“De dois corações um só se fez

Um que vale mais que dois ou três.”

Dois corações — Melim

Capitulo 56 – Dois corações

POV PERCY

Não dormi a noite toda.

Fiquei boa parte da madrugada pensando em como as coisas aconteceram e em como tinha sentido a falta dela nos últimos sete meses enquanto nesse tempo ela fazia enxoval e preparava o quarto do bebê que ela teria com ele.

Diversas vezes me perguntei se ela também sentia minha falta ou se pensava em mim.

Cheguei à conclusão de que se ela estava grávida de 7 meses, provavelmente estava transando com aquele cara antes mesmo de nos encontrarmos.

Quando já não aguentava mais remoer esse assunto, olhei pela janela e notei que havia amanhecido.

Me levantei e segui para o banheiro.

Precisava de um banho.

[...]

POV ANNABETH.

—Nico fica calmo. — Thalia dizia no telefone.

Era por volta das nove e meia e estávamos todos na sala conversando enquanto Thalia editava as fotos que tínhamos tirado mais cedo quando o telefone dela tocou.

Até agora só tinha entendido que Nico estava nervoso.

—Ele o que?! — ela quase gritou. — Fofoqueiro do caralho!

A olhei nervosa.

—Sim, ela tá aqui. — ela olhou para mim apreensiva. — Vou colocar.

Ela tirou o telefone da orelha.

—Nico precisa falar com você. Vou por no viva voz.

Assenti com a cabeça.

—Annie? — ele chamou do aparelho.

—Oi. — disse baixinho.

—Como está nossa princesinha?

—Está bem. — mordi o lábio. — O que houve?

Ele suspirou.

—Me desculpa tá legal?

Comecei a me sentir enjoada.

—Pelo que? — perguntei baixinho.

—Percy... Ele descobriu que você está grávida.

Cai sentada no sofá.

—Mas ele não sabe que é o pai. — ele emendou rápido. — Ele acha que o Thommy é o pai.

Menos mal.

Fiquei muda e Nico continuou.

—Me desculpa, eu não ia falar nada, mas ele pegou meu celular e viu a foto do seu ensaio. Depois disso tive que explicar.

Me sentia zonza.

—Tudo bem Nico. Você não tem culpa. Só não fala mais nada para ele. Por favor. – consegui dizer.

—Claro baixinha. Não vou falar nada. Se cuida tá?

—Você também.

Depois disso Thalia voltou à chamada e foi para o quarto, provavelmente xingar o marido.

Ele não podia descobrir.

Eu não saberia o que fazer caso isso acontecesse.

[...]

“Oitavo mês aguenta, que eu já tô chegando...

Só quero um jeito de te encontrar.”

34 semanas

Pouco mais de um mês tinha se passado e o assunto morrido.

Dei graças a Deus por Percy sempre ter sido lerdo e não ter feito as contas certas e se tinha feito tinha decidido manter silêncio, o que só provava minha teoria de que ele não queria um filho.

Em todo caso, não consegui me concentrar muito nesse assunto, visto que estava no meio do oitavo mês de gestação e isso trouxe meu chá de bebê.

Thommy e Thalia estavam organizando tudo e me enlouquecendo, ele pessoalmente, ela por ligação e chamada de vídeo.

Dessa vez minha amiga traria o marido, para de acordo com ela “ele não dar com a língua nos dentes mais uma vez".

No dia do chá não me deixaram fazer absolutamente nada, então fiquei vendo televisão.

Enquanto todos corriam de um lado para o outro eu conversava com minha barriga.

—Ei Bia. Mamãe falando. Seus padrinhos estão trabalhando duro para a sua festa ficar linda.

Em resposta a pequena bebê se mexeu no meu ventre.

—Annie meu amor! — Thommy apareceu no corredor com um babyliss não mão. — Venha cá, preciso te deixar mais linda do que já é, vamos!

Me levantei com dificuldade e segui até ele.

Alguns minutos mais tarde, saí do quarto pronta.

Ele tinha arrumado meu cabelo em cachos e preso a minha franja para trás.

A maquiagem estava leve e eu usava um vestido branco curto de mangas longas.

—Você está linda. — Thalia me disse.

—Obrigada. — sorri.

—Vem, vamos descer para a sua festa. Tenho certeza que você e a Bia vão amar tudo!

Segurei sua mão e saí do apartamento.

[...]

POV PERCY

Um mês havia se passado. E havia um mês em que eu remoía aquela história.

Ainda não me conformava que na mesma semana em que transamos, ela provavelmente tinha transado com outro cara. E agora além de todas as outras ideias que já vinham me passando pela cabeça, outra martelava sem parar.

E se fosse meu?

Annabeth me diria se esse bebê fosse meu, certo?

Ela não me esconderia isso.

Passava os dias entre a dúvida se era ou não o pai dessa criança.

Nessa mesma semana Thalia postou em seu Instagram profissional as fotos do ensaio de gestante dela.

Todas as fotos ficaram lindas e a gravidez lhe caiu bem.

Nico não falava direito comigo desde o dia em que nós brigamos e eu descobri tudo.

Algo me dizia que ele sabia toda a verdade, mas covarde que sou não tinha coragem de perguntar.

Na sexta-feira ouvi Nico e Thalia saírem de casa.

—Você não esqueceu as passagens né? — ele perguntava. — Somos os padrinhos! Imagina só, não estar no chá de bebê da minha bonequinha.

Senti o estômago revirar e me aproximei da porta.

—Não esqueci Nico! — Thalia ralhou. — E ela também é minha afilhada! Não deixaria de estar lá! E exatamente por isso que estamos indo um dia antes!

A discussão dos dois foi ficando cada vez mais baixa até sumir por completo.

Pelas contas em minha cabeça Annabeth deveria estar completando o oitavo mês de gestação agora.

A dúvida de sempre voltou a pairar na minha mente.

Deixei todos os pensamentos me consumirem até não aguentar mais e sair para dar uma volta.

Eu precisava espairecer.

[...]

POV Annabeth

A festa estava linda.

O salão do nosso prédio estava cheio de pessoas, que vieram por mim e pela Bianca.

Minha filha parecia saber que a festa era para ela, pois pulava sem parar na minha barriga.

Tudo tinha sido pensado com muito carinho pelos meus dois melhores amigos e cada detalhe da festa tinha minha cara.

Todas as minhas amigas do tempo de escola estavam ali, de NY e São Francisco, além de alguns colegas de trabalho e minha família.

Minha madrasta enchia os olhos de lágrimas todas as vezes que me olhava.

—É meu primeiro neto. — ela dizia fungando.

Já passava das dez, é só restavam no salão os padrinhos da minha filha e minha família.

Me aproximei de Thalia e Thommy.

—Muito obrigada. — abracei os dois com dificuldade. — Nós duas amamos tudo.

—Para! Você vai me fazer chorar. Sabe que não pode falar pela Bia ou meu coração não aguenta.

Comecei a rir.

—Certo. Podemos subir? — perguntei. — Quero atacar os cupcakes que sobraram!

Os dois se olharam e começaram a rir.

[...]

POV PERCY.

Eu poderia andar Nova York inteira que não conseguiria parar de pensar em Annabeth.

Fiquei algum tempo sentado no central Park, mas estávamos em janeiro e o frio estava insuportável.

Havia nevado há alguns dias, mas a neve ainda não tinha descongelado, então estava tudo branco, por onde se olhava.

Eu costumava amar o inverno e achava tudo mais bonito quando a neve caía, mas agora só estava tudo mais cinza e sem alegria.

Andei devagar para fora do parque e estava prestes a atravessar a rua, quando uma pequena figura cor de rosa passou correndo por mim, para a rua movimentada.

Quando vi a menina correr, sem olhar para os lados, meu primeiro instinto foi agarrar sua mão.

Ela levantou o olhar assustada.

—Ei pequena, cuidado! Você pode se machucar.

Observei a menininha me olhar com grandes olhos verdes. O cabelo dela era loiro claro e caia em grossos cachos por baixo do gorro rosa choque.

—Qual seu nome? E cadê sua mãe?

—Sofie! — uma moça gritou atrás de nós, respondendo minhas duas perguntas.

—Mamãe! — ela se soltou da minha mão e correu para a mãe.

—Aí meu Deus, Sofie! Não me assuste desse jeito! — a moça alta disse abraçando a filha.

—Está tudo bem mamãe, o titio me segurou. — ela sorriu para mim e mãe dela pareceu finalmente me notar.

—Segurou? – ela perguntou confusa.

—Ela ia atravessar a rua sem olhar. Meu instinto foi segurar a pequena fujona aí.

A mulher, que aparentava ter seus trinta e poucos anos, arregalou os olhos preocupada.

—Sofie Marie, você sabe que não pode atravessar a rua sem um adulto! – ela deu uma bronca na menina.

—Eu sei mamãe, mas eu queria ver o totó do outro lado!

A garotinha fechou a cara e cruzou os braços com dificuldade por causa do casaco enorme que usava. Ela não devia ter mais que três anos.

—Nossa, moço, muito obrigada! – ela se direcionou a mim novamente. — Não sei nem como agradecer. Me distraí um segundo para pagar o balão que alguém me pediu e quando vi, ela já não estava mais ao meu lado. Quase morri do coração.

—Que isso. — sorri gentil. – Não foi nada.

A mulher sorriu de volta.

—Você tem filhos?

Senti meu estômago pesar. Isso era o que eu mais queria saber nos últimos dias.

—Não. — disse baixinho.

Ela me olhou estranho.

—O senhor pareceu tão gentil com a minha pequena que parecia que tinha feito isso a vida toda.

Senti mais uma pontada no estomago.

—Sempre gostei de crianças. – dei de ombros.

Ela sorriu mais uma vez.

—Obrigada por salva-la, mais uma vez. Não sei o que poderia ter acontecido se você não a segurasse!

—Já disse, não foi nada. — sorri sem jeito.

A moça então se afastou com a menininha no colo, que sorriu pra mim e acenou com a mãozinha gorducha.

Alguma coisa dentro de mim mudou, nesse instante. E no lugar da dúvida, veio o desejo. Eu queria muito ser pai.

De repente tinha quase certeza de que um serzinho daqueles tinha uma parte minha.

Decidi deixar o medo de lado. O que eu tinha a perder? Precisava descobrir a verdade e sabia quem poderia me contar tudo.

[...]

No dia seguinte, tomei a coragem necessária para ligar.

Eu não sabia para que horas estava marcado o chá de bebe de Annabeth, mas sabia que aconteceria no sábado, então esperei até tarde da noite para ligar, calculando o fuso horário.

Eram passadas da uma da manhã em NY, mas em São Francisco deveria ser umas dez.

O telefone tocou algumas vezes e quando já estava quase desistindo ela atendeu.

—Alô? — a voz desconfiada de Thalia falou do outro lado da linha.

—Oi Thalia. — disse baixinho. — Pode falar um segundo?

Ela ficou em silêncio um tempo e então suspirou.

—Posso. — ela disse por fim. — Pode falar.

Quem suspirou dessa vez fui eu.

Ao fundo eu podia ouvir vozes. A casa de Annabeth devia estar cheia.

Senti uma pontada no peito.

—Percy? — ela chamou.

—Thalia, vou te fazer uma pergunta e preciso que você seja sincera comigo. Por favor. — pedi baixinho.

Ela não disse nada, mas eu sabia que ainda estava lá.

Decidi perguntar de uma vez. Seria como arrancar um band aid.

Respirei fundo e finalmente fiz a pergunta que tanto me atormentava:

—É minha? — disse trêmulo. — A menina que Annabeth está esperando é minha filha?

Notas finais
Espero que tenham gostado. Cambio, desligo!