Era para ser você

54 Aleatoriedades ou DR? Fala a verdade, Jasmim!


Ter contado para o Mabuchi que em breve eu regressaria para o Brasil me deixou emocionalmente exausta. Como eu esperava, as coisas ficaram estranhas entre nós. A discussão que tivemos não tinha se prolongado muito, porque sabíamos que não levaria a nada. Mas isso só me deixou mais confusa.

Fizemos em silêncio o caminho até o aeroporto. Depois do check-in, fomos esperar nosso voo na sala VIP. Gregory não parava de me olhar e tentei disfarçar meu desconforto observando o ambiente, mas sua presença era forte demais para ser ignorada e, quase por vontade própria, meus olhos se fixaram nele. Se eu fosse ser honesta comigo mesma, teria que admitir que estava gostando muito dele. Eu só não tinha certeza se queria saber o que exatamente isso significava.

Querendo ou não, eu teria que perguntar a ele como deveríamos agir dali para a frente dentro da empresa. Fingir que eu queria matá-lo como antes? Sorrir quando ninguém estivesse olhando? Eu não me arrependia de nada, mas, ainda assim, tudo estava confuso. Gregory abriu a boca para falar algo, mas uma voz soou pelos altos falantes anunciando nosso voo.

"Nós temos todo o tempo que quisermos nos dar", ele tinha dito no quarto.

Será que teríamos mesmo?

Minha mente foi do caos ao pavor, quando sentei na poltrona e percebi que o avião em breve estaria entre as nuvens.

— Nervosa? – ele perguntou, fitando-me com preocupação.

Sacudi a cabeça, mas nós dois sabíamos que era mentira.

— Quer fazer perguntas aleatórias novamente? – indagou, quando o piloto anunciou que iríamos decolar em poucos segundos.

Pensei como aquilo tinha me ajudado durante a vinda e balancei a cabeça afirmativamente, antes que a ansiedade tomasse conta de mim.

— Quero!

Alguns instantes se passaram e o avião começou a taxiar. Prendi a respiração.

— O que você gosta de fazer nas horas livres? – perguntei apavorada, segurando com força no braço da poltrona.

— Ficar com Ellie, gostamos de assistir o canal da Disney. E você?

Mabuchi descansando, esparramado no sofá junto de sua filha, era quase inimaginável e isso me fez rir. Era difícil construir uma imagem dele assim, tendo o visto tantas vezes trabalhando na empresa com um punho de aço.

Encolhi os ombros pensando.

— Às vezes eu corro. Me ajuda a organizar os pensamentos.

Trocamos mais algumas perguntas rápidas e aleatórias e, na aceleração para a decolagem, deixei escapar uma pessoal.

— Akemi... – comecei sem jeito. – Akemi e você são separados?

Os olhos de Mabuchi piscaram surpresos pelo rumo da pergunta e ele demorou tanto para responder que quase achei que não o faria. Fiquei com mais medo dele não ter gostado da pergunta do que do frio na barriga que senti quando o avião desgrudou do solo.

— Akemi faleceu alguns anos atrás... Ela... suicidou-se – disse com a voz apertada.

Algo em mim rompeu, deixando-me sem palavras. Não sabia o que dizer.

Segurei sua mão num aperto firme por alguns segundos, antes de soltá-la, envergonhada.

Que droga eu estava fazendo?

— Akemi sofria de depressão – continuou como se adivinhasse que eu queria saber as circunstâncias. – Superdosagem de medicamentos.

Ele ajeitou sua gravata e fitou a janela. Nuvens fofas nos diziam olá do lado de fora.

— Eu sinto mui...

— Também sinto – sua voz me interrompeu, saindo pesada e dolorida.

— Qual sua princesa favorita? – perguntei para aliviar o clima triste.

Mabuchi riu, mas notei algo estranho em seus olhos.

— Qual a sua? – ele riu baixinho. – Não acho que eu tenho uma favorita.

— Acho que, assim como você, não tenho uma – respondi sorridente.

Sua sobrancelha ergueu.

— Combina com você.

Combina comigo?

— Uh, obrigada! – sacudi a cabeça sorrindo, sem entender direito o que ele quis dizer, mas deixei por isso mesmo, porque tinha uma nova pergunta na ponta da língua. – Minha vez... – fingi que estava pensando. – O que você e Tifanny são...?

Ele gemeu.

— Isso não é ser aleatória – afirmou.

— E isso não é responder uma pergunta, apenas desviar dela.

— Tifanny – começou com um dar de ombros – é uma amiga. Seu pai é um dos sócios da empresa e temos conhecidos em comum, por sermos parte do mesmo círculo social.

Eu não estava convencida.

— Só isso?

Seu silêncio repentino me fez querer praguejar.

— Nós nos envolvemos uma vez no ano passado. Apenas isso.

Senti um sentimento pegajoso se instalando no meu peito. Uma mistura de ciúmes e raiva. Não gostei nem um pouco disso.

— E ela sabe que não passam de amigos? – murmurei com desdém. – Ela age como se você fosse colocar um anel de brilhantes no dedo dela a qualquer momento.

— Ela sabe – foi sua resposta curta.

— Interessante – foi tudo que eu disse em resposta e não abri mais a boca durante o restante da viagem.

Isso me deu tempo para organizar meus pensamentos. Ou quase, tendo em vista o quão agitados estavam. Quando pousamos, lembrei-me da minha apresentação de TCC e senti um frio na barriga. Em breve todo meu esforço valeria a pena.

***

Esperando minha bagagem aparecer na esteira do aeroporto, suspirei saudosa da minha casa e do conforto da companhia dos meus amigos. Mabuchi ao meu lado falava ao telefone e gesticulava vez ou outra, focado demais em sua conversa para perceber que eu já havia apanhado nossa bagagem. Faltavam cinco minutos para completar nove horas e eu estava com fome demais para pensar em qualquer outra coisa. Eu tinha recusado o café da manhã do hotel e a comida do avião por falta de apetite, mas minha fome havia finalmente voltado e exigia ser saciada.

— Vamos direto para empresa? – indaguei após ele finalmente abandonar seu celular.

Ele balançou a cabeça parecendo desconcertado.

— Preciso ir para o hospital.

Franzi a testa, meio sem entender, meio que temendo que ele enfartasse na minha frente.

— Por quê?

— Ellie caiu da sua casa na árvore e está no hospital.

Sinos de alarme soaram no fundo da minha mente e minha fome foi rapidamente esquecida.

— Você quer que eu... – comecei, calando-me por um segundo para em seguida dizer que iria acompanhá-lo até o hospital.

***

O caminho até lá foi rápido e borrado. Quando entramos no hall de entrada senti Mabuchi vacilar de leve e apertei seu braço com delicadeza.

— Ela está bem – afirmei, dando meu melhor para soar positiva. – Deve ter sido só um tombo bobo.

Na recepção do hospital, uma senhora de meia idade parecendo cansada sorriu para nós. Tentei sorrir de volta.

— Minha filha – Mabuchi começou, mas sua atenção foi rapidamente roubada meia batida depois.

— Oh, Greg! – uma mulher de meia idade correu até nós tão logo o viu e o abraçou. Dei um passo para lado antes de ser atropelada por ela. Atrás dela vinha um homem de passos rápidos, mas certamente não tanto quanto os da mulher desconhecida. Num sobressalto o reconheci.

Era o pai de Gregory.

— Me desculpe – a mulher de meia idade lamentou. – Eu me distrai por meio segundo e então...

— Tudo bem, mãe – Mabuchi disse se afastando com delicadeza do abraço. – Só me diga como ela está.

Com um balanço de cabeça ela assentiu e nos informou como a filhinha de Mabuchi estava. Ellie havia quebrado o braço com a queda e de todos nós parecia a menos preocupada. Ainda estava um pouco grogue em decorrência do remédio para dor quando Gregory foi vê-la, deixando-me sozinha com seus pais na sala de espera.

Desconfortável definia toda a situação. Desde os olhares até os sorrisos tensos.

— Que bom que tudo acabou bem! – foi a primeira coisa estúpida que saiu da minha boca.

Quando mais sorrisos e olhares foram trocados entre nós, reprimi um suspiro de pânico e cogitei correr porta afora.

— Tenho a impressão de que conheço você – o pai de Mabuchi especulou. Obviamente ele queria que eu confirmasse a informação, ou ao menos me apresentasse formalmente.

Lembrei-me do que Julyan havia me dito muito tempo atrás, sobre sermos invisíveis para os "poderosos".

Limpei a garganta.

— Nós nos conhecemos, senhor Mabuchi – as palavras saíram estranhas dos meus lábios, formais demais.

— Yamato – corrigiu, com um sorriso simpático, ainda me olhando com curiosidade.

Testei o nome mentalmente para ter certeza que não iria errar quando o pronunciasse em voz alta.

— Yamato – repeti, tentando devolver o sorriso. Mas estava tensa e nervosa. Conhecer os pais de Gregory era... definitivamente algo que eu não tinha imaginado fazer. Sobretudo naquelas condições. – O senhor me conhece da empresa – lembrei-me da cena em que, eu mesma, caía de joelhos na tentativa de limpar o café das calças de Mabuchi e senti meu rosto queimar. – Participamos de uma reunião juntos.

Servir – e derramar – café, não era exatamente "participar", mas era algo perto disso.

Quase.

— Sou a atual secretária de Mabuchi – murmurei por fim, com um leve dar de ombros, esperando que eles parecessem de me encarar. Entretanto isso fez a curiosidade brilhar ainda mais intensamente em seus olhos.

Quase pude ler seus pensamentos. O que a secretária do filho deles estava fazendo ali?

Também gostaria de saber.

— É muita gentileza sua tê-lo acompanhado – foi a vez da mãe de Gregory falar. Não havia sarcasmo em sua voz e isso me deu um pouco de conforto. Não muito, no entanto.

Apenas sorri, sobretudo porque não havia o que falar. Cerca de cinco minutos depois Gregory veio caminhando até nos. A tensão em seu rosto havia diminuído e sua postura estava um pouco mais relaxada.

— Ela vai receber alta ainda hoje – comunicou a todos nós, mas seu olhar estava em mim. – Apenas o tempo do médico se certificar mais uma vez de que está tudo bem.

— Isso é ótimo! – sorri aliviada. – Realmente ótimo.

Meia batida se passou, enquanto nós apenas encarávamos um ao outro. Então alguém limpou a garganta – não tenho certeza de quem – e nós quebramos o contato visual.

Santo Deus, de repente senti muito calor.

— Não tive tempo de apresentá-los – Mabuchi disse apologético. – Minha mãe, Catherine – ele apontou para a mulher de sorriso fácil. – E meu pai, Yamato.

Sem saber o que fazer em seguida, apenas sorri.

— E essa – continuou olhando para mim – é Jasmim... – ele hesitou. – Uma amiga. Ou como Ellie a prefere chamar, Princesa da Disney.

Meu coração deu um disparo louco. Ele não me apresentou como sua secretária, mas amiga não era o melhor dos títulos.

A garota com quem transei recentemente. Será que soaria melhor?

Minha mente indagou com desdém e me encolhi no meu lugar de invisibilidade, querendo sair correndo dali.