Passou pelo átrio do colégio subindo as escadas até o segundo andar a passos largos, indo em direção a porta fechada de sua sala de aula. Deu duas batidas fracas na porta e a abriu, primeiro espiando a sala antes de entrar. O professor de geografia já havia começado a aula, um homem que não aparentava mais de 35 anos, alto e cabelos castanhos bagunçados, vestido com uma calça jeans um tanto surrada, porém a camisa polo marrom parecia nova. Encostado a mesa, ele a olhou por sobre os óculos de aro fino e depois voltou a sua atenção para a sala de aula. Aquele era o gesto do professor de dar permissão a garota entrar, assim ela cria. Ela precipitou-se para a sala e foi em direção a sua carteira localizada no fundo ao lado da janela. Ao se sentar, Beatriz que se sentava ao seu lado esquerdo, jogou o corpo em sua direção.

— Atrasada. — disse num tom brincalhão.

Sara simplesmente a ignorou.

— O que será que aconteceu para que a estudante exemplar se atrasasse... — falou olhando a hora no celular — vinte minutos?

— Cala a boca! — por fim disse, segurando um sorriso.

A aula se tratava da geografia de Eras de uma forma bem resumida. Eras é dividida em cinco zonas conhecidas. Eles, os Sonaístas, estavam na Zona Oeste e para ilustrar melhor o professor colocou no projetor o mapa da zona. Ao centro um continente e ao sudoeste, cinco ilhas distribuídas como pontas de uma estrela. Todo o resto era um oceano aparentemente sem fim. No continente viviam os Cabalas e os Relomenintas onde no hemisfério norte, que não era tocado pela luz do sol, habitava os Cabalas, pessoas de pele pálidas, quase cinzentas de hábitos alimentares estranhos e misteriosos por natureza. O hemisfério sul é uma região apenas de altas montanhas, tão altas que alguns diziam chegar as nuvens. Alguns diziam que o hemisfério norte não tinha sol por culpa daquelas montanhas que bloqueavam o sol. O que é, evidentemente, uma besteira. Essas terras julgadas sagradas por seus nativos eram habitadas pelos Relomenintas, pessoas de estatura baixa num tom de pele um pouco amarelado e sem nenhum pelo no corpo. Dizia-se que não comiam carne e que emanavam tanta calma, que perto de um deles você dormiria em cinco segundos. E, por fim, as ilhas eram dos Sonaístas. Ao falar da Zona Sul, o professor trocou a imagem no projetor mostrando um continente de terra negra como carvão e aquelas coisas que pareciam altas montanhas, na verdade, eram vulcões, uns mais imensos que outros. Rios vermelhos tinham suas nascentes no topo dos vulcões e escorriam para o mar de larva que circundava o continente e depois de quilômetros de distância, a larva se encontrava com o oceano. Lá vivem os Gárgulas e os Gigantes de Pedra e Fogo.

A Zona Norte era o oposto da do Sul. Três pequenos continentes cobertos de uma espessa camada de gelo, próximos uns dos outros, banhados de um oceano tão gelado que congelaria qualquer Sonaísta com um simples toque. Lá vivem seres incorpóreos conhecidos como Spectros, enormes ursos de pelo longo e branco e acreditasse que outras raças também morem por lá.

A Zona Central era a mais diversificada de todas. Era o maior continente entre todas as zonas com geleiras, altas montanhas, florestas tropicais e devastadas, uma vasta área árida... dez raças viviam naquela área. Seres de alguma forma ligados com a natureza, pessoas baixas e que viviam dentro de uma montanha, uma tribo de nativos com mais de dois metros de altura, guerreiros de peles tatuadas, uns que manipulavam as sombras, os que tinham pele acinzentadas e viviam em puro caos, os que criavam máquinas a vapor, os que viviam no meio de uma terra árida com pele avermelhada, seres que adoravam viver na neve e que criava magias inimagináveis e aqueles que viviam dentro dos oceanos como peixes.

De todas as zonas, a Leste é a mais misteriosa. Primeiro, não há um mapa para ser demonstrado, já que a área não era conhecida. Só se sabia de sua existência pelos Gnomos, os seres mais magicamente poderosos e que faziam questão de manter suas terras em segredo e qualquer outra raça que também possa viver lá.

Depois de ter falado rapidamente de todos as zonas, um dos alunos levantou a mão e falou antes que o professor lhe desse permissão.

— Sinceramente, professor, acho difícil acreditar nisso. Se todos esses continentes realmente existem, por que ninguém consegue chegar até lá? Por que nenhum deles vem até aqui?

O professor levantou as sobrancelhas e respirou fundo.

— É verdade que as teorias que esses locais sejam mitos estejam ganhando cada vez mais força. — dizia o professor enquanto procurava alguma coisa em seu notebook. — Afinal, as pessoas deixam de acreditar quando não podem ver ou sentir e foi isso que aconteceu com as outras zonas e a magia. Contudo, todos os registros dessas coisas foram feitos há mil anos, registradas por historiadores de muito respeito na época. A verdade que sabemos é que nosso planeta é muito grande e que nenhum ser conseguiu dar a volta nele ou tem o número exato de sua extensão. As zonas são separadas por extensos oceanos e todos que se aventuraram por ele encontraram seres colossais que guardam os limites da água e dos céus. — e então no projetor apareceu imagens de gigantescos seres. Um peixe de escamas azuis, uma grande boca aberta com carnudos lábios e imensos olhos esbugalhados que saltava sobre a água. A outra imagem mostrava um gigantesco ser alado que se assemelhava a um gavião, mas suas penas marrons não tinham em nada a suavidade conhecida das penas. Pareciam tão áspera e brutas que lembravam rochas. — São conhecidos como Guardiões das Fronteiras.

Apesar das imagens mostrarem seres magníficos e totalmente fora da normalidade, nenhum dos alunos esboçaram qualquer surpresa. A verdade é que aquelas imagens eram sempre mostradas em todas as aulas de história ou geografia quando abordavam esses assuntos. Sempre as mesmas imagens, nenhuma novidade.

— E por que hoje em dia ninguém tenta chegar perto dessas criaturas, estuda-las e atravessar essa fronteira invisível? — perguntou outro aluno.

Aquela pergunta o professor também estava cansado de escutar e responder.

— A verdade é que a viagem até essas fronteiras não é tão fácil. Estamos falando de 15.000 quilômetros de navio. Depois dos primeiros 7.000 quilômetros há muitas incidências de tempestades, redemoinhos maiorias que nossas ilhas, furacões e tromba d’agua. Muitas pessoas já perderam a vida nessas excursões. Contudo, houve pessoas que conseguiram sim chegar perto da fronteira e registrar essas imagens. Acredito, como há registros disso, de que uma porção desses sortudos tentaram ir mais além, porém se conseguiram nunca conseguiram voltar para fazer seus relatórios finais. Depois de um tempo, financiar esse tipo de excursão transformou-se em gasto desnecessário. Com a evolução da tecnologia, nossa cultura de navegação e dos grandes descobrimentos marítimos foi diminuindo e os corajosos marinheiros e piratas foram ficando escassos. Tudo isso contribuiu para que as viagens até a fronteira acabassem. Claro que ainda existem muitos que ainda almejam refazer a grande façanha e um grupo em especial tem ganhado bastante força. — o professor voltou a mexer em seu notebook e depois de digitar algumas coisas e fazer uns cliques, a imagem que apareceu no projetor foi de um site de financiamento de projetos e o em questão era o Redescobrindo a Fronteira.

— Por se tratar de uma viagem extremamente perigosa, de estudo impossível e financeiramente inviável, o governo não financia mais as expedições, o que desestimula muita gente a tentar. Porém um grupo de estudiosos e curiosos criaram um projeto que intitularam como o Redescobrimento a Fronteira onde aceitam doações de qualquer valor para financiar a expedição. Então, se alguém está interessado de ajudar de alguma forma, ai está o site.

Ninguém tinha cara de estar interessado.

— Certo, se todas essas coisas realmente são reais, então como sabemos desses outros lugares já que ninguém conseguiu passar pelas fronteiras? Realmente o senhor acredita que existiam portais que levavam de um continente ao outro?

— Sim. Sei que é difícil para nós hoje acreditarmos nessas coisas de magia ou em portais, mas antigamente isso era comum. Os Gnomos, os habitantes do Leste, abriram esses portais em várias partes do mundo que levavam a vários outros continentes e foi assim que as pessoas conseguiram viajar. Porém esse contato não foi bem vista por outras raças por uma dezenas de motivos como invasão de propriedade, descaracterização da raça, por exemplo, e uma grande revolta aconteceu, que gerou uma guerra entre aqueles que eram contra e os que eram a favor, também tendo suas várias razões. A guerra no fim não teve bem um final. Os mesmos criadores dos portais decidiram por fim fecha-los e acabou que não tinha mais pelo que lutar e com os portais fechados não tinha a que reclamar, já que os gnomos simplesmente sumiram de todos os continentes que não fosse o seu próprio. Há quem diga que os portais ainda funcionaram depois de seu fechamento, já que aqueles que ficaram em continentes dos quais não havia nascido puderam voltar para casa e depois disso não puderam mais usar. Logicamente hoje todos aqueles que viveram aquela época já estão mortos.

Os alunos não pareciam mais convencidos depois de tantas explicações. Sara olhou para o rosto do professor e via nitidamente sua expressão de desapontamento. Ela conseguia entendê-lo e também conseguia entender os alunos. Particularmente ela não conseguia deixar de acreditar que toda aquela história era real, apesar de não ter provas concretas disso. No mundo haviam coisas que as pessoas simplesmente haviam esquecido. O professor, talvez sentindo o olhar e os pensamentos de Sara, também olhou para ela. Com seus olhares se cruzando, a expressão do docente mudou e ela sabia exatamente no que ele estava pensando. Eles nunca haviam conversado sobre isso, mas ela gostaria de deixá-lo saber que a magia que conhecia, a magia que a ela era familiar não era algo bonita. Na verdade, era violenta, feia, suja, nojenta e faminta e sinceramente é melhor que continue preso nas montanhas, longe das pessoas e a salvo dos curiosos.

Notas finais
Se você gosta do meu estilo de escrita, procure também por "Ordem e Liberdade - As Primeiras Memórias" Até a próxima.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.