Era para ser você
21 Coloque ele na linha
Eu me sentia como uma fora da lei. Minha intuição me dizia que a qualquer momento Mabuchi surtaria comigo. Como se de alguma forma ele soubesse o que eu havia feito ontem.
Julyan e eu ficamos até depois das nove investigando a vida do nosso chefe. Éramos péssimas detetives, porque os sites de pesquisa ainda estavam no histórico do meu computador.
Jack tinha o sono mais pesado que já vi, perdendo apenas para o meu pai. Mesmo com todo o barulho que fizemos, só acordou quando sentiu o cheiro de macarrão com salsicha — uma das minhas especialidades na cozinha — que preparei.
Eu tinha acordado um pouco mais cedo pela manhã, parte minha achava isso estupidez, a outra parte achava que era apenas precaução. Mas se eu pudesse reduzir minhas chances de esbarrar com o cara do metrô, certamente eu faria. O problema disso tudo era que bastava me lembrar dele para me sentir violada, e então chateada e depois terrivelmente furiosa.
Prometi a mim mesma que adotaria uma postura diferente caso algo semelhante ao que havia ocorrido com Dylan tornasse a acontecer. Na época eu estava tão confusa que não sabia que atitude tomar. Na verdade, Meredith tinha ladrado o que ela achava que eu deveria fazer durante horas, enquanto me consolava.
Ir até uma delegacia e denunciar. Era de fato era a coisa mais sensata a fazer, mas na minha cabeça eu achava que iriam me culpar e, pior, me enviariam de volta para o Brasil.
Tantos meses depois e mais uma vez me calei.
Pensei em minha mãe que sempre foi tão corajosa, e me perguntei o que ela faria no meu lugar.
O silêncio foi minha única resposta.
Olhei para o relógio digital no meu celular. Ainda faltavam cinco minutos para a empresa começar a pleno vapor e abrir realmente. Tive sorte de ter feito amizade com um dos seguranças, pois por bondade dele sempre podia chegar mais cedo e me acomodar, sem precisar esperar que o expediente começasse.
Fechei os olhos, lembrando-me de tudo o que Julyan e eu descobrimos juntas. Ela sabia uma quantidade valiosa de informações, mas com o nosso velho e confiável amigo Google o leque ampliou-se.
Andrew Johnson era ninguém menos que o filho de Marco.
Esfreguei os olhos lembrando que, conforme acessávamos novas páginas, mais sujeira ia aparecendo. Obviamente Andrew estava envolvido no golpe que o pai tinha dado. Pelo menos era o que davam a entender os sites acessados. O estranho era que, na verdade, grande parte deles deixava as sujeiras soltas, de uma forma sutil, como se tivessem medo de represálias.
A maior parte do dinheiro roubado ainda não havia sido encontrado. Um site inclusive tinha feito um gancho com o dinheiro roubado mais o fato de Andrew ter aberto uma empresa de publicidade, logo depois que o imperial de Mabuchi tinha começado a ruir.
“É impossível não especular de onde saiu esse dinheiro!” — o repórter comentou. Todavia o que Andrew sempre respondia para a imprensa eram coisas vagas como dinheiro vindo de herança, dinheiro de aplicações, etc.
Nem mesmo a polícia tinha sido capaz de provar que o dinheiro era realmente dos Mabuchis, apesar de tamanhas desconfianças e evidências.
Quando assumiu a empresa, Mabuchi teve que lidar com um inferno. Ela estava a um fio de quebrar por completo. Julyan me disse que inúmeros funcionários foram demitidos, enquanto alguns fizeram isso por vontade própria, por falta de pagamento. Praticamente todas as filiais foram vendidas, e os sócios desfizeram a sociedade. A coisa toda tinha me lembrado o Titanic afundando.
— Ou ele é muito bom no que faz, ou é um bastardo de muita sorte — eu havia murmurado.
Julyan assentiu e riu.
— Ou talvez seja um poucos dos dois.
O universo tem planos confusos, pensei depois de tê-la ouvido dizer isso.
E eu não fazia ideia do quão confusos seriam tais planos.
Fazia perfeito sentido a reação de bastardo arrogante de Mabuchi quando a empresa esteve perto de perder sua conta com a Química Perfecta. Se fosse eu em seu lugar provavelmente ficaria tão fula quanto ele.
Gemi baixinho dando um tapa na minha testa.
Só ontem, esse mesmo pensamento explodiu na minha mente diversas vezes. E eu não estava gostando disso. Não estava gostando de ver um ser humano escondido debaixo de tanta arrogância e indiferença.
Olhei novamente para o relógio. Ainda faltavam 3 minutos.
Liguei o computador e mandei um e-mail para Meredith. Não tinha contado para ela do Will e na verdade estava feliz de poder fazer isso por e-mail, porque se fosse pessoalmente ela provavelmente gritaria tão alto que estouraria meus tímpanos.
De: Jasmim Sinclair
Para: Meredith Benson
Eu tenho um encontro! No sábado. Queria fazer um jogo de suspense com você, mas se não receber uma resposta em 3 minutos, provavelmente vou enviar um novo e-mail contado com quem é.
Beijos.
P.S: Como foi o trabalho no Skulls ontem à noite?
Chequei às horas outra vez. Um minuto.
Como se tivesse sido planejado, quando o relógio iniciou a contagem de um novo minuto, as portas do elevador se abriram.
— Bom dia senhor! — falei dando meu habitual sorriso cortês.
— Bom dia senhorita! — Mabuchi respondeu, porém sem sua habitual voz de desinteresse.
— Aproveitou seu dia de folga?
Precisei repetir a pergunta duas vezes mentalmente antes de fato respondê-la.
— Eu... Uh, sim. Quero dizer, aproveitei bastante.
— Bom! — ele assentiu com um leve levantar de lábios. Um quase sorriso.
— Quando se organizar venha até minha sala para acertar os detalhes da viagem da semana que vem.
Meu estômago se revirou enquanto mentalmente fazia uma varredura da sua agenda virtual.
— Viagem?
— Sim. A conferência.
Alarguei os olhos. Eu não me lembrava disso.
— Claro! Esta viagem — soltei um riso estrangulado. — Só vou responder a alguns e-mails e lhe entrego minhas anotações sobre isso.
Tão logo ele entrou em sua sala, corri para o computador e acessei sua agenda.
A viagem não estava agendada. Lembrei que toda sua agenda tinha ficado embaralhada quando a apaguei sem querer depois de ter virado café no teclado.
Oh, meu santo Deus!
Forcei minha mente, e o que pareceu meia hora agonizante lembrei que tinha feito uma anotação sobre isso.
Frank Harper vai estar lá— era tudo que estava escrito em um post it amassado.
Agarrei o telefone como se ele fosse meu santo Graal e entrei em contato com a secretária de Harper. Eu podia muito bem chorar de alívio quanto ela prontamente me passou os detalhes da viagem que Mabuchi.
A viagem seria dali a sete dias, e o tópico principal era basicamente sobre a Quimica Perfecta, e uma nova proposta que a empresa tinha recebido para um negocio em potencial.
E já que a viagem seria dali sete dias os próximos passos eram: rezar para conseguir agendar um voo, e fazer uma reserva em um bom hotel.
Meia hora depois eu tinha conseguido o voo e, mais 15 minutos e inúmeras pesquisas no Google, reservar um bom quarto em um hotel cinco estrelas.
Quando tudo estava devidamente anotado tanto na agenda virtual, quanto nas minhas anotações levantei e fui até a sala de Mabuchi. Ao som do seu cordial Entre, abri a porta. Apesar de estar no telefone, sua atenção focou em mim por uma fração de segundos a mais do que o necessário enquanto indicava para que eu sentasse e esperasse. Incomoda com isso sentei e esperei olhando para os meus pés. Mabuchi estava falando em o que me pareceu mandarim, o que tornava difícil compreender o que ele estava falando. Uns dois, ou possivelmente três minutos depois encerrou a ligação.
Assim que deu o sinal de que estava pronto para ouvir, indiquei os detalhes da viagem.
— Certo – comecei limpando a garganta – as passagens são da companhia Dreams. Infelizmente não consegui coloca-lo no mesmo hotel da conferencia, mas por sorte o senhor vai ficar no
The Langham um dos melhores hotéis da cidade. Será um sacrilégio eu sei – brinquei sorrindo.
Sua sobrancelha ergueu, e eu engoli esperando um comentário maledicente em troca.
— Acho que posso lidar com esse tormento – concordou zombeteiro. E pela primeira vez senti que estava sorrindo comigo, e não de mim.
Na minha mesa o telefone tocou. Alto e estridente.
— Bem, vou voltar ao trabalho.
Ele assentiu.
— Não passe nenhuma ligação antes que eu dê meu aval, tudo bem? – Mabuchi pediu.
Assenti me apressando para sair da sala e atender ao telefone, porém assim que de fato atendi o mesmo preferi não ter feito.
Porque era Tiffany exigindo falar com Mabuchi.
— Eu vou checar se ele está – falei.
— Você não precisa checar, basta passar a ligação eu sei que ele está.
Rolei meus olhos. – Então quem sabe queira ligar direto para sala dele – sugeri condescendente.
— Está me dizendo o que fazer? – rosnou.
Respira, inspira...
— Não, estou apenas... Eu vou ver se ele pode atender – afirmei sem paciência.
Apertei o botão verde no telefone – que fazia a chamada para sala de Mabuchi apesar de já saber o que ele diria.
— Senhor desculpe incomodar, mas tem alguém na linha querendo falar com o senhor.
Ele suspirou. – Quem?
— Tiffany.
— Desligue. – Tal resposta me fez conter um sorriso.
— Certo – acatei. – Sinto muito ele não pode atender – murmurei voltando a falar com Tifanny.
Ela bufou, eu rolei os olhos novamente.
— Mentirosa – ela me acusou. – Eu sei que ele está ai. Passe o maldito telefone para ele.
— Ele. Não. Pode. Atender. – falei pausadamente. – Não estou sendo clara o bastante? – grunhi sem paciência.
Do outro lado da linha, a escutei tomar uma longa respiração calmante.
Bufei. Ela que precisava se acalmar?
— Você sabe quem eu sou? – rosnou ameaçadoramente.
Me segurei para não rir.
Deus me ajude. Eu não sabia quem diabos era ela, mas não me importava principalmente depois de agora.
— Senhora – rangi os dentes me controlando. – Já disse que ele não pode atender. Quer deixar recado?
— Não! Quero que o coloque na linha.
Respira, inspira... – Ele não quer falar com a senhorita, pois se quisesse atenderia ao maldito telefone, e alem do mais se é tão importante porque diabo não liga para o celular dele? Preciso desligar. Passar bem!
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