Notas iniciais
Oi, gente. Nossa! Nem sei por onde começar =( Taaaaanto tempo ausente. Acho que tenho a obrigação de dar uma explicação pra vcs. Então, pessoal, eu fiquei doente. Doente emocionalmente. Coisas bem ruins aconteceram comigo, daí meu emocional não aguentou, e eu caí numa depressão profunda =( Não conseguia escrever, não tinha inspiração, bloqueio total. Sinto muito por isso, galera. Com muito esforço consegui voltar, espero que ainda tenha alguém aí pra ler. Obrigada pelos comentários do cap anterior (Que eu não consegui responder =/ Bem, mas vamos logo ao que interessa!!!! Boa leitura!!!

Regina estava sentada no banco da cozinha olhando fixamente sobre a bancada, a bandeja com uma torta de maçã que acabara de tirar do forno.

Assim que saiu do cemitério e dispensou Jefferson com a desculpa de que o procuraria depois que terminasse o que tinha planejado para Emma, ela foi pra casa. Se perguntando como faria para que a Salvadora provasse daquela maçã envenenada.

Não poderia simplesmente chegar e mandá-la morder, como fez com sua mãe, Branca de Neve. Os tempos eram outros agora, o reino era diferente. Precisava ser esperta, ardilosa. E depois de muito pensar, a ideia veio a sua mente. É claro, uma torta de maçã.

Preparou a torta normalmente, com os mesmos ingredientes que sempre usava. Realmente Regina adorava fazer tortas de maçãs. Henry costumava adorar quando ela fazia também. Até que um dia, sem explicação, ele rejeitou o doce. Alegando que havia enjoado e não gostava mais. Regina não entendeu na época, mas agora, pensando bem, se ele desconfiava que ela era a Rainha Má, provavelmente iria ter medo de comer coisas de maçã feitas por ela. Seu coração apertou com esse pensamento.

Todo o preparo da torta era normal, com exceção do ingrediente principal. A fruta era uma maçã amaldiçoada.

Mas preparar a torta era apenas parte do enigma. A questão principal agora era como fazer Emma comer aquela torta.

Afinal, haviam tido uma discussão horrível pela manhã. Provavelmente ela não iria simplesmente aceitar de bom grado uma torta que ela lhe oferecesse.

Bom, poderia usar justamente esse artifício como desculpa. Dizer que havia sido muito dura nas palavras e que queria se desculpar. Mas isso não fazia o feitio de Regina, e é claro que Emma iria desconfiar dessa atitude estranha da Prefeita.

Poderia inventar que havia feito a torta para ela e Henry, e o menino pediu para que levasse um pedaço para ela.

Mas e se Emma soubesse que ele não comia mais tortas de maçã? Logo iria notar que ela estava mentindo.

Esse agora era o verdadeiro enigma, como ia fazer Emma comer aquela maldita torta?

Seus pensamentos foram interrompidos quando ouviu o barulho da porta de entrada se abrindo. Só podia ser Henry chegando da escola. Ela ficou um tanto nervosa, queria esconder a torta. Mas não deu tempo. Ele logo entrou na cozinha.

Henry não imaginava que sua mãe estaria em casa. Afinal, aquele horário ela sempre estava na Prefeitura. Foi à cozinha para beber um pouco de suco e deu de cara com ela.

Ele ficou tenso quando a viu, seu coração deu um pulo. Ainda estava sem graça e se sentindo mal pela briga do dia anterior.

– Oi, mãe. — Sua voz saiu um tanto trêmula.

– Oi, Henry. — Ela estava chateada, não dava para negar.

Ele engoliu a saliva e foi até a geladeira. Regina alternava o olhar entre ele e a torta. Aquilo estava torturante. E se ele quisesse um pedaço? Não, ele não iria querer. Tentou se sustentar no fato de que ele recusava suas tortas.

– Torta de maçã? — Perguntou assim que deu uma grande golada na garrafa de suco pronto.

Ela gelou.

– Sim.

– Hum. — Resmungou para logo beber mais um pouco do suco e então devolvê-lo a geladeira.

Saiu da cozinha e rumou para seu quarto. Ele queria falar com ela, conversar. Mas sentia medo. Sua relação com ela já não era das melhores e depois daquela briga, sabia que tinha piorado ainda mais.

Regina sentiu-se um tanto mal pela forma com que ele nem demonstrou interesse pela torta. Afinal ela sempre preparava com tanto carinho pra ele.

Mas por outro lado, respirou aliviada quando ele saiu da cozinha. O que iria dizer caso ele pedisse um pedaço? Que desculpa iria inventar?

Nunca foi tão bom o fato dele dispensar suas tortas.

Não sabia mesmo como ia fazer para dar o doce pra Emma. E não tinha mais cabeça pra pensar. O dia foi agitado, conturbado, triste. Pela manhã aquela conversa com Gold que só fez ela ficar com mais medo da presença da Salvadora ali. Depois a discussão com Emma, todas as coisas horríveis que teve que dizer pra ela. E então o momento com Jefferson no cofre. Era muita coisa pra um dia só. Tinha que ao menos descansar, porque relaxar sabia que não ia conseguir.

Resolveu guardar a torta e deixar isso pra amanhã. Colocou em um pote e guardou na geladeira. Sabia que Henry não iria tocar nela. Depois dele ter sido tão indiferente era a prova de que não tinha que se preocupar em deixá-la ali.

Foi para seu quarto. Não tinha condições de voltar a Prefeitura. Iria tomar um banho e tentar descansar. E a última parte do enigma ficaria pra amanhã. Afinal, mais um dia não faria diferença. A maldição não seria quebrada justamente hoje.

*****

O dia havia passado arrastado para Emma. Já fazia várias horas que tinha tido aquela conversa com a Prefeita, mas ainda parecia ouvir nitidamente a voz dela dizendo aquelas coisas, como se ela ainda estive ali diante de si.

Estava na delegacia, com uma tremenda dor de cabeça. Já tinha tomado um remédio, mas de jeito nenhum a dor aliviava.

Por sorte não teve que ir na rua atender nenhuma ocorrência, por que não tinha cabeça pra nada. Desde que saiu da Prefeitura e voltou para a delegacia, ficou a tarde inteira ali. Sentada, remoendo a atitude de Regina. Remoendo tudo que tinha acontecido entre elas nos últimos dias. Sentindo raiva. E uma pontada de decepção.

Parecia algo surreal. Parecia não ter acontecido mesmo. Em um dia estavam bem, com o que parecia ser o começo de algo bom entre elas. E de repente estavam lá discutindo mais uma vez, com Regina sendo a mulher fria de antes.

"Mas também, o que eu podia esperar?” Se perguntava de olhos fechados, com os cotovelos apoiados na mesa, enquanto massageava suas têmporas. "Essa é a Regina. Fria, calculista, sem sentimentos ou escrúpulos. Eu é que fui burra demais por me deixar levar. E querer acreditar que ela era diferente agora".

Tirou os cotovelos da mesa e deixou que seu corpo relaxasse na cadeira. Fitou o teto, perdida em seus pensamentos.

"Mas afinal... talvez ela tenha mudado mesmo. Ela só... não quis nada comigo".

Sentiu o ar sair forte de seus pulmões ao pensar nisso. Era desconfortável. Sentia-se rejeitada... De novo.

"Foi só uma experiência. Como ela mesma disse, ela só quis experimentar".

"E por que diabos eu tinha que enxergar de outra forma? Que sinais ela me deu de que queria algo a mais? Só porque trocou mensagens comigo e disse que gostou de fazer sexo comigo?"

"E afinal, por que eu quis algo a mais?"

Isso era o que mais doía em Emma. Tinha se fechado para o amor desde que fora enganada pelo pai de Henry. Disse que não se deixaria levar, não seria enganada de novo. Porque o amor só trazia dor. Ela não conseguia aceitar o fato de que abriu seu coração de novo mesmo depois de tudo que sofreu.

"Era exatamente por isso que eu não queria gostar de ninguém. Pra que? Pra sofrer? É só isso que a paixão trás. Dor e sofrimento."

"Que burra eu fui. Como pude ser tão ingênua e acreditar que ela tava sentindo algo por mim."

Emma se martirizava. Queria voltar no tempo, quando aquelas sensações pela Prefeita começaram, e cortar ali mesmo. Não deixar aquilo ir adiante.

"Mas eu tentei fazer isso, né". Pensou cabisbaixa. "Só que não deu muito certo. Quanto mais eu tentava tirar ela da minha cabeça, mas eu queria tá com ela."

Mas agora teria que tirá-la da cabeça definitivamente. E não só da cabeça... Teria que tirá-la do coração.

Mas como? Se quando ainda não tinha acontecido nada entre elas foi impossível. Como faria agora que tinha experimentado o sabor tão bom do beijo dela? E vivenciado aquele sexo incrível com ela naquela noite.

Como esquecer tudo isso? Como deixar de desejá-la, se a cada minuto seu corpo pedia pelo dela?

Mas teria que encontrar um jeito de fazer isso. Tinha conseguido uma vez, quando teve que esquecer Neal, iria conseguir de novo. Emma era forte e não iria se abater por isso. Ou pelo menos isso era o que ela dizia pra si mesma.

O resto do dia passou e logo já era hora de encerrar o expediente. Emma estava exausta, mas um cansaço na mente. Ficara todo o dia ali pensando e repensando. As palavras de Regina doíam dentro dela. Quis chorar, mas não se permitiu.

Iria ser forte e continuar normalmente sua vida. Regina não teria o poder de abatê-la. Começaria a pensar como ela. Se ela queria que aquilo tivesse sido apenas uma experiência, então era o que seria pra Emma.

Foi pra casa e quando chegou não deu muita bola pra Mary. Não queria falar com ninguém. Só queria tomar um banho e se jogar na sua cama, se enfiar embaixo do lençol e se sentir bem.

Já estava deitada. Sentia que a noite seria longa, pois ela não tinha um pingo de sono.

Seu coração doía. Não podia negar isso. Não era mais apenas uma atração. Ela estava apaixonada por Regina e havia admitido isso para si mesma no dia em que fizeram amor. Criou expectativas mesmo sem querer criá-las. Abriu seu coração mesmo querendo se guiar pela razão. Não era como se pudesse ter controlado aquilo, o que sentia por Regina era forte. Forte demais. E ela simplesmente não pôde levar com calma, como queria. Aquela paixão invadiu seu coração sem pedir licença, sem pedir permissão. Arrebatou sua alma de tal forma que ela nem pôde ter consciência de como ocorreu. Simplesmente aconteceu.

E agora se via apaixonada e triste por causa de Regina Mills.

*****

Na mansão, a Prefeita tentava dormir, mas sono parecia não existir mais pra ela. Sua cabeça viajava em tantas coisas. Mas sempre parava em apenas uma: Emma.

Seu peito estava apertado, afligido. Desejava que não tivesse que fazer aquilo. Assim que Emma mordesse um pedaço daquela torta, seria o fim. Ela cairia em um sono profundo impossível de ser acordada. E então Regina não teria mais que se preocupar com ela.

Se perguntava por que não teve essa ideia há meses atrás quando se deu conta de que ela era a Salvadora. Seria tão fácil lidar com isso. Porque agora seu coração estava em pedaços.

"Ela foi a única que me enxergou diferente. Mesmo depois de tudo que fiz pra ela, ela ainda acreditava que eu podia mudar".

Uma lágrima quente escorreu por sua bochecha com esse pensamento. Se sentiu um monstro. Mas o que fazer? Não suportaria perder Henry. Aquilo era necessário.

"Quando ela comer a torta, vai ser o fim dela".

Pensou isso com pesar. Era incrível como há meses atrás esse pensamento lhe causaria alegria. Com certeza um sorriso vitorioso despontaria de seus lábios.

Mas agora... Agora tudo que conseguia fazer era chorar.

"Ela nunca mais vai acordar. Nunca mais vou ver aqueles olhos verdes."

Regina sabia que o único jeito dela acordar seria o beijo de amor verdadeiro. Mas isso seria impossível de acontecer. Afinal, quem iria beijá-la?

Sentiu um nó na garganta com o próximo pensamento.

"Eu?!"

Seu coração acelerou. Não, não seria possível. Pra ser amor verdadeiro o sentimento tinha que partir das duas pessoas. E Regina não acreditava que Emma pudesse amá-la assim.

E também não queria admitir que já amava Emma. Tentava negar isso.

"De qualquer forma, mesmo que eu a amasse, ela não me ama. Ela sente atração por mim. Mas amor... Isso é forte demais. E quem poderia me amar assim? Emma com certeza não conseguiria, me conhecendo como conhece. Sabendo da pessoa horrível que sou".

Regina achava que era impossível alguém amá-la. Da mesma forma como Daniel a amou. Achava que ninguém seria capaz de nutrir por ela esse tipo de sentimento. E a única pessoa que deu amor a ela depois de tanto tempo foi Henry. Não podia deixar que ele a abandonasse. Lutaria por ele com todas as suas forças.

E além do mais, não existia magia naquela terra. Portanto beijos de amor verdadeiro não poderiam acontecer. Ou melhor, não seriam capazes de produzir magia.

Assim Regina pensava.

A única magia que existia naquele mundo ela usou para abrir o quase portal no chapéu do Jefferson.

"Amor verdadeiro...” Sorriu melancólica. "Isso não existe pra mim."

"Aquele amor que os Encantados tinham. Eu com certeza não fui feita pra ter isso na vida".

Pensou sentindo mais lágrimas se formarem.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo susto que levou ao ouvir um barulho alto que parecia vir da cozinha. Como se algo tivesse caído ao chão, coisas se quebrando.

"Henry!” Logo pensou que devia ser ele.

– Ai, meu Deus, Henry!! — Exclamou em voz alta, dando um pulo da cama ao se lembrar da torta na geladeira.

Saiu correndo pelo corredor e desceu rápido os degraus.

Não podia ser. Ele não podia ter comido a torta.

Chegou a cozinha com o coração em mãos. Os olhos arregalados ao observar a cena.

Henry estava parado próximo a cacos de vidro e o que parecia ser leite espalhado pelo chão.

Ele a olhou assustado e envergonhado quando a viu.

– O que... O que aconteceu? — Ela praticamente sussurrou.

– Ahg... é que... eu vim pegar um copo de leite e biscoito. Mas... acabei esbarrando no copo e ele caiu. — Ele sorriu torto, sem graça.

Regina ainda assimilava aquilo. Seu coração ainda batia assustado. Piscou várias vezes como se processasse o que ele disse e voltasse à realidade.

Se apoiou na bancada com uma mão e a outra levou a testa.

– Meu Deus, Henry. Você me assustou. — Disse com os olhos fechados enquanto buscava o ar. Num misto de alivio e desespero.

– Desculpa. O barulho te acordou?

– Não, eu estava acordada. Eu só... — ela olhou pra toda aquela cena. – Sai daí, filho. Você vai acabar se cortando.

Ele se afastou dos cacos de vidro como ela ordenou.

– Pega na lavanderia, por favor, uma vassoura e uma pá. — Pediu pra ele. — E um pano de chão também.

Ele obedeceu e logo trouxe os utensílios que ela pediu.

– Obrigada. Agora vai dormir. Já está tarde.

– Mas eu nem cheguei a tomar o leite. — Retrucou meio manhoso.

Com cuidado para não piorar ainda mais aquela sujeira, ela se aproximou da geladeira, pegou o leite e despejou em outro copo.

– Cuidado. — Ponderou ao entregar o copo e o prato com biscoitos pra ele.

– Tá bom. Boa noite.

– Boa noite. — Ela respondeu e ele subiu para o quarto.

Regina respirou aliviada assim que ele sumiu pelas escadas. Se aproximou da geladeira mais uma vez e a abriu, só para constatar que a torta estava mesmo intacta ali.

E estava.

Nunca poderia se perdoar se algo acontecesse ao seu pequeno príncipe. Se ele comesse aquela torta e caísse em sono profundo pra sempre, a culpa seria sua. Toda sua. E ela nunca poderia se perdoar por isso.

Limpou toda aquela bagunça e voltou para o quarto. Novamente pensando em como faria na manhã seguinte para que Emma aceitasse o doce feito de seu fruto proibido.

*****

O dia amanheceu e a Prefeita já estava ali colocando a torta amaldiçoada em um pote. Henry já havia saído para a escola há quase uma hora. E Regina tinha ficado ali, pensando e repensando. Remoendo uma dor que parecia ser infinita. Se fizesse aquilo perderia Emma. E se não fizesse aquilo, em algum momento, perderia Emma e Henry. E por mais que estivesse apaixonada pela Xerife, entendia bem qual era o papel da mulher ali, mesmo que ela própria não soubesse. Eram inimigas, e nada poderia mudar isso. Entre ficar sem Emma ou ficar sem ela e sem Henry também, muito dolorosamente Regina preferia a primeira opção.

E além do mais, apenas tinham ficado, não era nada sério. Muito provavelmente era apenas atração da parte da loira e com certeza não duraria muito. Era assim que Regina pensava.

Por isso, devia aproveitar que estava em vantagem, já que sabia de tudo, e lutar agora. Fora a temida Rainha Má um dia, mesmo que hoje já não sustentasse aquele título, não se deixaria levar como uma menina boba. Dentro de si ela continuava sendo a Rainha. E lutaria como fosse preciso pra manter sua maldição intacta. Não que aquilo fosse o que realmente importasse. Mas Henry era o motivo que a movia daquela forma.

Enrolou o recipiente contendo a torta em um pano. Aquilo parecia tão amigável. Sorriu, ainda que sem muita vontade.

Havia chegado a hora. Não tinha como voltar atrás. Era a hora de vencer aquela guerra que começara a 28 anos atrás. Era hora de derrotar a Salvadora.

Mas por que não sentia o prazer da vitória lhe invadir? Por que sentia-se tão vazia?

Claro, a resposta era óbvia. Porque não era isso realmente que seu coração queria.

Suspirou triste antes de pegar a torta, colocá-la em uma sacola e sair de casa. Enquanto dirigia sentia as mãos e pernas trêmulas. Seu estômago revirava tão forte que por vezes pensou que fosse vomitar. Queria gritar, queria chorar. Não se lembrava de ter feito algo tão difícil desde que arrancara o coração de seu pai, ou quando contratou aquele pirata pra matar sua mãe.

Se perguntava qual seria o destino de Emma após comer a torta e cair em sono eterno. Muito provavelmente ela iria parar em um hospital. Será que achariam a causa? Será que poderiam reverter?

Não, é claro que não. Não tinham conhecimento nenhum sobre aquilo nesse mundo. Aquilo não era ciência... Era magia.

Provavelmente ela ficaria no hospital, talvez em estado de coma. Teria que inventar algo pra Henry. Mesmo que ela não aparentasse ter culpa nenhuma. Diria simplesmente que não sabia o que houve, apenas que recebeu a notícia de que Emma estava no hospital.

De qualquer forma não sabia ao certo o que iria acontecer.

Quando deu por si já estava na rua da delegacia. Viu o fusca de Emma parado mais adiante. A viatura estava estacionada bem em frente o lugar. Isso indicava que Emma estava ali. Seu coração apertou ainda mais. Pareceu ser comprimido em seu peito, até que o ar começou a lhe faltar. Fechou os olhos para se acalmar, mas sua mente traiçoeira a fez contemplar imagens daquela noite em que descobriu o melhor sexo de sua vida. Sexo com uma mulher. Sexo com Emma Swan. Regina sabia que não tinha sido só sexo. Fez amor com ela. Pela primeira vez em sua vida tinha feito amor com alguém.

Sentiu as lágrimas em seus olhos. Não conseguia evitar de se perguntar constantemente o que aconteceria dali pra frente entre elas caso não fosse necessário tirá-la de seu caminho. Pelo jeito que as coisas rumavam, era provável que se envolvessem ainda mais.

Sorriu triste.

Mas já bastava de pensar, era hora de agir. Puxou todo o ar que pôde, respirou forte. Fez isso várias vezes. Tomando coragem. Era a hora.

Saiu do carro, suas pernas bambeavam, seu peito gelava. O que Emma diria quando a visse ali? Será que acreditaria na história do porque estar dando uma torta pra ela? Se perguntava essas coisas enquanto adentrava pelo corredor da delegacia, ouvindo o som de seus próprios saltos contra o chão.

Respirou fundo e buscou no mais profundo de seu âmago sua postura altiva e fria, antes de adentrar a sala.

Emma estava sentada na mesa que fica de frente pra cela. Regina engoliu a saliva. Emma estava distraída com uns papéis, pareceu não perceber sua presença.

– Olá, Xerife Swan. — Usou seu tom frio e seco. Era a única maneira de suportar aquilo.

Emma ergueu a cabeça imediatamente quando sentiu sua espinha gelar ao ouvir aquela voz.

Naquela manhã estava tentando ao máximo se concentrar em qualquer coisa que não fosse Regina e a frieza dela. Estava sendo difícil, não conseguia prestar atenção em nada. Tentava ler um papel, mas sua mente só trabalhava em função da discussão no dia anterior. Por fim estava tão distraída com seus pensamentos em Regina, que nem percebeu quando ela apareceu ali de verdade.

Ficou por alguns milionésimos de segundo, que mais lhe pareceram a eternidade, de forma estática.

Até que sua expressão atribuiu um ar de surpresa e raiva. O que ela queria ali depois de tudo que havia dito? Por Deus, tinha sido no dia anterior. Será que realmente ela era tão maquiavélica assim e gostava de contemplar o sofrimento de suas vítimas bem de perto?

Buscando sua força interior, que agora parecia nula, Emma respirou fundo e tentou parecer natural. É óbvio que não queria que a morena visse o quanto ela estava mal.

– Em que posso ser útil, Senhora Prefeita? — Desviou o olhar para o papel que fingia ler. Seu tom possuía um ar de deboche.

Regina sentiu o baque daquela frase seca.

– Eu vim... — Pigarreou. — Vim conversar com sobre ontem. — Seu coração metralhava seu peito.

– Ah, que ótimo. — Emma debochou ao ouvir aquilo. — Por acaso esqueceu de alguma coisa? Veio acrescentar algo a sua lista de coisas horríveis que disse pra mim?

Pronto, seu plano foi por água a baixo. Se pretendia não mostrar sua dor para ela, havia se estrepado completamente na maneira como pronunciou aquela frase.

E a morena sentiu a mágoa naquelas palavras.

– Não. Eu vim... Me desculpar com você... pela maneira como falei.

O coração da loira pareceu parar de bater por um segundo. Seu semblante denunciando que precisava que ela explicasse o que acabou de dizer.

Regina respirou fundo.

– Eu fui... fui muito... dura nas palavras. Eu não precisava ter falado daquele jeito. — Regina não estava mentindo. Realmente não queria ter dito aquelas coisas pra ela, mas foi preciso.

Seu plano era fazer Emma aceitar as desculpas, abrir um pouco a guarda e então ela diria que havia feito uma torta da qual Henry insistiu que ela levasse um pedaço pra ela, e que ele ficaria muito triste se ela não aceitasse.

– O que está tentando dizer? — Emma levantou sem olhá-la, caminhando até a outra mesa onde Regina estava perto de pé. Fingiu procurar algum papel ali. Mas na verdade, seu desejo era chegar um pouco mais perto dela. Sua frase não conseguiu esconder o tom esperançoso que adquiriu depois do que Regina disse.

Estavam próximas agora.

– Estou tentando dizer isso. Que sinto muito pelo jeito grosso como me referi ao que tivemos.

Emma sorriu sem humor e virou-se pra ela.

– E o que tivemos, Regina?

A morena sentiu sua alma queimar com aquele olhar. Não sabia o que responder. Se falasse a verdade estragaria tudo. E se mentisse estragaria tudo também.

– Diz! — a Xerife ordenou com raiva.

– Eu, é... — Respirou fundo. — Por favor, Srta. Swan, estou tentando me desculpar pelo modo como coloquei as palavras ontem. Não torne isso uma briga.

Precisava ser calma, do contrário não convenceria Emma.

– Então se desculpe. O que vai dizer?! — Não conseguia esconder sua raiva e frustração.

Chegou bem perto dela, ficaram cara a cara. Sentia o cheiro de Regina invadir seus sentidos. "Ah, que droga!" Ela pensava. Porque contrariando toda a sua raiva, o que ela mais queria nesse momento era agarrar com força aquela morena e sufocá-la com seus beijos.

– Q-Que... eu não devia ter falado daquela forma... eu... — Sua voz saia sussurrada, estava próxima da loira, parecia que a qualquer momento a outra iria lhe agarrar e lhe beijar. — ... Me desculpe. — Concluiu sinceramente.

Emma sorriu sem humor mais uma vez.

– Só sexo. Não foi isso que você disse?

Regina surpreendeu-se, não esperava que ela falasse aquilo.

– Sim, mas eu...

– Ainda é só sexo? — A interrompeu. – Foi só pra experimentar? — Por que estava sendo tão estúpida e babaca perguntando aquelas coisas? Estava agindo com uma perfeita idiota.

– Você sabe a resposta, Srta. Swan. Eu já disse. — Num impulso respondeu aquele absurdo.

– Então tá fazendo o que aqui? Se foi tão insignificante assim não sei porque tá perdendo seu tempo aqui comigo. — Falou virando as costas e voltando para sua mesa.

Quando Regina disse que queria se desculpar, Emma não pôde evitar sentir uma pontada de esperança de que houvesse mudado de ideia. Mas, claro, isso não tinha acontecido. "Idiota". Emma xingou a si mesma mentalmente.

– Eu só não devia ter falado daquele jeito. Só isso. — Regina insistiu.

– Ok, está desculpada. Agora vai embora. — Emma debochou o fato de desculpá-la. Voltou a sentar em sua cadeira.

Regina franziu o cenho, confusa com aquela resposta.

– Dá o fora daqui! — Exclamou vendo que ela ainda tava parada ali. Não estava suportando a presença dela. – Anda!

A raiva subiu pelas veias de Regina. Se aproximou da mesa.

– Quem você pensa que é pra falar assim comigo?! Por acaso esqueceu que sou a Prefeita e, portanto, sua superior?

– Eu quero que se foda quem você é ou deixa de ser! — Esbravejou, deixando Regina perplexa. — Só quero fazer meu trabalho em paz. Não tá satisfeita? Então me manda embora e arruma outro!

A raiva trasbordava pelos olhos de Emma. E por um momento, a raiva que transparecia ali parecia se assemelhar ao desejo intenso que faiscava naqueles olhos verdes quando fizeram amor.

Regina constatou aquilo e por um milésimo de segundo sentiu que não poderia viver sem aquele olhar, mesmo que fosse transbordado de raiva.

– Você está sendo muito audaciosa, Xerife.

– Vai embora, Regina. Não temos mais nada pra falar. — Voltou a olhar para os papéis.

A morena apertou a sacola onde estava a torta. E seu coração também apertou. Ainda precisava entregar aquilo a ela.

– Tudo bem, eu vou. — Contrariando todos os seus instintos que era de mandar Emma ir à merda, ela falou um tanto calma. O que até surpreendeu a Xerife.

– Mas eu queria... — Apertou a alça da sacola de novo. — É... o Henry...

Repentinamente a coragem pareceu lhe faltar. Seu coração batia desesperado.

Desesperado pra que ela fizesse mesmo o que Emma disse, e desse o fora dali.

– O que tem o Henry? — Indagou apreensiva.

– É que ele... Ele...

– O que aconteceu com ele, Regina?

Era só dizer. Só entregar a torta e dizer que foi a pedido dele. Com certeza ela não iria se negar a aceitar sabendo que foi um pedido do filho.

Era simples. Só dizer, apenas isso.

Então por que não conseguia?

De repente imagens desconexas começaram a surgir na cabeça da morena. Via Emma dentro de um caixão de vidro, idêntico ao que sua mãe ficara. Via Emma em um leito de hospital. Via Emma caindo desacordada no chão. Tudo muito rápido, como alucinações.

Seu coração parecia quebrar.

– Responde, Regina! — Emma a capturou de volta a realidade. — Que droga, o que tem o Henry?

A morena encarou aqueles verdes. Com seu coração acelerado de desespero, de medo... e de paixão.

– ... Nada... ele... Não tem nada...

E sem explicação alguma, virou as costas e saiu praticamente correndo dali.

Emma arregalou os olhos, perplexa com aquela atitude absurdamente esquisita da Prefeita. Levantou-se da cadeira e deu passos largos, fazendo menção de que iria atrás dela. Mas quando chegou a porta da sala, parou. E recuou um passo.

Não! Não iria sair correndo atrás dela. Não iria fazer esse papel de idiota.

Se tinha acontecido algo com Henry, ela iria saber por outra pessoa.

Respirou fundo passando a mão pelos cabelos e rosto. Em sua testa haviam se formado gotículas de suor.

Voltou para mesa e pegou seu celular. Não sentou, ficou recostada no móvel, estava nervosa. Discou o número e depois de alguns toques a amiga atendeu.

– Oi, Emma. — A voz de Mary pareceu apreensiva.

Emma nunca ligava quando ela estava na escola em horário de trabalho, por isso quando viu o nome da amiga no visor, se preocupou e pensou ter acontecido algo. Então atendeu.

– Mary Margaret, desculpa te incomodar no trabalho, mas é que tô preocupada com uma coisa...

– Que houve? — Cortou ansiosa, sem esperar Emma concluir.

– O Henry tá aí? Ele tá bem? — Sua voz denotando sua preocupação.

– Ele tá aqui. E tá bem sim, Emma. Mas por quê? O que aconteceu?

Emma deixou o sair, aliviada. Não quis mencionar o ocorrido com Regina, então mentiu.

– Nada. Só... um mau pressentimento, sei lá.

– Fica tranquila, ele tá bem aqui. E tá seguro. — Tentou tranquilizar a amiga.

E Emma percebeu que ela sorria do outro lado da linha.

– Tudo bem. Obrigada. E desculpa de novo por ter te atrapalhado aí.

– Não tem problema.

Despediram-se e desligaram.

A Xerife voltou a sentar em sua cadeira, largando totalmente o corpo. E deixou todo o ar sair com força.

Depois do que tinha acontecido ali poderia afirmar com certeza que Regina era louca. Por que ela saiu daquele jeito sem concluir o que queria dizer sobre Henry. E todo aquele papo de se desculpar. Isso não fazia o feitio da Prefeita. Tanto que de certa forma ela voltou a usar o mesmo termo e afirmar que tinha sido apenas sexo.

“Mas afinal o que mais seria, Emma?” Perguntou a si mesma. “Tô agindo como uma boba. Eu tenho 28 anos. Que estupidez é essa de achar que ela tinha que gostar de mim? Somos adultas, maduras. Fizemos sexo e ponto. Nada mais além disso”.

Seu coração dava pontadas de dor ao pensar nisso.

“Realmente ela não tem culpa de considerar o que aconteceu como apenas sexo. É normal, ué”. Tentava se convencer. “Não somos mais adolescentes sonhadoras. Foi sexo, foi bom. E agora vou esquecer isso”.

Concluiu como se tentasse limpar aquele assunto da sua mente.

“Mas ela não precisava ter falado daquele jeito. Não precisava ter sido tão... cruel”. Pensou com pesar.

– Ahrg! Chega de pensar nisso! Regina que se dane!

Disse em voz alta e voltou a tentar se concentrar nos papéis à sua frente.

Do lado de fora, Regina estava em seu carro. Havia saído a passos largos da frente de Emma. Quase correndo pelo corredor até sair da delegacia, e então se refugiou dentro de sua Mercedes. Bateu a porta com certa força e largou a cesta que continha a torta amaldiçoada no banco do carona. Segurou firmemente o volante com as duas mãos.

O ar parecia não chegar aos seus pulmões, e ela precisava puxar com força. Respirou fundo várias vezes. Estava extremamente nervosa, seu coração batia totalmente desesperado.

Não conseguiu seu objetivo. Falhou.

Falhou em fazer com a Salvadora o mesmo que fez com a mãe dela. Não teve coragem. Foi uma covarde. Sua única chance de vencer aquela guerra. De preservar para sempre sua maldição. De ter seu filho sendo só dela. E falhou.

Sentindo um misto de dor e agonia, deixou que as lágrimas quentes molhassem seu rosto.

“Por que? Por que?”

“Por que simplesmente não dei a maldita torta pra ela? Era só dizer que foi o Henry quem pediu”.

Deixou o corpo, que estava ereto, ir para trás e encostar no banco. Respirou fundo mais uma vez.

“Não é possível. Eu sou Regina Mills. A Prefeita. A Rainha. Eu destruí reinos inteiros por menos do que isso. E agora que tudo que tenho está em jogo, eu não consigo fazer uma mulher morder uma simples torta”.

“Por que não consegui? O que mudou em mim? Eu deveria me livrar dela o mais rápido possível. Era o que eu tinha que ter feito. Por que foi tão difícil a ponto de eu desistir e sair de lá parecendo uma maluca?”

“Amor é fraqueza, Regina.”

De repente as palavras de sua mãe ecoaram por sua mente. E seus olhos se fecharam, permitindo que mais lágrimas caíssem.

Imagens começaram a surgir em sua cabeça. Lembranças de desde o primeiro dia em que viu Emma. E tantas outras.

Aqueles olhos. Aquela boca. A voz. O beijo. O sexo.

Como Regina se sentiu completa no dia em que fez sexo com ela. Jamais havia sentido todo aquele êxtase. Como se tivesse tocado o céu. Ninguém, absolutamente ninguém havia proporcionado aquilo a ela antes de Emma. E Regina sabia que não tinha sido apenas pelo orgasmo maravilhoso. Foi mais do que isso. Foi entrega, sentimento, foi a conexão mais perfeita de dois copos em completa sintonia. Foi paixão. Foi... amor?

“Não. Eu não posso amá-la. Ela é minha inimiga por natureza.”

Seu coração doía mais a cada minuto.

“E mesmo que eu a amasse, eu com certeza não seria correspondida. Afinal como ela poderia me amar depois de tantas coisas ruins que tentei contra ela. O que ela sente é apenas atração.”

“E mesmo que ela me amasse... Quando a maldição fosse quebrada ela me odiaria”.

“Nunca poderíamos ficar juntas. De um jeito ou de outro, eu acabaria perdendo ela”.

“Emma”

“Acho que eu fui burra mesmo de pensar que conseguiria tirar você do meu caminho, quando na verdade... você já tá no meu coração.”

“Minha mãe tinha mesmo razão. O amor é uma fraqueza”.

“E inexplicavelmente, porque afinal eu nunca me interessei por mulheres, foi assim que você conseguiu me enfraquecer, Salvadora”.

Disse em sua mente como se estivesse falando com ela.

“E agora eu to perdida. Por que a maldição vai ser quebrada. Afinal, nunca vi uma profecia falhar”.

Regina viveu em um mundo de magia e raramente alguma profecia deixava de se cumprir. Ela pelo menos nunca tinha visto isso acontecer.

Voltou seu olhar para a sacola depositada no banco ao lado. Teria sido tão fácil. Mais fácil do que convencer aquelas crianças a entrar naquela casa feita de doces. Emma jamais iria se negar a aceitar um "presente" de Henry.

Fechou seus olhos e a imagem que viu foi daqueles olhos verdes tão intensos, daquela boca rosada, a lembrança daqueles beijos tão saborosos. O cheiro do corpo, a maciez da pele.

Como poderia viver sem Emma Swan? Ela já fazia parte de tudo.

As lágrimas escorriam por sua face. E uma aflição por pensar no que aconteceria se ela mordesse aquela torta. Seu peito doeu. O sentimento de perda apenas por imaginar isso foi doloroso demais.

"Isso não devia ter acontecido. Por que? Por que com ela?"

"Mas não posso mais negar o que sinto."

"De qualquer forma, depois da maneira como a tratei ela nunca mais vai querer sequer chegar perto de mim."

Suspirou triste.

"E agora como vai ser? Será que a maldição vai se quebrar?"

Ficou parada ali por alguns minutos, pensando e repensando, sentindo seu rosto ser molhado pelas lágrimas. Até que finalmente deu a partida no carro, não poderia ficar ali para sempre.

Depois de alguns minutos dirigindo, estava em frente ao cemitério. Desceu do carro e caminhou até seu mausoléu, carregando nas mãos a sacola com o doce amaldiçoado.

Não sabia exatamente o que fazer com aquela torta agora que havia desistido de seu objetivo maligno. O óbvio seria jogá-la fora. Mas... Aquela torta continha magia. E como Regina sentia falta de sua magia.

Como poderia jogar fora algo produzido pela magia que ela não usava há tantos anos?

Aquilo era como uma lembrança de quando ela era a Rainha. Um resquício da sua tão adorada magia.

Entrou no cofre. Sim, iria guardar o doce ali. Não sabia o que iria acontecer, se iria estragar, apodrecer. Mas não conseguia simplesmente jogar fora.

Depositou a sacola com a torta em um dos compartimentos de seu cofre.

Sentou-se ali para fazer a única coisa que conseguia fazer ultimamente. Pensar.

Ficou ali durante o que pareceu serem horas. E foram mesmo. Quando se deu conta já passava de uma da tarde. Tinha que trabalhar, deveria ir à Prefeitura. Mas como? Com que disposição?

Era melhor ir pra casa. Deitar e chorar, que era o que sabia fazer de melhor.

*****

Passava das três da tarde quando Emma entrou na lanchonete da Vovó. Sua cabeça parecia pesada, sentia um cansaço que não sabia explicar. Sentou-se ao balcão, e assim que a viu, Ruby veio atendê-la.

– Uma dose de Whisky, por favor, Ruby.

A garçonete riu.

– Mas a essa hora? Não tá muito cedo pra beber, Xerife?

– Nunca é cedo pra um whisky. E eu to precisando hoje.

– Tudo bem, se você diz. Saindo uma dose de Whisky.

Emma ficou ali dando goles na bebida que descia queimando por sua garganta, enquanto seu coração parecia queimar de dor. Não entendia como tudo tinha mudado tão bruscamente. Como de repente estava apaixonada por Regina. Como tinha se deixado levar por isso. E como agora estava sofrendo por ela. Sentia raiva de si mesma por estar assim. Se culpava por ter se deixado apaixonar. Mas afinal, como se faz pra impedir isso?

– E então, quer conversar sobre isso? – Ruby perguntou, tirando Emma de seus devaneios.

– Isso o que? – Retrucou sem olhá-la.

– Emma, sei que a gente não é amiga. Mas você tá sempre por aqui e eu acho que já te conheço um pouco. Você tá bebendo a essa hora e tá com uma cara horrível.

– Obrigada pelo elogio. – Debochou.

Ruby riu.

– É, sério, você tá parecendo meio pra baixo. Anda, me conta o que houve. É algum carinha?

Emma olhou pra ela de relance. Por que pra algumas mulheres tudo tinha que ser por causa de homem?

Mas ela não estava tão errada assim. Não era por um homem, mas estava relacionado ao que ela perguntou.

– Não. É a Regina. – Disse naturalmente para em seguida matar o ultimo gole que havia no copo. – Me dá mais um.

– O que aquela bruxa fez agora? – A menina perguntou trazendo o segundo copo.

Emma se sentiu um tanto incomodada pela maneira como ela chamou Regina. Mas não havia motivos para defendê-la. Pelo contrário.

Não tinha intenção de falar sobre aquilo com ninguém, mas realmente precisava desabafar um pouco. Respirou fundo antes de falar.

– O mesmo de sempre. Brigas e mais brigas. Às vezes parece que ela age com a única intenção de me irritar. Tô de saco cheio disso. Eu achei que ela tava mudando, sabe? Mas acho que me enganei. Parece que a Regina nunca vai mudar. – Concluiu irritada e soltou um longo suspiro.

Ruby abriu a boca para responder algo, mas de repente olhou em direção a porta de entrada e fez uma cara de surpresa, o que levou a loira a olhar também.

E seu olhar se deparou com Henry ali parado com o canto de seus olhos vermelhos, como se quisesse chorar. O coração da loira apertou. Será que ele tinha ouvido o que ela havia dito sobre Regina?

– Hey, garoto. — Tentou disfarçar ainda com esperança de que ele estivesse alheio a situação.

– Você e minha mãe brigaram de novo? — Ele foi rápido em falar.

Emma trocou um olhar preocupado com a garçonete e então levantou do banco para ir até ele. Mas antes que pudesse falar algo ele se pronunciou novamente.

– Vocês nunca pararam de brigar. Só tavam mentindo pra mim.

– Não, Henry! Não é bem assim, eu...

– Por isso vocês tavam tão estranhas naquele dia no parque. Nem se falavam. Porque vocês só brigam. — Ele não deixava que ela falasse. — Vocês tavam mentindo pra mim dizendo que não brigam mais — Fez uma pausa e sua expressão ficou um pouco mais triste. — E minha mãe não mudou, não é? Ela continua má. Era tudo mentira! — Quase gritou, fazendo algumas pessoas que estavam perto olharem para a cena.

– Garoto, me deixa falar. Não é assim como você tá pensando... — Ele deu um passo atrás quando ela tentou se aproximar. — Nós acabamos discutindo hoje, mas não tem sido mais assim.

– É mentira! Eu ouvi o que você disse. Que a Regina nunca vai mudar. Você falou isso!

Emma se arrependeu imediatamente de ter dito aquilo. Mas como ia saber que ele estava ouvindo?

– Você tá nervoso. Vamos conversar direito. Deixa eu explicar o que aconteceu.

– É, Henry. Deixa a Emma falar o que aconteceu direito. Olha, se quiser eu preparo aquele chocolate com canela que você adora. Por conta da casa. — Ruby disse com um sorriso, tentando ajudar.

Emma deu um sorriso torto pra ela.

– Não! Não quero chocolate e nem quero conversar com você. Você é uma mentirosa. — Disse para Emma. — E a Regina também. Vocês me enganaram!

Nesse momento ele forçou os olhos e lágrimas escorreram. Foi quando ele virou, abriu a porta e saiu correndo para a rua.

– Henry?! — Emma chamou. — Droga!

Sem nem olhar para a garçonete, saiu correndo atrás de seu filho.

Ele já ia longe quando ela chegou na calçada. Entrou na viatura rapidamente e dirigiu na direção dele. Foi alcançá-lo, mas tinha que ser cautelosa ou poderia machucá-lo. Emparelhou o carro ao lado dele e dirigiu devagar.

– Garoto, para com isso. Entra no carro. — Disse firme assim que abaixou o vidro. — Vamos conversar.

Ele não disse nada. Ela percebeu que ele chorava.

– Anda, por favor. — Tentou parecer mais calma, mas estava realmente irritada. Já não aguentava mais tudo aquilo.

– Não! Me deixa. — Protestou, correndo para o outro lado.

Mas Emma foi mais rápida em jogar o carro na frente dele. Claro, tomando cuidado para manter a distância e não machucá-lo.

Ele foi obrigado a parar, com os olhos arregalados, quando a viatura parou inclinada a sua frente, fechando seu caminho.

Emma saiu do carro furiosa.

– Já chega, Henry! — Ela o puxou pelo braço e o obrigou a entrar pelo lado do carona. Nem ela mesma estava reconhecendo sua atitude um tanto rude, mas suas emoções não estavam normais.

– Olha, sei que tá chateado pelo que me ouviu dizer. — Falava enquanto ainda estava de pé do lado de fora do lado do carona. — Mas você não pode sempre agir assim. Você vive dizendo que já cresceu, mas por qualquer coisa você age como um bebê chorão! — O tom dela era firme, duro.

O menino chegou a se assustar, Emma nunca tinha falado assim com ele.

– Isso precisa parar, ouviu bem?!

Ele abaixou a cabeça. Emma suspirou e deu a volta no carro. Assim que entrou, respirou fundo enquanto manobrava o veículo e o estacionava em um canto da rua.

– Regina e eu realmente discutimos ontem e hoje. — Começou a falar já com o carro parado. — Mas isso não quer dizer que discutimos sempre. Não é mais assim. E ela... ela realmente mudou. — Sua voz falhou um pouco nessa frase. Já não tinha tanta certeza disso.

– Então porque brigaram?

Emma sentiu seu peito gelar. É óbvio que não podia dizer por que brigaram. Teria que mentir.

– Isso não importa, Henry. Coisas de trabalho. Você sabe que sua mãe é nervosa. E eu também não fico pra trás. Então uma coisa levou a outra e quando vimos estávamos discutindo. Mas olha, garoto, mudanças exigem tempo. Sua mãe tá se esforçando pra te ver bem comigo, isso não podemos negar. Você viu quanta coisa já mudou. Só que às vezes temos recaídas... isso é normal.

Por mais que estivesse com raiva de Regina, Emma jamais incitaria Henry contra a mãe. Seu desejo de vê-los bem era mais do que real, e isso não iria mudar porque elas tinham brigado. A felicidade de seu filho dependia também da relação entre eles, e Emma continuaria a ajudar no que fosse possível. E tinha que admitir que a morena realmente estava sendo mais flexível quanto a isso.

O menino pareceu pensativo, como se refletisse o que ela acabara de falar.

– Não quero que fique com raiva dela. E nem de mim. Os adultos são meio burros às vezes. Cometemos muitos erros. Mas eu juro que não mentimos pra você. Tudo que aconteceu até aqui foi real.

Ele a olhou e viu a sinceridade nos olhos de sua mãe.

– Mas... ela é a Rainha Má. E se ela tiver tramando alguma coisa. Ela já sabe que você é a Salvadora.

– Henry, você quer parar com isso!! — Protestou mais grossa do que desejava.

Ele chegou a se assustar.

– Isso já passou dos limites. Você tem que parar com isso. Agora!

– Mas... Então... Você não acredita mesmo? — Sussurrou tristemente.

Todas as vezes que ele falava assim Emma se sentia mal. Destruir a imaginação dele não era algo prazeroso. Mas ela precisava acabar com aquilo.

– Garoto, eu só... é complicado. Mas... — Ela fez uma pausa buscando as palavras certas. — Você tem que pensar na possibilidade de isso não ser real. Quer dizer, eu já tô aqui há meses e nada aconteceu, não é? Então talvez não exista essa coisa de contos de fadas. Sabe, um dos motivos de sua mãe ter brigado comigo foi porque ela tava nervosa pelo jeito que você agiu com ela naquele dia. — Mentiu. Mas tinha que usar disso pra convencê-lo. — Ela nunca vai conseguir mudar totalmente se você ficar sempre acusando ela de ser má.

Ela esperou uma resposta dele, porém não obteve. Então ela continuou.

– Já tá na hora de você começar a aceitar que todos aqui são pessoas normais. Que eu não sou nenhuma salvadora e que sua mãe não é uma Rainha. Ela é apenas Regina, a Prefeita. E eu sou apenas Emma, a Xerife. — Respirou fundo antes de continuar. — Sei que é difícil, garoto. Mas tá na hora de você crescer e parar de pensar nessas coisas.

Henry abaixou a cabeça. Não podia acreditar que ela estava falando aquilo. Queria falar algo, mas estava magoado. Pela briga, e por Emma parecer duvidar dele.

– Se você não acredita em mim, então todos estão perdidos. — Murmurou sem encará-la. Mas ainda com esperança de que ela estivesse dizendo aquilo porque estava nervosa.

A loira respirou fundo. Já estava exausta, não sabia mais o que falar.

– Vou te levar pra sua casa.

Deu a partida no carro e dirigiu em direção à mansão 108. No percurso deu graças a Deus de saber que naquele horário Regina estava na Prefeitura. Não queria encontrar com ela.

Henry abriu a porta e Emma entrou após ele. Queria ter certeza de que ele estava mais calmo e iria ficar bem.

– Toma um banho, come alguma coisa e vai ver TV, garoto. Ou jogar videogame, sei lá. Só se acalma, ok?

– Tá bem, Emma. — Praticamente sussurrou.

Um segundo depois Regina apareceu pela porta da cozinha, chegando no hall, onde eles estavam. Sua expressão era meio surpresa. Estava em casa porque não tinha cabeça para voltar ao trabalho. E então ouviu a voz de Emma.

A loira prendeu o ar quando a viu. Isso era a última coisa que queria.

– O que houve? — Regina perguntou alternando o olhar entre os dois e vendo que seu filho estava com cara de choro.

Os dois ficaram em silêncio. Henry sem saber o que fazer. Emma com todas aquelas emoções conflitantes dentro dela. Seu coração batendo forte pela raiva. Raiva pelo jeito desprezível que Regina agiu com ela. E raiva porque mesmo depois disso ela ainda sentia vontade de estar com ela.

– Ninguém vai falar nada? — Regina insistiu se aproximando mais. Sua expressão estava séria.

O menino olhava pra baixo. Não queria que elas brigassem de novo, então era melhor não perguntar nada do que ele queria perguntar.

– Garoto, pode ir pro seu quarto, por favor? Preciso falar com sua mãe.

– Mas...

– Sem "mas", Henry! — Emma cortou ríspida.

Até Regina se surpreendeu com o tom dela. Nunca tinha visto ela falar assim com Henry.

– Vocês vão brigar de novo. — Murmurou ele.

– Não vamos não. Eu prometo. Agora, por favor, deixa a gente a sós.

Ele olhou pra ela e depois pra Regina e então subiu as escadas correndo.

Assim que ouviu a porta do quarto dele fechar, foi Regina quem pronunciou.

– Já posso saber por que meu filho estava chorando? — Regina não queria ser tão ríspida, mas estava ansiosa por saber.

– Ele soube que nós brigamos de novo e se chateou.

– Não é possível. Por que você contou pra ele, Swan?

– Eu não contei nada! Ele me ouviu conversando com a... — Por que estava se explicando? — ... Ahh, isso não interessa.

– É claro que interessa. Ele está assim porque você...

– Ele está assim por nossa culpa, Regina! — Cortou antes que ela terminasse de falar.

A morena a olhou em tom surpreso, não esperava por aquelas palavras.

– Ele tá assim porque não aguenta mais ver a gente brigando o tempo todo. Isso o magoa. Isso tá destruindo a infância dele. — Emma falava em um fôlego só. — Tem apenas alguns meses que eu tô aqui e já perdi as contas de quantas vezes vi o Henry magoado por nossa culpa. Nossa culpa, Regina! — Enfatizou no final.

Regina engoliu em seco.

– E eu também já não aguento mais isso. — Emma não dava tempo para Regina responder. — Eu tô exausta de tantas brigas. Eu não aguento mais brigar com você, Regina. — Seu coração batia acelerado, aflito, e apesar de tudo, apaixonado. Porém magoado. — Isso tem que acabar! Já chega! Será que você não se cansa de sempre ver ele assim também? Chorando por nossa culpa. Nós estamos destruindo a infância dele. Sempre que ele acha que tudo vai ficar bem, lá estamos nós brigando de novo, jogando por água abaixo as esperanças dele! — Emma cuspia as palavras num tom raivoso e magoado.

– E-Eu...

Regina tentou falar, mas Emma interrompeu de novo.

– Eu sinceramente não quero saber o que você acha. Não quero ouvir você. Porque sei que qualquer coisa que você falar vai nos levar pra outra discussão. Porque nós somos incapazes de ter um relacionamento civilizado. Você e eu... nunca vamos nos entender.

Emma falava sem parar. Como se quisesse colocar pra fora algo que lhe sufocava o peito. Regina apenas ouvia, incapaz de retrucar.

– Não me interessa mais o que você pensa ou deixa de pensar de mim. Se me odeia, se me despreza. Eu tô pouco ligando pra isso! — Mentiu. E Regina percebeu o tom magoado em sua voz. — Só não quero mais que meu filho sofra por causa dessas brigas. — Se permitiu chamar Henry de "meu filho" na frente dela e isso foi bom. — Eu já me cansei dessas brigas sem fim. Isso precisa acabar agora!! Ele não merece sofrer porque você é incapaz de conviver bem comigo! Porque você me odeia. Isso tem que acabar! Só me diz que vai cuidar dele, que vai fazer de tudo pra ver ele bem.

Regina estreitou as sobrancelhas, Emma falava de um jeito estranho.

– Por que você...?

– Diz, Regina! Promete que vai cuidar dele! — Ela olhava no fundo dos olhos castanhos. Regina a encarava com seu coração acelerado. Não entendia porque Emma pediu aquilo, mas como sempre algo no olhar dela a fazia agir exatamente como a loira queria. E é claro que cuidaria sempre de seu filho.

– É claro que sempre vou cuidar dele. — Sussurrou.

– Ótimo.

Emma respondeu ainda a encarando. Então deu meia volta e deixou a casa, sem pronunciar nenhuma palavra a mais.

Regina ficou alguns segundos olhando na direção da porta por onde ela havia acabado de sair. Seu peito queimando pela presença dela. A vontade de beijá-la era latente. Realmente não saberia com iria ser daqui pra frente. Não tinha tido coragem de entregar a torta envenenada pra ela. E agora teria que continuar convivendo com ela.

Será que tinha sido uma boa ideia dizer aquelas coisas horríveis pra ela e cortar algo que estivesse começando entre elas? Se não tivesse feito isso, talvez estivessem no escritório agora, trocando beijos deliciosos, como foi outras vezes.

Mas de que adiantaria? Se ficasse com ela e a maldição acabasse por ser mesmo quebrada, perderia Emma de qualquer forma. Suspirou cabisbaixa pensando nisso, e então subiu as escadas devagar, seguindo para o quarto de Henry.

– Filho? — Chamou baixo quando entrou no quarto.

Ele estava deitado de lado, virado para a janela. Ela se aproximou e sentou na beirada da cama. Esperou que ele dissesse alguma coisa, reclamasse, porém o que ouviu foi o som dele fungando. Isso apertou o coração dela. Ele estava chorando baixinho. Ela não sabia o que fazer, estava tão quebrada, não tinha forças.

Passou seus dedos pelo cabelo dele. Tentava formular algo pra falar, sabia que tinha decepcionado ele. Depois de um silêncio que parecia interminável, ouviu a voz baixa dele.

– Por que você e a Emma nunca param de brigar? — Sua voz era chorosa.

A expressão de Regina se contorceu em tristeza. Sua maior dor era ver seu filho sofrer.

– Henry, eu... — Pigarreou — O que ela te disse? — Por um momento temeu que ele soubesse o real motivo.

– Não foi ela que contou. Eu escutei ela falando com a Ruby na lanchonete. — Ele disse confirmando o que a loira havia dito.

Porém o medo de Regina aumentou. Se ela estava conversando com a garçonete talvez pudesse estar desabafando.

– Ela... disse... por que brigamos?

– Disse que foi por causa de trabalho e que vocês ficaram nervosas.

A mãe respirou aliviada. Claro, Emma jamais contaria. Não deveria sequer ter duvidado disso.

– Henry, querido... foi no calor do momento. Nós...

– É sempre assim! — Ele disse levantando-se bruscamente, ficando sentado na cama e olhando bem dentro dos olhos dela. — Toda vez que eu acho que tudo vai ficar bem, vocês estragam tudo! — Esbravejou.

Regina o olhou surpresa pelo tom que ele usou.

– Você prometeu que não ia mais brigar com ela. — O olhar dele desafiou o dela.

– Desculpe, Henry.

– Você nunca cumpre o que promete. — Murmurou desviando o olhar. — Sempre mente. — Concluiu com pesar e voltou a se deitar na mesma posição de antes.

A expressão dela era de pura tristeza. As palavras dele cravaram como estacas em seu peito. Ficou olhando para ele virado para a parede, e depois de longos minutos de silêncio resolveu deixar o quarto dele. Não havia o que falar, o que fazer.

De um jeito ou de outro sempre acabava quebrada.

Trancou-se em seu quarto e chorou. Estava perdida. Emma a odiava, Henry a odiava. Não teve coragem de lutar contra a Salvadora. E agora provavelmente a maldição seria mesmo quebrada.

Tudo que tentara impedir estava acontecendo. De nada valeu seu esforço. De nada valeu ter pisado nos sentimentos que nutria pela loira.

*****

À noite, Emma e Mary Margaret jantavam. Emma estava perdida em seus pensamentos. Estava dolorida. Mais uma vez se via apaixonada e sendo magoada. Por mais que quisesse dizer pra si mesma que era forte e que não sofreria como sofreu por Neal, que era apenas uma paixonite besta, ela no fundo sabia que não estava sendo bem assim.

– Tá tudo bem?

A voz da amiga a tirou de seus pensamentos.

– Por quê?

– Você mal tocou na comida. — Observou que Emma apenas mexia o garfo brincando com a comida, mas não comia. — Aconteceu alguma coisa?

Emma suspirou largando o garfo no prato.

– Discuti com a Regina de novo. — Respondeu sem ânimo.

– Nossa! Essa mulher não se cansa?

– Por que acha que a culpa foi dela? — Emma indagou.

– Porque sempre é. — Respondeu convencida disso. — Ou estou errada dessa vez?

– Não. — Suspirou pesarosa. — O pior é que o Henry ficou sabendo e se chateou. Saiu correndo chorando pela rua, tive que ir atrás dele e praticamente colocar ele à força dentro do carro.

– Nossa, Emma. Que horror.

– Não aguento mais isso, Mary. De verdade, não aguento mais. Nem com todos os problemas que tive minha vida toda, nunca foi tão complicado como agora. — Sabia que aquilo não era total verdade. Mas estava tomada pela melancolia.

– Calma, Emma. Quanto a Regina, não sei se ela um dia mudará. Mas o Henry vai crescer e amadurecer, e isso vai parar.

Emma ficou em silêncio um instante, com algo que vinha martelando em sua mente desde esta tarde.

– Regina tem razão. Enquanto eu estiver aqui isso nunca vai passar.

– O que quer dizer? — Perguntou sentindo seu coração apertar.

– Que Regina e eu juntas... Quero dizer, na mesma cidade... Não somos uma boa combinação pro Henry. Sempre estamos brigando e magoando ele. Não conseguimos conviver uma com a outra, isso tá provado. — Se afligiu com suas próprias palavras, lembrando-se do que estava acontecendo entre elas até alguns dias atrás. Seu coração estava quebrado.

– Emma, você...

– Isso tem que acabar, Mary. — Cortou a amiga. — E agora tô vendo que só tem mesmo um jeito.

– E o que você quer dizer com isso?

– Que uma de nós duas tem que ir embora. E com certeza não vai ser a Prefeita, né.

*****

Havia se passado três dias desde o ocorrido com Henry. E desde que Emma havia começado a martelar na mente aquilo que conversou com Mary.

Três dias. Ela teve tempo pra pensar, repensar, pensar de novo. Três dias pode não parecer muito, todavia pra alguém que praticamente não conseguiu dormir durante eles foi como uma eternidade.

Havia tomado sua decisão. Era o certo a se fazer? Provavelmente sim. Ela ficaria bem com isso? Com certeza não.

Se aproximava do meio dia e ela dirigiu até a Prefeitura, porém Regina não estava lá. Devia então estar em casa ou almoçando na lanchonete da Vovó. Por via das dúvidas passou em frente a lanchonete e o carro de Regina não estava lá. Então foi para a mansão.

Parou a viatura e respirou fundo várias vezes. Seu coração batia tão forte que ela podia jurar ouvir. Suas mãos suavam. O nervosismo tomava conta de si. E o pior de tudo era a sensação de estar completamente quebrada.

Suspirou e cerrou os punhos com força, para então sair do carro.

Andou cabisbaixa pelo caminho no jardim. Como se ainda pensasse no que fazer. Seu coração dizia, ou melhor, gritava pra que não fizesse aquilo. Mas que remédio? Henry estava sofrendo com todas essas brigas.

E pra completar, tinha ido pra cama com Regina, sentido seu coração bater forte como talvez nunca tivesse batido, pra depois ouvir que não passou de sexo pra ela. Aquilo estava doendo demais.

Claro, Emma era adulta e devia saber lidar com isso. Mas quem consegue pensar com clareza quando se está apaixonado? Só queria se afastar de tudo aquilo, sair do meio daquelas brigas infinitas, daquilo que estava lhe fazendo mal.

Chegou finalmente à varanda da mansão. Respirando fundo mais uma vez, apertou a campanhinha.

Regina rapidamente olhou na direção do som estridente. Estava na cozinha preparando algo para comer. Quem seria? Henry tinha a chave. Ajeitou um pouco os cabelos e foi atender.

O arrepio foi imediato subindo das pernas até a nuca, eriçando todos os seus pêlos quando viu quem era. Foi preciso apenas um milésimo de segundo pra seu coração disparar. Tinha três dias que não a via.

– Precisamos conversar. — Emma falou assim que ela abriu a porta. Sua voz saiu ofegante, o que denunciava seu estado de nervosismo.

Regina não teve tempo ou força para rebater. A presença dela lhe deixava atordoada. Então mesmo assustada com aquela visita repentina, apenas assentiu.

– Claro. — E deu espaço para que ela entrasse.

Emma passou, Regina pôde aspirar o cheiro dela. A saudade apertou forte no peito. Como queria esquecer tudo e se jogar nos braços dela. Mas com certeza agora Emma a odiava com todas as forças.

Precisava se recompor, ter sua postura imponente, do contrário acabaria se mostrando fraca diante dela. E já que teria que continuar convivendo com ela, então que fosse como antes. Então resolveu alfinetar.

– Faça o que sabe fazer de melhor. Sinta-se em casa.

Emma pareceu não dar muita importância ao comentário dela. Olhava em volta. Queria ter certeza de que Henry não estava em casa.

– Acho que veio pra falar comigo. — Regina chamou a atenção dela.

– Claro. — Olhou pra ela. — Olha, isso não é fácil. — Sua voz saia com dificuldade, sua respiração era ofegante. — Seja lá o que for... que existe entre nós, precisa acabar.

Regina não esperava que ela ia dizer aquilo. Sentiu um frio na barriga. Mas não podia ficar pra trás. Não demonstraria sua dor. Não poderia mesmo ficar com Emma Swan, era impossível.

– Ah, finalmente alguma coisa em que concordamos. — Debochou.

Emma resolveu não dar importância e continuou.

– Quero fazer um acordo com você sobre o Henry.

– Não vou fazer nenhum acordo com você...

– Eu estou deixando a cidade. – Interrompeu seriamente.

Aquelas palavras ecoaram na mente de Regina. Seu coração palpitou. Seu semblante, antes meio debochado, imediatamente mudou e se tornou sério.

– O que?

Emma a encarava, estava nervosa, ansiosa, trêmula.

– Isso... que estamos fazendo é um problema. E quem mais tá sofrendo é o Henry. E eu vou embora, mas eu tenho condições...

Regina ouvia sem acreditar, era como se estivesse perdida nas palavras. Emma estava dizendo que iria embora. Isso era tudo que ela poderia querer, certo? Se livrar dela de uma vez por todas.

– ...Eu ainda posso ver o Henry, posso visitar e passar um tempo com ele!

– E se puder visitá-lo, ainda estará na vida dele. – Regina não tinha mais certeza de nada do que queria. Não sabia se queria Emma longe ou perto. Obviamente, para seus planos, era perfeito que ela fosse embora.

– Olha, em qualquer acordo as duas partes saem perdendo. Mas vamos ser honestas, nós sabemos que um mundo onde eu não estou na vida dele não existe. E ninguém pode fazer nada contra sobre isso.

O coração de Emma batia desesperado. Será que essa era mesmo a decisão certa? Era o que ela se perguntava. Estar ali, frente a frente com Regina, tão perto dela, fazia essa parecer a decisão mais idiota do mundo.

Mas ainda mais idiota seria acreditar que as coisas mudariam entre elas. E além de estar com raiva, e magoada, já não aguentava mais ver Henry sofrer por culpa dos erros delas.

Regina desviou o olhar para baixo e respirou fundo, tentando assimilar tudo aquilo. Sentia um desconforto enorme em seu peito. Emma ir embora era tudo de melhor que poderia acontecer. Se não fosse pelo fato de estar apaixonada por ela.

Respirou fundo mais uma vez.

– Então, o que você está propondo? – Perguntou sem encará-la.

– Eu não sei. Vamos decidindo na hora.

O que mais importava pra Regina era saber que Henry era seu. Que nada nem ninguém iria mudar isso. Que nada nem ninguém iria tirá-lo dela.

– Mas ele é meu filho? – Encarou a loira e apontou para si mesma com o polegar.

Emma olhou dentro daqueles olhos castanhos com um tanto de raiva. E muito a contra gosto, respondeu.

– É.

A morena forçou um leve sorriso.

Emma desviou o olhar e fez menção de ir embora.

– Quando você pretende ir? – Indagou mais ansiosa do que queria demonstrar.

A loira voltou a olhá-la.

– Não sei ainda. Mas é só o tempo de eu arrumar minhas coisas, organizar a delegacia. Acho que daqui a uma semana.

Regina engoliu em seco. Era conflitante demais aquilo que estava sentindo.

– É bom você começar a pensar em outra pessoa pra colocar como Xerife. – Emma continuou. – Fazer uma eleição ou sei lá.

– Sim, claro. – Respondeu sem vontade.

– Ok. – A loira virou as costas e finalmente deixou a mansão.

E Regina ficou ali, desnorteada com a notícia que havia acabado de receber. Sem saber a qual sentimento dar voz. Aquele que dizia que era o melhor, que era sua vitória. Ou aquele que gritava desesperadamente para não ficar longe de Emma.

Emma soltou o ar com força assim que entrou no fusca novamente. Suas pernas estavam bambas. Realmente não imaginou que seria tão difícil dizer pra Regina que iria embora. Queria chorar, mas não! Não iria chorar. Regina não merecia.

*****

Era quase 4 da tarde daquele mesmo dia. Emma vinha descendo as escadas quando ouviu batidas na porta. Era Henry.

– Oi, Emma. Tá tudo bem? Você tava meio estranha no rádio. – Disse enquanto entrava no apartamento dela.

– Ah, não... Eu tô bem – Tentava achar a melhor maneira de contar pra ele. – É só que... – Ficou de frente pra ele. Depois de respirar bem fundo, falou. – Preciso... tenho que te falar uma coisa. – Ele a encarou esperando ela falar. — Eu não posso mais ficar em Storybrooke.

– O que?! – Perguntou assustado.

– Eu tenho que ir.

– Ir? Você quer dizer deixar Storybrooke? – O menino não estava entendendo nada.

– É. Eu falei com a Regina e nós fizemos um acordo. Eu ainda posso te ver, só não... todo dia.

– Não. Não! Você não pode confiar nela. – Falou já desesperado.

– Eu preciso, é minha única escolha. É o que é melhor pra você, Henry. Toda vez que eu brigo com ela, alguém se machuca. – Seu coração doía demais. Era difícil estar dizendo para seu filho que iria deixá-lo. Mais uma vez.

– Não! Não! Não! – Ele gritou. – Você tá com medo. Isso acontece com todos os heróis. É só um momento de fraqueza, você tem que contra atacar.

– Henry! – Ela se abaixou na frente dele e segurou seus braços. – Isso não é uma história. É a realidade. – Sua voz já saía embargada, seus olhos lacrimejavam, seu coração parecia estar sendo esmagado. – E as coisas tem que mudar. – O encarava – Você não pode matar aula, você não pode fugir. E você... não pode acreditar em maldições.

O coração dele se partiu.

– Você realmente não acredita? – Indagou quase sussurrando.

– E-Eu... – Ela forçava para não chorar, mas não pôde mais, seus olhos apertaram e as lágrimas escorreram. – É assim que tem ser por enquanto. Eu fiz um trato. E usei meu super poder. Ela tá dizendo a verdade, ela vai cuidar muito bem de você.

– É! Mas ela quer você morta!

– Fala sério, Henry! – Agora sim ele estava exagerando.

– Você é a única que pode impedir ela! – Ele tinha que convencê-la. Ela tinha que acreditar.

Emma suspirou e se pôs de pé novamente, cruzando os braços.

– Impedir ela do que? Tudo que ela fez foi lutar por você. Isso só... Saiu fora do controle. Me desculpa.

Ele a olhou desesperado, com seu coração batendo triste. E então se lançou nela em um abraço meio brusco.

Emma o apertou no abraço. Precisava senti-lo. Amava demais seu filho.

– Emma, por favor, não vai. – Ele pediu choroso.

Ela sentiu seu coração partir. Mas tinha que ser forte. Era o melhor pra ele.

– Eu sinto muito, garoto. Mas tem que ser assim por enquanto. E não vamos deixar de nos ver. Sempre vou vir te visitar, te buscar pra passar um fim de semana comigo em Boston. E podemos nos falar todos os dias pelo telefone. – Ela falava tentando tranquiliza-lo.

– Eu sei. Mas e as pessoas daqui. Todas precisam de você. Você é a Salvadora.

– Já chega, Henry. Já conversamos sobre isso.

Ela se afastou um pouco e beijou os cabelos dele. Olhou-o nos olhos.

– Prometo que tudo vai ficar bem. – Disse enquanto acariciava o rostinho dele. Seu peito estava sufocado – Eu te amo, Henry. – Sussurrou. Mas foi como libertar sua alma dizendo aquilo.

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– Eu também te amo.

Se abraçaram mais uma vez.

*****

Henry chegou em casa e bateu a porta com força. Viu que sua mãe estava sentada na sala, então saiu correndo pelas escadas e igualmente bateu a porta do quarto com força.

– Henry?! – Chamou sem entender aquele comportamento.

Levantou-se e subiu rápido os degraus.

– Henry, o que houve? Por que você entrou em casa assim? E onde você estava, demorou a chegar da escola. – Disparou quando entrou no quarto dele.

– A Emma vai embora!!! – Ele estava sentado na cama, tirando seu casaco.

Regina franziu o cenho. Então ele já sabia.

– Ela já te disse então? – Cruzou os braços parada perto da porta.

– Disse! E é por sua causa que ela vai!

Regina viu raiva nos olhos de seu filho. Era um misto de tristeza, frustração e muita raiva. Ele tinha os olhos vermelhos, com certeza havia chorado.

Ouvi-lo falar daquele jeito a quebrou ainda mais.

– Henry, não fala isso. Ela vai embora porque quer. Eu não pedi pra ela ir.

– Ela vai porque você não para de brigar com ela! – Ele gritou.

– Sinto muito, querido. – Disse sincera. Estava tão quebrada, não tinha mais forças pra discutir.

– Mãe, me deixa sozinho. – Pediu deitando e virando-se para a janela.

Regina sentiu um nó em sua garganta, o choro se formando. Mas fez o que ele pediu, saiu de seu quarto e fechou a porta.

Desceu as escadas sem animo algum, sentia-se completamente destruída. As coisas pareciam estar tão bem. E agora tudo desmoronava. Mas... afinal... a culpa era sua. Se não tivesse brigado com Emma nada disso estaria acontecendo. Seu coração não estaria doendo assim. Provavelmente estariam bem, ela, Emma e Henry.

Mas que esperanças teria de que isso seria algo duradouro? Afinal ela era a Salvadora, uma hora ou outra tudo ia acabar. Ficar com ela seria apenas prolongar aquele sofrimento que estava por vir.

Entrou em seu escritório, seu refugio. Pegou sua sidra e sentou em uma poltrona.

Pouco a pouco estava sendo derrotada, destruída. Não havia dúvidas de que a profecia iria mesmo se cumprir. Era melhor Emma ir. Era o único jeito.

“Emma”

“Que droga, Emma Swan! Por que eu tinha que apaixonar por você? Justamente por você!”

“Não sei viver com você. E não sei mais viver sem você.” Admitiu para si mesma.

“Como vou ficar sem te ver, sem ouvir sua voz, sem ver seu olhar tão intenso?”

“Sem seus beijos.”

Fechou os olhos suspirando, lembrando-se dela. Deu um grande gole na bebida.

“Mas é assim que tem que ser. Ela tem que ir embora. Não posso perder tudo, não posso perder o Henry.”

*****

Dois dias haviam se passado desde que Emma informara a Regina e Henry sua decisão.

Estava colocando alguns objetos dentro de uma caixa. Seu olhar se perdia por aquela bagunça que determinaria seu futuro longe de seu filho. Longe dele mais uma vez.

Só que dessa vez seria diferente. Sabia onde ele estava e não iria abandoná-lo, estaria com ele sempre. O buscaria pra passear, falaria com ele ao telefone, estaria presente sempre. Era seu filho e ela o amava. Mais do que tudo.

Contudo, mesmo sabendo que não se afastaria totalmente, não podia evitar de sentir uma tristeza constante por estar indo embora. Estar em Boston não seria como estar em Storybrooke e vê-lo sempre que quisesse, esbarrar com ele no Da Vovó. Isso lhe causava um aperto no peito que não conseguia conter. Tinha se apegado demais a seu filho. Estar distante seria extremamente doloroso.

Tentava se convencer que esse era o único e grande motivo por aquela tristeza. Mas sabia que havia outra pessoa responsável por isso. Iria sentir falta da morena linda que roubou seu coração da maneira mais inusitada.

– Emma? — Mary Margaret chamou vendo que a amiga parecia ter saído do ar enquanto olhava aquela caixa.

– Oi.

– Tem certeza que é isso mesmo que quer fazer? — Perguntou tocando o ombro dela.

– Não é o que eu quero. Mas tenho certeza que é o melhor.

– Vou sentir sua falta. — Mary disse com a voz vacilante.

Foi o suficiente para que o choro se formasse nos olhos de Emma. Engoliu a saliva e segurou as lágrimas. Tentou esboçar um sorriso enquanto se virou para a amiga.

– Também vou sentir sua falta.

Sem que Emma pudesse esperar, a amiga se aproximou e a abraçou forte. Emma ficou surpresa por alguns segundos, mas logo retribuiu o gesto de carinho. E automaticamente seus olhos se fecharam para sentir melhor aquele toque. Era tão difícil pra ela demonstrar carinho, sentir carinho por alguém. E Mary havia conseguido conquistar isso. Era impressionante como sentia-se confortável naquele abraço. Como se a vida toda tivesse buscado por ele.

– Você foi uma boa amiga, Emma. — Sua voz saiu chorosa.

– Mary Margaret, por favor, não fala no passado. Eu não morri ainda. — Brincou, arrancando uma risada da outra mulher.

Separaram-se e as duas tinham lágrimas nos olhos.

– Não é porque vou embora que vamos deixar de ser amigas, ok? Eu vou estar sempre por aqui. E você pode me visitar lá sempre que quiser. — Sorriu.

– Nem pense em se afastar de mim, mocinha. — A amiga concluiu.

– Pode deixar.

As duas riram, embora por dentro estivessem tristes.

– Bom... Eu... Acho que vou dar uma volta... Tô precisando espairecer. — Suspirou passando seu olhar por aquela caixa. — Quer vir comigo?

– Não, obrigada. — Sorriu pra não parecer mal educada. — Preciso terminar de preparar umas aulas. — Sabia que a amiga precisava e queria ficar sozinha, por isso recusou o convite.

– Tudo bem. Eu volto daqui a pouco. — Concluiu pegando um casaco que estava jogado na mesa e saiu.

Já era noite. Emma dirigia seu fusca sem saber pra onde queria ir. Não tinha rumo. Queria estar longe e queria estar ali. Isso era tão confuso. Mas o verdadeiro lugar onde queria estar era na mansão 108. Lá estavam as duas pessoas que ocupavam seu coração naquele momento. Queria vê-los, queria estar com eles.

A saudade de Regina atormentava com força. Cada vez que fechava os olhos, lembrava dos beijos que trocaram, da noite em que ficaram juntas. As imagens povoavam sua mente. O desejo de estar com ela de novo era forte demais, arrebentava seu peito. E isso fazia sentir ainda mais raiva. Porque Regina a tinha humilhado, ela devia odiá-la, mas por mais que tentasse... não conseguia.

Depois de tanto rodar pela cidade, acabou indo parar na colina, de onde tinha a vista de toda a cidade. Olhou aquelas luzes lá em baixo. Storybrooke era uma cidade pequena, conseguia ver praticamente tudo dali.

E ali, com todos aqueles pensamentos, com a saudade de Regina, com a dor de ter que deixar Henry mais uma vez, Emma pela primeira vez se permitiu chorar.

No início quis segurar, mas por fim deixou que o choro se libertasse. Precisava disso, precisava lavar sua alma.

Um choro contido, tímido. Sentia apenas as lágrimas escorrerem discretamente por sua face.

Passou toda sua vida fugindo de um lugar para outro. Quando não gostava de um lugar simplesmente ia embora sem olhar pra trás. E esse era o jeito que ela sobrevivia.

Mas em Storybrooke fora diferente. Aquele lugar tinha algo que não sabia explicar. Algo... Especial. Parecia que ali tinha finalmente encontrado o que procurou a vida inteira. Um lar.

E agora estava doendo demais ter que deixar aquele lugar para trás.

Ficou ali durante longos minutos, com seu coração apertado e o rosto sendo molhado pelas lágrimas.

*****

No dia seguinte Emma foi para a delegacia apenas na parte da manhã. A tarde voltou para o apartamento para terminar de arrumar suas coisas. Pretendia ir embora no máximo dentro de dois dias e queria deixar tudo pronto.

Se aproximava das quatro da tarde. Mary Margaret havia chegado da escola há alguns minutos e estava na cozinha preparando um lanche, enquanto Emma estava no andar de cima, no quarto dela arrumando a mala.

A professora se preparava para colocar o suco no copo quando ouviu o som da campanhinha. Deixou a jarra de lado e foi atender. E qual não foi sua surpresa quando constatou quem era.

– Boa tarde, srta. Blanchard. — Regina cumprimentou um pouco a contra gosto quando a outra abriu a porta.

– Boa tarde, Prefeita. — Retribuiu tentando se manter firme. Apesar de já não ter o medo que tinha dela antes, aquela mulher ainda era um tanto horripilante. — Em que posso ajudá-la? — Indagou realmente curiosa com a presença dela.

– A srta. Swan está?

Mary se perguntou o que ela poderia querer com a Emma pra vir até o apartamento. Mas bem, devia ser sobre trabalho ou sobre o Henry.

– Está. Eu vou chamar...

– Mary, você viu aquela minha blusa que...?

Alheia ao que estava acontecendo no andar de baixo, Emma vinha pela escada perguntando algo para a amiga quando avistou Regina parada à porta.

Seu coração disparou no mesmo instante. De susto e de nervosismo. Por que ela estava ali?

– Emma, eu já ia te chamar. A Prefeita Mills quer falar com você.

As duas se encaravam. Regina tinha seu coração acelerado desde a hora que decidiu ir ali. E agora vendo a loira de perto depois de todos aqueles dias, era como se apaixonar mais um pouco. Sentia a saudade gritar dentro de si.

Emma estava séria, parada no meio da escada olhando pra ela.

– Pode entrar, Regina. — Foi Emma quem falou. Se ela estava ali, devia querer falar algo sobre o Henry.

A morena respirou fundo e passou pela professora, que logo em seguida falou:

– Bom, vou deixar vocês a vontade pra conversarem. — Fez menção de sair já que o apartamento era pequeno e queria dar privacidade as duas.

– Não precisa, Mary. Você acabou de chegar, tá cansada. Ela e eu conversamos aqui em cima.

Direcionou seu olhar para a Prefeita, dando a entender que era pra ela subir. Regina desviou o olhar para o chão e um tanto desconsertada andou em direção a escada.

Assim que ela deu o primeiro passo, Emma deu meia volta e subiu as escadas novamente, entrando em seu quarto.

Mary Margaret fechou a porta da sala e observou Regina subir, com seus saltos fazendo um barulho vir da escada a cada degrau que ela subia.

Alguns segundos depois de Emma entrar no quarto, Regina entrou também.

Emma estava de costas, mexendo numa mala que estava aberta sobre a cama. E quando percebeu que Regina tinha entrado no quarto, perguntou:

– Então, o que houve pra você vir me procurar aqui?

Emma não a encarava, estava dobrando uma roupa para colocar dentro da mala.

Regina respirou fundo. Precisava reunir toda sua força e coragem para dizer o que tinha ido fazer ali. Seu coração palpitava, sua respiração falhava.

– Eu vim... – Pigarreou. Não havia uma gota de saliva em sua boca. Respirou fundo mais uma vez. – Vim pedir pra você ficar.

Notas finais
Bom, é isso pessoal. Um pouco de drama ainda rs, mas olha aí as coisas começando a mudar no final. Gente, espero que continuem acompanhando. Foi bem dificil voltar, mas me esforcei porque amo a fic e o retorno que vcs sempre me dão. Agora mais do que nunca preciso saber a opinião de vcs. Então espero quem leu nos comentários. Beijos e até o próximo!