Errar é Divino

6 5. Arquivos, pergaminhos e insetos


Às dez da manhã daquele décimo primeiro dia, Benjamin Lago chegou exausto em casa.

Elisabete estava cochilando sentada toda envergada no sofá da sala, quando acordou com a porta se abrindo e o sobrinho entrando com uma energia agradável semelhante à de um mendigo bêbado e faminto que teria acabado de perder seu único sanduíche para uma gaivota raivosa.

Em partes até fazia sentido, porque ele tinha de fato brigado com uma ave: mas naquela cidade não haviam gaivotas, apenas pombos muito metidos a besta. Um deles, branquinho e roliço como a pombinha da paz, pareceu cismar que aquele rapazinho mal-humorado na praia precisava de um pouco de amor no coração e chegou lá para fazer amizade, mas teve suas esperanças amigáveis arruinadas quando o tal rapazinho o dispensou com um "xô!" seguido de um abanar desdenhoso de mãos. Ora, mas quem aquele moleque pensava que era para destratar assim uma pombinha da paz?

Foi aí que ela enfiou a amizade naquele lugar e partiu para cima dele, grasnando (ou fazendo sei lá qual som os pombos fazem), bicando e agitando as asas, o que resultou em uma briga patética à beira mar que pelo menos serviu para os frequentadores daquele quiosque ali perto, agora bêbados até dizer chega, se apoiarem uns nos outros às gargalhadas e soluços. Foi assim que Benjamin conseguira aquelas duas manchinhas brancas de cocô de passarinho na camisa do pijama, e uma carranca de humilhação encrustada na cara.

— Quê, quem, como?! – A velha pulou no sofá ao ser arrastada do seu sono, comprimindo os olhos muito espantada para enxergar de longe o estado do seu sobrinho – Benjamin, onde você estava? – Indagou, sendo lindamente ignorada – Isso aí é cocô?! – Ainda gritou para as costas dele, que já desaparecia corredor adentro.

Ouviu-se o estrondo da porta do seu quarto batendo. Benjamin suspirou longamente para a bagunça diante de si.

— Tudo bem, assombração... – Murmurou então em tom derrotado, caminhando arrastadamente até a cama, onde se jogou de cara no colchão com cocô de pombo e tudo – Se ainda quiser me bater hoje, melhor guardar lugar na fila...

Enquanto isso, na sala, Emiko surgira radiante do quarto. Estava muito bem arrumada em sua jardineira jeans com bordados nos bolsos, um cropped salmão e um par de sapatos estilizados nos pés. Abriu aquele sorriso em forma de coração para Elisabete, deu uma voltinha para exibir bem o seu look do dia, e se desmontou toda sob os elogios da velha senhora já bem acordada, que ainda correu para lhe servir uma torradinha com café para que não "desmaiasse no meio da rua" assim que saísse de casa.

— Estou empolgada para conhecer campus – Ela falava animada entre os goles rápidos e quentes em sua xícara – Vamos fazer já matrícula e almoçar em pizzeria. Depois uma rolé por universitária de cidade e vamos séxtar numa bar!

Estava tão feliz narrando suas futuras aventuras com os novos futuros colegas de turma, que Elisabete achou melhor nem dizer que não entendera quase nada do que ela estava dizendo, se limitando então apenas a soltar exclamações muito jovens e engajadas como "chocante!", "que maneiro, meu chapa!" sorrir e recomendar que tomasse cuidado com os estranhos e não exagerasse na bebida mais tarde.

A tudo isso, Emiko reagiu com os melhores sorrisos tranquilizadores, garantindo que o que ela mais sabia no mundo era como ser responsável – afinal, todos aqueles anos sendo a irmã mais velha de uma família com três filhas não haviam servido para outra coisa.

— Mesmo assim, se algo acontecer, me ligue imediatamente que eu mando o Benjamin lhe buscar – Insistiu a tia Betty, acompanhando a moça preocupadamente enquanto esta corria pela sala para alcançar a bolsa – Ou melhor, me ligue que eu mesma vou lhe buscar – Corrigiu, seguindo ela agora até a porta – As coisas já andam esquisitas demais pra eu ainda mandar um menino todo cagado de passarinho atrás de uma estrangeira bêbada em plena sexta-feira à noite...

Emi parou um instante.

— O que "cagado" significa? — Perguntou.

— Nada, meu bem, nada – Elisabete sorriu meio sem graça – Se divirta, viu? Juízo!

— Está bem!

Com um último sorriso, a jovem lhe soprou um beijinho de despedida e abriu a porta da sala para ir embora. Porém, no exato momento em que ela botou o primeiro pé para fora e deu o impulso para sair na velocidade da luz, seus reflexos ágeis a alertaram do enorme obstáculo branco parado bem diante do seu nariz e a fizeram brecar bem a tempo de não bater com tudo nele. Meio zonza, Emi arregalou bem os olhos para se certificar de estar vendo certo: era um peito. Um peito de homem, todo vestido de branco, bem ali na altura dos seus olhos.

E aí ela viu um punho, fechado como se estivesse prestes a lhe acertar um baita soco. Ah, então tá bom, já podemos entrar em pânico.

— Ah! – Gritou a garota, dando ré rapidamente para dentro de casa apenas para tropeçar nos próprios calcanhares e ser impedida de cair com tudo em cima de Elisabete por um par de mãos compridas que a agarraram pelos pulsos.

— Eita, moça! – Exclamou o homem de branco que a segurava – Desculpa!

Emiko voltou a se equilibrar, vendo-se diante de um rapaz tão bonito que ela própria é que teve vontade de pedir desculpas por simplesmente estar respirando o mesmo ar que ele.

— Isso aqui era pra bater na porta – Ele riu divertido, novamente erguendo o punho para ela – Não era em você não.

Que sorriso. Emi prendeu a respiração inconscientemente.

Desculpa, desculpa, desculpa...

— Ora! – Elisabete deu um passo para ficar mais perto da dupla, sorrindo gentilmente para o estranho enquanto a moça se embananava toda – Mas que surpresa, hein? A que devo a visita, meu jovem?

— Ah, tá, claro, bom dia – Ele pareceu hesitar; e então estendeu a mão amigavelmente para ela, que a apertou com uma força inesperada para aquele conjunto de ossinhos sobressalentes. – Meu nome é Loukás. Eu vim pelo anúncio de aluguel.


Algumas horas atrás...


— Loukás, isso é uma má ideia.

— Ah, não diga.

— Eu tô te dizendo, isso não vai acabar bem...

— Enorme novidade.

— Nós nem sabemos se é realmente possível redirecionar uma flecha. E se você não conseguir? Só estaremos nos expondo mais sem a menor necessidade!

— Vem cá, você não se cansa às vezes de ser um poço de negatividade, não? – O cupido olhou por cima dos ombros para o irmão que seguia atrás dele.

— Eu não sou um poço de negatividade – protestou o poço de negatividade. – Sou realista.

— Você é um chato de galocha, isso sim.

— Se ser a voz da razão aqui me torna um chato de galocha, então eu sou um chato de galocha com muito prazer! – Paris cruzou os braços, enfezado, porém momentaneamente satisfeito com a própria lacrada. Tal prazer, no entanto, só durou até ele enfim processar o que tinha falado. – Não, pera aí, com muito prazer não! – Corrigiu, bravo – eu estou cansado de ser a única voz da razão aqui, será que você não poderia dividir esse fardo um pouquinho comigo de vez em quando?

— Ah, mas se alguém aqui vai ser a voz da razão, precisamos também de alguém pra ignorar ela – Loukás rebateu, alcançando um pergaminho qualquer no fundo daquela imensa gaveta de metal. Franziu o cenho, olhou-o de cima abaixo e o jogou para trás – não... – descartou, lançando-se em outra gavetona.

Paris novamente o seguiu, roendo as suas unhazinhas molengas de bebê. Quase desejava um mordedor de borracha, o que era meio humilhante para um anjo-adulto-em-forma-de-bebê-que-não-queria-ser-tratado-como-bebê-justamente-por-parecer-um, mas nesse momento seria até que bastante útil.

Estavam agora os dois nos confins dos famigerados Arquivos, completamente sozinhos, praticamente engolidos por aquela imensidão mal iluminada de corredores e mais corredores de armários e gavetas, cada uma guardando em segurança em seu interior uma extraordinária riqueza histórica de informações capaz de fazer brilhar os olhos daquele seu professor legal de História no ensino médio. Em cada gaveteiro meticulosamente organizado por sessões com letras e números, pergaminhos e enciclopédias seculares descansavam na tranquilidade de quem sabe que não vai ser roído por traças – justamente porque essas danadas não sobreviveriam dois segundos no mundo dos cupidos, assim como qualquer ser terrestre que necessitasse da mínima estabilidade atmosférica, ou de oxigênio, ou apenas de saúde mental.

Havia apenas uma espécie terrena que era filha da mãe o suficiente para sobreviver em um lugar inóspito como aquele – e um exemplar dela acabara de pular nas costas de Paris nesse exato momento, fazendo o anjo se exasperar e se lançar bruscamente contra uma das prateleiras na esperança de esmagar a criaturinha.

ARGHH! – Gritou o cupido horrorizado, fazendo voar uma pilha de papéis com o baque. – Uma barata!

Loukás voltou-se para ele tão sobressaltado que jogou para cima os pergaminhos que carregava.

— Papagaios! – Exclamou.

— Papagaio não! Barata! – Paris continuava a se sacolejar loucamente de costas contra a gaveta – sai, sai, sai, sai, sai!

— Pare com isso, você vai matar ele!

— O quê?!

— Eu disse que você vai matar ele! – Gritou o caçula, desesperado, correndo para afastar o irmão dali. Paris deixou-se empurrar, desacreditado no que estava acontecendo, e assistiu o anjinho ir jogando todos os papéis para trás, em uma busca frenética pelo inseto que deveria estar agora (com um pouco de sorte) muito bem morto em algum lugar daquela prateleira ali. – Oh não...! – Lamentou então o loirinho, enfim encontrando o cadáver da criaturinha de perninhas para cima num cantinho da prateleira. Loukás levou as mãozinhas gordas para pegá-lo amorosamente entre suas palmas, arrancando uma careta de asco do mais velho – Rogério, o que ele fez com você...?

— Rogério? – Paris soprou, zombeteiro – fala sério.

— Cala a boca, seu assassino!

— Eu não acredito que você vai lamentar a morte desse inseto nojento, Loukás.

— Ele não é um inseto nojento... é o meu amigo... – Encarou o corpinho em suas mãos, desolado – um dos meus únicos amigos...

— Um dos?

— Ele morava aqui no setor B com a esposa.

Esposa?!

— Ou esposo, não sei – Loukás deu de ombros – é meio difícil saber sexo de barata, sabe?

E Paris ainda tinha aquela expressão de pasmo no rosto, incapaz de diminuir o escancarado da boca, quando outro par de anteninhas enfim apareceu vindo de algum lugar na escuridão e escalou as hastes de ferro cinza do gaveteiro para se juntar ao grupo. O cupido mais jovem, assim que a viu, arregalou bem aqueles olhinhos violeta para ela.

— Oh não, a viúva – sussurrou, para logo em seguida emendar – ou viúvo, sei lá. Não sei como vou dar a notícia.

Paris encarou a barata que, grudada irritantemente contra a gaveta diante dos dois, parecia remexer suas anteninhas especialmente para chamar a atenção de Loukás – e o mundo não poderia ser mais doido do que era naquele exato momento.

Ele teve a leve vontade de dessa vez sim sair voando e gritando por aí, desejando não mais ser canonizado por aguentar a companhia de Loukás, mas sim ser dado como o anjo que pirou na batatinha e foi morar em algum matagal da Terra, completamente nu e fazendo amizades com pombinhas da paz mal-encaradas.

O caçula fez então um biquinho de desalento, murmurou um "sinto muito" para a barata viúva ou viúvo, e depositou com cuidado o corpinho de seu marido ou esposa que morrera muito brutalmente esmagado pelas costas cheias de dobrinhas de um bebê centenário. A enorme barata cascuda chegou para perto da que jazia de barriga para cima; suas anteninhas batucaram sobre o corpinho dela, como se de fato gritasse um "Rogério?! ROGÉRIOOO!!" cheio de luto na língua das baratas; e foi aí que um milagre aconteceu: uma perninha se mexeu. Depois a outra. Rogério começou a se debater enlouquecidamente, tentando se desvirar, e foi recebido de volta à vida com gritinhos de vivas de Loukás, assim como uma expressão profundamente decepcionada de Paris.

— Rogério, você me mata de preocupação! – Loukás exclamou para o bicho que enfim se desvirara, ficando de pé sobre as suas muitas patas. – sinto muito pelo meu irmão, juro pra vocês que ele não vai fazer nada assim de novo.

— Isso é sério?

— Prometa, Paris – Ele o lançou um olhar assassino.

Paris rolou os olhos para o cérebro. Oi, cérebro. Voltou-os então para o casal de insetos.

— Eu prometo... – resmungou entredentes.

— Viu?! – Loukás abriu um sorriso reluzente para ambos – bom, agora se me dão licença, Rogério, Luciana, eu estou à procura de um pergaminho muito importante. Vocês não teriam visto nada sobre transfiguração humana por aí, teriam?

As baratas bateram as anteninhas. O cupido balançou a cabeça.

— Às vezes eu gostaria de entender vocês de verdade... – suspirou – enfim, até mais ver.

A dupla de irmãos voou então para o setor T-20.012H, e Loukás ainda revirava incessantemente alguns pergaminhos numa daquelas gavetas enormes da última prateleira, quando Paris enfim reuniu falta de amor-próprio o suficiente para se lançar naquela conversa que o seu muito elevado respeito à própria inteligência estava o impedindo:

— De quantos tipos de insetos mais você é amigo, Loukás? – Perguntou com o exato tom de voz que uma enfermeira indagaria a um de seus pacientes mais senis sobre suas alucinações.

— Ah, hoje só desses dois mesmo – respondeu o outro, dando de ombros sem parar de procurar. – Mas antes fui amigo dos pais deles, e dos avós, e dos tataravós... enfim, baratas vivem pouco, e eu passei sei lá quantas décadas trancado aqui dentro, então... – suspirou – deu tempo de conhecer várias gerações.

Foi aí que o mais velho começou a entender. Sua expressão foi se desanuviando aos poucos. Ele olhou ao redor, encarou o vazio infinito naqueles corredores, e novamente murmurou:

— Devia ser solitário...

Loukás respirou bem fundo.

— Você nem imagina – respondeu com um leve desviar de olhos – quase nunca aparece algum cupido por aqui, já que hoje em dia o catálogo de fichas dos humanos chega por aqueles tubos modernos. Eu passei muitos anos sozinho... – um sorrisinho então aflorou em seus lábios – quer dizer, até os ancestrais do Rogério e da Luciana aparecerem.

Ele continuou procurando, agora em outra gaveta mais embaixo, enquanto Paris instintivamente abraçava o próprio corpo e voltava a olhar ao redor com uma expressão de profunda piedade encravada no rosto.

O lugar era imenso, frio, e seus corredores ecoavam o menor barulho que fizessem por ali – devia ser enlouquecedor passar tanto tempo trancafiado naquele espaço, sem nenhuma outra alma viva para conversar, sem ver a luz do sol ou sentir o vento tocar o rosto para refrescar os pensamentos pela manhã. Seu instinto de irmão mais velho o fez sentir uma pitada de ódio de todos os cupidos que seguiram suas vidas normalmente como se nada estivesse acontecendo bem debaixo dos seus narizes, como se um deles não estivesse sendo feito prisioneiro num mundo que deveria acolhê-lo como casa.

Ódio deles. Ódio dele mesmo por estar incluso no "eles" por tanto tempo.

O pobrezinho do Loukás não tinha tanta culpa de ser meio biruta, afinal.

— Achei! – A vozinha exultante do menor lhe interrompeu os pensamentos e atraiu o olhar, flagrando-o com aquela expressão besta de alegria que tão ingenuamente insistia em sustentar.

Paris suspirou.

— Achou? – Indagou, meio perdido por um momento.

— Achei! – Repetiu na mesma empolgação, e logo tratou de completar ao notar a enorme interrogação estampada na testa do mais velho. – O pergaminho! O pergaminho que fala da transfiguração! Eu achei!

Ah, sim, claro, o tal do pergaminho idiota de... espera, o pergaminho de quê?!

Os olhos de Paris se arregalaram. Okay, chega de sentir pena, esse maluco ainda ia levar os dois para a forca!

— Ah não! – Exclamou.

— Ah sim! – Os olhos violeta brilharam.

— Ah não!

— AAAHAHAH! Aaah sim! – Ele ergueu o pergaminho aos céus maniacamente, como se acabasse de retirar a própria Excalibur daquela rocha lá – hora de virar humano!!