Era Uma Vez...
1 Era Uma Vez... Uma Princesa dos cabelos de Fogo
Notas iniciais
— Merida, querida, por favor levante –A excelentíssima Rainha Elinor, ou, como eu gosto de chamar, mãe, estava na porta toda imponente em seu vestido azul escuro e com seus cabelos castanhos soltos, me olhando com uma cara séria. – Por favor, filha, você sabe que a reunião de hoje com os reis é muito importante para o nosso reino e você precisa ir.
— Ta, mãe, já vou.
A Rainha saiu porta afora me deixando sozinha em meu quarto. Meus olhos ainda estavam sonolentos, me mexi para o lado e estiquei as pernas, deixei-as pairando sobe o chão de pedra enquanto me esticava e observava a floresta pelo vão da janela. Ah, como eu queria ignorar esse compromisso e ir cavalgar, sentir meus cabelos chicoteando ao vento, era libertador...
— Merida, nem pense em ir cavalgar – Minha mãe apareceu como um fantasma ao meu lado, em seus braços um vestido verde, e um par de sandálias de couro. – Lembre-se, você prometeu que iria, e seu pai está todo animado em ir pela primeira vez com você ao conselho dos reis. – Ela me olhou e enfim percebeu que eu havia caído no chão com o susto – Vamos Merida, nada de fazer corpo mole. Venha, vou pentear seus cabelos.
— Nem pense em prendê-los novamente, odeio isso. – O desafio fervia em minha voz, eu estava declarando guerra, se havia alguma coisa que eu odiava nessa vida era aquela maldita touca branca.
— Filha – Minha mãe se sentou no colchão e ficou me olhando, e eu ainda sentada no chão. – Eu mudei, não sou a mesma, você sabe – Ela abaixou os olhos para o colo e começou a acariciar os cabelo soltos, ela não os havia prendido desde que voltara a ser humana. – Eu não sou mais a mesma mulher, assim como você não é a mesma filha – Ela levantou de supetão agora com a determinação estampada no rosto. – Agora vamos.
Ela me ofereceu a mão e eu levantei do chão gelado. Meu quarto era grande, ou pelo menos maior que o dos meninos, tinha uma cama de dossel, um armário abarrotado de vestidos que eu não gostava, uma cômoda, com alguns poucos perfumes e jóias que eu aceitava usar, um espelho e um biombo no canto.
Me sentei no banco de frente da cômoda e minha mãe veio por trás, pegou o pente sob a cômoda e começou a pentear os meus cabelos. Fiquei encarando nós duas no espelho, mãe e filha, tão próximas e tão diferentes, ela com seus logos e lisos cabelos castanhos, e eu com meus grandes, cacheados, e volumosos cabelos ruivos e, ainda sim, mãe e filha.
Fechei os olhos e esperei que ela dissesse que estava tudo pronto, fiquei imaginado como seriam os outros reis e rainhas. Por mais aventureira que fosse, eu nunca havia saído das nossas terras, nunca cruzei o além mar, ou as montanhas longínquas, vivi minha vida nesse reino, e quem sabe quando teria outra chance de sair.
— Pronto, Merida – abri os olhos e me olhei no espelho, ela não tinha feito muito, mas eles estavam muito mais brilhantes e tinha uma pequena trança caindo ao lado do meu rosto. – Gostou? – Enrolei a trança no indicador e fiquei rodando-a distraída.
— Sim, – me olhei novamente, com meus cabelos brilhando como fogo – gostei muito.
— Agora se vista que logo chegará a comissão do rei de Berk para nos levar, será mais rápido que uma viajem normal.
— Como é o rei de Berk, mamãe? – Meus olhos reluziam de curiosidade, queria conhecer mais pessoas, ver tudo que havia além dos muros do castelo.
-Ah, Stoico é um grande homem, lembra um pouco seu pai, animado, grande, de barriga farta, mas, diferente do seu pai, ele tem uma grande barba, e tem as duas pernas. – Minha mãe sorriu quando disse a última parte, meu pai não cansava de contar a história de como perdera a perna e, agora que ele tinha uma continuação para ela, ele começou a contá-la quase o tempo todo.
-Mãe, eu tenho mesmo que usar esse vestido? – Ela me encarou por um tempo e respondeu
-Você tem uma opção melhor? – Me olhou inquisitiva.
-Na verdade – Há alguns dias eu fui na costureira do castelo, por mais que eu odeie vestidos eu teria que usá-los, quer queira, quer não, então pedi um sob medida. – Eu encomendei um à costureira, está no meu armário.
Dei um saltinho do banco e fui até o guarda roupa, peguei no fundo do armário um pacote de couro, o abri e tirei o vestido.
-Merida, é lindo – Minha mãe sorria para mim. – Vista-o, Vista-o – Ela abanou as mãos eufórica.
Fui para o biombo e comecei a tirar o pijama, joguei ele no chão, depois eu arrumaria, deslizei o vestido pela cabeça tentado não ficar com o cabelo preso, ajustei um pouco o vestido sobe o corpo e sai de trás do biombo.
-Minha filha, você está linda – Minha mãe correu até mim e jogou os braços a minha volta me abraçando, senti suas lágrimas umedecendo minha testa.
-Ta bom mãe, deixe-me respirar – me remexi e ela me soltou. Caminhei para frente do espelho e encarei o meu reflexo. Era um vestido longo, como todos os outros, porem eu conseguia me mexer, as mangas eram curtas deixando meus movimentos livres, e tinha um leve decote, eu fui contra, mas a costureira disse que não ficaria bem sem ele, e uma costura dourada trançada por todo o vestido verde esmeralda.
-Agora vamos, que o seu pai já está esperando. – Minha mãe me puxou pela mão e fomos pelas escadas até chegar ao salão principal e depois a entrada do castelo.
— Então, vindo do nada, o maior urso que eu já vi, seu couro marcado por armas de guerreiros, seu rosto cheio de cicatrizes e lhe faltava um olho, eu saquei minha espada e... – E lá estava ele, meu pai, contando mais uma vez a história de como ele perdeu sua perna, e o público eram três cavalos, que não estavam gostando da história por sinal.
-Fergus, vamos. – Minha mãe o cortou na parte favorita dele da história.
-Mas, querida, é a melhor parte da história – Minha mãe o encarou séria – Sim, querida. – Ele montou em seu cavalo e reparou que eu estava ali. – Filha, você está linda, cresceu tão rápido... – E foi o caminho todo em um devaneio de pai sobre como sua filhinha estava crescida.
Nós paramos em uma grande clareira e amaramos os cavalos em uma árvore.
-Papai, como eles virão? – Não conseguia imaginar como, de cavalos não seria tão rápido, não tinha como ser de barco, e voando seria ridículo, não há como voar.
Meu pai ergue um dedo indicador gordo para cima e eu acompanhei olhando para o céu. Era um pequeno ponto negro, que ganhava velocidade em nossa direção. Agora eram dois. Não, espere, eram três pontos... eram... dragões. Meus deuses, eram dragões, com longas asas, descendo em nossa direção. Os cavalos começaram a enlouquecer, relinchavam desenfreados, até que se soltaram da árvore onde estavam presos e fugiram mata adentro.
-Dragões, querida. Dragões – Meu pai sorria para mim, se divertindo com meu espanto.
O Menor deles pousou primeiro, um dragão negro como a noite, com seu cavaleiro de dragão montado em suas costas. O cavaleiro era magro, vestia uma armadura de couro e ferro, e usava uma máscara de ferro que deixava um lindo par de olhos verdes a mostra.
Ouvi o chiado da lamina sendo sacada e rapidamente meu pai estava à frente de mim e de minha mãe com a espada em mãos apontando para o cavaleiro de dragão que parecia não se incomodar com a reação.
Mais dois dragões pousaram, um dragão esguio, com as escamas azuis como pedras preciosas, sua cavaleira era um garota loira de olhos azuis que usava uma roupa de couro tingida de vermelho e ombreiras de ferro. E o outro era um garoto gordo, usando um colete e uma calça marrom, cabelos cor de palha e olhos verdes tímidos, montado em um grande dragão marrom.
— Quem são vocês? – Gritou meu pai aos estranhos.
O Homem que desceu primeiro desmontou de seu dragão e retirou o capacete e, nossa, eu senti minhas pernas tremerem, ele era lindo, tinha cabelos castanhos e pele clara, os olhos verdes cabiam perfeitamente nele, eram como duas esmeraldas, ele nos olhou e deu um leve sorriso para mim.
— Saudações, meu nome é Soluço Strondus, líder de Berk, é um prazer conhecê-los – ele sorria enquanto olhava para meu pai, e seus olhos transpareciam honestidade.
-Onde estava Stoico? – Meu pai perguntou ainda com a espada apontada para soluço.
-Meu pai... – Ele desviou os olhos do meu pai e eu pude ver ele tremendo enquanto falava – ele morreu na última guerra.
-Meus deuses...– Minha mãe esbravejou ao meu lado e andou até o novo líder de berk. – Meus pêsames – E deu-lhe um abraço.
-Elinor – Meu pai reclamou.
-Abaixe essa espada, não vê que ainda é um assunto difícil para ele? – meu pai abaixou a espada e resmungou um “Sim, querida”. – Eu sou a Rainha Elinor Chapman e esse bruto é meu marido, Rei Fergus, e essa é minha filha – ela soltou o rapaz e apontou para mim. – Merida. – Ele sorriu e falou a todos
-É um prazer conhecê-los. Esse são meus homens, Perna de Peixe – ele apontou para o garoto com cabelos de palha, — e o dragão dele Gronkel – o dragão sorriu para mim, o que foi muito estranho. – E essa é Astrid e sua Dragão Tempestade. – A garota olhou para o seu líder e virou a cara, devem ter brigado, imagino.
O Dragão negro se aproximou de soluço e se esfregou na lateral do corpo dele.
— Claro que eu não me esqueci de você, amigão – ele acariciou as orelhas do dragão negro – Esse é meu melhor amigo, banguela – O Dragão olhou para nós e sorriu, e eu pude ver as gengivas sem dentes.
— Fergus – Minha mãe, que agora estava de volta ao lado do meu pai falou – você não esqueceu nada?
— Sim, querida – meu pai foi até o rapaz e ofereceu-lhe a mão – Desculpe pelo engano de antes – ele sorriu bobo, era meu pai de novo, o bobão que amava contar histórias.
— Não tem problema senhor, poucas pessoas sabem que eu sou o novo líder, sem problemas – Meu deus, além de lindo era educado... – Agora podemos ir? Não gostaria de deixar a rainha Elsa esperando.
— Sim, sim, é melhor não deixá-la esperando.
Me aproximei da minha mãe e sussurrei ao seu ouvido.
“Quem é Elsa?”
“É a rainha gelada, governa uma parte da Escandinávia” Sussurrou em resposta.
— Vamos? – Soluço perguntou.
— Sim, sim, mas antes você gostaria de ouvir uma história? – Meu pai começou antes mesmo dele responder. — Então vindo do nada, o maior urso que eu já vi, seu couro marcado por armas de guerreiros...
— Fergus – Minha mãe falou perdendo a compostura.
— Sim, querida... – ele abaixou a cabeça
— Senhor – disse ele, risonho da reação do meu pai e da minha mãe. – Vá com o perna de peixe, por favor. Senhorita – ele olhou para mim — se incomodaria de vi comigo?
— Não... – Senti minhas bochechas ficando vermelhas, não sabia o que havia comigo, nunca fui dessas coisas. Tenho que parar, ser forte. – Não, tudo bem
— Minha rainha, vá com a Astrid, por favor. – Astrid olhou para ele e pra mim e fechou a cara, ai tinha história, alguma coisa deu errado.
— Sem problemas... Soluço? Rei soluço? Chefe solução? Como você prefere?
-Só soluço mesmo, madame. – Ele ficava tão bonito sorrindo...
Ele caminhou até mim e me ofereceu sua mão e um sorriso, eu os aceitei e caminhei até o dragão de mão dadas com ele, pequenos choques corriam pelos meus dedos, e subiam e desciam até meu estomago, até as malditas borboletas ganharem vida dentro dele.
Ele soltou minha mão, subiu no dragão e me ofereceu-a novamente, subi nas costas quentes do dragão e me sentei atrás do soluço, ele cheirava a vida, florestas, e um toque de mar, o cheiro era muito bom.
-Pronta? – Ele me perguntou
-Sim... – sussurrei próximo ao ouvido dele, não foi intencional, mas vi sua bochecha se arrepiar.
-Vamos, banguela.
Por um momento nada aconteceu, e no outro estávamos cortando os ventos, eu agarrada a ele, me sentindo uma criança frágil, uma criança que podia voar, deixei o medo de lado e senti meus cabelos voando, era como estar viva... Era tudo que eu queria, liberdade.
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