Era Uma Vez...

1 Bem Vindo À Storybrooke



Aquela terra era completamente esquisita. À minha direita havia mato e à minha esquerda também. Tinha uma estrada onde eu pisava, mas não era de terra, era de um material que eu nunca tinha visto na minha vida, e tinha duas linhas amarelas no meio. Totalmente esquisito.

Havia uma placa de metal com fundo verde e letreiros brancos que dizia “Bem Vindo À Storybrooke” bem à minha frente. Eu sabia que eu encontraria minha família ali. Eu não sabia exatamente como, mas eu apenas sentia que ali era o local que eu deveria entrar. Além de tudo, valia a pena arriscar. Eu queria ver minha mãe e meu pai novamente. Quem sabe até encontrar o meu avô e avó. Eu tinha que entrar em Storybrooke.

Segui para aquele caminho de material esquisito e com faixas amarelas no chão.

A mata da floresta a meus lados era completamente chamativa. Primeiro que eu tinha isso no reino em que eu morava com minha avó e segundo que eu sempre gostei de brincar na mata.

Minutos e mais minutos de caminhada, eu comecei a ver coisas que eu nunca pensei que veria na vida; coisa que nem mesmo meu cérebro se atreveu a imaginar.

As ruas daquele local estavam repletas de gente vestindo trajes estranhos. Uns vestiam mantos com uns trecos metálicos no meio, uns vestiam um lenço no pescoço e algo para tampar a cabeça ― creio que seja por conta do frio que ali estava fazendo. O que me fez olhar para minhas roupas e vi que eu deveria estar parecendo um esquisito para aquela gente. Alguns passeavam com... o que era exatamente aquilo? A coisa tinha quatro rodas, quatro portas, era de metal... eu nunca tinha visto isso antes! Outros só passavam com outras coisas de metais com duas rodas. O que eram essas coisas?, perguntei a mim mesmo quando uma passou bem em frente a mim, fazendo um barulho como se fosse um ronco.

Sem contar daquelas... casas? Umas tinham placas de metais que diziam “Barbeiro”, “Mercado”, “Granny’s” e outros mais. O que era aquilo tudo? Olhei para cima e vi fios presos a uma caixa de metal, que por sua vez eram presos em estacas enormes no chão. Que cidade é essa?, quis perguntar.

Tinha um grupo de sete homens passando com picaretas na mão e indo em direção para o outro lado daquele local, seguindo em uma reta e depois virando à esquerda. Esquisito. Eu nunca vi nada parecido. Mas eu não fiquei ali. Segui para outro local, mas uma coisa me impediu.

O sol era presente, mas a temperatura ainda era fria. Eu sabia que deviam ser quase duas da tarde e com isso veio à fome. E por onde eu estava andando só tinha um local que emanava o cheiro de uma comida quentinha e de dar água na boca. Olhei para o lado e aquele era o local: o tal Granny’s.

Talvez, se eu pedisse educadamente, os donos daquele local ― aquilo não era casa, eu tinha certeza ― poderiam me dar comida. Talvez.

Passei pelo cercado de entrada e subi os degraus que tinham para entrar ali. A porta era de metal e totalmente diferente das de madeira que eu era acostumado a ver. Estranho, muito estranho. Girei o que quer que fosse aquilo para abrir aquela esquisita porta e adentrei no local.

Era mais estranho do que eu pensava.

Aquelas mesas (ao menos eu acho que eram isso) eram presas ao chão com barras de ferro e com... aquilo era bancos? Que seja! Bancos. Bancos com um material que parecia ser bastante confortável. Havia uma, ahn, bancada (não sei como esse nome surgiu na minha cabeça) à minha esquerda, onde tinha várias coisas comestíveis à mostra em alguns potes de plástico. Meu estômago roncou no mesmo minutos.

Ainda ali na bancada, uma senhora que aparentava ter uns sessenta e tantos anos de cabelos cinzentos presos atrás da cabeça e com óculos, e uma moça muito bonita de cabelos castanhos, e seus lábios estavam chamativos em vermelho.

A senhora estava mexendo em um treco de metal e a moça, vestindo um traje branco com botões, deixando seu umbigo de fora, e um pequeno traje que cobria pequena parte de suas coxas da cor vermelha, estava indo de mesa em mesa com um bloquinho à mão. Ela era bem atraente e bem bonita.

Caminhei até a senhora, pois ela parecia ser a responsável pelo local. Ela parecia ser uma senhora boa, se eu for contar da mesma forma como era onde eu morava ― as pessoas que viviam no campo perto da fazenda onde eu morava eram legais, amigáveis. Algumas tinham o perfil daquela senhora. Eu tinha uma chance.

Mas mudei de ideia. Não seria apropriado fazer aquilo. Em minha visão, seria um pouco exagerado de minha parte. Eu não podia pedir algo como comida ou água logo de cara. Seria melhor se ela percebesse o que eu queria.

Então, ao invés de ir até a senhora, eu apenas sentei naquele banco esquisito daquela bancada e fiquei olhando para as guloseimas que tinham nos potes ali em cima. Aquilo era tão atrativo... e sem contar que o cheiro de comida recém tirada do forno era ainda melhor do que ver aquilo à minha frente. Tão melhor que me fez meu estômago roncar. Uma de minhas mãos foi à minha barriga no mesmo instante e a outra foi até o pote, mas eu não o abri.

― Perdido, garoto? ― perguntou uma voz.

Olhei espantado em direção à voz e vi aquela senhora me olhar curiosamente e com um pequeno sorriso. Minha mão que estava no pote saiu dali no mesmo instante.

Assenti para a senhora timidamente, mas abaixei o rosto.

Ouvi uma risada e aquilo me deixou um pouco com raiva. Não era legal ter pessoas rindo de você... ao menos não quando você não tinha feito uma piada, coisa que eu não fiz. Não gostei.

Olhei para a senhora e ela tinha as mãos na cintura. Meu estômago roncou outra vez.

― Talvez se eu lhe der algo para comer você possa me dizer algo, hein? ― disse a velha senhora e sorriu para mim.

Sorri para ela mostrando os dentes.

― Sente-se em qualquer uma de nossas mesas. Ruby irá lhe servir já, já. Só tenho que fazer algo antes ― disse ela.

Eu estava prestes a agradecer quando ela tinha dito aquilo. Mas antes que eu realmente pudesse dizer alguma coisa, a senhora saiu de trás da bancada e foi falar com aquela bela moça que eu tinha visto. Elas cochicharam e, depois disso, a senhora passou por mim, sorriu e seguiu para fora daquele local.

Então, depois daquela pequena conversa onde só a senhora falou, fui até um dos bancos e sentei-me naquelas coisas que pareciam ser confortáveis. E eu tinha que admitir, aquilo era bastante confortável. Juntei as mãos e comecei a mexer os dedos, meu tique-nervoso. Todas as vezes que eu ficava nervoso, eu sempre fazia aquilo.

Eu estava nervoso, é claro. Eu não sabia o que realmente esperar daquela senhora, mas eu, bem no fundo, sabia que ela poderia ser uma senhora boa. Não parecia que ela mentiria a respeito sobre me dar água e comida. Principalmente não acreditaria que ela faria essa desfeita de negar ao menos água a um forasteiro como eu ― eu estava apenas de passagem, não iria ficar naquela Storybrooke por muito tempo.

Mas eu não podia ficar nervoso... era perigoso. Eu, bem, tinha magia em mim, algo que herdei de minha mãe e avó por parte de mãe. Mas eu não gostava de ficar assim ou tampouco irritado. Sempre aconteciam coisas que eu não gostava. Eu tinha controle sobre a magia que tinha, mas eu não podia dizer o mesmo quando eu me irritava ou ficava nervoso. Nem nunca me ensinaram a controlar quando eu estava dessa maneira. Nunca tive oportunidade, também.

De qualquer maneira, eu estava sentado em uma mesa nos fundos daquele local e eu preferia assim. Eu nunca fui de chamar atenção e eu sabia que as minhas roupas não eram algo daquele mundo. Isso com certeza era chamar atenção; eu não duvidava disso.

Não demorou muito para aquela linda moça vir até a minha mesa, trazendo alguma coisa retangular que tinha um cheiro maravilhoso com um copo contendo um líquido estranho. Ela pôs aquilo tudo à mesa.

Eu olhei desconfiado para aquele copo com aquele líquido escuro.

Ela tinha olhos verdes incríveis e agora dava para ver algumas mechas de cabelo vermelhas em meio a sua cabeleira castanha. Era até charmoso nela. Ela era muito linda.

Ouvi a risada dela e a olhei sem entender.

― É apenas refrigerante ― disse ela. ― Pode beber. É confiável. Não é como se estivesse envenenado.

Ela soltou uma risada abafada, mas eu a olhei de relance.

É claro que eu estava desconfiado de estar envenenada. De onde eu vinha, era comum ter essas coisas de veneno em bebidas e comidas dos outros. Principalmente se você fez algo muito ruim para alguém poderoso ou que tivesse título de onde eu morava... mas, enfim!

Hesitando e cautelosamente, peguei aquele copo e o levei à boca. Tomei aquele líquido e tinha gosto doce e algo mais... mas era muito bom! Sorri maravilhado com aquilo e bebi um pouco mais, exagerando no gole, é claro.

Ouvi a risada dela novamente.

― É... refrigerante é muito bom ― disse ela ainda rindo. ― Agora prove a lasanha.

Ri e concordei com a cabeça. Bem... lasanha. Bem, então seria aquilo retangular. Peguei os talheres e cortei um pequeno pedaço, levando à boca logo em seguida.

Estava quente, mas a partir do momento em que senti seu gosto... eu sabia que aquela seria a minha mais nova comida favorita. Aquilo era maravilhoso! Lasanha era sim a melhor comida do mundo! Não havia outra igual. Nem mesmo os leitões assados com batatas da vovó ― mesmo não tendo muitos assim.

Lasanha era a melhor comida do mundo.

Cortei mais um pedaço e comi o mesmo.

― Você não precisa falar nada ― disse ela e riu. ― Deu para perceber que gostou da lasanha.

Assenti para ela concordando, pois eu estava de boca cheia, então não iria falar nada.

― Eu sou a Ruby ― apresentou-se ela. ― Aquela senhora é a Vovó... ― ela inclinou o rosto para frente para me olhar ― você pode chamá-la assim. Todos a chamam assim.

Mastigando, assenti para ela.

― E como você se chama? ― perguntou Ruby.

Engoli a lasanha que estava em minha boca. Mas quando eu a abri, algo me impediu.

Um barulho de sinos invadiu o local. Igualmente como tinha feito quando eu tinha entrado ali.

Aquela senhora, a tal Vovó, entrou no local, juntamente com mais três pessoas. Uma moça loura de cabelos longos que parecia ser maior do que eu. Ela tinha um olhar curioso nos olhos verdes e eu tinha certeza que ela estava me estudando. Ela vestia um casaco de couro vermelho por cima de uma blusa preta e calças de um material curioso com um treco de metal preso ao cinto, e uma estrela também. A outra pessoa era um cara de cabelos pretos e olhos verdes com um único brinco de uma pedra preta na orelha direita, anéis nos dedos da mão direita, um cordão de uma caveira no pescoço e um... um... aquilo era um gancho no local de sua mão esquerda? Enfim... e ele vestia uma roupa toda de couro preto. E o outro... eu... eu o conhecia!

Ele era alto e forte. Vestia uma blusa de tecido estranho de cor azul e uma calça do mesmo material que a loura e eles até se pareciam um pouco. Ele tinha cabelos curtos e castanhos tão clarinhos que eram quase louros... continuavam iguais aos da época que eu me lembrava dele, e ele não tinha mudado nada, exceto por uma pequena cicatriz na lateral direita do queixo. Éramos quase idênticos, tendo o mesmo nariz, a mesma cor de olhos, a mesma expressão quando unia as sobrancelhas... exceto pelos cabelos; meus cabelos eram iguais aos de minha mãe.

Eu não pude deixar de conter o sorriso que se formou em meu rosto.

― Papai! ― disse eu e, saindo do meu local, o abracei fortemente e completamente feliz.

Mas algo estava estranho. Eu não senti as mãos dele passar ao redor de mim e me abraçar de volta como ele fazia antigamente. Nem mesmo o senti bagunçar meu cabelo como antes. Muito pelo contrário. Ele tinha posto as mãos em mim e me afastou um tanto brusco.

Eu o olhei sem entender.

― Papai? ― ouvi a loura dizer.

― Então quer dizer que tem outro irmão, Swan? ― perguntou o cara com o gancho na mão.

Ele sorriu para a loura, mas ela revirou os olhos para ele.

― Quem é você, garoto? ― perguntou meu pai com os olhos estreitados para mim, como se estivesse confuso ou com raiva.

Eu bufei para ele.

― Como quem sou eu? ― rebati. ― Papai, sou eu. Kevin. Seu filho.

HÁ MUITO TEMPO ATRÁS EM OUTRO REINO...



Era como se ele estivesse em mais um dia normal naquela fazenda.

Kevin estava no celeiro, pondo as coisas em ordem para a sua avó ― uma vez que sei tio David não estava mais por lá, segundo ela (e ele nunca soube o porquê). Era até bom arrumar o celeiro. Ajudar sua avó era a coisa que Kevin mais gostava depois que tinha chegado ali, onde era muito melhor do que viver as escondidas com sua outra avó.

O celeiro não era grande. Era feito de pedra e o chão coberto de fenos para o cavalo poder comê-lo quando quisesse. No fundo do local tinha um espaço não muito grande com tábuas de madeira e pequenos improvisos de muro também de madeira onde o animal estava preso. À direita havia uma área em que se podia pôr mais um animal com porte de um cavalo ou menor, mas Kevin e sua avó não tinham outros animais a não ser o cavalo e as ovelhas que viviam no cercado do lado de fora. Preso em estantes de madeiras, havia uma lamparinas, celas e cordas e um bastão com um C na ponta para ajudar com as ovelhas ― o cajado de ovelhas de seu tio David. Era aconchegante ali dentro, exceto, é claro, o cheiro de estrume de cavalo.

De qualquer maneira, Kevin estava arrumando os fenos para o único cavalo que sua avó tinha quando ouviu um bater na porta. Ele olhou para trás e viu que não sua avó e nem sua mãe ou a mãe de sua mãe, mas ele viu seu pai.

Seu pai estava vestido como sempre. Vestia uma blusa de couro por cima da blusa de pano habitual de todos naquele reino tinham e vestia calças de couro com sapatos pretos muito bonitos. Kevin sempre se perguntou se teria algum par para ele se morasse com o pai. Os olhos azuis do pai sempre fizeram Kevin achar que ele realmente fosse filho dele. Na verdade, Kevin era quase idêntico ao pai, exceto pela cor dos cabelos e o sorriso... essas duas coisas ele puxou de sua mãe.

― Olha quem eu vejo por aqui ― disse Príncipe James com as costas encostadas em um dos muros de pedra.

― Papai! ― disse Kevin completamente empolgado.

O garoto largou os fenos se seguiu em direção ao pai e o abraçou fortemente. O pai retribuiu o gesto.

― Bom ver o senhor ― disse Kevin ao se largar do pai e abriu um sorriso.

Príncipe James sorriu para o filho.

― É bom vê-lo também, filho ― disse Príncipe James e bagunçou o cabelo do filho em gesto de carinho.

Kevin riu. Ele sempre adorava quando o pai fazia isso.

Mas seu sorriso se desfez e o garoto ficou com certo medo do que seu pai tinha a dizer.

― Você tem praticado, Kevin? ― perguntou Príncipe James.

Kevin olhou para o pai com os olhos um tanto arregalados e negou com a cabeça freneticamente.

― Não... mas é claro que não ― disse o garoto. ― O senhor me mandou não praticar. Eu não pratico mais. Eu juro.

Príncipe James olhou no fundo dos olhos do filho. O garoto engoliu em seco, mas ele estava dizendo a verdade. Nem mesmo o pai, a avó por parte de pai e sua própria mãe não queria que o garoto praticasse mágica. E lógico que ele faria qualquer coisa que os três mandassem.

Príncipe James bagunçou o cabelo do filho mais uma vez e o puxou pelo pescoço para lhe dar um abraço e uns cascudos na cabeça. Kevin riu.

― Eu sei que não, criança ― disse Príncipe James e soltou seu filho de seus braços fortes. ― Eu tenho que ir, filho. Mas eu volto. Vim apenas para ver como você estava... e vejo que está crescido. É uma pena que não posso vê-lo com muita frequência.

― O senhor pode...

― Não posso, Kevin ― interrompeu o pai. ― O acordo me proíbe de vir visitá-lo com frequência. Sabe disso.

Kevin apenas concordou com a cabeça abaixada de tanto desanimo e tristeza. O menino queria ver mais o pai e a mãe. Era difícil crescer em uma fazenda e saber que seus pais estavam pelas terras do reino, mas que não podiam vê-lo com frequência. Era de matar. A mão de seu pai levantou sal cabeça para fazê-lo o olhar.

― O verei em breve, Kevin ― disse Príncipe James. ― Eu prometo.

― Sim, senhor ― disse Kevin um tanto animado.

Príncipe James abraçou seu filho mais uma vez, beijou-lhe a testa e, olhando para o garoto pela última vez, virou-se para fora do celeiro e se foi.

Kevin voltou arrumar os fenos do celeiro completamente assim que vira seu pai partir.

Mas enquanto Kevin mexia e mexia nos fenos e no restante do celeiro, ele só conseguiu ouvir uma vozinha feminina no fundo de sua mente.

Você precisa usar magia...

PRESENTE...



Quando eu me dei por mim, eu já estava sentado em uma mesa do local em onde eu estava com a loura (que se chamava Emma), o cara estranho que tinha um ganho na mão (que era chamado de Killian, que, por sua vez, também se chamava Gancho), e David Nolan (meu tio). Aquela senhora (que todos chamavam de Vovó) e a Ruby (a linda garçonete) tinham nos dado certa privacidade.

― Está me dizendo que a vovó está... está morta? ― perguntei fitando à mesa.

Era indigerível ter a ideia de minha avó (Ruth) por parte de pai estar morta. Minha avó sempre fora gentil comigo, sempre me dei carinho, cuidou de mim desde que eu pudesse me lembrar... ela estar morta era a pior notícia da minha vida.

― Sim ― disse David, meu tio, mas eu ainda fitava a mesa. ― No dia do meu casamento com a Branca.

― Eu pensei que o seu casamento com Mary Margaret tinha sido bem depois da morte de Ruth ― sussurrou Emma, mas era audível.

― Longa história ― sussurrou David.

― Quem é Mary Margaret? ― perguntei finalmente os olhando.

Eles me olharam e piscaram.

― Minha... esposa. Branca de Neve e Mary Margaret é a mesma pessoa ― disse David. ― Mary Margaret é o nome dela aqui, neste mundo.

Assenti para ele.

Eu não conseguia processar tudo aquilo direito. Nova terra, novo reino ― na verdade, eu nem sabia se aquele local era governado por um rei ―, ou até mesmo novo mundo, pessoas e costumes esquisitos, roupas esquisitas, máquinas esquisitas... tudo era esquisito para mim. E ter a ideia de que eu não teria minha avó por parte de pai era a pior de todas.

Era tão ruim para mim que me deu certa dor em meu peito e fez meus olhos lacrimejarem.

Senti as mãos de alguém em meu ombro esquerdo e vi que era a de David. Olhei para ele sem vida.

― Não se preocupe com sua avó ― disse ele. ― Ela está em um lugar melhor.

Ele me olhou com certo afeto e por um mínimo segundo eu pensei que ele era meu pai, mas chacoalhei a cabeça ferozmente para aquele pensamento e senti sua mão sair de meu ombro.

Eu precisava encontrar alguém. Alguém que eu tinha alguma conexão. Não que David não tivesse alguma conexão comigo, ele até podia ter meu sangue, mas eu queria meu pai. Eu não queria meu tio que era bem parecido com ele. Eu o queria perto de mim; eu queria meu pai comigo.

― Onde está meu pai? ― perguntei por uma das pessoas que eu mais queria ver.

Se for uma nova terra, significava novos costumes, novas regras. Eu poderia ver meu pai com mais frequência, poderia até mesmo ver minha avó materna e meu avô paterno, até mesmo a minha mãe. Eu não contive o sorriso que se formou em meu rosto.

Olhei para os três e eles pareceram desconfortáveis. Ambos se entreolharam. Eu não era burro. Algo estava errado.

O silêncio dos três estava me deixando completamente com raiva. Eu sabia que era pouca coisa com que se irritar, mas eu queria ver meu pai. E não ter a informação sobre ele era algo que realmente me dava raiva.

― Onde está meu pai? ― repeti a pergunta com certa raiva na voz.

― Ele não está aqui ― disse o Gancho.

David, Emma e eu olhamos para ele. Gancho olhou para os outros dois e meu tio e minha prima me olharam.

― É... ― disse David.

― Ele.. não... está aqui ― disse Emma balançando a cabeça em positiva.

Mas algo estava errado. Eu sabia que no fundo eles estavam errados. Não era possível que meu pai não estivesse aqui nesse novo mundo. Parecia que todos do reino onde eu morava estavam aqui. Se esse todos estiver realmente dizendo todo mundo, então meu pai estava aqui. Eles estavam mentindo.

― Vocês estão mentindo para mim ― disse eu e olhei para cada um deles, semicerrando os olhos. ― Não estão?

― Kevin... ― disse David.

David tentou pegar minha mão, mas eu afastei a mesma dele e me pus de pé. Eu não conseguia nem mesmo olhar para eles naquele momento. A única coisa que eu fiz foi seguir em direção à porta e sair daquele local.

Saí daquela lanchonete e segui a rua à direita.

Eu não sabia para onde estava indo, mas, de alguma forma, algo me dizia que eu iria parar em algum lugar que iria me reconfortar. E eu apenas segui aquele instinto. Eu só queria ficar longe deles.

Meu próprio tio mentindo para mim... como isso poderia ser esperado de alguém que era família? David sempre fora bem mencionado por minha avó e a gente até mesmo conversou algumas vezes e pastoreamos as ovelhas juntos. Por que ele mentiria para mim? Por que ele mentiu para mim? Por quê?

Aquilo me deu tanta raiva que senti minhas mãos tremerem e uma ventania começar. Eu sabia que era a manifestação de meus poderes, mas eu não podia estragar aquela cidade chamada Storybrooke. Simplesmente não podia. Havia famílias inocentes ali e elas não deviam pagar pela mentira que meu próprio tio tinha me dito.

Com mais alguns minutos de caminhada seguindo meu instinto, eu me deparei com uma bela e enorme mansão branca. Tinha um muro de plantas cercando a propriedade. Um pequeno portão de ferro pintado de preto para que pudessem entrar.

Algo me dizia que eu devia entrar.

Abri o portão e segui pelo caminho, onde era feito de cimento e com um jardim incrível, com árvores e algumas decorações. Era um jardim bem bonito.

Cheguei à porta com o número 108 e bati na mesma.

Ali tinha muitas decorações, mas eu não estava me importando com aquilo, eu só queria ver de quem era aquela casa.

Eu não sabia quem esperar, mas parecia que eu sentiria um conforto ali e era algo que eu precisava... e muito. Eu não queria mentiras e algo, bem no fundo do meu coração, me dizia que eu não ouviria mentiras ali.

Ouvi o barulho de trancas destrancarem e a maçaneta girar. E assim que porta se abriu, revelou a pessoa que eu mais queria ver sem ser o meu pai.

Era uma bela moça. Tinha cabelos pretos até a altura dos ombros não eram os mesmo cabelos longos que iam até sua cintura, mas aquele novo corte lhe caia muito bem. O mesmo cabelo liso e preto que eu tinha. Sempre tinha o batom vinho nos lábios como antes e agora não estava diferente. Ela não usava as roupas de antes, estava com uma blusa e saia branca com um blazer branco e sapatos pretos.

Meu sorriso se abriu no mesmo instante e o dela fez o mesmo. Tínhamos o mesmo sorriso e isso era tão bom de saber.

― Mãe... ― disse eu e meus olhos se encheram de lágrimas.

― Kevin... ― disse ela e abriu os braços.

E assim eu me joguei nos braços de Regina, minha mãe.