Notas iniciais
Este primeiro capitulo da história começa por apresentar a Bella

No cimo de uma enorme colina erguia-se uma construção monumental, uma grandiosa casa senhorial com uma fachada reluzente. No peitoril de uma das janelas do terceiro piso, bem atrás da vidraça havia uma jovem de olhos tristes, postos no horizonte, como se, em vão, estivesse tentando encontrar algum raio de sol no meio de toda aquela tempestade. Isabella estava completamente apática e naqueles infindáveis instantes toda a sua vida passava diante dos seus olhos. Dentro da sua mente os sentimentos fundiam-se implacáveis. Sentia-se agora muito diferente do que se sentira até ali. Sempre fora capaz de contestar, agora, não tinha a certeza de mais nada, tinha apenas uma plena consciência da sua impotência face à vida, face aos factos, sentia-se indubitavelmente à mercê não da sua própria vontade mas, da vontade dos outros. Vontade essa que a consumia e a enredava. Queria chorar, mas não o fazia porque isso não resolveria a sua situação. Para muitos chorar era solução para muitos males, para ela, nunca fora.

Pensava na sua infância e em como tudo era mais fácil. Nesse tempo era como se a realidade não existisse, tudo era suavizado pelas fantasias e sonhos. Era tão difícil para ela deixar de sonhar.

Tudo o que desejava era que o seu pai a abraçasse novamente como quando era criança e que lhe dissesse que tudo ficaria bem. Ele sempre fora o seu pilar, o seu herói, mas agora estava tão distante dela, tão frio. Para Charlie, o seu pai, ela deixara de ser a criança com quem brincava para se tornar numa mulher. E o papel da mulher na sociedade está bem estabelecido como um objecto submisso, sem um papel activo ou, qualquer tipo de voto na matéria, cujo única função ou utilidade era obedecer a ordens do pai, mais tarde do marido e claro, procriar. A mulher deveria desde cedo preparar-se para casar, aprender como se cuida de uma casa, como se cuidam das crianças e, quando estivesse preparada, quanto mais cedo melhor, deviria então cumprir a sua função e casar-se. Era assim que o seu pai a via agora, subitamente Isabella tinha deixado de ser a pequena princesa do papá. Lembrava-se que o Pai, costuma sentir orgulho da filha como ela verdadeiramente era, desafiadora e sonhadora. No entanto, agora envergonhava-se que ela quisesse continuar a sonhar com algo mais.

Em pequena deixou as bonecas de lado, picava-se vezes sem conta com agulha quando em pequena a Mãe a tentava ensinar a bordar, trocava de bom grado as tarefas domésticas por longos passeios a cavalo na companhia do Pai. Não gostava da companhia de raparigas, preferia brincadeiras de rapazes. Mas com o avançar da idade foi quase completamente impedida de convivência directa com o sexo oposto, pois soava imensamente mal para uma menina de família. Sendo assim tornou-se solitária e pouco comunicativa e, em jovem, fechava-se horas no quarto a ler livros de aventuras que narravam grandes feitos.

Sem dar por isso, a sua vida tornara-se numa terrível prisão que tanto a sua alma como o seu espírito nunca poderiam suportar.

Interrompendo o transe em que se encontrava, rompendo pelo quarto, entraram duas alegres jovens.

Isabella sorriu para as duas meninas. As duas gémeas eram as irmãs mais novas de Isabella. Sempre muito alegres e cheias de vida. Isabella dedicava-se a poupa-las de todos os problemas para que elas aproveitassem a sua infância da melhor forma que podiam. Charlie mantivera sempre mais distância das duas meninas do que tinha tido com ela, talvez de forma a redimir-se do erro anterior. Devia pensar agora que era errado interagir com as filhas mulheres de igual maneira que tinha feito com Dean, o filho mais velho.

– Acabamos de vir as duas da cidade com Dean e a Mãe, fomos à igreja tratar dos últimos preparativos. Não se fala de outra coisa, és o tema de todas as conversas, Isabella Swan casa amanhã, que sortuda, já olhas-te bem para ti?- disse uma das gémeas extasiada.

As suas irmãs eram bem mais femininas que ela na idade delas e como tal viviam no mundo da lua, sonhavam com os tais príncipes de cavalo branco, com jóias e riquezas sem fim. Quando Isabella lhes contava histórias de encantar elas ouviam-na sempre boquiabertas, bebendo cada palavra que a sua boca soltava com avidez. E ela sentia-se feliz pelas irmãs pensarem assim, desse modo quando chegasse a vez de o Pai lhes arranjar casamento não sofreriam tanto como ela agora.

– Sortuda, porquê? Não vejo grandes motivos para isso.

– Porquê? — Exclamaram ambas em uníssono — amanhã casas-te por fim, não é sonho de todas as mulheres? — Disse a menina ligeiramente mais pequena, Eval

– Edward, Edward…consegues imaginar alguém mais querido? — Suspirou Adriel — o Pai escolheu para ti um bom casamento Isabella, espero que tenho o mesmo cuidado quando chegar a minha vez.

– Eu quero um noivo tal e qual ele, doce e querido — disse Eval.

– Eu sei bem que Edward tem imensas qualidades, sei perfeitamente admiti-lo, mas vocês esquecem-se de uma coisa importantíssima, ele é nosso primo, cresci com ele, para mim esta situação é estranha, por ele apenas nutro amizade, nada mais.

Em pequena era com o seu irmão Dean e com Edward que costumava brincar, os dois rapazes eram quase da mesma idade, embora Dean fosse um ano mais velho. Isabella era mais nova que Edward quatro anos, mas tanto em pequena como agora a diferença não se notava assim tanto. Em criança ela era tão maria-rapaz quanto ele.

Havia muitos anos, tempo que na sua memória estava quase esquecido, ela e ele eram mais do que primos, eram melhores amigos. No dia em que fez treze anos ela recordava-se perfeitamente que tinha dado o seu primeiro beijo. Corria pelos campos apanhando flores e ele estava escondido atrás de uma árvore observando-a, depois correu para ela e abraçou-a, deu-lhe os parabéns e os dois ficaram próximos, próximos demais e, ela sentiu a suavidade daqueles lábios e gosto de um beijo doce e perfumado, um beijo inocente de crianças, de crianças que se gostavam. Foi precisamente aí que tudo mudou, deu-se então a viragem repentina que, só agora passados muitos anos sabia explicar. O seu gosto pela liberdade apagou aquele amor de criança, o medo de tão nova ficar presa afastou-a dele, aquele terror de amar rasgou o fio que os unia. Isabella nunca mais foi a mesma para Edward. Nunca mais falou com ele como falava dantes, ele era o seu primo e nada mais. A ideia de ser tocada, olhada, desejada por ele agoniava-a. Ela sempre soube que Edward nunca a esqueceu, sempre a amou, á medida que o tempo passava ela sabia que a paixão dele aumentava, ela sentia os seus olhares. E ela tinha medo, fugia e escondia-se, não era ele que queria, não era ele que amava. Para seu terror ele deixou de ser um rapaz apaixonado e passou a ser um homem que a desejava, e ela deixou de ser a menina rebelde maria-rapaz, para se tornar numa linda e esbelta mulher. Pena era tudo o que Isabella sentia por Edward, muita pena dele, porque estava preso a ela e nunca conseguiria ser feliz se assim continuasse.

No fundo gostava dele, mas de um outro jeito, porque era uma óptima pessoa, que merecia amor, todo o amor que uma mulher lhe poderia dar. Só que Isabella sabia que essa mulher nunca poderia ser ela e, por isso sentia pena, dele e de si própria.

– Mas Isabella, tudo assim começa, por vezes não se ama assim, logo, existem casos em que vem primeiro a amizade e só depois o amor, isso não impede nada- disse Adriel.

– Vocês são muito ingénuas minhas irmãs e, muito novas ainda. Não deveriam saber metade do que sabem — disse Isabella, arrependida de ter começado esta conversa com as irmãs.

– Lá vem a conversa de irmã mais velha- ripostou Adriel.

– Vocês sabem bem que não sou de dar sermões, só não quero que sofram, por vezes vocês põem-me com medo, num momento são apenas crianças iguais a tantas outras mas de repente, parecem adultas e isso faz-vos mal.

– Crescer é assim tão mau? — Perguntou-lhe Eval.

– Não é que seja propriamente mau, é apenas complicado, não sofram antecipadamente, brinquem apenas, quando chegar a altura eu vou estar sempre aqui, vou amparar tudo, verão, tudo é mais fácil comigo assim abraçando-vos disse ela envolvendo as duas irmãs num caloroso aperto- vá, esquecem isso agora.

Isabella sentou-se na poltrona em frente á cómoda, pegou na escova e começou a pentear os longos cabelos, enquanto observava a sua imagem reflectida no espelho. Aos seus pensamentos aflorou então a memória da conversa com o seu pai que a tinha conduzido a esta situação.

Flashback on

– Isabella… — chamou Charlie – Junta-te a mim no escritório por favor. Existe um assunto da máxima importância que precisamos discutir os dois.

Isabella lia descontraidamente num livro na biblioteca quando ouviu o seu pai chamar. Tinha passado tanto tempo desde que o pai não a chamava para conversar com ela. E ela sentia imensa falta dessa atenção que o pai dantes sempre lhe dispensava. Assim, animadamente seguiu o pai até ao escritório.

– Senta-te Isabella por favor – Pediu Charlie.

– Diga meu Pai.

– Tenho pensado sobre isto nos últimos meses pois acho que é chegada a altura de te casares.

Quando Isabella tomou consciência do teor da conversa foi como se tivesse ficado sem chão. Por aquelas palavras ela não podia esperar. Sempre pensava que o Pai agiria de forma diferente, que esperaria que ela lhe dissesse que estava interessada em algum rapaz que tivesse conhecido nos bailes e festas da cidade. Mas enganara-se redondamente.

– Tenho recebido contactos de vários amigos que estão interessados em casar os filhos mas não tinha em vista nada em concreto – continuou o seu Pai – No entanto, o teu tio Carlisle veio procurar-me para termos uma conversa. Ao que parece o teu primo Edward está interessado em pedir a tua mão em casamento. Para mim não foi surpresa, sempre soube dos sentimentos dele por ti. Esta parece-me uma óptima oportunidade de casamento para ti. Todos conhecemos Edward desde de pequeno e somos conhecedores do seu bom carácter, sabes que os teus tios têm boas posses e nunca precisarias de ir para longe de nós. O que achas Isabella?

– O que acho meu Pai? – Perguntou Isabella furiosa – Acho que não é uma boa ideia. Não quero casar-me já, muito menos tinha pensado nessa possibilidade. Mas ao que parece o senhor não me está a dar muita escolha visto que já tem tudo planeado.

– Isabella está na altura de te casares. Se não concordas com este casamento em particular então dá-me outra solução. Existe algum rapaz que tenhas em vista? Estás apaixonada por alguém? Porque se for esse o caso diz-me quem ele é, se eu achar que é uma boa escolha não me irei opor.

– Não meu Pai, não é disso que se trata… Não existe ninguém que esteja a ocupar o meu coração mas o meu sonho é que isso aconteça um dia. Eu sonho com algo mais para mim, o senhor sabe disso perfeitamente. Eu nunca quis um destino como o do Dean. O senhor escolheu uma noiva para ele e agora temos dois infelizes dentro desta casa.

– Isabella isso não é verdade minha filha, o Dean e a esposa entendem-se muito bem e casamento trouxe muito sossego ao teu irmão. Tu sabes bem o quão diferente ele está. O teu problema, minha filha, é sonhares demais e idealizares a vida de um modo que não existe. O amor não é tão linear como pensar, não há apenas uma forma de se amar… é isso que precisas entender. O que propões tu? Que a tua família e principalmente as tuas irmãs esperem eternamente que surja a tua alma gémea?

Isabella estava estarrecida com as palavras do pai e soube no fundo de si que não avia nada que pudesse dizer para que o seu pai mudasse de ideias.

– Eu sou o teu pai e quero o melhor para ti, por isso é que direi ao teu tio e primo que tu aceitas este pedido – Continuou Charlie – Agora por favor trata de não dar desgostos a quem não merece. A tua mãe está felicíssima, o teu irmão está muito agradado por ter o Edward como cunhado e as tuas irmãs verão em ti um exemplo. Vê lá como ages Isabella… vê como tratas a tua família que só te quer bem e principalmente com o teu futuro marido que te ama e que tudo fará para te fazer feliz.

Flashback of

Foi transportada novamente à realidade pela irmã que se aproximou dela dando-lhe um suave beijinho na face. Eval pegou então na escova que Isabella pousara e recomeçou a pentea-la.

– O teu cabelo está estragado- disse ela a Isabella- eu escovo o cabelo todos os dias cem vezes antes de me deitar, como fazem as princesas das histórias, deverias fazer o mesmo.

– Eu não sou uma princesa- disse-lhe Isabella tristemente.

– És sim, para min és, uma bela e esplendorosa princesa.

Isabella olhou para a irmã embevecida, era tão bom ouvir aquelas palavras da boca dela, mas não disse nada, não era capaz, esboçou apenas um sorriso, afinal um sorriso vale sempre mais do que mil palavras, a irmã compreendeu, fez-lhe uma festinha na face, retribuiu o sorriso e continuou a pentear-lhe suavemente os cabelos. Um terrível silêncio inundou e ecoou então pelo quarto.

– Onde está o vestido?- perguntou Adriel quebrando assim o silêncio.

– Na arca, lá embaixo, está pronto para amanhã- respondeu Isabella.

– É lindo o teu vestido...

– Tens razão lindíssimo- disse tristemente Isabella não querendo decepcionar a irmã.

As irmãs perceberam então que, havia chegado o momento de se retirarem.

– Vamos Eval, vamos lá para baixo, vamos deixar Isabella sozinha, ela precisa descansar, afinal de contas amanhã é o seu dia.

– Tudo bem, já está mesmo na hora- disse Eval e dirigindo-se a Isabella, perguntou — não precisas de nada? já comeste?

– Comi uma fruta, estou sem fome. A Alice disse que passava por aqui mais tarde, peçam-lhe por favor que quando vier me traga algo ligeiro.

As gémeas obedeceram, saindo do quarto de fininho, assemelhando-se a alguém que sai esforçando-se para não acordar alguém adormecido. Isabella despediu-se delas com o sorriso. Precisava mesmo ficar só, era isso que adorava nas irmãs, ambas pareciam compreende-la melhor que ninguém, pareciam entender o que lhe ia na alma, dava a impressão de as três terem chegado a um estado de plena sintonia e de mutua compreensão. Subitamente voltou a mergulhar em si mesma, nos seus próprios problemas. Charlie andava muito feliz nestes dias que antecediam ao casamento, que mais um pai poderia querer? A sua filha casada com o próprio primo, com um membro da família que ele conhecia bem. Sentiu-se repentinamente absorvida por uma raiva súbita do pai e do próprio Edward, porque este não via que ela não correspondia aos seus sentimentos. Mas no fundo de si sabia que teria de arranjar forma de se conformar porque se não se casasse com Edward seria com outro qualquer. Talvez deste modo pudesse recuperar a antiga amizade que tivera com o primo. Seria certamente pior casar com um homem completo desconhecido.