Era Uma Vez o Amor
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Emma saiu da mansão de Regina e entrou no fusca. Ficou por alguns segundos olhando em direção a casa, lembrando de tudo que tinha acontecido naquela noite.
Ficou uma semana sem vê-la, lutando com seus pensamentos, dizendo para si mesma que não estava sentindo falta dela. E então, sem menos esperar, encontra Regina desacordada dentro do carro batido no poste. Encontro mais inusitado não podia ter. “Com Regina nada é convencional”. Pensou sorrindo aliviada de saber que não tinha sido nada grave. E esse encontro nada convencional fez Emma perceber que estava mesmo sentindo falta de toda arrogância e prepotência de Regina.
Deu a partida em seu fusca e foi para seu apartamento. No caminho da ida passou mais uma vez pelo local do acidente e avistou o carro de Regina lá, batido no poste. Sentiu um frio na espinha. Lembrou do momento em que viu a testa de Regina sangrando, e logo em seguida ela quase gritando de dor. O coração de Emma gelou.
Suspirou mais tranquila lembrando que havia deixado a morena em casa sã e salva. Estava tudo bem com ela agora.
Chegou ao apartamento e entrou devagar. Já era bem tarde, passava de meia noite, e Mary Margaret com certeza já estava dormindo. As luzes estavam apagadas. Avistou a amiga dormindo em sua cama que ficava praticamente no meio da sala. Foi caminhando no escuro e acabou tropeçando numa mesinha. Xingou mentalmente um palavrão. Mas conseguiu chegar até a cozinha.
Acendeu uma lâmpada que iluminava só aquela parte da casa. Retirou sua jaqueta de couro e foi até a geladeira. Mary disse que tinha guardado comida pra ela lá. Colocou o pote no microondas e sentou-se na bancada. Sua mente não fazia outra coisa a não ser pensar em Regina. “Será que ela está mesmo bem?”. Nem ela mesma conseguia entender tamanha preocupação. Apesar de ter visto com seus próprios olhos e ouvido do médico que Regina estava bem, Emma estava aflita. “Se eu pudesse estar lá com ela pra ajudar e...” Nesse momento o microondas apitou, tirando-a de seus pensamentos.
Correu até ele pra desligar. Olhou para Mary, a amiga continuava a dormir, apenas se mexeu na cama.
“O que teria acontecido com ela se eu não tivesse passado por lá?”. Se perguntava enquanto comia no balcão sua janta requentada. Mil pensamentos ruins passaram pela sua mente. Ajudar Regina daquela forma foi a última coisa que imaginou fazer. Já a tinha salvo do incêndio naquela vez no escritório dela. Mas dessa vez foi muito diferente. Regina, apesar de altiva e arrogante como sempre, estava vulnerável. Sangrando, não conseguia andar. Naquele momento ela estava totalmente dependente de Emma.
Ao carregá-la no colo sentiu uma emoção confusa, mas muito gostosa. Não saberia explicar o que foi. Mas foi algo como se sentir viva outra vez. Sentir vontade de proteger alguém. Mas não da mesma forma que sentia necessidade de proteger Henry. Era um sentimento diferente.
Cada vez que tocou no corpo de Regina naquela noite, sentiu todos os pelos de seu próprio corpo se arrepiarem. E o coração bater na velocidade de um carro de Fórmula 1.
Quando a viu desacordada dentro do carro sentiu uma dor tão grande no peito. A última vez que lembrava ter sentido aquela dor foi quando Neal a abandonou. Era a dor da perda.
Ficou tentando comparar as duas emoções. Os dois momentos. Regina era assim tão importante para ela sentir o mesmo medo de perder que sentiu quando Neal se foi?
“Meu Deus, será que é isso mesmo? Eu to mesmo sentindo isso pela Regina?”. Balançou a cabeça negativamente pra tentar afastar aqueles pensamentos insanos. Tentou se concentrar na comida, que apesar de requentada estava muito gostosa.
“Nossa, que aflição foi ver ela no hospital sangrando e naquela cadeira de rodas”. Pronto, um segundo depois lá estava Regina de novo povoando sua mente. Bom, apesar de tudo o pior já tinha passado. Agora era apenas recuperação. E Regina é uma mulher estritamente disciplinada, com certeza vai levar a recuperação muito a sério.
Mais tranquila, Emma revivia todo o acontecido em sua mente. Lembrou-se de Regina com aquela pose de durona. “Morrendo de dor e se fazendo de durona. Só ela mesmo.” Sorriu.
E como relâmpago, o momento em que Regina enlaçou os braços no pescoço dela, veio a sua mente. Aqueles olhos castanhos que pareciam tanto com o chocolate que Emma adora. Aquele olhar que parece ter magnetismo, porque seus olhos sempre ficam grudados nele. Sentir os braços de Regina em volta de seu pescoço fez seu coração acelerar. Emma sabia disso. E não foi por constrangimento. Embora tentasse não admitir, no fundo sabia disso.
Sentiu o peso de Regina em seu corpo. E aquilo foi bom. Sorriu mais uma vez com a lembrança. Era difícil admitir, sim, com certeza muito difícil. Mas Emma estava começando a perceber o que estava acontecendo de fato.
– Você tava resolvendo um caso ou tava namorando? – A voz surgiu do nada e Emma quase caiu do banco com o susto.
– Ei, calma – Mary Margaret sorriu.
– Merda, Mary!! Que susto!! – Emma passava a mão no peito e respirava fundo tentando se acalmar.
– Então estamos quites pelo susto que você me deu outro dia – Gargalhou levemente.
– Mas eu não fiz de propósito.
– E nem eu – Continuava a sorrir – Mas não muda de assunto, não. Você tava trabalhando mesmo ou fugiu pra namorar? – Mary perguntou travessa.
– Namorar? De onde você tirou isso?
– Dessa sua cara de quem viu o passarinho verde – Emma a olhou sem entender e a amiga continuou – Tá aí com esse sorriso bobo, suspirando. Isso pra mim tem cara de paixão.
– Como se eu tivesse tempo pra essas coisas – Emma disse séria.
– Mas devia ter. Você é bonita, jovem. Tem que namorar. Sei que o que aconteceu com o Graham te deixou muito triste. Mas foi uma fatalidade. Você tem que seguir em frente.
– Você fala como se ele fosse o amor da minha vida. Não foi nada demais... Só... uns beijos.
– Mas se ele não tivesse falecido acho que teria rolado mais. – Emma pensou cabisbaixa por um momento.
– Não sei. – Realmente não sabia. Se sentia atraída por ele. E naquele dia fatal na delegacia realmente sentiu algo bom com ele. Mas não sabia o que teria surgido depois dali. O mais provável era que nada. Era o que sempre fazia quando um homem se aproximava demais. Ela dava um jeito de o afastar.
– Desculpa, Emma. Eu não devia ter tocado nesse assunto.
– Sem problemas – Continuou cabisbaixa.
– Mas não me enrola – Mary sorriu tentando animar a amiga – Quem é o felizardo que tá te deixando assim suspirando pelos cantos?
– Que felizardo, Mary? Não tem nada a ver isso que você ta falando. Eu tava mesmo resolvendo um caso. Um caso inusitado... Mas um caso – Sorriu levemente.
– O que houve afinal?
– Bom... Eu tava vindo pra casa e... – Não sabia porque, mas estava hesitante em falar – e... vi um carro batido num poste... Quanto cheguei perto eu vi... que era o carro da Regina – Mary Margaret arregalou os olhos – E ela tava lá dentro... desacordada... Enfim, ela tava sangrando na testa e com a perna machucada. Então eu levei ela pro hospital.
– Mas... e... o que?... Ela tá bem? – Perguntou assustada.
– Sim. Agora está. Foi só um tornozelo torcido, um dedo deslocado e com certeza um galo na cabeça.
– Ufa! – Mary suspirou aliviada, levando a mão ao peito.
Emma a olhou confusa.
– Curioso isso. Ela armou pra você... Quer dizer, nós achamos que foi ela. Te colocou na cadeia. E ainda assim você fica feliz dela estar bem?
– Emma, eu não sou uma pessoa ruim. Não desejo o mal de ninguém... Não sei porque Regina fez aquilo comigo. Isso se foi ela mesma. Mas acho que ela vive em uma profunda dor, uma mágoa. Ela não é feliz. E tenta compensar isso no sofrimento dos outros. Não tenho raiva dela. Tenho pena... E espero do fundo do coração que um dia ela encontre a felicidade.
Emma sorriu. Sem dúvida sua amiga era uma mulher maravilhosa e cheia de virtudes.
– Mas você ta assim com esse sorriso bobo e suspirando por causa da Regina?
Emma engoliu em seco. O que será que Mary quis dizer com aquilo.
– Mas não tem sorriso bobo nenhum. Para com essa baboseira.
– Agora eu fiquei realmente confusa. Porque essa sua carinha parece de alguém apaixonada. Mas devo ta enganada. Deve ser o sono – Sorriu.
– Deve ser mesmo. Aí fica falando essas coisas sem cabimento – O coração de Emma estava acelerado. Será que as palavras da amiga faziam sentido?
– Vou voltar a dormir – Disse bocejando.
– Mary, como o Henry está?
Mary sorriu carinhosamente para ela.
– Está bem. Mas morrendo de saudades suas – Emma sorriu ao ouvir isso – Sempre pergunta por você. Mas diz que é pra eu não te falar nada porque a mãe dele não pode saber.
Emma suspirou. Por que Regina tinha que ser assim?
– Eu o vi hoje – Mary olhou intrigada – Quando deixei a Regina em casa ela pediu pra eu ir até o quarto dele ver como ele estava. Já que ela não poderia subir... E eu não resisti, entrei no quarto e dei um beijo nele – Mary sorriu pra ela. – Porque não pode ser sempre assim?
Mary se aproximou.
– Quem sabe um dia, Emma? Nada é impossível quando acreditamos – Emma não respondeu nada. – Agora termina de comer e vai descansar, já tá tarde.
Mary deu um beijo no topo da cabeça de Emma. E a loira fechou os olhos para aproveitar aquele carinho da amiga. Como aquilo era reconfortante.
Mary foi se deitar e Emma terminou seu jantar, pegou sua jaqueta e subiu logo em seguida. Tirou a roupa, jogando-a na cama e foi tomar um banho. A água quente caindo pelo seu corpo, aquecendo sua pele. Mas seu coração já estava aquecido. Desde aquele momento em que segurou Regina no colo, seu coração batia tão rápido que causava um certo calor.
Deixou a água cair em suas costas. A mente fervilhava de pensamentos. Quando teve Regina em seu colo sentiu, mesmo que por um breve segundo, algo como borboletas no estômago. Seu cheiro estava tão próximo, seu olhar, sua boca.
Depois de sentir tudo aquilo já não tinha mais porque tentar se enganar. Estava atraída por Regina. “É, Emma, você tá ferrada”. Sorriu desolada. “Com tanta mulher no mundo pra você ter essa curiosidade, tinha que ser logo a Regina?”.
Curiosidade. Sim, foi o que Emma disse para si mesma que estava sentindo. Regina é uma mulher linda. A postura altiva e arrogante, na cabeça de Emma, é o que faz dela mais atraente ainda. Isso pode acontecer com qualquer pessoa, e se tratando de uma mulher tão bonita quanto Regina, é fácil de explicar a atração.
Era isso, atração, curiosidade. Nada demais. Emma é uma mulher livre e desprendida de preconceitos. “É curiosidade”. Afirmou para si mesma. “Uma curiosidade por mulheres, normal isso acontecer. Estranho, afinal sempre gostei de homem. Mas não tem nada demais. Talvez isso passe do mesmo jeito que veio, do nada.”
Admitir para si mesma fez ela até se sentir mais leve. Apenas atração, apenas um curiosidade. Uma curiosidade que nunca seria matada, pelo menos não com Regina. Mas ainda assim, apenas curiosidade. Super normal.
Mas daí a estar apaixonada, como Mary Margaret disse, é muito diferente. “Eu não sou lésbica!” Disse para si mesma. “Posso até estar curiosa e atraída por outras mulheres, mas é só isso. Algo que vai passar. E isso não faz de mim uma lésbica. Até porque, nem sei se é mesmo isso”.
Mas Emma não era boba. Sabia que não estava atraída por mulheres, e sim por uma mulher só. Tentava a todo custo negar isso, por que por mais estranho que possa parecer, sabia que seria mais fácil lidar com isso se fosse em relação a outras mulheres, estranhas, desconhecidas. Mas no fundo sabia que era só Regina que despertava isso nela.
Então lembrou-se do medo que sentiu quanto pensou por um segundo que ela podia estar morta. Foi o mesmo medo que sentiu quando aquele policial disse que Neal tinha armado pra ela. Mas não por estar indo pra cadeia, e sim pela dor de perdê-lo.
Como poderia estar sentindo esse mesmo medo em relação à Regina? A mulher que quis acabar com ela.
Talvez fosse por Henry. Por medo de ele perder a mãe. Porque embora Emma fosse a mãe biológica, naquele momento de sua vida, sabia que não conseguiria cuidar de Henry como Regina fazia. E Henry não suportaria perder Regina.
Pensou em seu filho, lembrou dele na cama dormindo como um anjo. Naquele momento no quarto dele, sentiu vontade de nunca mais sair de perto do garoto. Cuidar dele, protegê-lo de tudo de ruim. Já amava tanto aquela pessoa pequena. Como seria se não o tivesse dado para a adoção? Como seria a vida deles? Será que boa? Ou complicada?
Saiu do banho pensando essas coisas. Enrolou-se na toalha e foi para o quarto. Colocou uma roupa confortável e foi deitar. Suas roupas estavam jogadas em cima da cama e ela retirou tudo. Quando pegou a jaqueta sentiu um aroma já bem conhecido. Cheiro de perfume de maçã.
Olhou para o casaco por alguns segundos. E instintivamente levou a peça até o nariz. Aspirou aquele cheiro. Era o cheiro de Regina.
Quando a pegou no colo, seus corpos ficaram colados, e o cheiro da morena passou para as roupas da loira. E que cheiro delicioso é o de Regina. Se apenas um vestígio no casaco de Emma era tão bom assim, como deveria ser o cheiro vindo diretamente da pele dela?
Aquele cheiro invadindo suas narinas, o coração começando a dar sinais de que ia bater desesperado de novo, as tais borboletas voltando a voar em sua barriga.
Emma assustou-se com tantas sensações só por causa de um cheiro. Não queria sentir aquilo. Estar atraída até vai, mas ter essas sensações não. Largou a jaqueta numa cadeira no canto e se deitou. Tudo que precisava era de uma boa noite de sono pra ver se recobrava sua sanidade.
***
Regina acordou mal. Sentindo dores pelo corpo. Principalmente na cabeça. E na perna então, estava quase insuportável. O efeito dos medicamentos que tomou no hospital já haviam passado, e a dor voltou impiedosa.
Foi difícil levantar. Tinha deixado as muletas ao lado da cama do quarto de hóspedes. Sentou na beirada da cama, olhou para aquelas coisas e fechou a cara ainda mais. Ainda não acreditava que ia ter que andar com aquilo por dias.
Suspirou irritada. Pegou os objetos. Foi difícil se apoiar, achar posição pra levantar. Mas com muito esforço conseguiu.
Caminhou direto para o banheiro que ficava perto do quarto de hóspedes do andar de baixo. Na noite anterior chegou tão exausta que adormeceu com as roupas que estava.
Olhou-se no espelho. Um galo enorme havia se formado no local em que bateu a cabeça. Revirou os olhos com raiva. Regina era muito vaidosa, e qualquer coisa que atacasse sua beleza a deixava extremamente furiosa. Como desejou por um momento estar na Floresta Encantada, onde tinha magia, e fazer sumir da sua testa aquela coisa horrorosa. E, é claro, curar sua perna.
Com muita dificuldade, tentado se apoiar na parede, começou a tirar a roupa.
"Quer ajuda pra trocar de roupa?"
Imediatamente a voz de Emma perguntando isso lhe veio à mente. Sentiu um calafrio e a bochecha corar como na noite anterior.
Envolveu a bota com um saco plástico e entrou em baixo do chuveiro. Se apoiava na parede, na porta do Box, tentava se equilibrar em uma perna só.
A dor estava demais. Ainda mais agora que estava em pé. "Tudo culpa sua, Swan! Arghh!! Pensou com raiva. " Se ela não ficasse atormentando meus pensamentos, eu não teria bebido e depois saído daquele jeito pra dirigir”! "E sabe-se lá Deus porque ela atormenta minha mente assim"
Alguns minutos depois terminou seu banho. Tentava arrumar um jeito de culpar Emma por tudo de ruim que acontecia. Mas no fundo sabia que tinha sido ao contrário.
"O que teria acontecido se ela não tivesse passado por lá?" Perguntou-se enquanto enxugava o corpo.
Minutos depois de Emma tê-la deixado em casa e ter ido embora, Regina avistou seu celular numa mesinha no hall da casa. Havia saído sem ele. Mesmo se ela tivesse acordado sozinha, não teria como pedir ajuda.
"Será que outra pessoa teria passado?" Era muito difícil pra ela admitir, mas Emma tinha sido sua salvação naquele momento. Se não fosse por ela, talvez algo mais grave tivesse acontecido.
"Salvação". Regina sorriu irônica. "E a salvadora me salvou" pensou em tom debochado. "Era só o que faltava".
Saiu do banheiro. Por sorte tinha algumas roupas suas na lavanderia da casa. Pegou roupas confortáveis. Geralmente Regina gostava de se vestir imponente e impecável até quando estava em casa, mas com toda aquela dor só conseguia pensar em vestir algo que a fizesse relaxar.
Colocou uma calça de moletom, uma camisetinha regata e colocou um suéter azul claro por cima. Calçou uma pantufa no pé esquerdo e foi em direção ao telefone.
Ligou para a farmácia para pedir os remédios que Dr. Whale receitou. Como sempre usou seu tom nada gentil. E como era para a prefeita prometeram entregar o mais rápido possível. O rapaz que atendia ao telefone quase gaguejava, tamanho era o medo que sentia dela. Antes Regina adorava isso. Mas agora já não tinha tanta certeza. É claro que gostava, mas sentia que aquilo não era mais o suficiente. Saber que faziam tudo pra ela por medo e não por consideração de verdade.
No fundo Regina só precisava de uma coisa: ser amada! Mas ela entendia direito isso ainda.
Desligou o telefone e foi para a cozinha preparar o café da manhã.
Ouviu ao longe o despertador de Henry. Alguns minutos depois foi até o pé da escada e chamou por ele. Sabia o quanto era preguiçoso pra se levantar. Raramente se levantava sozinho.
Alguns minutos depois ele aparece na porta da cozinha.
– Bom dia, querido — disse seria, mas em tom calmo.
O garoto estava parado estático na porta, com os olhos arregalados, olhando pra perna dela.
– Mã... Mãe... Que isso? — Disse apontando para perna dela — Que que aconteceu?! — Ele estava visivelmente aflito.
– Um acidente... Bati com o carro e me machuquei — Ele olhou pra ela com os olhos ainda mais arregalados e a boca entreaberta.
– Mas eu estou bem, querido — Ela sorriu — Só torci o pé... e machuquei a cabeça – Apontou para o curativo.
Ele tentava pronunciar algo, mas era como se não conseguisse mais falar. Estava muito assustado.
– Está tudo bem, querido – Continuava sorrindo pra ele.
– Mas quando foi isso? – Finalmente conseguiu formar as palavras – Ontem quando eu fui dormir você tava bem.
– Bom... Eu precisei sair pra resolver um problema e acabei batendo o carro. – Disse voltando a mexer nos objetos sobre a bancada. – Então fui pro hospital e me colocaram isso.
– Mas quem te levou pro hospital se você tava machucada?
Regina fez silêncio por alguns segundos.
– Isso não importa, Henry. O que importa é que estou bem. Agora sente-se pra tomar café, se não vai se atrasar. Não vou poder te levar hoje, você vai ter que pegar o ônibus.
Já era difícil demais ver seu filho gostando de Emma, sentindo saudade dela. Dar mais esse motivo pra ele amá-la ainda mais seria como perder uma batalha.
Estava na mesa de frente para o filho. Ele comia calado e de vez em quando trocava olhares com ela. Apesar de sua mãe estar machucada, Henry estava feliz por poder ir pra escola sozinho. Ele adorava isso.
Regina o observava. Como ele era lindo. Seus traços eram tão perfeitos. “Se parece tanto com ela.”
“Ai, Deus! Por que eu não paro de pensar nela desse jeito?” “Eu devia estar pensando numa maneira de mandá-la pra bem longe dessa cidade! E em vez disso, estou aqui pensando nos traços perfeitos do rosto dela” Regina repreendia-se mentalmente. Mas já era quase impossível controlar. Quanto mais tentava não pensar nela, mais a loira invadia sua mente.
Regina estava sentindo ódio de si mesma pela noite anterior. Por ter se deixado levar por aquelas sensações perto de Emma. Uma semana inteira sem vê-la, convencendo-se de que nada era melhor do que ficar longe dela. Pra então simplesmente sentir felicidade por estar perto dela?
“Não!! Não posso admitir isso!” “O que é isso? Carência? De uma amiga?” Regina conhecia bem aquele vazio dentro dela. E quando estava perto da loira na noite anterior, por um momento aquele buraco foi preenchido. E sentiu uma sensação de bem estar que há muitos e muitos anos não sentia.
Terminaram o café e Henry se levantou e foi escovar os dentes. Quando voltou já foi logo se despedindo da mãe.
– Espera, filho – Ela o chamou. Levantou-se apoiada nas muletas e foi até uma mesinha que tinha uma gaveta. Abriu gaveta trancada a chave. E de lá tirou o livro de Henry. – Quero te devolver isso – Entregou na mão dele.
Henry olhou para o livro como se o examinasse.
– Você já saiu do castigo – Ela continuou – Então pode ficar com ele. Mas desde que você pare com essas histórias de contos de fadas. Isso não existe, Henry... E... eu não sou uma Rainha má – Disse séria, porém num tom melancólico.
A campainha tocou. O som fez Regina se virar para a porta. “Salvo pelo gongo” Henry pensou. Se sentiu aliviado de não ter que continuar aquele assunto com ela.
– São os remédios que eu mandei entregar. Pega pra mim, querido. Leva o dinheiro e paga o entregador – Pegou umas notas que já estavam separadas em cima da mesma mesinha e deu para o garoto.
Enquanto ele ia atender, ela sentou novamente na cadeira. A dor atacava sem misericórdia. Precisava urgente daqueles remédios.
– Emma?! – O garoto falou surpreso, com um sorriso enorme.
Regina imediatamente olhou pra porta. Seu coração deu um salto.
– Oi, garoto!- Falou com ele e depois mirou Regina. Não sabia direito como agir com ele depois que ela os proibiu de se verem.
O coração de Regina acelerou no exato momento em que ouviu Henry dizer o nome dela. E quando de fato a viu na porta sentiu aquele friozinho na barriga.
Regina não podia acreditar. Era mesmo ela. Mas o que fazia ali àquela hora da manhã? Como num passe de mágica as sensações inusitadas que sentia perto dela voltaram.
– O que você ta fazendo aqui a essa hora, Emma? – Ele perguntou rindo.
– Vim ver como sua mãe está? – Ela disse ainda na porta.
Henry a olhou intrigado.
– Ué, mas como você sabia...?
– Henry, você vai se atrasar! Deixa a senhorita Swan fazer o que veio fazer. – Disse séria. Não queria que ele soubesse que Emma a havia ajudado. Tinha que cortar logo aquela conversa entre eles.
O garoto olhou para a mãe e voltou a olhar para Emma.
– Tchau, Emma – Disse se jogando nela em um abraço apertado – Adorei te ver.
Emma não soube direito o que fazer. Mas aproveitou o momento e o abraçou também.
– Boa aula, garoto.
Ele saiu correndo. E a loira continuava parada a porta. Regina ainda não tinha convidado ela pra entrar.
Depois que Henry se foi um silêncio se fez por uma fração de segundos, até que Regina disse:
– Vai ficar parada na porta igual a um 2 de paus? – Regina disse olhando para a loira.
– Tô esperando você me convidar pra entrar – Como era possível o coração bater tão forte só de estar olhando pra morena?
– Entra logo, Swan! – Regina disse revirando os olhos, fingindo estar irritada. Mas no fundo, no íntimo de seu ser, onde só ela podia ver, uma felicidade começava a invadi-la.
Emma entrou, com todo aquele jeitão. Sempre se sentindo à vontade em qualquer lugar. Caminhou até Regina. Enquanto caminhava observava a morena. Nunca tinha visto Regina tão à vontade. Com roupas leves, confortáveis. Achou uma graça a pantufa que ela tinha no pé esquerdo.
– O que você está olhando, senhorita Swan?
– É que to achando engraçado – Disse rindo.
– O que é tão engraçado? – Regina disse confusa.
– Nunca vi você assim tão... como eu posso dizer? – Fez uma pausa pra pensar na palavra certa – Tão... natural. Assim à vontade.
Regina sentiu mais uma vez sua bochecha corar perto dela. Vergonha? Talvez. Sentiu-se mal por estar vestida daquele jeito tão simples perto dela. Assim ela estava parecendo frágil e odiava isso. Principalmente diante de quem era.
– Veio aqui pra falar das minhas roupas? – Perguntou ríspida.
– Vim saber como você está, Regina – Disse séria agora.
– Eu estou ótima. – Regina estava incomodada com a presença dela. Queria que ela fosse embora. Mas ao mesmo tempo desejava que ela ficasse ali, exatamente onde estava. Emma estava próxima, parada em pé perto a mais ou menos um metro de distância. E o cheiro da loira atingia Regina. Aquele cheiro era tão bom. E junto com ele aquele olhar verde, que parecia realmente preocupado. Regina estava perdendo a noção. Queria manter a razão, mas aquelas sensações estavam dominando ela.
– Olha, não precisa ser tão rude, OK? Eu realmente fiquei preocupada. Você está melhor mesmo – Emma disse enquanto puxava uma cadeira ao lado de Regina e sentava-se. A morena olhou incrédula, Emma realmente se fazia à vontade em qualquer lugar. Não tinha muitos “modos”. Nisso lembrava sua mãe, Branca de Neve. Ela estava se sentando na cadeira sem nem ter sido convidada pra isso. Mas ao contrário do que Regina pensou que ia sentir, não ficou irritada. Achou engraçado e riu por dentro.
– Sim, Swan. Estou melhor. – Disse num tom mais calmo.
Emma sorriu. E sentiu vontade de abraçá-la. Mas como fazer isso? Seria insanidade pura. Regina sentiu um calor no peito quando viu aquele sorriso.
Nesse momento a campainha toca mais uma vez. Regina olhou pra porta e fez menção de que iria se levantar. Mas Emma a impediu.
– Deixa que eu atendo – Disse tocando a mão de Regina para que ela não se levantasse.
Emma não sabia que aquele simples toque iria provocar uma onda de emoções nas duas. Foi uma fração de segundos, mas suficiente pra fazer o coração de ambas acelerar.
Abriu a porta e era o entregador na farmácia. Nesse momento Regina lembrou de algo.
– Droga, Henry levou o dinheiro. – Emma a olhou confusa – Eu achei que era a farmácia quando você chegou e dei o dinheiro pra ele pagar. Ele saiu e levou o dinheiro junto. Vou pegar mais lá dentro. Novamente fez menção de se levantar.
– Não, Regina. Fica aí. Deixa comigo – Virou para o entregador – Quanto deu tudo?
Regina ficou surpresa.
– Trinta e sete dólares – Respondeu o rapaz.
– Swan, não! – Regina protestou.
– Regina, fica quieta aí. Eu já volto. – Olhou novamente para o rapaz. – Vem comigo aqui no carro, por favor.
Saiu e o rapaz a seguiu. Pagou o dinheiro e pegou os remédios.
Regina estava sem acreditar, já não bastava Emma tê-la levado pro hospital, agora estava pagando os remédios dela. Por que ela estava sendo... tão legal?
Emma voltou com a sacola da farmácia, fechou a porta e foi até Regina.
– Qual você tem que tomar agora? – Perguntou enquanto fuçava dentro da sacola.
– Não precisava ter feito isso, senhorita Swan. Vou pegar o dinheiro pra te pagar.
– Não precisa.
– É claro que precisa. Não tem cabimento você pagar as coisas pra mim – Disse com o tom de voz já um pouco alterado.
– Você não tem que ficar fazendo esforço. Não foi nada demais.
– Eu agradeço, mas vou pegar o dinheiro – Tentou se levantar e mais uma vez Emma não deixou. Tocou os ombros dela com as duas mãos para que ela não se levantasse.
Regina ergueu a cabeça automaticamente e encontrou aqueles olhos verdes na direção dela. O olhar delas era como dois imãs com cargas opostas que se atraiam um para o outro.
O coração de Emma começou a bater mais rápido. E mais rápido, e mais rápido. Não foi nada demais, apenas uma olhando pra outra, e mesmo assim Emma sentiu como se todo o resto do mundo a sua volta tivesse desaparecido. E a única coisa que conseguia enxergar era a beleza daqueles olhos castanho chocolate.
Para Regina não foi diferente. Já há algum tempo não conseguia deixar de admirar aquelas esmeraldas. E agora, ali tão próxima dela, os olhos pareciam um lago reluzente onde ela queria mergulhar. Seu coração batia tão rápido e forte que sentiu medo de que Emma pudesse ouvir.
Tudo foi muito rápido. Emma desviou o olhar desconcertada e voltou a sentar na cadeira de antes.
– Olha, foi um favor. Não precisa pagar mesmo. OK? – Fez uma pausa — Mas se quiser retribuir, pode ser de outra forma – Regina fez uma expressão confusa. Emma pensou um pouco e respirou fundo pra falar. – Você podia tentar... ser um pouco mais... flexível em relação a mim e ao Henry.
– O que quer dizer, senhorita Swan?
– Olha, Mary Margaret me disse que ele tem andado muito triste. Principalmente nessa semana que você... Bem, proibiu ele de me ver – Disse num tom triste.
– Eu fiz o que era certo – Seu tom de voz já havia mudado para o costumeiro tom superior e ríspido.
– Não, Regina. Você fez o que te convinha, o que era melhor pra você. Você quer afastar ele de mim e não mede as consequências. Você não percebe que isso é ruim pra ele.
– Não me venha agora me dizer o que é melhor pro meu filho – Enfatizou o “meu filho” – Você não sabe nada sobre o que é ser mãe.
A raiva começou a surgir em Emma. Mas tinha que se acalmar. Precisava achar um jeito de fazer Regina entender que Henry estava sofrendo com aquilo.
– Eu só to querendo dizer que...
– Chega, Swan. Não quero ter esse tipo de conversa com você. Ele é meu filho!!!
– Eu sei, Regina, mas eu sou – “Mãe dele também”. Pensou – Amiga dele – Falou. – Ele gosta de mim e...
– Já chega, senhorita Swan – Regina a cortou rígida – Afinal foi pra isso que você veio aqui? – O tom dela parecia magoado agora – Você quer me comprar me ajudando, pagando meus remédios. É isso? Pois você não vai conseguir – Disse quase gritando.
– Regina, você ficou louca? Isso que você tá dizendo é ridículo. Eu só fiz um favor, não quero nada em troca.
– Pois bem, se você não quer aceitar o dinheiro agora, eu vou depositar na sua conta depois. E também uma gratificação por ter me ajudado ontem. Não quero ficar em dívida com você.
– Regina, eu não...
– Você não veio saber como eu estou! Veio tentar me bajular pra eu te deixar ver o Henry. Mas você não vai tirar ele de mim, Swan. Ele é meu.
– Realmente, Regina, não dá pra gente conversar civilizadamente. Você sempre acha que todos estão contra você... Só que diferente de você, o resto do mundo não está sempre tramando pra ter o que quer. – Disse calma, mas com o semblante fechado.
Aquelas palavras foram como uma facada em Regina, mas como sempre ela sabia não deixar transparecer.
– Tenha um bom dia, Senhora Prefeita. Espero que se recupere. – Falou totalmente seca.
Emma deu as costas e foi embora. Quando entrou no fusca pensou em como era idiota. Passou a noite inteira praticamente pensando se Regina estava bem, nem conseguiu dormir direito. Quando acordou estava aflita pensando se Regina estava conseguindo se virar sozinha. Indagou a si mesma mais de dez vezes se deveria ir visitá-la. E por fim decidiu que sim.
Estava realmente preocupada, queria ajudar. E a situação dos remédios, foi apenas pra que Regina não tivesse que se levantar e fazer mais esforço. E agora ela a acusava de estar querendo comprá-la. Isso era a coisa mais injusta.
“Idiota! É o que eu sou, idiota!!!”. Pensava dentro do carro indo pra delegacia. “Por que eu to me importando tanto com ela? Isso já ta indo longe demais! Tem que parar!”
***
Emma sabia que Henry iria pra casa sozinho. Já estava exausta de seguir as regras de Regina e nada mudar. Pegou seu fusca e foi vê-lo na hora da saída. Ficou esperando dentro do carro e quando o avistou, buzinou. O som daquela buzina do fusca era inconfundível. Ele ouviu e veio correndo na direção dela.
Quando ele entrou no carro, ela o abraçou apertado e demorado.
– Senti saudades, garoto! – Disse ainda no abraço.
– Eu também, Emma. – Saíram do abraço – Você e minha mãe pararam de brigar? Por que hoje cedo você apareceu lá em casa e agora tá aqui – Ele tinha um sorriso enorme.
– Infelizmente não, garoto. Sua mãe não quer que você fique perto de mim. Eu vim sem ela saber – Ele fechou o sorriso – Não dá mesmo pra entender. Ontem quando eu ajudei ela a ir pro hospital parecia que as coisas iriam mudar. Ela até pediu pra eu olhar você no quarto quando deixei ela em casa.
– Espera! – Ele a olhou confuso – Você ajudou ela a ir pro hospital?
– Foi, ué.
– Ela não quis me dizer que foi você. Quando eu perguntei quem tinha sido ela disse que não importava.
Emma realmente não esperava aquilo. Seu coração apertou.
– Sua mãe realmente não gosta de mim, garoto – Seu tom era melancólico. – Bom, agora é melhor você ir. Eu só queria mesmo te dar um abraço. Você vai perder o ônibus – Disse olhando em direção ao veículo do outro lado da rua.
– Tá bem, Emma. – Abraçou ela mais uma vez. Quando ele ia sair ela disse:
– Henry, cuida da sua mãe – Era mais forte que ela, não conseguia deixar de se preocupar. – Ela tá machucada e vai precisar da sua ajuda.
Ele apenas fez que sim com a cabeça e saiu do carro em direção ao ônibus. Emma deu a partida e foi de volta para a delegacia.
Depois do que Henry lhe disse, era hora de encerrar de vez aquela loucura. Regina era a mulher que tentara fazer da sua vida um inferno, e mesmo depois disso tudo, Emma a estava ajudando, se preocupando com ela. “Que idiotice. Devo tá amolecendo”. “É fato, ela e eu nunca vamos nos dar bem”. Sentiu um aperto no coração ao pensar isso.
***
Quando entrou em casa, Henry viu Regina deitada no sofá da sala, lendo um livro. Estava chateado por que ela tinha mentido pra ele. Mas ao mesmo tempo sabia que sua precisava dele. E apesar de tudo, ele a amava.
– Oi, mãe – Ele disse baixo.
– Olá, querido. Que bom que já chegou. Pareceu uma eternidade ficar aqui sozinha.
– Tá doendo? – Se referiu a perna dela.
– Um pouquinho só. Mas agora com os remédios, vai melhorar.
– Quer alguma coisa?
Regina sorriu emocionada.
– Não, querido. Estou bem.
– Ok. Ele disse se virando e saindo da sala.
– Ei, Henry! Onde vai? – Perguntou séria.
– Pro meu quarto.
– Mas... você acabou de chegar. Por que não fica um pouco aqui? – Só queria ficar um pouco com ele. Era tão ruim assim?
– Tenho dever pra fazer.
– Henry, por que você me trata assim? Eu sou sua mãe. – Ele a olhava sério – Eu amo você. E você me afasta.
– Eu não me sinto assim – Henry resolveu desabafar – Não sinto que você me ama. Me sinto um prisioneiro dentro dessa casa.
– Henry, isso não é verdade – Ela estava sentada no sofá de frente pra ele – É claro que eu te amo. Você é tudo que eu amo.
– Então porque você me deixa triste? – Ela franziu o cenho – Você sabe que eu gosto da Emma, e você não me deixa ver ela. Isso me deixa triste.
Ela bufou de raiva.
– Henry, ela não é uma boa influência pra você. Olha só onde você nasceu, na cadeia! E ela ainda abandonou você.
– Todo mundo erra. Igual a você – Regina não esperava que ele dissesse aquilo. Se sentiu desarmada – Ela é sim uma boa pessoa. Ela ajudou você ontem – Acabou soltando sem querer.
– Como sabe disso, Henry?! – Ela questionou assumindo uma postura rígida.
Ele gaguejou. Mas agora o estrago já tava feito.
– Ela que me disse. Você mentiu pra mim.
– Você esteve com ela?!
– Ela foi me ver na saída da escola.
– Eu já disse que não quero que ela vá te ver lá!! É isso que me deixa furiosa. Vocês fazem tudo as escondidas – Estava fervendo em raiva. – Não quero mais que veja ela, entendeu? Eu proíbo!!
– Se deixasse eu ficar perto dela de vez em quando a gente não teria que se ver escondido.
– Mas você é meu, Henry. E eu... não quero te perder – Disse com os olhos cheios de lágrimas, pela raiva, pelo ciúme, pelo desespero.
– Você diz que ela é ruim porque ela me abandonou, mas pelo menos ela fez isso porque achou que era melhor pra mim. Mas você não, você faz só o que é melhor pra você e não pensa em mim. Você me prende, mente pra mim, me trata como se eu não fosse uma pessoa e sim uma coisa. – Ele fez uma pausa. Ela escutava cada palavra em silêncio – Se ela não foi uma boa mãe, você ta sendo pior do que ela agora. – Disse quase chorando.
Aquelas palavras foram como milhares de espadas cravando em seu coração. Ele deu as costas e subiu correndo pelas escadas.
Ela não conseguiu segurar. As lágrimas vieram sem pedir permissão. Deitou-se novamente no sofá. E o que Henry disse ecoava na sua mente sem parar. Será que ele tinha razão? Estava sendo má? Não! Não com ele. Ela o amava, jamais faria mal pra ele.
Mas talvez estivesse fazendo sem nem se dar conta disso. Tinha medo de perdê-lo, como sempre perdia tudo de bom que acontecia na sua vida. “Será que eu estou sendo pior que ela mesmo?” “Mas eu só quero o melhor pra ele!”
Então lembro-se de sua mãe. De que ela com esse discurso de querer o melhor pra filha, a fez sofrer mais do que ninguém!
“Estou agindo como ela?”.
***
Já era quase onze da noite. Emma e Mary Margaret haviam acabado de jantar e conversavam na cozinha. Já estavam com suas roupas de dormir. Mary estava terminando de lavar a louça e Emma estava sentada no balcão. Conversavam, mas Emma não prestava muita atenção no que a amiga falava. Por que sua cabeça estava ocupada pensando em outra pessoa.
“Não acredito que depois de tudo eu ainda tô preocupada”. Na noite anterior havia praticamente admitido pra si mesma que sentia algum tipo de curiosidade por mulheres. E que Regina despertava nela essa curiosidade. E se já estava confusa, agora estava quase louca.
Por que sentir uma curiosidade podia ser até normal, mas daí a ficar pensando nela horas e horas. E se preocupando mesmo quando ela a tratava como um nada, era bem diferente. Não sabia entender aquilo. Precisava de ajuda.
Mary era sua melhor amiga. Aliás, sua única amiga. Será que poderia conversar com ela? Mas o que iria dizer? Nem ela sabia entender o que sentia. Mas já não dava pra segurar aquilo sozinha. Precisava de um conselho. De alguém para dizer que aquilo iria passar.
Mary Margaret fez silêncio por um momento e Emma aproveitou. Respirou fundo.
– Mary?
– Hum?
– Você já... – “Sentiu atração por mulheres?” Pensou – Conversou com o David? – Foi o que realmente falou.
Não conseguiu perguntar o que queria. Se sentiu envergonhada. Emma nunca foi de revelar suas emoções pra ninguém. Não dava pra simplesmente fazer isso agora. E talvez nem fosse isso mesmo. Talvez nem estivesse atraída por ela coisa nenhuma. Talvez fosse tudo uma grande confusão.
– Por que esse assunto agora, Emma – Perguntou séria.
– Por que acho que você deveria dar uma chance. Ouvir ele pelo menos. – Já que tinha começado aquele assunto para fugir do outro, pelo menos ia tentar cumprir a promessa que tinha feito ao David.
– Não, Emma. Não dá. Ele mentiu pra mim. E duvidou de mim. Isso me magoou demais. Não sei se consigo esquecer e seguir em frente.
– Mas ele... – Nesse momento a campainha toca. Interrompendo Emma.
As duas se entreolharam intrigadas.
– Quem será uma hora dessas? – Mary perguntou.
– Vou ver.
Ao chegar perto da porta Emma perguntou quem era.
– Emma, sou eu – A voz fina soou do outro lado.
– Henry?!
Emma abriu a porta e ele entrou aflito. Emma ficou assustada. Alguma coisa com Regina? Seu coração apertou.
– O que aconteceu, garoto? – Perguntou com o coração na boca.
– Me deixa ficar aqui com você – Ele abraçou forte. Ela e Mary se olharam confusas – Não quero mais viver com a Regina.
– Henry, você fugiu? – Mary perguntou se aproximando.
Ele fez que sim com a cabeça enquanto ainda abraçava Emma.
– De novo, Henry?! – Emma se irritou. Suspirou. – Anda! Vou te levar de volta – Disse saindo do abraço.
– Não! Por favor! – Ele alternou o olhar entre as duas. – Eu não quero voltar. Ela é má. Não me ama de verdade. Eu não aguento mais. – Ele estava muito nervoso e quase chorando.
– Henry, a Emma tem razão. Melhor você ir. – Mary disse.
– Por favor, Emma, não!
Emma olhou para Mary sem saber o que fazer.
– Henry, espera no sofá – Puxou Mary para a cozinha.
– Talvez seja melhor ele passar essa noite aqui. Amanhã você leva ele.
– Mas a Regina vai me matar.
Ele ta muito nervoso. Melhor você conversar com ele.
Por fim, Mary conseguiu convencer Emma. Mas essa era a parte fácil. A parte difícil era convencer Regina.
– Você fica aqui essa noite, garoto. Mas amanhã eu te levo.
– Mas...
– Sem “mas”, Henry! Vou avisar sua mãe. Que Deus me proteja.
Mary foi até o sofá e passou o braço em volta do ombro dele. Tentou acalmá-lo. Emma se afastou e ligou para Regina. Alguns toques ela atendeu.
– Alô? – Quando viu que era Emma no visor pensou em não atender. Mas foi mais forte do que ela a vontade de ouvir aquela voz. E afinal o que Emma queria. Ficou curiosa.
– Regina... é...
– O que foi, Swan? Por que está me ligando uma hora dessas?
– É que... o Henry... ele – Como Emma iria explicar aquilo?
– O que tem o meu filho? Ele esta dormindo.
– Não, não está, Regina... Ele tá aqui... no meu apartamento.
– O que?!! Você tá louca. Eu o mandei deitar há mais de uma hora.
– Pois é, mas ele deu um jeito... de fugir – Regina ficou quieta. O que até surpreendeu Emma. – Ele ta nervoso. Acho melhor ele passar a noite aqui e amanhã eu levo ele.
– É claro que não. A casa dele é aqui.
– Por favor, Regina. Me deixa conversar com ele. Tentar entender por que ele fez isso. O garoto não tá bem. Forçar ele agora só vai piorar. – Emma estava ofegante, como sempre ficava quando estava nervosa.
Fez-se um silêncio na linha.
– Está bem — Regina respondeu. Emma arregalou os olhos. Não pôde acreditar que convenceu Regina. – Esteja aqui com ele amanhã às 7 da manhã em ponto. Do contrário haverá consequências – Disse autoritária.
– Pode deixar – Emma sorria aliviada – Boa noite, Regina.
– Tchau, Swan! – Disse ríspida e desligou o telefone.
Emma respirou fundo e foi para junto de Mary e Henry. O garoto estava bocejando.
– Acho que essa aventura cansou alguém – Foi Mary quem disse. Ele riu.
– Vem, garoto. Vamos subir.
Ao chegarem no quarto de Emma ela mandou ele sentar na cama.
– Henry, isso que você fez não foi certo. Você não pode fugir assim. Na vida existem regras. E sua mãe tá com a perna machucada, ela ta precisando de você.
Nesse momento Henry sentiu um aperto no peito. Emma estava certa em relação a Regina precisar dele. Ele abaixou a cabeça e apenas ouviu tudo que ela dizia.
Emma conversou muito com ele, repreendeu, aconselhou. E finalmente deitaram pra dormir. Ele adormeceu rápido, abraçado a ela. Que sensação mais maravilhosa tê-lo ali com ela. Seu coração se aqueceu. E se sentiu como uma mãe que deixa o filho dormir na sua cama quando ele está com medo. Adormeceu assim, admirando seu filho, desfrutando do quanto era bom ter ele ali e desejando que ele não tivesse mais que ir embora.
***
As 6:55 estava na porta da mansão de Regina. Não queria correr o risco de se atrasar. Henry tinha a chave, então abriu a porta. Regina estava sentada na cadeira da mesa de jantar, que fica bem na direção da porta de entrada.
Henry entrou receoso. E Emma o seguiu. Regina olhou para eles, depois desviou o olhar para baixo e suspirou. Levantou-se da cadeira apoiada nas muletas.
Ela estava com um baby doll preto e um casaquinho cinza por cima. Quando Emma percebeu isso, foi instantâneo, seu olhar foi de cima a baixo no corpo da morena. Foi involuntário.
Como ela estava linda. Mesmo com aquelas muletas e a perna imobilizada ela ainda era magnífica. O coração da loira foi nas alturas admirando aquele corpo semi escondido pelos trajes de dormir.
Se Emma tinha alguma dúvida de que estava atraída pela morena, agora essas dúvidas foram totalmente varridas de sua mente.
Henry caminhou até a mãe. Emma havia conversado muito com ele na noite anterior e também dentro do carro quando estavam vindo.
– Mãe...
– Vá se aprontar pra escola – Ela o interrompeu. Seu tom foi seco, mas dava pra notar um tom de tristeza nele.
Ele abaixou a cabeça e subiu as escadas correndo. Regina o acompanhou com olhar. Olhar esse que estava tão triste, Emma pode perceber. Notou as olheiras e que estavam um pouco inchados. Sinal de que havia dormido mal e, provavelmente, chorado.
Quando sumiu no corredor de cima, Regina simplesmente virou e foi para a sala. Nenhuma palavra disse para Emma.
A loira ficou parada, confusa, sem saber o que fazer. Decidiu ir atrás dela. Regina sentou no sofá. Seu semblante estava cansado. Jamais havia visto Regina assim. Não parecia nem de longe a mulher altiva de sempre.
Isso partiu o coração de Emma. Vê-la daquele jeito a fez perceber que Regina era sim aquela mulher imponente, rígida, mas no fundo era uma mulher frágil como qualquer outra. E que precisava de atenção. Coisa que Henry não estava dando.
Silêncio constrangedor. Regina nem tinha chamado ela pra entrar, mas também não tinha mandado embora. Olhava pro nada, como se estivesse perdida.
– C-Como... tá a perna? – Emma perguntou meio desconcertada.
– Melhor... Hoje não ta doendo tanto – Respondeu calma, mas sem olhar pra ela. Sem dúvida Regina estava estranha.
– Vai melhorar logo. Você tá tomando os remédios e...
– O que ele disse pra você? – Regina a cortou, olhando pra ela agora.
Emma não esperava, se assustou.
– Muitas coisas... Disse que... – Estava receosa em falar – Se sente sozinho. Que você não ama ele de verdade. Que... que ele não é feliz.
A expressão de Regina ficou ainda mais triste. Suspirou.
– Eu não entendo. Eu faço tudo por ele – Abaixou a cabeça. Sua voz era tão melancólica. O coração de Emma apertou ao ouvir aquele tom de voz. – Eu faço tudo por ele. Sempre dei tudo que ele quis. Eu dei um lar pra ele. Como ele pode dizer que eu não o amo? – Uma lágrima escorreu de seu olho direito. E depois do esquerdo.
E então em segundos, Regina estava chorando. Um choro discreto, abafado, meio envergonhado. Aquilo atingiu Emma. Sentiu uma profunda tristeza. Era como se a armadura tivesse caído. E Regina, a humana, estivesse ali diante dela. Emma sentou ao lado dela.
– Eu o amo tanto – Falava entre o choro – Nesses dez anos a minha vida é ele. Tudo que faço é pensando nele. Eu o amo – Disse agora olhando pra Emma, num tom que parecia fazer com que Emma acreditasse no que ela havia acabado de falar. As lágrimas não paravam de rolar pelo seu rosto.
E ali, vendo Regina tão triste, tão linda, tão frágil, Emma sentiu uma vontade avassaladora de fazer algo. E fez!
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