Era para ser você

44 Chicago, telefonema, e um abraço inesperado.


Notas iniciais
Minha internet tá tão lerda que to há QUASE 3 HORAS TENTANDO POSTAR ESSE CAPÍTULO, MAS A PÁGINA NÃO ATUALIZA AAAAAAAAAAA Vou rezar aqui pra dessa vez ir!!

Minha reação ao ver o avião pousando foi tão infantil que me peguei rindo sozinha.

Eu estava viva!

Belisquei de leve meu braço para ter certeza e ri ainda mais.

— Não caiu! – Mabuchi apertou de leve meu joelho e sorriu.

Demorou um minuto até que ele retirasse sua mão e desviasse o olhar, tempo suficiente para que eu corasse e sentisse um formigamento incomum pelo corpo.

***

Depois de passarmos por toda a burocracia necessária a fim de pegarmos nossas bagagens, Mabuchi e eu nos dirigimos para o carro que nos esperava. Minhas costas estavam levemente doloridas, provavelmente pela tensão causada pela viagem, mas eu estava empolgada apesar disso.

Como uma boa garota do sul conhecendo um lugar novo, olhei para fora da janela observando as paisagens e lugares pelo qual passávamos. Vez ou outra olhava para ele pelo canto do olho e o fitava. Era difícil explicar o clima que havia se instalado entre nós dois. Não era hostil como de costume, mas não chegava a ser completamente amigável. Era, sem muita surpresa, estranho, assim como nós.

— Precisa me perguntar algo? – Mabuchi indagou me assustando, tirando-me do meu devaneio.

— Desculpe...?

— Está me olhando – ergueu a sobrancelha. – Quer me perguntar algo?

Balancei a cabeça com vergonha. Talvez eu estivesse sendo incisiva demais nas minhas olhadas. Limpei a garganta.

— Não... Eu só estava me perguntando se falta muito para chegarmos ao hotel – menti.

— Ah – assentiu e então se virou para o motorista perguntando baixinho quanto tempo faltava de viagem.

— Quarenta minutos se o trânsito continuar bom – respondeu, voltando sua atenção para seu I-Phone. Estava tão concentrado que me perguntei como tinha notado meus olhares. Em tratando dele eu não deveria ficar surpresa.

Nesse momento meu telefone tocou e cogitei recusar a ligação, até ver que era minha mãe ligando. Ela sabia que eu iria viajar a trabalho e que dificilmente daria tempo de conversarmos. Tinha avisado para os meus pais na noite anterior. O fato de ela estar ligando provavelmente não significava boa coisa.

Teoricamente, eu ainda não estava trabalhando, mas olhei para Mabuchi esperando uma confirmação de que estava tudo bem se eu atendesse.

— Oi, mãe! – atendi. – Tudo bem por aí?

— Tudo! – limpou a garganta. – Pelas minhas contas o avião já pousou, não é?

— Estou a caminho do hotel. Mãe... – parei um pouco percebendo quão diferente sua voz estava do habitual. – Está chorando?

— Não! – negou. – Eu só queria ouvir tua voz.

Às vezes a gente simplesmente sabe quando algo não está bem. E eu sabia antes que ela precisasse falar. Sabia mesmo quando ela negou que havia algo errado. Mas levou pelo menos dez minutos até que eu a convencesse a me falar a verdade.

Minha avó Dolores estava doente. Problemas respiratórios. Era a terceira vez em menos de duas semanas que tinha precisado ir até o hospital e minha mãe estava com ela quando a crise começou. Como se isso não fosse ruim o bastante, meu avô não deixou meu pai ficar na sala de espera fazendo companhia para minha mãe, enquanto ela esperava por notícias junto com Sonia, Caetano e Clara, em mais um dos seus tão estúpidos atos de racismos. Durante toda minha vida presenciei a tantos que perdi a conta, mas nunca deixava de me surpreender.

A situação era delicada e nem assim ele conseguia ser menos intransigente.

— Sinto muito mãe! – minha voz saiu embargada. – Sinto muito mesmo! Quer que eu faça algo?

— Jas, tu sequer está no mesmo país que nós – falou com carinho. Vai ficar tudo bem, não se preocupe. Só liguei porque queria ouvir tua voz. Um daqueles momentos de saudade materna.

Senti-me inútil, estando a centenas de quilômetros de distância.

— Eu te amo, mãe! – disse baixinho. – Vai ficar tudo bem.

— Eu também te amo! – assegurou com firmeza. – Eu ligo mais tarde com mais notícias.

Não percebi que estava chorando até que senti as lágrimas molharem meu pescoço. Não percebi o quanto sentia saudades, até estar longe demais de casa. Não percebi que precisava de um abraço, até sentir os braços de Mabuchi me puxando para perto.

De repente quis contar tudo para ele. Quis contar que, mesmo que meus avós tivessem sido tudo menos avós para mim, eu não queria que nada de ruim acontecesse a eles. Quis contar que estava preocupada e querendo voltar para casa. Quis contar tanta coisa...

Mas ele era o meu chefe.

*****

Gregory Mabuchi

Tentei continuar concentrado em meus e-mails, mas meus ouvidos por vontade própria focaram na conversa ao meu lado.

Jasmim estava falando em sua língua materna. Era diferente do inglês e eu não entendia uma palavra sequer, mas isso era o que mais chamava minha atenção. Sua postura mudou quando a pessoa do outro lado disse algo e novamente minha curiosidade aumentou. Minutos se passaram enquanto eu fingia ler meus e-mails e a ouvia conversar, até que desligou.

Meus olhos aumentaram de tamanho vendo-a olhar para fora e chorar. Era como se ela sequer notasse isso. Algo em mim se apertou e deixei meu celular cair no chão do carro.

Uma batida se passou. Olhei para minhas mãos, o celular no chão e então para ela sem saber o que fazer.

Um soluço escapou dela e novamente foi como se ela sequer notasse, tamanho seu estado de estupor.

Fechei os olhos por um segundo e cogitei fingir que não estava vendo, mas, quando dei por mim, estava puxando-a para o meu peito...