Era uma vez no Oeste
10 Novo acordo
Notas iniciais
Capítulo 10 – Novo acordo
Se eu pudesse evitar todo mundo na manhã seguinte eu teria feito exatamente isso. Na verdade, eu fiquei no quarto que eu dividia com a Tasha até muito tarde, mas minha fome era algo com que eu não podia brigar. Então pegando o pouco de dignidade que me restava eu desci.
Eu me lembrei do que aconteceu ontem à noite. Antes que eu pegasse no sono eu ouvi o som da porta se abrindo e um homem alto olhando através da fresta da porta, eu poderia dizer que era Tiro Certeiro sem ao menos vê-lo. Eu fingia que estava dormindo. Ele ficou ali por um tempo e com um suspiro voltou a encostar a porta novamente. Eu me remoía para saber o que ele queria, mas o formigamento no meu estômago ao lembrar que ele quase me beijou me impedia de confronta-lo naquele momento.
A casa estava silenciosa quando eu desci pela escada de madeira, provavelmente porque já estava tarde e a maioria já tinha saído.
– Ai está você Rose, eu já estava subindo para ver se você estava doente. – Tasha disse.
– Eu estou bem.
– Você deve estar com fome, venha. – ela me levou para a cozinha e começou a preparar um pão com queijo. – Minha mãe saiu cedo para ir ao mercado, com tantas bocas para alimentar as coisas estavam acabando.
Ela me ofereceu um pão e um copo de chá gelado e se sentou na minha frente na pequena mesa da cozinha. Eu nunca negaria que Tasha era uma pessoa legal e atenciosa. O seu problema era sua paixão pelo cowboy arrogante.
– E os outros? – perguntei entre uma mordida e outra.
– A maioria saiu para aproveitar o último dia na cidade. Enoma saiu cedo com seu cavalo, eu não sei onde ele pode ter ido. Mas ele estava perturbado com algo e parecia que não dormiu bem durante a noite, eu sei disso porque o conheço bem. Mas me perguntou o que aconteceu. – ela me olhava desconfiada.
– Eu não faço ideia. – dei de ombros. Não poderia ser por causa do que aconteceu entre nós. Eu era apenas vítima e ele tinha conseguido o que queria.
– Eu me preocupo com ele. Ele fica tão sozinho nessas viagens. – ela também o conhecia, eu não podia negar. Anos de amizade, ou seja lá o que eles tenham, tinha que contar com alguma coisa.
– Bom dia. – Sr. Nagy entrou naquele momento, acompanhado do Mason.
– Bom dia senhoritas. – Mason tinha um sorriso simpático.
Eu e Tasha os cumprimentamos.
– Vocês não vão comer? – perguntei quando vi que eles estavam ali para encher as garrafas com água.
– Já comemos, você é quem está atrasada querida. Você dormiu bem? – Sr. Nagy parecia preocupado.
– Sim. – eu menti. – Qual são os planos para hoje?
– Vamos sair para caçar algumas lebres, mas não acho que Kaluanã ficaria feliz se a levássemos. – Mason disse me olhando com pena. Eu percebi então que os dois homens tinham espingardas penduradas nos ombros.
– Podemos passar o dia juntas Rose. – Tasha sorriu empolgada. – Algumas amigas vão me ajudar com alguns bordados, você poderia nos acompanhar. – isso definitivamente não era algo para mim.
– Está tudo bem Tasha, eu tinha planos para sair e cavalgar de qualquer maneira.
– Sozinha? – Sr. Nagy perguntou preocupado.
– Kaluanã não vai ficar contente. – Mason completou. Eles achavam que ele era meu dono ou algo parecido?
– Eu sou livre para andar por ai, Kaluanã não vai se importar.
Ninguém mais me questionou.
...
Eu me vesti com calça e botas e fui colocar a cela no meu cavalo.
O dia estava limpo de nuvens e fresco, era um bom dia para cavalgar, mesmo que sozinha.
Eu passei pela cidade e isso atraiu muita atenção dos moradores, não sei se por eu estar sozinha ou se pela pressa com que eu passava.
Eu encontrei uma pequena estrada apagada pela estepe seca e resolvi seguir. Passei por alguns homens, mas eles apenas me olhavam com curiosidade e seguiam em frente.
Apenas um parou para falar, mas ele queria direções, o que eu não sabia dar.
Já passava do meio dia quando o trilha parou em um pequeno rio que atravessa o deserto, era um rio de cascalhos com águas rasas e limpas. O sol estava forte e eu decidi me refrescar e dar algo para meu cavalo.
Eu tirei duas maçãs da bolsa na cela e as ofereci, ele as abocanhou feliz e, em seguida trotou até a margem para beber água. Eu me sentei em uma pedra enquanto bebia minha própria água da garrafa que eu trazia.
Quando meu cavalo resolveu que queria comer o pouco capim que tinha ali eu o deixei dar uma volta e me recostei sobre a pedra, aproveitando a sombra da árvore retorcida.
Alguns minutos se passaram enquanto eu ainda bolava um plano para continuar minha jornada para Santa Helena, quando eu ouvi um relincho de cavalo e o barulho de cascos. Eu me levantei e avistei um bando de homens se aproximando da outra margem do rio. Eles pareciam familiares e quando um homem alto e magro, trajando um terno bem passado e uma bandana vermelha avançou no meio dos demais, eu percebi de quem se tratavam. Era o bando do Nathan.
Eu me vi em um impasse. Devo me esconder ou me preparar para segui-los? No fim eu tive que optar pela primeira opção quando um corpo grande apareceu do nada e me jogou no chão. Eu nem precisei olhar, eu sabia que era ele. Por que ele insistia em me seguir assim?
– O que você está fazendo? – sussurrei com raiva. Estávamos abaixados atrás da pedra, a vegetação arbustiva e amarelada nos escondia ainda mais. Eu também tinha certeza de que tinha um cotovelo ralado.
– Salvando você. Parece que você é um imã para problemas senhorita Mazur. – Tiro Certeiro parecia o mesmo de sempre. E ele estava em cima de mim, nossos narizes quase se tocando.
– Como você chegou aqui? – continuei sussurrando. – Você estava me seguindo? – ele me deu um olhar dizendo que eu estava sendo absurda.
– Eu estava andando por aqui e parei para pegar água quando vi você se aproximando. Eu estava vindo até aqui para te repreender por sair sozinha, mas então eu vi o grupo chegando e percebi que você estava muito exposta. – então ele puxou meu braço e examinou meu cotovelo ralado e vermelho. – Me desculpe por isso.
– Tanto faz. – dei de ombros.
Um silêncio constrangedor caiu enquanto esperávamos, e essa posição não ajudava. Eu achava desnecessária, mas ao mesmo tempo não tinha coragem para manda-lo sair.
O som de cavalos foi ouvido de novo, e os cascos batendo no chão foram ficando cada vez mais distantes. Tiro Certeiro espiou e quando viu que era seguro se levantou, me ajudando no processo.
– Agora me explica o que você está fazendo aqui sozinha. – Ele se virou para mim. Eu olhei ao redor antes de responder e vi que seu cavalo estava ao lado do meu, à distancia, aproveitando a vegetação escassa.
– Eu queria sair um pouco.
– Você não mede as consequências Rose? Eu disse que ia protegê-la, mas para isso você precisa fazer o que eu digo.
– Não venha me dar um sermão quando você mesmo faz coisas muito piores com as pessoas e principalmente não me diga o que fazer. – ele sabia do que eu estava falando, pois seus olhos se tornaram tristes.
– Eu acho que eu lhe devo um pedido de desculpas. – ele disse buscando meu olhar. – sobre ontem à noite. – eu fiquei quieta, me perguntando se esse era mais um dos seus tantos truques.
– Eu não queria trata-la daquela forma, você é diferente das outras Rose e...
– Não precisa chegar aos elogios, isso não vai funcionar duas vezes. E quanto ao pedido de desculpas, isso é desnecessário, a culpa é minha por cair nas suas armadilhas. – ele hesitou, mas então o sorriso convencido e arrogante voltou.
– Eu acho que devo desculpas sim, por deixa-la tão frustrada e decepcionada. – eu arregalei os olhos. Filho da mãe.
– Por que você é tão... tão... — eu não palavras para descrever minha raiva, então soltei um gemido enfurecido. Ele riu.
– Por que sou tão... — então ele imitou meu gemido o que me fez estreitar os olhos para ele. – Creio que nasci assim senhorita Mazur. – ele continuou sorrindo o que só me irritou ainda mais. Eu não queria admitir que ele tivesse razão em tudo o que ele falou.
– E não me deixe esquecer de que foi você quem quase me beijo ontem. – ele continuou.
– Você caiu do cavalo e bateu a cabeça com força?
– Eu me lembro de que você fechou os olhos e veio se aproximando de mim, um simples cowboy inocente.
– Você é um hipócrita Tiro Certeiro. – eu gritei. – Eu nunca ia tentar te beijar, nunca. – repeti para enfatizar.
Então virei às costas para buscar meu cavalo quando ele gritou de volta.
– Meu nome é Dimitri. – eu parei onde estava e virei para encara-lo. Eu ouvi certo?
– O que?
– Dimitri é o meu verdadeiro nome. Dimitri Belikov. – ele realmente estava me dizendo seu nome? O nome que ninguém mais sabia? Eu balancei a cabeça em confusão.
– Por que está me dizendo isso?
– Eu queria que você soubesse. – ele parecia confuso com ele mesmo e deu de ombros.
Eu relaxei um pouco e deixei minha raiva extravasar. Por que ele me diria seu nome? Eu, de todas as pessoas? Eu o conhecia há apenas uma semana. Eu mordi o lábio, incerta.
– Obrigada Dimitri. – eu não sabia o que dizer. – Por confiar sua identidade comigo.
Ele parecia sem jeito e coçava a parte de trás da cabeça.
– É, eu queria que você, bem... – ele se enrolou.
– Mas deixe-me dizer, você é corajoso por confiar em mim Dimitri. – eu voltei a me aproximar dele, eu gostava de como o som do seu nome vibrava na minha língua, era um nome estrangeiro, mas eu não poderia dizer sua origem. – Eu não gosto de você e poderia sair espalhando seu segredo por ai. – eu sorri.
– Então acho que teremos que fazer um novo acordo. – ele disse com seu sorriso torto.
– Eu estou em posição para receber algo em troca dessa vez.
– Eu levo você até Santa Helena e você não conta meu segredo para ninguém. – ele disse divertido. Mas isso me surpreendeu.
– Por que você mudou ideia? – perguntei curiosa.
– Isso eu vou deixar para os seus pensamentos. – ele piscou. – Agora vamos, Moira está preparando uma pequena festa de despedida.
Eu ainda me sentia estranha com meus pensamentos, mas acenei e voltamos para os cavalos.
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