Era para ser você
24 Algodão doce azul
Notas iniciais
Will tinha cheiro de algodão doce. Algodão doce, fiquei sabendo, era seu doce favorito desde a infância. Principalmente da cor azul.
Nunca tinha conhecido alguém com esse cheiro, mas isso só fazia com que, de alguma forma, ele tornasse essa fragrância peculiar, mais especial. Combinava com ele.
Sorri com essa nova informação e passei os dedos através da prateleira de livros mais próxima à mim. Will estava nos fundos da livraria pegando mais caixas de livros para organizar.
A livraria me deixava tão à vontade que cogitei a ideia de ir até meu apartamento trazer Thor e minha cama para morar dentro dela. De certa forma sempre tive o sonho de morar em uma livraria. Existe uma coisa mágica em se perder em meio a tantos personagens e lugares diferentes. Minha mãe tinha o costume me dizer isso o tempo todo.
Um título em particular me chamou a atenção, “Como sobreviver ao seu chefe”. Dei uma risadinha e o puxei da estante para sanar minha curiosidade, porém de algum jeito acabei derrubando mais de trinta livros perfeitamente organizados.
— Will! — gritei com a boca aberta de terror. — Me ajuda aqui.
O barulho dos livros colidindo com o chão em primeiro lugar me assustou, e em seguida quebrou meu coração vê-los tão brutalmente jogados. Livros para mim eram quase tão preciosos quanto sorvete. Me arrependi de gritar e sozinha tentei recolocar tudo no lugar. Foi inútil, já que Will se aproximou de mim meio minuto depois.
— O que...? — ele se interrompeu e seus olhos alargaram visivelmente enquanto olhavam dos livros para mim, provavelmente se perguntando que diabos havia de errado comigo. Eu tinha bagunçado tudo nos primeiros segundos em que fiquei sozinha. Era um novo recorde. Eu tinha derrubado minha bolsa no chão quando agarrei alguns dos exemplares nos braços, só que na pressa de juntar tudo alguns livros ficaram amassados, enquanto outros permaneceram no chão.
— Não me mate! — empurrei o lábio inferior para cima numa tola tentativa de imitar a cara de cachorrinho de Mer. — Foi sem querer eu juro!
Em algum tipo de conspiração maldosa, o universo fez com que o livro que me chamou a atenção caísse num baque surdo perto dos pés de Will.
Suspirei. O cosmos costuma ser “complacente” quando o assunto é me fazer passar vergonha.
A princípio achei que ele fosse explodir comigo, mas então percebi que estava comparando-o com Mabuchi. Will era gentil em cada gesto e não tinha problema em deixar que os outros vissem as emoções que passavam através dos seus olhos, e naquele momento era diversão pura.
Senti uma raiva irracional do meu chefe por estar tão fixo na minha mente, ao ponto de eu sair por aí comparando-o com outros caras.
Jogando a cabeça para trás, Will riu. Alto e potente. E causou cócegas no meu estômago.
— Como no inferno você conseguiu — apontou para os livros no chão e para aqueles que estavam em meus braços — fazer isso em tão pouco tempo?
Dei de ombros na defensiva. Também gostaria de obter essa resposta.
— É algo que venho aperfeiçoando há anos — pisquei meus cílios e sorri numa falha tentativa de flerte. O que me fez pensar que deveria aperfeiçoar isso também.
Me senti patética segurando os livros de modo precário, fazendo com que pendessem para fora dos meus braços, por isso me abaixei colocando-os no chão com cuidado. Meu rosto ardia, e não foi preciso um espelho para ter certeza que minhas bochechas estavam da cor de uma beterraba. Deixei meu cabelo cair pelo meu rosto, para formar uma cortina de cachos e me proteger de olhar para Will e empilhei os exemplares com a maior gentileza possível.
– “Como sobreviver ao seu chefe” — ele leu em voz alta e eu quis fazer como uma avestruz, enfiar minha cabeça dentro de um buraco. — Eu nem sabia que tínhamos esse tipo de livro aqui.
Se grande parte da população tiver um patrão como Gregory Mabuchi, deveria ser regra ter livros assim em cada livraria possível.
— O governo deveria distribuir esses livros pessoalmente se muitas pessoas precisarem lidar com um chefe como o meu — ergui a cabeça para ele e sorri. — Diminuiria os homicídios pela metade, tenho certeza.
Um lento sorriso se espalhou pelo seu rosto. Ele tinha dentes levemente brancos e uma boca que podia muito bem se chamar pecado. Era impossível não achá-lo bonito.
Balancei a cabeça sem jeito. Maldita seja a abstinência de encontros em que eu me encontrava! Talvez Meredith tivesse razão e essa coisa de encontros online pudesse resultar em algo bom.
— Ele é tão ruim assim? — Will perguntou com curiosidade me ajudando com os livros.
Ergui as sobrancelhas diante de sua pergunta. — Pior do que você está imaginando! — assenti com amargura e mudei de assunto. — Está tranquilo hoje aqui na livraria!
— Está fechado — murmurou ele, começando a colocar os livros nos devidos lugares.
Soltei um palavrão.
– Eu invadi? — perguntei olhando para a placa grudada no vidro. A palavra Aberto estava do lado de dentro, o que significava que Fechado estava do lado de fora. — Desculpe! Você quer que eu vá embora? — catei minha bolsa do chão, pronta para sair caso fosse necessário. Meu Deus, eu precisava prestar mais atenção nas coisas! Num pulo rápido, eu tinha passado de derrubar algumas coisas para invasora.
— Você não está me incomodando — assegurou com tranquilidade, enquanto usava sua atenção, de modo parcial, para acabar o que estava fazendo e para falar comigo. — Gosto da sua companhia!
O sorriso em meu rosto foi tão tolo que eu quis me bater com força.
Eu, Jasmim Sinclair, estava tendo uma quedinha por alguém pela primeira vez em tempos, e justo quando eu tinha que voltar para o Brasil. Apesar desse pensamento regado de amargura, meu sorriso não vacilou.
— Gosto da sua também! — gaguejei debilmente. E de fato eu gostava. Will transmitia uma calma muito difícil de encontrar nesta selva de pedra. Acalmava quem estivesse por perto apenas com o olhar.
Uma batida se passou até que ele falasse.
– Já almoçou? — a mudança de assunto foi abrupta, mas não me importei, pois eu também estava me sentindo desconfortável com o rumo da conversa.
— Já. – Eu tinha saído às pressas do meu apartamento e acabei optando pelas barras de cereais que guardava na bolsa. Eu sentia fome nos momentos mais inoportunos, então sempre tinha algo para comer guardado comigo. No início eu almoçava apenas as barrinhas de cereais, mas depois se tornou inviável ficar apenas com barrinhas de proteínas o dia todo no estômago. A solução foi espremer uma marmita entre meus cadernos da faculdade. Marmita essa que, na maior parte dos dias, ficava esquecida em cima da mesa ou na geladeira.
— Por que seu rosto está com uma expressão meio perdida? — Will me puxou para fora dos meus pensamentos.
Ri baixinho.
– Desculpe. Sim, já almocei. Comi algumas barrinhas de cereais enquanto vinha pra cá. Por que?
— Apenas isso? — sua voz esganiçou. — Algumas barrinhas que mal alimentam — ele riu. — De jeito nenhum! Almoce comigo.
Meu rosto aqueceu duramente. — Não! — neguei olhando para o relógio em seu pulso. — Sinto muito, tenho que voltar para o trabalho.
Faltavam pelo menos 30 minutos para o horário do meu almoço acabar, mas preferi recusar o convite mesmo assim. Já tinha feito bagunça demais em tão pouco tempo.
— Sério? — seu semblante murchou levemente e eu soltei o ar para fora do nariz.
— Não! — balancei a cabeça, olhando para o relógio novamente, como se estivesse lembrando de algo que pudesse me dar um pouco mais de tempo. — Quer saber, talvez eu arrume algum tempo para isso.
Soou miseravelmente arrogante, mas não foi minha intenção. Por sorte, Will apenas riu e disse:
— Devo me sentir importante?
Assenti com um sorriso amarelo e ele rolou os olhos de brincadeira.
— Obviamente, — eu disse — afinal está me fazendo abrir uma brecha na minha agenda ocupada.
Dei um tapinha em seu ombro e ergui a sobrancelha. Mesmo com seu suéter pude sentir seus músculos sob a palma da minha mão e tal fato me agradou mais do que devia. Afastei a mão e a deixei cair pesadamente ao lado da minha coxa.
Olhei a esmo para todos os lados.
– Aonde vamos?
— Eu tenho meu almoço no almoxarifado, mas algo me diz que você não é o tipo que come a comida saudável que minha mãe me empurra.
Ergui a sobrancelha novamente e ele riu envergonhado. Oh, que gracinha!
– Andei doente por negligência minha e...
— Ela está achando que é hora de comida saudável e caseira para melhorar isso? — sorri. — Soa como a minha própria mãe. E mesmo que você fosse um mimadinho eu ainda gostaria de almoçar com você. Eu no entanto, apesar dos esforços dos meus pais, comidas gordurosas e calóricas, sem dúvida, foram e ainda são as minhas favoritas.
Que minha mãe não me ouvisse! Eu era uma adoradora de legumes e afins, mas meu coração pertencia verdadeiramente a tudo que engordava e consequentemente fazia mal, se pesado na balança. E infelizmente isso não cabia apenas à comida, mas também às pessoas.
***
Fomos a uma pequena barraquinha de cachorro quente na esquina. Uma das coisas que me fez amar Nova York logo de cara foi exatamente isso. A cada esquina havia uma nova informação derramada sobre você. Por exemplo, bem perto da barraquinha de hot dog havia um restaurante mexicano. Duas opções de uma vez só. Will sugeriu que voltássemos para a livraria, mas se fizéssemos isso, aí sim eu chegaria atrasada. Se bem que, talvez, Tifanny ainda estivesse na empresa mantendo Mabuchi ocupado.
— Seu sotaque é de onde? — Will perguntou.
— Sou uma guria do sul — respondi em português e sorri para sua cara de confusão. — Meu sotaque é do Brasil — tornei a falar em inglês.
— Brasil! – ele repetiu baixinho com os olhos brilhando. — O pouco que sei sobre o Brasil foi o que li em revistas e vi em jornais.
Encarei-o com curiosidade.
– Que tipo de coisas você sabe?
Ele deu uma mordida grande em seu hot dog e um pouco de ketchup espirrou para fora do pão, manchando sua roupa. Apesar de um rápido olhar de desgosto ele não pareceu se importar. — O básico turismo e essas coisas.
Conversamos aleatoriamente sobre meu país de origem, e sobre como eu fui escolhida para o intercâmbio. Minha voz ia se tornando mais e mais empolgada conforme eu falava de como meu projeto tinha sido escolhido, e em nenhum momento Will pareceu se entediar com minhas palavras, o que só me incitava a continuar falando.
Levei um susto quando olhei para o relógio e percebi que tinha extrapolado meu horário e que meu hot dog estava praticamente intacto.
— Droga! — dei uma última mordida no meu cachorro-quente e suspirei. Não queria voltar para o trabalho. — Preciso ir.
Desastrosamente dei mais algumas mordidas no meu hot dog — já que não queria jogá-lo no lixo — e sorri para Will, apressando-me para fazer meu caminho de volta.
***
Tifanny estava esperando pelo elevador quando cheguei. Vê-la foi o bastante para azedar meu bom humor.
— Boa tarde! – cumprimentei-a por pura educação e fui me acomodar em minha mesa sem me dar ao trabalho de ouvir sua resposta. Como eu esperava, Mabuchi não notou meu atraso, e constatar isso me fez sorrir vitoriosa. Eu tinha conseguido enganar o carrasco.
O restante do meu dia foi tão enfadonho que de vez em quando, entre um pedido e outro de Mabuchi, eu precisava tomar uma xícara de café puro para não dormir. Para piorar, minha primeira aula na faculdade foi com O'Brien, aquele professor que tinha me feito querer saltar da janela mais próxima. O'Brien era miseravelmente parecido com meus avós. Achava que tinha razão em tudo. Sempre. Mesmo que estivesse errado.
Fale com o autor