Acreditar nem sempre é subjetivo, uma vez que todo ser humano é produto do social. Maria não pensava dessa forma quando conheceu Joana, no cerne de sua fraqueza e ingenuidade imaturas, ímpares da tenra idade que a abarcava.

Maria tinha crenças vindas dos tempos de sua avó, embora não tivesse ciência disso. Ela costumava acreditar em coisas como não poder passar por baixo de escadas, pois traria má sorte, de mesmo modo que avistar um gato da cor da noite também o faria, e pensava ser um pensamento só dela, ainda que ouvisse os mais velhos dizerem as mesmas coisas. Ora essa, crença é subjetiva, ela dizia.

Mas então Joana aconteceu.

Joana tinha cabelos cor de fogo e olhos de rapina, vívidos e, paradoxalmente, escuros como a noite, tanto que malmente se via a pupila. Ela acreditava em sonhos de noites quentes de verão se tornando realidade, de mesmo modo que acreditava que Maria era a mulher mais linda do mundo inteiro.

Maria discordava, o fazia com muita frequência só por fazer. Ela sabia que era puramente sua vontade por ir de encontro com o pensamento comum, mal sabendo estar intrínseca nele de tal modo a não saber diferenciar o que acreditava do que era, de fato, verdade.

A verdade é uma só, ela dizia. Joana discordava ferrenhamente, e ria.

Maria viu suas crenças começarem a ruir no momento exato em que quis beijar Joana pela primeira vez. Sempre acreditara ser impossível amar a um semelhante, mas ali estava ela: amando. Era estranho, porque era novo e o novo tendia a assustá-la por estar sempre dentro do que acreditava da vida.

Ela acreditava que passar por baixo de escadas traria má sorte, de mesmo modo que acreditava que uma mulher amar outra mulher não devia dar em coisa boa.

Joana não sabia disso, porém. Ela sabia que Maria tinha suas questões internas para lidar, mas não fazia ideia da dimensão das coisas, exatamente por não estar no olho do furacão. Ela pegava o vento pelas beiradas, sentia a brisa longe do furacão, o percebia, mas não sentia de fato. Maria, porém, sabia exatamente como era estar no cerne de tudo.

Era dela que partia o acreditar e o querer e, a partir do momento que passou a querer o contrário do que acreditava, passou a se questionar.

Se estou errada nisso, em que mais posso estar?, se perguntava. As respostas não vieram do dia para a noite, e pensar sobre doía. Doía porque sair da bolha é doloroso, uma vez que respirar um ar diferente do que já se está acostumado machuca de dentro pra fora e de fora pra dentro na mesma proporção.

Questionar-se é sentir dor, meter-se com o desconhecido é experienciar o desconhecido e o que a gente não conhece é sempre arriscado. É arriscar tudo ou nada. E Maria não estava preparada pra se queimar ao colocar a mão no fogo.

Ela começou colocando um dedo e, embora doesse, o ardor logo passava.

Beijou Joana numa noite em que a lua brilhava no firmamento, o desenho redondo pintado no céu sendo palco para o selar mais puro que já havia trocado na vida com alguém. O susto fora tanto, que a fizera repensar sobre suas escolhas.

Se estava errada sobre aquilo, inferno, sobre mais qual questão estava errada?

E se as escadas nada tivessem a ver com a má sorte? E se o gato preto fosse só e somente uma criação de sua mente para justificar as coisas ruins que lhe aconteciam? E se gostar de um semelhante fosse tão comum e normal que as pessoas já não ligassem mais, apenas ela se importando sobre uma questão que ninguém mais parava pra pensar?

E se estivesse errada sobre tudo?

Ao passo que se questionava, colocava ainda mais a mão no fogo e o lume em sua pele queimava como os nove infernos. Céus, morar em sua cabeça estava sendo o nono ciclo infernal! Que os céus tivessem piedade, pois o inferno jamais teria.

Mas quem dirá o que é certo e o que é errado?

O subjetivo deixara de ser e passara a ser coletivo e objetivo.

Em sua mente anuviada por tantas questões, não conseguia enxergar que apenas deveria parar de pensar sobre e apenas fazê-lo. Mas e se o fizesse?

A questão prima era a de que pensar sobre, embora dolorido, ainda doía menos do que colocar-se na situação física e experienciar. A experiência é concreta, por isso nos traz alguma certeza e o certo dói muito mais do que a incerteza de não saber no que tudo pode resultar.

A partir do momento que tirou o pensamento de sua mente e o transformou na ação de beijar Joana, tudo virou um completo caos.

Ela não gostava de pensar demais, e era exatamente por isso que gostava de acostumar-se com as ideias perpassadas por sua avó, mesmo que sempre achasse partir de si mesma. Que direito Joana tinha de lhe tirar de seus pensamentos e trazê-la para a realidade?

Joana a fazia pensar, tirava-a da dádiva da ignorância e a trazia para uma realidade completamente oposta ao que havia criado, mentalmente, ao longo da vida.

Foi assim que descobriu que amar doía.

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