Era para ser você

2 Conhecendo o bastardo.


Notas iniciais
Gente, o segundo capítulo saindo do forno, espero que gostem

Se eu tivesse um cartão de pontos, eu acho que o placar estaria mais ou menos assim:

Jasmim: 0 Vida: 100

Sim, eu tenho a pior das sortes.

Apenas nos últimos três meses eu fui proibida de frequentar as aulas da faculdade, corri o risco de ser despejada, e fui demitida. Dei um jeito nos primeiros dois itens da lista – pegando cada projeto pago de design da faculdade, vendendo algumas das minhas roupas e até mesmo penhorando móveis, e mesmo assim não fui capaz de cessar todas as dividas. Mas o fato de ter sido demitida... De todas as coisas, a que mais me causa raiva é essa. Permita-me dizer que eu só perdi meu emprego por ter me negado dormir com o meu chefe. Sempre sinto vontade de vontade de vomitar só de pensar naquele dia.

Eu trabalhava como camareira em um dos melhores hotéis da cidade de Nova York. Não sei ao certo quando a sensação de estar sendo vigiada começou, uma vez notada, nunca mais passou despercebida. No início achei que tanta pressão nas aulas estava me fazendo paranoica. Porque, bem basta olhar para mim, por 3 segundos para saber que sou a rainha das conclusões precipitadas, mas de qualquer forma fiquei em alerta – principalmente enquanto trocava de roupa que era quando a sensação piorava. Um dia enquanto eu me despia do uniforme, meu chefe entrou no vestiário, e tentou me agarrar. Lembro-me das palavras que ele disse enquanto ele tentava me beijar: “Quer ser para sempre uma empregadinha? Faça as coisas do meu jeito, e não vai se arrepender.” A minha resposta foi tão imediata que me surpreendeu. Eu reuni cada molécula de força do meu corpo, e o chutei.

Sim.

Nas partes intimas.

Não sei o que eu esperava ao chegar para o trabalho no dia seguinte. Mas ser acusada de roubar um hospede realmente não passou pela minha mente. Dois seguranças exigiram que eu mostrasse minha bolsa e meu armário – fui revistada, e humilhada – não encontraram nada obviamente, mas eu podia ver o sorriso cruel no rosto do meu chefe enquanto assistia tudo. Acho que nunca me senti tão imponente na minha vida.

E então como se alguém no céu tivessem pena de mim, fui chamada para uma entrevista de emprego.

E fui contratada.

Para trabalhar como secretária para o dono de uma das maiores empresas de publicidade de Nova York.

Verdade seja dita, até uma semana atrás eu nem fazia ideia da existência dela.

De qualquer forma desde que fui escolhida para sair do Brasil, e fazer intercâmbio no ano passado, tudo que faço é trabalhar, e estudar.

Havia tanta coisa na minha cabeça, que mal fui capaz de dormir na noite passada. Quando o despertador tocou ás 05h45min, quis jogá-lo na parede, porque foi como se eu tivesse acabado de fechar os olhos, antes de ele tocar. Coloquei 15 minutos antes do necessário, porque sabia que eu iria me revirar na cama, por um bom tempo, amaldiçoando o universo por me fazer acordar tão cedo, antes de realmente levantar.

Balançando minhas pernas para fora da cama, xinguei quando tropecei em Thor – meu gato – quase perdendo o equilíbrio . Thor me lançou um olhar irritado, e saiu do quarto em direção à cozinha.

Rolei meus olhos.

Malcriado!

Assim como eu, ele não gostava de acordar cedo.

Esfreguei meus olhos, e me arrastei até o guarda-roupa escolhendo minha roupa. Eu deveria ter escolhido-a ontem, mas cheguei tão cansada em casa que apenas me joguei na cama.

Eu amo moda, por isso na maior parte do tempo, sou capaz de me vestir bem. Porém na maioria das vezes não tenho o fardo de impressionar e causar uma boa impressão no meu primeiro dia de emprego. Com minha roupa escolhida, fui para o banheiro tomar banho.

Cerca de duas horas e meia depois, eu estava diante de um edifício de 22 andares, mais impressionante que já vi. Todo em vidro, e aço.

Impressionante, e intimidador!

Atravessei a porta giratória do saguão, me identificando para os dois seguranças, que não fez nada além de soltar um grunhindo em concordância.

Meus saltos ecoavam pelo chão enquanto eu andava apressada até a portaria da recepção. Atrás do balcão em forma de U, uma mulher morena de olhos castanhos sorriu para mim. Ela estava vestindo um blazer, com um corte moderno e aparência de caro. Imediatamente me senti inferior trajando minhas roupas de liquidação.

— Oi — sorri de volta. — Eu sou a nova secretaria do senhor Mabuchi.

— Oh, você é a Jasmim?

Balancei a cabeça.

— Certo você precisa passar no RH, antes de começar oficialmente.

Franzi a testa.

_ Não se preocupe você só precisa pegar sua identificação. — Ela apontou para o crachá pendurado no blazer. — São normas da empresa – explicou, e então indicou os elevadores com a mão. — Décimo sexto andar. Tenha um bom-dia.

— Obrigada. Você também.

Caminhei em direção aos elevadores, e cumprimentei o segurança na porta, que novamente só grunhiu em resposta. Possivelmente algum tipo de resposta padrão?

Fiquei sozinha no elevador até o segundo andar quando dois homens de terno entraram. Ambos nem pareceram me notar. Verifiquei meu reflexo no espelho, tentando ignorar o nervosismo.

Cachos perfeitamente domados.

Alisei minha saia lápis preta, e ajeitei as mangas da minha camisa vermelho sangue.

Meu telefone tocou em algum lugar dentro da minha bolsa, sinalizando uma mensagem. Era de Meredith.

Mer.: Eai, já conheceu seu chefe?

Eu: Ainda não.

Mer.: :/ Me mantenha atualizada. Boa sorte!

Eu: Pode deixar. Obrigada.

Joguei meu celular na bolsa, quando nenhuma resposta venho.

Não era difícil imaginar como Gregory Mabuchi seria. Dono de uma multimilionária, privilegiada eu o imaginava na casa dos 60 anos, barrigudo, e carrancudo. Meredith minha melhor amiga, o imaginava como um sexy, homem musculoso. Por mais estúpido que pareça, não pesquisei como ele seria, acho que mal sai do meu estado de estupor por ser escolhida para o trabalho.

Pesquei meu celular da bolsa outra vez, para pesquisar no Google qual de nós duas tinha razão O elevador parou no décimo andar, e as portas se abriram, algumas pessoas entraram enquanto outras saíram, soltei um grito surpreso quando colidi com alguém. Surpresa com o contato derrubei minha bolsa. Olhei para o chão, e vi todo o conteúdo antes dentro dela, espalhado aos meus pés. Moedas, chaves, agenda, duas barras de cereais (meu almoço)... Absorventes.

— Você podia pelo menos pedir desculpas – eu falei me agachando no chão, catando tudo que podia.

O babaca mal – humorado que esbarrou em mim lançou um olhar por cima do ombro, e voltou a falar ao celular — me ignorando.

Raiva cresceu no meu peito como erva daninha.

— Você é surdo? – eu perguntei checando se meu celular estava quebrado. Deus sabe que eu não tinha um centavo para comprar um novo.

Corei quando peguei um absorvente do chão.

Pelo canto do olho percebi um homem me dando um olhar incrédulo.

— Você está falando comigo?- o homem finalmente retorquiu me fitando.

Querido Deus, precisei sugar uma respiração afiada.

Ombros largos, mandíbula quadrada. Suas feições indicavam origem oriental. Os cabelos eram tão negros como a noite, assim como os olhos protegidos por cílios injustamente longos.

— É claro que eu estou falando com você — gaguejei.

Um cochicho estranho se instalou no elevador, e com um único olhar o deus oriental silenciou todos.

Ele inclinou a cabeça para o lado, ainda segurando o telefone perto da orelha. Uma minúscula ruga se formou entre suas sobrancelhas escuras.

— Você sabe quem eu sou? – Sua voz era profunda, e fez meu pulso acelerar.

Perfeito, claro que alguém tão bonito tinha que ter o maior dos egos.

Ergui uma sobrancelha.

—Por que eu deveria saber?

— Senhorita – um dos homens engravatados ao meu lado começou, — esse é...

Com um simples gesto de mão, ele foi silenciado novamente.

— Eu não dirigi a pergunta á você – o arrogante interrompeu.

Bufei.

Um era tão covarde que tinha até mesmo medo de terminar uma frase, e o outro se achava Deus todo poderoso.

Estou cercada de idiotas!

No décimo quinto andar, todos saíram, — com exceção de um engravatado com ego gigante. Quase dei risada, por todos parecerem tão apavorados. Era cômico. Bem, pelo menos até notar o maldito pedaço oriental me observando.

Ergui meu queixo, e tentei parecer intimidante nos meus 1,69 – mesmo com meus saltos de 10 cm, eu ainda era pequena em comparação a ele.

— Você esteve na minha cama alguma vez? – indagou de repente com um sorriso cínico. Seu olhar descendo por cada parte do meu corpo. — Aposto, que não liguei para você no dia seguinte, isso explica o fato de você estar agindo como uma cadela irritada.

Meu queixo caiu aos meus pés – literalmente.

Estreitei meus olhos, e antes que pudesse me parar, ergui minha mão livre e bati no rosto dele, o mais forte que consegui.

Espero que essa tenha sido uma resposta á altura da sua pergunta, pensei cerrando os dentes.