Errar é Divino
3 2. Comida, briga e positividade (só que não)
Notas iniciais
— Ele parece normal pra mim.
— Cala a boca.
— Quer dizer, levando em conta que ele parece ser exatamente do tipo que mal fala uma palavra direito...
— Cala a boca!
— ... E que desde que começamos a segui-lo, ele só deve ter dito, sei lá, umas cinco ou seis frases inteiras...
— Eu disse para calar a boca!!
— ... Eu diria que até agora ele está agindo até que bem normal.
Paris suspirou pelo que julgava ser a milionésima vez naquele dia. A esta altura do campeonato ele já deveria saber mais do que ninguém que não adiantava pedir, mandar, gritar ou espernear – Loukás simplesmente não iria calar a boca. Ele era patologicamente incapaz disso.
— E ainda digo mais!
Sim, sim, claro que ainda ia dizer mais.
Foi assim que o cupido mais velho pegou-se sentindo falta das longas tardes mergulhadas em silêncio que passara perseguindo Benjamin pelas ruas da cidade, em busca do seu par perfeito que não havia sido encontrado simplesmente porque ele estava, literalmente, do outro lado do mundo. Ah, sim, aquilo que era vida. Calmaria, tardes na cafeteria, belos ensaios da orquestra para matar o tempo... como sentia falta daquela rotina que antes jurava odiar!
Loukás começou então a dizer mais. Alguma coisa sobre atirarem logo na moça, já que claramente a flecha do jovem não havia funcionado, etc. e tal – mas Paris nem se deu ao trabalho de fingir prestar atenção. Estava ocupado demais encarando fixamente a face serena de Benjamin, tão constantemente imperturbável, tão irritantemente calma, procurando ali algum sinal de vida que não fosse um mastigar automático e sem graça na comida do almoço. Ainda ouvia a vozinha insistente do irmão falando em plano de fundo, como uma trilha sonora irritante, quando percebeu enfim o rosto do humano se contorcer para expressar alguma emoção, mínima que fosse: um sorriso. E foi ali que ele viu que não, não estava tudo bem.
— Ele está estranho – Murmurou, sério o suficiente para interromper o monólogo do irmão.
Loukás então piscou, confuso. Seguiu seu olhar e viu Benjamin sorrir para negar mais uma porção de batata-frita que Emi lhe oferecia – não tinha nada de extraordinário ali.
— Você tá imaginando coisas – Respondeu.
— Ah, agora sou eu que imagino coisas?!
— Eu não imagino coisas!
— Sei. Me diga, como está aquela pinta no seu tornozelo?
— Ah! – Loukás arregalou os olhos como se de repente lembrasse de algo muito importante e agarrou o próprio tornozelo, dobrando toda a perninha na direção de seu rosto. Até que era uma acrobacia fácil para alguém do seu tamanico – Hum, parece do mesmo tamanho da semana passada – Disse – E também não mudou de forma, nem cor, nem nada. Não parece câncer, afinal... mas sigo acompanhando.
Os olhos de Paris voltaram a rolar para o cérebro.
Estavam agora todos reunidos na cozinha do apartamento de Elisabete, um lugarzinho pequeno, mas claro e bastante confortável. Ela tinha móveis e eletrodomésticos em tons terrosos e pontos de cores sóbrias como vermelho, amarelo e azul, além da mesa redonda em madeira lisa e da simpática garrafinha térmica de café num verde limão igualmente simpático. Tudo ali lembrava uma tarde quentinha e gostosa numa casinha agradável no interior, embora estivessem em pleno centro da cidade, e o tempo estivesse frio o suficiente para justificar a terceira xícara de café fumegante que Benjamin mandava goela adentro.
Não que precisasse de uma justificativa, na verdade. Ele nunca estava nem aí se era almoço, café da manhã, lanche da tarde ou jantar – se tinha vontade de tomar café, ia tomar café sim.
"Ai, mas a insônia..." Verdade, mas ia deixar para se preocupar com isso mais tarde, durante sua xícara noturna de café com leite.
Tia Betty tinha prometido um almoço bem brasileiro para receber a mais antiga amiga do seu sobrinho preferido, e era por isso que agora aquela pequena mesa redonda de madeira lisa estava abarrotada com uma deliciosa caldeirada de feijoada, com bastante couve, farofa, batata, vinagrete e carne a se perder de vista entre a fumaça delirante do feijão. De sobremesa, bolo de cenoura e muita calda de brigadeiro. Emi soltara uma piadoca sobre o quanto amaria engordar às custas da velha senhora, e esta já tinha decidido quase que instantaneamente que a adorava e ficaria mais do que feliz em tê-la como nora.
Embora, vale dizer, Benjamin não fosse seu filho, e ele mesmo já tivesse dito algumas dezenas de vezes que nada disso tinha nada a ver – Emi era sua melhor amiga, quase uma irmã. Ele não conseguiria namorar uma irmã, caramba!
— Tem certeza, bêzinho? – Tia Betty insistiu pela moça, vendo o sobrinho ignorar agora um pedaço do bolo de cenoura que ela lhe estendia. – O bolo tá tão gostoso!
O jovem humano arregalou um par de olhos perdidos para ela, como se não fizesse a menor ideia do que aquela doida estava falando; e o pior é que não fazia mesmo. Tinha estado avoado, distraído, com a cabeça perdida em umas cinquenta dimensões mais além do que já costumava ficar perdida normalmente. Se sentia estranho, muito estranho. Mas ele é que não ia falar nada.
— Hã? – Indagou. Notou então a fatia de bolo num pratinho sobre as mãos de Emiko, e por um minuto pareceu que nunca antes tinha visto um treco daqueles na vida. – Ah... er... – Piscou. Okay, bolo. Bo-lo... Bolo. Comida humana resumida a açúcar, trigo, gordura e felicidade. Certo. – Eu acho que vou passar, obrigado.
E pronto, aquele era o auge da ofensa para Elisabete.
— Como é?! – Ela arregalou os olhinhos por trás dos óculos – tu vai recusar um bolinho feito pela sua tia preferida?
— Desculpe, não estou com muita fome hoje...
— Eu como a fatia dele, tia – Emi tentou apaziguar com bom humor.
Tia Betty não estava nem aí para bom humor. Ela fechou a cara para ele.
— Benjamin – Começou, em tom soberano e muito sério. – Come o bolo.
Silêncio. Aquele olhar perdido e idiota voltou a se fixar no dela, agora um tanto espantado.
— Tia, eu tô falando sério.
— Come!
— Não vamos fazer uma cena. Estamos com visitas.
A visita acompanhava tudo com um olhar arregalado de curiosidade e as bochechas cheias de bolo em processo de mastigação.
— Ora, bêzinho – insistiu a velha, começando a apelar – vamos, você está tão magrinho! Come logo o bolo que a tia fez, vai, antes que dê um vento mais forte e você saia voando por aquela varanda.
Emiko deu uma tossidinha, enquanto Loukás agora olhava para Paris o indagando silenciosamente do porquê de aquela senhora achar que sair voando varanda afora era uma ideia tão ruim assim (talvez se tivesse levado em conta que os humanos não têm asas, teria entendido melhor). Benjamin, por sua vez, apenas suspirou languidamente, baixando o olhar para brincar com alguns caroços de feijão em seu prato. Apelos voltados à sua aparência física poderiam até ter funcionado durante alguma parte da sua adolescência, mas agora não faziam nem cosquinha mais.
— Foi mal, tia – murmurou, e mais uma vez Paris invejou a sua irritante paciência – não estou com fome agora.
Ele podia até tentar se forçar a comer, só para evitar aquela discussão tão besta que tinha se formado, se não fosse uma sensação esquisita na boca do estômago que o impedia até mesmo de terminar o próprio prato do almoço. Estava com medo de enfiar a primeira garfada na boca e vomitar tudo instantaneamente em cima da própria mesa mesmo – e convenhamos que ver as caçarolas de comida todas cobertas de vômito não seria lá algo muito agradável, sendo pior ainda como uma imagem de primeira impressão para a pobre garota que mal tinha acabado de desfazer sua primeira mala.
Elisabete notou a expressão abatida do sobrinho, mesmo que parcialmente escondida pela franja que caía sobre os olhos dele quando abaixava a cabeça. Suspirou.
— Então tá certo, não precisa comer. – Anunciou muito solenemente, sentindo-se a própria Maria Compadecida – mas amanhã eu vou fazer um pudim bem gostoso, e se tu insistir nessa greve de fome, eu mesma abro a sua boca e enfio uma fatia goela abaixo. Tá me ouvindo?
Essa era talvez a melhor ameaça que alguém já tinha feito para ele. Benjamin não conteve um sorrisinho.
— No dia que eu negar um pedaço do seu pudim pode mandar me internar, porque devo estar doente – brincou.
E parecia de repente tão animadinho com a promessa da sobremesa do dia seguinte, que foi a vez de Loukás o invejar (pobre humano, alguém devia aconselhá-lo a se banhar em sal grosso algumas vezes). Ele podia até não fazer a menor ideia do que raios era um pudim, mas decidiu que queria muito comer um inteirinho, mesmo que fosse também incapaz de sentir fome – além disso, estava babando sobre aquele festival de cheiros suculentos, um mais convidativo que o outro, e lamentando audivelmente o fato de não poder comer nem um teco.
— Você viu? Ele está estranho! – Paris repetiu pela segunda vez. Estava agora voando bem ao lado do rosto do humano, o encarando tão fixamente que parecia capaz de ver até mesmo através dos ossos do seu crânio – Está muito estranho!
— Ah, sim, mais um pratinho de feijoada... – Loukás observava desconsolado a jovem humana repetir o prato.
— Tem alguma coisa faltando.
— Batata, põe mais batata...!
— É como se ele estivesse ali, mas não estivesse ao mesmo tempo. Falta alguma coisa.
— Isso, isso! Agora mais uma concha de molho no arroz...
— Loukás, você tá me escutando?
— Hã? Ah, sim, perfeitamente – Ele fez um gestinho de pouco caso com a mão, assistindo obsessivamente a garota comer.
Essa era uma cena meio doentia de se ver, e talvez tenha sido por isso que Paris não sentiu o menor remorso ao agarrá-lo ferozmente pelas asas e arrastá-lo de volta para a varanda sob seus gritinhos indignados de protesto.
— Quer me ouvir, seu pirralho irresponsável?! – Gritou assim que pararam um diante do outro, enquanto Loukás resmungava ajeitando as penas de suas asinhas raivosamente. – Eu estou dizendo que tem alguma coisa errada com a droga do seu humano! Alguma coisa muito errada!
— Desde quando ele é meu humano?! – Rebateu o caçula, franzindo as sobrancelhas – A missão de flechar ele era sua!
— E eu passei ela pra você diante de todo o Conselho, como um tremendo idiota de coração mole, portanto ele agora é sua responsabilidade!
— Humpf...! – Ele desviou o olhar amarguradamente. Não tinha argumentos contra isso. – Bom, que seja, então. Ao que tudo indica, o meu humano vai muito bem, obrigado, então não temos nada com o que nos preocupar.
— Como nada?! Por Eros, você não ouviu mesmo uma palavra do que eu falei?!
— Eu ouvi você surtando em uns trezentos níveis diferentes, então meio que desisti de ouvir em algum momento.
As mãos gordas voltaram a agarrar a túnica de Loukás com fúria. O anjinho, por sua vez, apenas encarou apaticamente de volta os olhos fumegantes do irmão, próximos o suficiente para esbofetearem a sua cara, se tivessem mãos.
— Eu disse... – começou Paris, entredentes, novamente se segurando para não explodir de raiva – que ele está estranho. O Benjamin não está normal.
— Como não? Olhe só para ele – apontou-o com a mão, lá na cozinha – os mesmos cachinhos, a mesma cara de paisagem, a mesma boca calada de sempre. Ele tá bem.
— Parece tão distante... apático...
— É, claro, como se ele fosse um poço de simpatia.
— Quer me levar a sério, faz favor? Você viu o garoto! Ele mal tocou na comida do almoço, mal está conseguindo manter uma conversa com a melhor amiga que não via há sei lá quantos anos, e... e...
— E...?
— E ele não está lá... – suspirou, massageando as têmporas. Estava bem ciente do quão complicado seria explicar essa parte, visto que nem ele mesmo entendia ela direito – tem alguma coisa... ou melhor, está faltando alguma coisa... ele não está "inteiro", entende?
Loukás piscou, calado. Olhou novamente para o humano, atento: dois braços, duas pernas, tronco, cabeça. Ele parecia bem inteiro ao seu ver.
Paris, seguindo seu olhar, adivinhou-lhe os pensamentos. Suspirou.
— Esqueça. – Disse – Isso é só um detalhe, de qualquer modo. O que interessa aqui agora é que ele mal tocou na comida do almoço, mesmo já tendo passado umas boas horas do horário habitual...
— Um grande cabeça de bagre!
— ... E nós dois sabemos que a falta de apetite é um dos primeiros sintomas.
— Sintomas...?
— Da paixão, seu idiota! – Paris exclamou. Estava à beira de perder aquela tal canonização, e de brinde talvez até o réu primário – A flecha que você atirou, lembra? Ela tá fazendo efeito!
— Ah – Loukás abriu um sorrisinho de escárnio – só que isso é impossível.
— Como pode pensar isso?!
— Porque as flechas funcionam em pares, lembra? Essa é uma das primeiras coisas que aprendemos na Academia. Para a flecha desse humano funcionar, a outra deveria ter pelo menos atingido alguém, por quem ele iria se apaixonar e vice-versa. Mas é claro que isso não aconteceu, porque ela voltou pra mim e simplesmente sumiu.
Paris piscou, surpreso por aquela observação perfeitamente racional ter saído daquela boquinha faladeira que geralmente só se ocupava com bobagens. Foi então que uma dúvida muito pertinente lhe iluminou o cérebro – e por isso ele lançou um olhar inquisitivo e muito sério para Loukás, que torceu o nariz ao notar.
— O que foi? – Indagou o caçula.
— Como você se sente?
— O quê?
— Perguntei como você se sente.
— Hã... – ele titubeou aqueles olhinhos violeta para cá e para lá – boa pergunta, na verdade. Lembra que eu achava que meu coração estava fraco? Pois é, acho que era alarme falso. Já chequei a frequência de batimentos por minuto, e ele parece normal.
Ah, okay, as bobagens voltaram. O mundo fazia sentido, afinal.
— Só isso?
— E... hã... eu acho que não vou desmaiar.
— Só isso?
— Também estou com um pouco de frio. Mas isso é normal, né, já que hoje é um dia meio frio... se bem que... anjos sentem frio? – Uma sombra de preocupação lhe passou pelos olhos – Ou será que estou com febre?
— Não, Loukás – Paris deu um tapa na mão que o irmão começava a levantar para a testa, impedindo-o de checar a própria temperatura – você não está com febre. Anjos não têm febre.
— Oh... tá bom, então.
— Que mais?
O loirinho arqueou uma única sobrancelha, desconfiado.
— O que você tanto quer que eu diga, afinal?
— Só estou perguntando... se você não sente algo... diferente. Algo esquisito.
— Pode ir direto ao ponto, por favor?
Paris suspirou. Não dava para ser sutil com aquele panaca.
— Certo. Vamos ser diretos então. – Seu olhar fixo redobrou de intensidade. Loukás o sustentou – Você está apaixonado por esse humano?
Os olhos violeta do caçula se arregalaram de uma vez. Ele esperou ver algum sinal de brincadeira na face do mais velho, uma risadinha mínima que fosse, mesmo que soubesse que Paris não era lá famoso por ser um cupido de muito bom humor. E de fato não viu o menor sinal de graça, a não ser aquela cara séria de quem está esperando também uma resposta séria à altura.
Mas isso seria pedir demais dele diante daquilo. Por isso a resposta de Loukás não teve como ser outra: ele caiu numa estrondosa gargalhada.
— UUUHUHUHUHUH ELE ACHA... – Respira – QUE EU ME APAIXONEI... – Respira de novo – ÔHOHOHOH POR UM... POR UM... – Engasgue. Cof cof. Passou. – POR UM HUMANO!! AHAHAHAHAHAH
Ele estava numa situação de literalmente chorar de tanto rir, rolando no ar de um lado para o outro, abraçando forte a barriga, e depois batendo palmas sem conseguir se controlar. E enquanto aquele anjinho quase se mijava às gargalhadas (e de fato só não fazia isso porque anjos também não mijavam), Paris apenas assistia ao espetáculo, quieto, impassível, esperando solenemente que ele chegasse ao fim.
— Uuh... ai, ai... – Murmurou Loukás, ainda sorridente, enxugando as lágrimas dos cantos dos olhos enquanto apontava de maneira cúmplice para o cupido – Essa foi ótima, Paris. Muito boa mesmo.
— Não foi uma piada.
— Claro que não...
— A flecha voltou pra você. Ela te acertou. – Paris se aproximou do irmão seriamente – Não é nenhum absurdo perguntar se ela não te fez sentir alguma coisa.
— Ah, mas óbvio que é! – Loukás abriu os braços, indignado. A diversão sumira do seu rosto – Acorda, ô toupeira, eu também sou um cupido, exatamente como você. As nossas flechas não funcionam na gente desde o incidente de Eros e Psiquê!
— Psst, cale a boca! – Ele deu um pedala-robindo na cabeça do pequeno, que se agarrou a ela e soltou um gritinho de "ai" – Sabe que a gente não deve falar dessa história por aí! E por favor seja sincero, você não está sentindo nada mesmo?
— Claro que não! E depois, se por alguma piada de mal gosto eu viesse a me apaixonar por alguém, um humano ainda mais, certamente não seria por esse daí – Meneou a cabeça, dirigindo mais um olhar para a figura de Benjamin, que parecia ocupado demais se perdendo em algum lugar do mundo da lua. – Assistir uma corrida de lesmas mancas seria mais interessante.
Fica a dúvida se lesmas mancas seriam capazes ou não de competir numa corrida. Já parece tão difícil para elas fazer isso em sua melhor forma física...
— Certo. Então a sua flecha pelo visto não fez efeito – Paris apoiou ambas as mãos nos quadris. Era uma cena fofa se você imaginar um bebê de uns seis meses, gordo, puto e cheio de dobrinhas, apoiando as mãos na cinturinha como uma mãe prestes a dar uma bronca. – Mas a dele fez. Eu aposto a minha imortalidade em como fez.
— E o quê? Ele se apaixonou pelo nada?
— Eu não sei! Mas escuta bem o que eu tô te dizendo, Loukás: normal ele não está!
— Bom... só tem um jeito de tirar a prova, não é?
Em um movimento que só os cupidos conhecem, o anjinho menor levou uma mão sobre o ombro e fez aparecer entre seus dedos uma flecha reluzente e dourada que imediatamente capturou os olhos róseos de Paris. Este, rápido como era, logo captou a ideia: e novamente se surpreendeu ao perceber que ela fazia até que muito sentido, na verdade.
Teve medo.
— É... tem razão. – Nossa, aquelas palavras doeram para sair. – Vamos tentar.
Juntinhos, os irmãos voltaram para a cozinha, encontrando tudo quase que exatamente do jeito que haviam deixado. Emi e Elisabete conversavam animadas sobre algumas diferenças entre a culinária brasileira e a japonesa, vez ou outra assessoradas por um sorriso e um comentário de Benjamin, que tentava bravamente prestar atenção nos rumos da conversa, apesar de falhar miseravelmente.
Ele estava agora praticamente deitado em sua cadeira, quase como se quisesse desaparecer embaixo da mesa, e girava a ponta do garfo em diversas formas geométricas sobre a porcelana do prato. Loukás e Paris pararam bem na sua frente, porém mais perto da parede oposta da cozinha. O caçula imediatamente puxou o seu arco das costas, empolgado para atirar novamente, mas aquela alegria durou um total de dois segundos, que foi quando Paris meteu a mão e tomou o arco para si.
— Deixe que eu faço isso – Anunciou, sério, já começando a posicionar a flecha – Não tô a fim de correr mais riscos hoje.
— Riscos?! O cara tá bem aí na nossa frente!
— Do jeito que você é, capaz de acertar numa panela e tomar outra flechada bem no meio da cara!
— Ahh, pois tomara que você acerte uma panela, a flecha ricocheteie pra cá, e você a engula!
Paris grunhiu, mas não perdeu a pose. Ergueu os braços, segurando firme o sobre a corda, e a flexionou bem para trás, os olhos fixos sob um par de sobrancelhas franzidas em profunda concentração. O peito de Benjamin, encoberto pela regata branca surrada de sempre, estava bem em sua mira; e mesmo que aquele fosse um tiro simples, de uma distância significativamente curta, até mesmo Loukás calou a boca e parou para prestar atenção.
Suspiro. O tiro foi dado.
O princípio do plano era bem simples, mas conclusivo: um dos últimos ensinamentos da Academia de Cupidos, pela qual todo cupido recém-nascido passava antes de ganhar seu arco e estojo de flechas, era o de que um humano, uma vez flechado, só viria a ser flechado novamente após o efeito da primeira flecha passar – e esse tempo podia variar bastante. Algumas pessoas demoravam meses para superar esse efeito, outras algumas semanas, e alguns miseráveis sortudos precisavam de apenas incríveis poucos minutos.
Havia, porém, quem levasse anos; e até quem, mesmo após duzentos desses anos, jamais superasse.
Era, portanto, por esse nível de responsabilidade que erros no mundo dos anjos do amor eram tão mal vistos; era por isso também, que por ser o campeão na arte de errar, Loukás passara décadas enfadonhas da sua vida trancafiado nos Arquivos, na companhia de pergaminhos velhos e algumas fitas cassete; e era também por isso, finalmente, que bastaria aquele último tiro para saber exatamente qual era o real estado de Benjamin.
Se tudo desse certo, a flecha que agora voava em sua direção iria acertá-lo em cheio; iria fundir-se ao seu corpo, exatamente como a primeira; e então ele estaria à mercê de uma nova metade, que seria imediatamente atirada em Emi, e dane-se o tal momento perfeito de gatilho.
Ah, vai... não é pedir demais, né?
Pois a flecha acertou então o alvo, fazendo jus à pose de artilheiro de Paris – mas permaneceu lá, fincada em seu peito, parada, confusa e invisível, como se quisesse muito feri-lo, mas não pudesse por não fazer parte do seu meio físico.
Paris e Loukás receberam esse golpe em uma muito digna crise de pânico compartilhada.
Calados, observaram o projétil sumir lentamente, como se tivesse muito conformado da sua inutilidade por ali. Demorou uma pequena eternidade para que um deles enfim conseguisse esboçar alguma reação minimamente razoável:
— Papagaios!! – Loukás agarrou os próprios cabelos, pálido como papel – Ele tá mesmo sob o efeito de uma flecha!!
Saiu voando e gritando em inútil desespero em direção à varanda, enquanto, para trás, Paris permanecia quieto, embora seu cérebro parecesse querer por si próprio abrir sua caixa craniana e sair voando e gritando na companhia do irmão.
Mas ele não era do tipo escandaloso. Não, não. Permanecia em uma calma derrotada, observando no alto da sua desesperança o jovem humano rir para Emi enquanto ela narrava para Elisabete a primeira vez que o obrigou a comer um sushi cru, resultando em dois minutos inteiros de quase-vômitos em plena praça de alimentação do shopping, e em uma piadinha da moça do balcão sobre quem seria o mais fresco entre o menino e o peixe.
Paris observou aquele olhar, e suspirou, apesar de saber já ser meio que óbvio.
Não havia ali nem um pingo de paixão.
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