Era novamente uma vez
5 Capítulo 5 – Novo Cotidiano
Notas iniciais
– Aaaiii, vai com calma, isso dói, Maura!
– Doeria menos se você ficasse parada! – resmungou Maura examinando com certa brutalidade a boca da prima — Pronto, está suficientemente limpo. Não vai precisar de ponto, só passe o dia todo amanhã fazendo compressa com gelo e vou te emprestar uma pomada pra não ressecar a boca.
Tinkerbell agradeceu se virando para o lado em sua cama que já estava deitada e apagando na sequencia. Maura a cobriu e saiu do quarto se dirigindo ao banheiro para guardar o kit de primeiros socorros. Se olhou no espelho e lembrou de Jane, por um momento imaginando o que a morena havia visto nela, se achava uma pessoa tão comum, tão sem graça... Ou pelo menos foi isso que seu ex-noivo a fez acreditar que ela era e que se lembrasse nenhum homem com quem ela ficou depois dele a olhou tão diferente do que Ian fazia. Muito menos como Jane havia feito naquela noite. Não só isso, Maura nunca havia beijado uma mulher antes e não achava que havia feito aquilo só por ter realmente se sentido atraída fisicamente pela outra, houve alguma coisa além, que foi forte entre elas que ela não sabia explicar e ao menos isso gostaria de ter contado para a morena, pena que elas provavelmente jamais se veriam novamente. Ou pelo menos era o que a legista achava.
Suspirou abrindo o armário para pegar algum produto para retirar a maquiagem e em pouco tempo já estava de cara limpa e banho tomado, deitou em sua cama ouvindo os sons da madrugada de Boston até adormecer.
–X-X-X-
Regina, Emma e Jane passaram boa parte do sábado dormindo, e nas poucas horas que estavam acordadas sequer se cruzaram pela casa. “Definitivamente acho que passamos da idade de ir pra baladas”, pensava Emma consigo mesma quando cogitava sair da cama sabendo que as outras duas deviam concordar com ela se pudessem ler sua mente. Já era domingo de manhã quando todas pareciam mais “vivas”. Regina estava na cozinha preparando o almoço enquanto Emma arrumava a casa de forma totalmente desatenta e automática.
– Qual o problema com você hoje, meu bem? – perguntou Regina num tom baixo quando a loira passou ao seu lado para jogar o lixo fora.
Emma virou o rosto intrigada com a pergunta da morena que parou por um instante de dar atenção à lasanha que montava e abriu um sorriso de canto:
– E não venha me falar que é cansaço que essa desculpa só seria válida um dia atrás...
Emma abriu um sorriso balançando a cabeça, depois se livrou da tarefa que tinha em mãos e retornou apoiando na bancada de frente para a morena:
– Estou preocupada com a Janie. – fez uma pausa olhando em volta pra se certificar que estavam sozinhas – Ela está lavando o carro já faz mais de meia hora, ela só faz isso quando não consegue ficar parada e quer esvaziar a cabeça.
– Eu já vi ela fazer isso quando vocês pegam algum caso difícil, mas porque ela está agindo assim agora? Ou é justamente com isso que você está preocupada?
– Sim, é por não saber o motivo. Quer dizer, até sei, é aquela loira que deu o toco nela, mas o esquisito é a Jane, veja bem, a nossa Jane ter ficado tão mal por uma bobagem dessas! Sei lá, fico meio mal por ela estar tão mal e não poder fazer nada, acho...
– Você é realmente uma grande amiga, Emma. Mas de fato não há nada que possa fazer agora. Ela vai ter que superar isso sozinha, e se for lavando o carro, bem, ao menos você andarão num veículo descente para ir atrás dos criminosos essa semana! – completou Regina colocando o prato no forno sem se importar com a cara de ofendida que a outra fez pra ela.
Algumas horas depois se reuniram para almoçar e Jane parecia ter enfim voltado a ser a Rizzoli de sempre. Fez piadas e ao mesmo tempo demonstrava estar irritada com tudo, sua “terapia” havia feito resultado, ela não pensava mais na noite de sexta passada e tocava a vida da maneira que melhor sabia fazer: se divertindo. Estava jogando videogame com Emma no sofá da sala quando Regina (que tentava ler em seu escritório) apareceu com passos duros e puxou o fio da tomada acabando com a gritaria das duas detetives que se olharam chocadas num primeiro momento depois se revoltaram:
– Eeiii, Regina, qual é?! Se você não sabe se divertir a culpa não é da gente...
– Jane, a porra do celular de vocês não parava de tocar, mas nenhuma das duas estava ouvindo, é lógico! – respondeu Regina de maneira ríspida – Seu tenente acaba de ligar aqui em casa, vocês tem um caso pra resolver, agora!
Jane e Emma pularam do sofá correndo até seus aparelhos e verificando várias chamadas perdidas da Delegacia, do tenente e de Korsak. Jane arriscou retornar para o último, que seria o da bronca menor:
– Jane, cadê você e a Emma? Temos um caso grande, o tenente está espumando aqui do meu lado!
– Desculpa, Korsak, não estávamos com nossos celulares... O que houve? Ou melhor, só fala pra onde devemos ir e você explica quando chegarmos ai!
O detetive mais velho passou as coordenadas enquanto Jane e Emma já saiam de casa acenando para Regina que revirou os olhos e voltou para seu livro, enfim com um pouco de paz.
Jane e Emma estacionaram na frente de um casarão numa avenida nobre da cidade. Pela quantidade de viaturas e repórteres na porta estava na cara que era algum figurão de Boston. As duas detetives mostraram os distintivos e foram entrando, logo avistaram o tenente Cavaunagh tentando controlar a curiosidade da imprensa e Korsak parado no saguão de entrada esperando pelas duas.
– Espero que tenham aproveitado bem este fim de semana por que pelo visto, não vamos desfrutar dos próximos... – falou com ar preocupado caminhando para dentro da mansão.
– A Emma aproveitou bastante! – respondeu Jane de imediato levando um soco no braço da amiga e se colocando a rir sem medo.
– Quem é o azarado da vez? – perguntou Emma tentando parecer profissional apesar das duas usarem roupas esportivas de ficar em casa e bonés de time de baseball.
Os três detetives pararam na porta de uma biblioteca enorme, Korsak acenou com a cabeça para dois oficiais parados na porta que abriram passagem e logo as duas puderam ver um corpo pendurado pelo pescoço amarrado por um cinto no elegante lustre de cristal que ficava no meio do ambiente.
– O Senador Gold! – apontou Korsak para o corpo respondendo a pergunta de Emma.
Jane soltou um assobio baixo. Aquilo definitivamente era grande e tiraria a paz deles por muito tempo:
– Alguma ideia do que aconteceu, já?
– Depende, o pessoal dos tabloides já devem ter muitas, a polícia em si ainda não tem nada! – respondeu Korsak encarando a colega
Emma começou a olhar em volta procurando pistas pelo ambiente enquanto Jane dava voltas pelo corpo já apresentando seu habitual mau humor:
– Cadê o inútil do Dr. Pike pra liberar o que sobrou do cara aqui pra equipe poder analisar tudo?
– Jane, o Dr. Pike não trabalha mais conosco, esqueceu? – comentou Korsak calmamente – O novo legista começa oficialmente amanhã no Precinto.
– Tá, mas então eu tenho certeza que o dia dele começar virou hoje! Cadê esse novo folgado?
–X-X-X-
– É sério isso?? Quer dizer, a gente vai ter que começar a trabalhar em pleno domingo? – resmungava Tinkerbell na porta de casa enquanto Maura corria de um lado para o outro ajeitando a roupa e procurando suas coisas
– Não estamos mais em Londres, Tinker. Acredito que aqui eles não liguem tanto para rotina e um sistema de padronização de começar as coisas nas datas marcadas e do jeito planejado como nós estamos acostumadas!
– Legal, quero ver como você vai sobreviver aqui... Eu tenho mesmo que ir também?
– O quê? Lógico que tem! Não sei se está lembrada mas eu sou a legista chefe da cidade agora e você a analista chefe de todo o departamento de pesquisa. Como eu vou conferir os dados levantados da autópsia se você não estiver junto para analisa-los no laboratório?
– Deve ter algum estagiário de plantão... – comentou a outra em tom irônico e levantando uma maleta que estava apoiada numa mesa ao seu lado – Maur, sua maleta está aqui e o cabelo tá ótimo, vamos!
– O cabelo não é o problema, são os sapatos! Acha muito chamativo? Combinam com a roupa?
A loira mais baixa analisou a legista de cima abaixo sem esboçar nada. A prima usava um vestido azul na altura dos joelhos, de gola quadrada e mangas médias sem nenhum acessório e nos pé sapatos pretos de ponta arredondada de salto fino e bem alto.
– Magina, você está super discreta na verdade.
– Ótimo, era como eu pretendia estar mesmo... Nem fomos apresentadas ao pessoal ainda, não quero chamar atenção alguma, só chegar lá e fazer meu trabalho!
Tinkerbell deu uma rápida conferida no espelho do hall da casa para ver como estava seu próprio look: ela vestia uma calça justa preta, botas de cano curto, uma camisa leve cinza e um lenço. Resolveu prender o cabelo pois seus cachos eram muito volumosos e talvez estivessem (na visão de Maura) a deixando chamativa. As duas pegaram seus apetrechos e saíram correndo porta afora. Deram algumas voltas com o carro e nada de acharem o endereço.
– Estamos perdidas... – comentou Tinker relatando o óbvio.
– Eu não conheço nada nessa cidade e por que... Por que eles dirigem do lado errado?! Isso só torna as coisas mais difíceis! – esbravejou Maura já irritada com a situação.
– Ok, relaxa, vai dar tudo certo, é só o GPS resolver colaborar com a gente que... Aqui! Pronto, funcionou, vira na próxima à esquerda, Maura!
A analista foi direcionando o caminho e em pouco tempo as duas chegaram à luxuosa mansão do político. Respiraram fundo e se olharam dando um sorriso confortante uma à outra antes de saírem do carro rumo ao primeiro caso delas em Boston.
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