liberdade e o fim daquele suplicio. À sua frente surgiu então um outro vulto de homem que se aproximava dela a passos largos, fazendo-a estremecer. O homem vinha também envolto numa manta negra igual à do homem que jazia por terra, as suas faces estavam encobertas pelo capuz, empunhava um enorme punhal e vinha direito a ela. Foi o que bastou para ela perceber que aquele não era de todo o seu salvador mas a sua maior desgraça, uma terrível certeza apoderou-se então dela. Soube que não queria ver quem estava por detrás do capuz e do manto. Mas o homem estava cada vez mais perto, aproximava-se a passos largos.

Nunca pensara antes na morte nem tão pouco a tinha sentido tão próxima e agora o seu fim aproximava-se, ríspido, severo e implacável. Tentou mexer-se novamente em vão, o medo era demasiado e impedia de pensar ou raciocinar. Tudo o que mais precisava era de força mas sentia-se cada vez mais apagada.

O homem estava agora a escassos metros, não havia para ela escapatória possível, conseguia perfeitamente distinguir a sua respiração ofegante, aproximando-se cada vez mais do seu corpo desamparado e indefeso.

Quando as mãos fortes daquele homem agarraram violentamente o seu corpo frágil, o capuz dele caiu e Isabella enfrentou o seu olhar. Aqueles olhos azuis gélidos encaravam-na com um ódio imensurável. Começou então a gritar, gritava alto, muito alto, com toda a força que ainda lhe restava e que os seus pulmões lhe permitiam, gritava cada vez mais e cada vez mais alto...

— Bella, Bella, acorda, o que se passa? — Chamava uma voz doce e suave.

Ela levantou-se num salto repentino, olhando em volta assustada e ofegante, com os olhos bem abertos olhava insistentemente para todos os cantos do quarto, certificando-se do local onde se encontrava. Estava confusa e intrigada. De repente apercebeu-se que não estava sozinha e gelou. Olhou aterrorizada para a rapariga que ali se encontrava de pé, ao lado da sua cama olhando-a fixamente.

Pensou que na sua frente, esperando por ela, estaria aquele homem dos olhos azuis. Sentiu um tremendo alívio ao constatar que quem a observava era apenas Alice e que estava segura no seu quarto.

Tinha adormecido e tudo não passara de um terrível pesadelo, nada de mal lhe tinha acontecido, não tinha sido real, não passara apenas de um sonho ruim.

Encarou então novamente a rapariga ao seu lado que, estava francamente confusa com tudo aquilo. A preocupação estava-lhe estampada no rosto.

— O que se passou? Tu queres que chame alguém? Estás bem? — Balbuciou a rapariga amedrontada – Estás branca...

— Não te preocupes, estou bem, fica calma Alice — apaziguou-a — não foi nada de mais, tive um pesadelo horrível que me pareceu estranhamente real, mas não passou disso.

Alice era cunhada de Isabella, além de ser esposa de Dean, era também a sua melhor amiga e confidente. Na realidade, era a primeira amiga que tinha tido.

A sua tutora, que vinha diariamente dar-lhe aulas, a Mãe, a tia e as irmãs eram as suas únicas companhias. Era muito raro sair de casa, sempre mais reservada e distante que o habitual nas moças da sua idade.

A chegada de Alice àquela casa tinha sido um enorme presente. Desde o primeiro momento tudo o que sentiu por ela foi uma enorme empatia.

Charlie tinha arranjado às pressas o casamento do filho mais velho. Dean, para desespero do Pai, estava na altura mais insolente e desrespeitador que nunca, passava os dias fora de casa e parecia completamente desinteressado dos negócios da família dos assuntos de responsabilidade. Esse facto descontentava por completo Charlie e as discussões entre ambos eram cada vez mais frequêntes.

Isabella jamais esqueceria do dia em Dean resolvera enfrentar o seu Pai e contar-lhe que estava perdidamente apaixonado por uma menina que morava na comunidade dos mineiros e com a qual se pretendia casar. Uma tempestade parecia ter-se abatido sobre aquela casa nesse dia. O seu pai, sem dirigir uma palavra ao filho, subiu furiosamente as escadas da enorme mansão até chegar ao quarto do filho que o seguia incrédulo. De seguida ordenou à criada que fizesse as bagagens de Dean e que as colocasse à porta de casa. Isabella observou apavorada toda a cena, abraçada à sua pobre Mãe que chorava impotente perante aquela situação.

Charlie decidiu fazer ao próprio filho um ultimato. Ou ele deixava de ver a tal menina e se tornava de uma vez por todas um filho obediente e responsável, ou então teria que abandonar aquela casa para sempre, sendo desconsiderado pela família.

Isabella nem conseguia olhar o próprio Pai depois daquela atitude. Dean caiu de joelhos, completamente desesperado, implorando ao Pai que o tentasse compreender. Mas Charlie nem tentou ouvi-lo e voltou-lhe as costas.

Que escolha poderia Dean tomar? Abandonar a família, abdicar de toda a herança, casar com a menina pobre e trabalhar na mina durante o resto da sua vida? Isabella sabia que essa decisão o irmão jamais poderia tomar. Foi um Dean infeliz e despedaçado que Isabella viu pegar na mala e subir novamente com ela para os seus aposentos. Depois daquele ele não voltou a ser o mesmo, parecia ter perdido a alegria em viver.

Pouco tempo depois daquele incidente, Clarlie arranjou um casamento para Dean que logo se concretizou.

Isabella foi o porto seguro de Alice quando ela chegou àquela casa. Foram tempos demasiado difíceis para ela. Ter que deixar o seu Pai, a mudança para uma nova casa, cheia de gente desconhecida, um casamento com um homem que não conhecia e que não fazia nenhuma questão de a agradar, dilaceraram o coração da pobre menina. Isabella não se podia lembrar-se de todas as vezes que a tinha amparado, que ela tinha chorado no seu ombro até adormecer. Assim se criou uma imensa cumplicidade e um sentido de protecção mútuo entre as duas. Adorava Alice e prometera a si mesma que tudo faria para amenizar o seu sofrimento naquela casa, mesmo que isso significasse enfrentar o próprio irmão.

- Não sei, pareces-me preocupada, tens a certeza que estás bem? – Perguntou-lhe Alice.

— Estou bem, acredita! Estou só um pouco aflita, o pesadelo pareceu-me estranhamente real e ainda estou um pouco abalada mas, não te inquietes, como te disse não passou disso, já acordei e isso basta-me.

— O que se passou no teu sonho?

— Por que é que queres saber?

— A minha avó costumava dizer que existem sonhos que são especiais.

— Especiais? Em quê? Como é que os sonhos podem ser especiais?

— Eu não sei dizer realmente, mas a minha avó dizia que alguns sonhos mostram-nos coisas.

— Que tipo de coisas?

— Ela dizia que certos sonhos mostram coisas que foram, que são ou coisas que ainda serão, ela dizia que devemos prestar sempre a maior atenção aos nossos sonhos porque eles escondem presságios.

— Ao falares assim até me assustas, estava tão sossegada por aquilo não passar de um pesadelo, agora estou novamente sobressaltada.

— Não é caso para ficares assim, lá por certos sonhos serem especiais, não quer dizer que se tornem realidade, como te disse os mistérios que cada sonho guarda estão bem escondidos, tens que estar bem atenta apenas.

Isabella estremeceu com aquelas palavras.

— Podes dizer-me que estás bem quantas vezes quiseres mas eu não acredito, eu conheço-te, vais contar-me o que se passa? – Insistiu Alice.

— Vais achar que estou louca se te contar.

— Isabella é comigo que estás a falar, lembras-te? Se eu não te tivesse ao meu lado eu não sei o que teria já sido de mim. Então também quero poder ajudar-te quando precisas.

— No meu sonho apareceu um homem e não é a primeira vez que sonho com ele… – disse-lhe ela reunindo toda a coragem.

— Não? Como é possível já teres sonhado com ele antes? Conheces esse homem?

— Não conheço, não faço ideia de quem seja, mas não é de hoje que vejo este homem dos olhos azuis nos meus sonhos. Sempre em contextos diferentes, umas vezes mais nítidas do que outras, mas tenho a certeza que é sempre ele.

— Mas como são os sonhos? O que é que ele te diz?

— Tenho sempre a sensação que quer matar-me… — Disse-lhe Isabella assustada com as próprias palavras.

— Ele quer matar-te?

— Sim… Pelo menos é a sensação que tenho… é demasiado confuso. Mas sempre me encara com aquele olhos cheios de ódio e dor, é arrepiante.

— O que é que isso pode significar? Se nunca o viste… é muito estranho. Que mal é que lhe poderias ter feito?

— Não sei Alice – Disse-lhe Isabella assustada – É melhor não falarmos mais nisto, vamos pôr uma pedra sobre o assunto. Tudo o que quero é esquecer-me deste pesadelo.

Caíram as duas num enorme silêncio, sem saberem o que dizer, no fundo as duas ainda pensavam no sonho.

- Estás preparada para amanhã? — Disse Alice por fim, quebrando o gelo.

— Eu a querer esquecer um pesadelo e tu recordas-me de outro? – Disse Isabella tristemente.

— Ora… não posso deixar de perguntar, foi para falar contigo sobre o casamento que aqui vim.

— Preparada — disse ela rispidamente, não conseguindo esconder o desagrado que aquele assunto lhe causava.

— Por quanto tempo vais ficar aqui depois do casamento?

— Decidimos ficar pelo menos a primeira semana. Porque depois o Edward tem que passar uma temporada numa das fazendas da família. Assim faremos a mudança definitiva para casa dos meus tios quando voltarmos.

— Vou ter tantas saudades tuas, não podes imaginar… — Disse Alice. Isabella viu então uma lágrima escorrer pela face da cunhada – Como vou conseguir viver neste inferno sem ti?

— Alice… vou estar sempre por perto, sempre… — Disse Isabella abraçando-a fortemente.

Ficaram assim abraçadas um tempo enorme. Isabella precisava fazer com que ela entendesse que nada iria mudar entre as duas, nunca ficaria sem a sua amizade ou desprotegida. Mesmo não estando sempre presente ela estaria atenta a ela.

— Lá em baixo no salão está uma verdadeira algazarra – Prosseguiu Alice, enxugando as lágrimas — A casa está cheia. Toda a família que vai ficar cá hospedada já chegou. A conversa está animada por demais mas todos notaram a falta da noiva. Principalmente Edward. Porque não desceste para receber toda a gente? O teu pai parece-me pouco agradado com a tua atitude.

— Não consegui. Decidi que o melhor para mim era isolar-me um pouco. Para pensar, organizar ideias, preparar-me. Hoje não me senti com coragem para enfrentar toda a gente.

— Tudo bem, és tu quem sabe o melhor para ti… Agora por favor come qualquer coisa. Trouxe-te aqui um tabuleiro. Foram as gémeas que me pediram. Pareceram-me preocupadas contigo.

— Eu sou uma desilusão para elas. São ainda muito novas para entenderem esta minha angústia.

— Falas-te com o Edward hoje? – Indagou Alice.

- Falei… Cruzei-me com ele de manhã, antes de me enclausurar no quarto. Ele ai a sair, possivelmente para receber alguns familiares.

- Ele disse-te alguma coisa? — Perguntou Alice.

- Só o mesmo do costume, disse que me amava, sorriu-me com aquele sorriso que nunca se acaba, e beijou-me como sempre faz, esperando ver o entusiasmo retribuído.

- E nunca retribuís?

- Não…

- Porquê?

- Os beijos dele incomodam-me, são fortes, ávidos e abrangentes.

- Isso é porque ele te ama, e tu, não o amas?

- Sabes bem que não. Não vale a pena dizeres que não percebes. Nem eu me entendo. Também não te dês ao trabalho de perguntar o porquê. Eu também não sei.

- Eu não te censuro, sabes disso… só tenho pena, por ele e por ti. Para infeliz já basto eu…sabes o que te espera? Não sabes? — Perguntou Alice.

- Sei sim…

- Achas que o Edward já se apercebeu que tu não o amas?

- Penso que não, como aceitei o pedido de casamento calculo que tenha esperança que eu retribua os seus sentimentos. Espero que nunca descubra, não quero que ele sofra, eu estou condenada a isso mas ele não precisa de passar por nenhuma situação que lhe seja constrangedora. Se não me casasse com ele teria que ser com outro, isso o meu Pai deixou bem claro. Pelo menos com Edward tenho recordações de infância para partilhar.

- Se tu o pudesses ter visto hoje ao jantar, está tão feliz…

- Então para quê estragar essa felicidade? Não é mesmo?

Isabella sabia perfeitamente que, por mais sua amiga que Alice fosse, pelo menos desta vez, tinha muita dificuldade em percebe-la. Dean tinha-se modificado por completo, ela praticamente não o reconhecia o irmão, ele era frio, distante e desagradável para a esposa. Por mais esforço que Alice fizesse para lhe agradar, nada era suficiente. Ele nunca tinha para com ela um único gesto de carinho ou de delicadeza. Isabella percebia a constante dedicação que a cunhada empregava diariamente para tentar que o marido mudasse de atitude, isso nunca acontecia. Edward era o oposto de Dean, delicado, amigável e respeitador. Então Isabella sabia bem que Alice não entendia o porquê dela se mostrar tão relutante em relação a este casamento.

- Agora chega de conversa que tu precisas de descansar bastante para amanhã estares com boa cara, o dia vai ser longo para ti.

- Tens toda a razão! Boa Noite Alice.

- Boa noite – Despediu-se a cunhada carinhosamente, dando-lhe um beijo suave na testa.

Isabella ficou então novamente sozinha. Ao deitar-se o seu pensamento voou então novamente para o estranho sonho. Será que a Alice tinha razão? Quereria aquele sonho dizer-lhe alguma coisa?

Por fim, o cansaço acabou por vence-la e, depois de várias voltas inquietas na cama, acabou por adormecer, num sono profundo e sereno.

Notas finais
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