Notas iniciais
Hey, pessoas do meu coração. Estou aqui depois de quase seis meses. Mais uma vez quebrando o meu próprio recorde de procrastinação. Mas eu posso explicar. Vocês podem dizer: Ah, Lola admite logo que estava com preguiça! É eu tava com preguiça, mas eu tinha um problemão com a minha habilidade de colocar as coisas no papel. Pra vocês terem uma ideia, eu comecei a escrever esse capítulo no feriado de carnaval. Nesse espaço de tempo eu consumi tanta inspiração que vocês não fazem ideia do quanto eu estou empolgada. Mas enfim, já decidi o que vou fazer e digo a vocês nas notas finais. Aproveitem . . . [CENAS MAIS OU MENOS FORTES] . . . Betado por Clenery Aingremont do Perfect Design . p.s. Ah, e eu quero agradecer a todos que me perturbaram e me ameaçaram de morte por ai.. . . p.p.s. Eu li divergente.

Para Mikeyyy,

Esse capítulo não seria o mesmo sem você.

Um barulho violento se propagou pelo quarto escuro e vazio. Algo estava se chocando contra a porta da sacada. Tateei o espaço ao meu lado a procura do corpo quente de Natie e, para o meu descaso, não o encontrei onde deveria estar.

Mais uma vez a porta de vidro foi sacudida e eu tinha a leve impressão de que a intensidade do impacto havia aumentado.

Eu sabia que deveria chamar Nate para dar uma olhada, mas não estava com a mínima vontade de levantar. Apenas fechei os olhos e me convenci de que seria apenas o vento empurrando as folhas da pequena palmeira contra o vidro.

Uma mecha loira caiu provocando uma onda de cócegas no meu nariz. Afastei-a com o dedo indicador para evitar que provocasse um espirro. Mais uma pancada na porta sincronizada com outra mecha teimosa. E por mais que eu a tirasse, sempre aparecia outra em seu lugar para me irritar.

Seria uma solução simples e prática se eu estivesse com vontade para me levantar, prender o cabelo e deitar novamente. Claro que poderia. Só que não abriria mão do edredom quentinho por nada. Tudo é bem mais fácil e tranquilo quando se está embaixo das cobertas.

Mas, devo admitir que edredom não era meu único motivo de eu estar tão tranquila. Digamos que só fato de eu estar no quarto de Nate, deitada na sua cama me trazia tranquilidade. Tudo parecia ter o seu cheiro. De maneira alguma eu ia sair dali.

Suspirei satisfeita, afinal Nathaniel Grant era meu novamente.

Outra mecha caiu e a batida soou novamente, quase como se houvesse sincronia em me zoar.

É claro que não tinha sido abandonada de novo. E, além disso, eu ainda estava no seu quarto. Sentei-me, já sem paciência, e prendi o cabelo em um coque frouxo que se desfez em questão de segundos. Tá aí uma das inúmeras desvantagens de ter cabelo liso; sempre escorrega, se recusando a ficar preso, como se tivesse vida própria.

A batida seguinte foi acompanhada por um ruído agudo o que me deixou mais alerta. Havia algo errado nisso tudo. Senti meu coração acelerar, a respiração ficou pesada e meus braços ficaram dormentes. Criei coragem e saí do meu abrigo, na vontade de descobrir o motivo de tanto barulho. Mesmo estando morrendo de medo, a minha curiosamente falara mais alto, me fazendo decidir ir em frente. Toquei meus pés no chão molhado, fazendo um arrepio percorrer por todo o meu corpo praticamente nu.

Tentei explorar o máximo que eu pude até achar o criado mudo onde se encontrava o abajur. Com apenas um clique, o quarto foi invadido por uma luz fantasmagórica. Tudo parecia estar em seu devido lugar. Desde a prateleira com troféus do time de lacrosse até o emaranhado de fios perto da televisão. Até as paredes cor de café pareciam ignorar o fato de que tinha algo errado acontecendo. A cada pancada o vidro parecia estremecer ainda mais. Me coloquei de pé e segui em frente.

Eu era corajosa.

Não parecia, mas eu era.

A cortina permanecia intacta, mesmo estando encostada na porta de vidro, que parecia estar prestes a quebrar. O nível da água parecia aumentar a cada segundo. Já podia senti-la no meu joelho.

Merda, eu definitivamente não deveria estar aqui.

Mesmo assim, prendi a respiração e contei até dez. Eu precisava saber o que estava acontecendo. Puxei a cortina que caiu junto com o varão que a sustentava.

Por um segundo todo o quarto pareceu girar ao meu redor. Eu podia ouvir as batidas no meu coração martelando em meus ouvidos.

E lá estava ele, do outro lado do vidro, pendurado por uma gravata em seu pescoço. Seu corpo balançava para frente e para trás em um movimento contínuo e inquietante. Seus punhos se curvaram para dentro enquanto seus olhos castanhos e gélidos me encaravam.

Empurrei a porta na tentativa frustrada de abri-la. Estava trancada pelo lado de fora. Tentei bater e gritar, mas a voz não saiu, eu sentia a falta do ar nos meus pulmões. Caí de joelhos sem forças deixando que a água me cobrisse por completo.

Isso não podia estar acontecendo. Não era justo.

Me sentei ofegante agarrando as bordas da banheira. Água me cobria até a cintura e eu estava inteiramente molhada. Olhei ao redor e percebi que o banheiro não estava muito diferente de mim. Grandes poças de água cobriam o porcelanato branco. Também havia respingos nas paredes azul marinho e no espelho. Parecia mais um cenário de inundação do que um banheiro.

Droga! Dormi na banheira de novo.

Logo minha mãe apareceu na soleira da porta. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque baixo. Vestia bem acinturado um vestido azul marinho que ia até seus joelhos, deixando suas pernas firmes e bronzeadas a mostra. Estava impecável, exceto pelas olheiras escuras que circulavam seus olhos verdes. Nos últimos dois dias, ela foi a pessoa mais compreensiva e atenciosa que poderia ter sido em anos. Depois de ter estragado seu jantar no domingo à noite, minha mãe parecia totalmente preocupada e quase toda hora fazia questão de ir ao meu quarto perguntar se eu estava me sentindo bem. E eu certamente não estava bem.

Tentei me erguer, me apoiando na beirada da banheira estilo vitoriano, e acabei caindo de volta na água. O sonho havia sugado todas as minhas forças. Foi tudo tão real que meu corpo ainda tremia como se eu ainda estivesse lá, encarando Nate morrer sem poder fazer nada.

Senti a mão firme e delicada de minha mãe me segurar pelo braço, ela me ajudou a levantar e sair da banheira. Me apoiei bem na beirada para recuperar o fôlego. Por que era tão difícil fazer algo tão simples?

Depois do fiasco de domingo, minha memória começara a voltar. Imagens apareciam sem aviso prévio. O grande problema era que eu ainda não conseguia diferenciar o real do delírio. E isso era normal considerando que a doutora Dernier, a psiquiatra que minha costumava me levar quando eu era mais nova, tinha dito que era só uma fase de síndrome pós-traumática. Eu só havia passado por um período de amnésia dissociativa provocada por um grande momento de estresse. Duraria um tempo, mas logo voltaria ao normal. Bem, pelo menos foi o que ela disse a minha mãe por telefone.

Quem era eu para discordar?

Só que eu não tinha certeza se queria me lembrar de tudo o que aconteceu. O pouco que consegui lembrar já tinha sido apavorante o suficiente e eu achava totalmente desnecessário me lembrar de algo tão assustador

—Que horas são? — perguntei percebendo que estava quase sem voz.

— Oito e trinta — respondeu minha mãe enquanto me cobria com uma toalha macia. Me senti culpada ao perceber que sem querer acabei molhando o seu vestido. Era reconfortante, é claro. Mas eu não me sentia bem, principalmente porque ela estava se sacrificando por mim. Havia adiado seu casamento para o final de junho, uma semana após a formatura. Tudo isso por minha causa.

Eu estava tentando ser mais forte para conseguir resistir a isso tudo sem chorar, estava me mantendo firme para não desabar. Por enquanto estava funcionando, mas eu tinha a impressão de que não aguentaria por muito tempo. Natie foi cruel demais quando decidiu se matar bem ali, na sacada do seu quarto, enquanto eu dormia iludida, pensando que me amava. Ele nem pensou em, sei lá, tentar resolver seus problemas de um jeito menos brutal. Sua decisão foi como uma avalanche que desmoronou levando tudo o que estava por perto.

Parabéns, Natie! Você ganhou o Oscar.

Eu sabia que ele estava passando por algo muito ruim desde que chegou de Nova York, no fim das férias de primavera. Quer dizer. Nós estávamos passando em um momento ruim desde muito antes da sua ida. Mas tudo pareceu piorar, admito que fiquei com muito medo de que toda a coisa que a gente tinha desmoronasse. Eu o amava. De um jeito esquisito, mas amava. Mesmo quando as circunstâncias me obrigaram, eu não o deixei de amar. Mas ele foi malvado e não pensou em ninguém, nem mesmo nos seus pais.

A raiva parecia querer me consumir, eu estava começando a hiperventilar.

Como alguém poderia ser tão perverso a ponto de fazer alguém presenciar sua autodestruição?

— Filha, tudo bem, okay? Você só precisa de um banho para — disse minha mãe prendendo meu cabelo em coque frouxo no topo da cabeça e afastando de uma maneira bem brusca dos meus pensamentos — um banho de verdade, dessa vez.

Pude sentir o cheiro muito familiar de Crystal Noir da Versace, uma mistura de gardênia, sândalo e outras coisas que eu não conseguia definir, mas pouco importava. Ela o usava desde sempre e era bastante prazeroso sentir seu cheiro quente e misterioso, porque era assim que eu a enxergava, próxima e ao mesmo tempo distante. Fechei os olhos e me concentrei por um instante. Era deliciosa a sensação de estar sendo envolvida pelo o seu perfume. E isso era sem sombra de dúvidas o que eu precisava no momento.

Eu iria enfrentar um dia difícil. Finalmente o temido dia do funeral havia chegado. Após quase uma semana depois, o corpo de Natie seria sepultado e eu não queria estar lá pra ver.

Mas querer não é poder, meu bem.

Minha mãe deixou o banheiro fechando a porta atrás de si. Eu estava sozinha com a minha bagunça.

Sem reclamar, me voltei para a banheira e liguei o chuveiro, deixei que a água morna levasse toda a minha dor pelo ralo, tentei demorar o máximo que pude na esperança de talvez mamãe desistisse de me obrigar a ir. Mas para a minha tristeza, após um tempo, ela apareceu na porta do banheiro e me entregou um vestido de alças que eu tinha certeza que era Alice+Olivia. Eu o vesti me olhando no espelho de três vias que ficava no canto do banheiro. A única coisa bonita que consegui ver foi o vestido que minha mãe escolhera. Era feito de um tecido azul escuro e fino ia até meus tornozelos e estava totalmente folgado. Sentia-me um lixo com olheiras gritantes que assustariam qualquer criança. Eu estava feia e destruída.

— Mãe, eu não quero ir. Me deixa ficar — implorei enquanto me arrastava até o quarto — e além do mais, eu me sinto arrumada demais pra um velório. Ninguém veste um vestido longo para ir ao cemitério.

Em resposta, ela apenas suspirou dramaticamente se sentando na beirada da cama. Me sentei ao seu lado. Sabia que era o certo a fazer. Quem sabe talvez eu a convenceria a me deixar ficar.

— Sabe, Brooks — começou ela com o olhar fixo no papel de parede — minha mãe morreu quando eu tinha quase a sua idade, e no dia do funeral eu também não queria ir, sabe?

Fiz que sim com a cabeça, eu conhecia a história. Decidi me sentar ao seu lado e ouvir o que tinha a dizer, afinal ela tinha mais experiências com funerais do que eu. Minha avó, Morgan Vega morreu quando minha mãe tinha quinze anos, de câncer de mama. Eu acho. E Meu avô morreu há apenas alguns anos. Sem dúvida alguma ela saberia me dizer o que fazer para me manter em pé.

— Então tia Jacqueline me fez um chá e me disse algo que eu nunca esqueci — fez uma pausa e sorriu — ela disse com lágrimas nos olhos: “Tawni querida, a sua mãe te amava, e eu suponho que você a ame também, essa é a sua última oportunidade sua de demonstrar isso antes que ela esteja debaixo da terra. E então eu te digo, minha querida, se você quiser se despedir ou algo tem que ser agora, porque eu tenho certeza de que não vai ter como fazer isso depois.”. Enfim, o que eu quero dizer é que realmente, mesmo com aquele jeito exagerado de se vestir, tia Jacqueline estava certa. Eu não tive outra oportunidade de dizer adeus e não acho que você vá conseguir fazer isso depois. Brooke, querida, eu sei que dói só que você tem que fazer isso agora. Porque é sua última chance de dizer que o amava.

Por mais que eu não quisesse aceitar, ela estava certa. Eu sempre o amei, mesmo quando não amava como homem. Droga! Natie era meu amigo antes disso tudo. Ele sempre esteve aqui, bem, desde quando nascemos e eu não conseguia me lembrar de algum momento em que não esteve por perto.

Era um fato inegável, Natie era praticamente um irmão.

— Tudo bem, mãe. Você me convenceu, mas eu preciso de um chapéu — declarei enquanto levantava da cama a procura do meu chapéu preferido. Ela estava certa, eu precisava me despedir. E se eu realmente ia fazer isso precisava me recompor. Natie foi egoísta sim, mas ninguém precisava saber que eu estava destroçada. Puxei de debaixo da cama minhas sandálias de couro Lavin pretas e surradas e as calcei.

— Muito bem — me parabenizou enquanto se dirigia até a porta do quarto — não demore muito, só temos dez minutos.

Me pus de pé com urgência. Precisava achar um chapéu. Não podia sair sem. Não queria que me vissem o meu estado deplorável.

Demorei um pouco para achar um chapéu floppy atrás da porta do armário. Coloquei o chapéu preto e fiquei satisfeita ao ver que as ondulações nas abas projetavam sombra nos meus olhos.

— Brooke, querida, precisamos ir agora. Só mais cinco minutos — gritou minha mãe batendo a porta do quarto.

— Já vai! — coloquei meus óculos de sol com lentes grandes e quadradas. Passei um pouco do meu gloss cor de pêssego nos lábios. Pronto! Eu estava intacta novamente. Mais forte do que nunca. Peguei minha bolsa e desci correndo as escadas. Minha mãe me esperava na porta com um copo Tuppeware nas mãos.

— Você precisa comer — disse ela como se lesse meus pensamentos. Eu aceitei, a acompanhando até o carro. Beberiquei um pouquinho. Era suco de tangerina, o meu preferido.

— Pronta? — perguntou sorrindo, enquanto dava partida no carro.

— Com toda certeza.

Seguimos o nosso caminho caladas ao som de Charlotte Gainsbourg. Estava tudo bem, só nós duas. Sem mais ninguém para estragar o momento, ouvindo A Charlotte dizer que as crianças são pequenos monstros. Era estranho, porém reconfortante. Estávamos de volta a nossa rotina.

De repente, a magia toda foi quebrada pelo toque do meu celular. Fiquei meio confusa até perceber que o som vinha de dentro da minha bolsa Balenciaga preta. Na minha cabeça eu tinha quase certeza de que havia perdido o celular. Eu sempre perdia o celular. Foi por esse motivo que minha mãe desistiu de comprar iPhone para mim. Eu sempre os perdia. Tirei o galaxy S5 da bolsa e vi que era April no identificador de chamadas.

— Hey, April — atendi tentando parecer animada.

— Hey, Brooks — ela respondeu de um jeito desanimado. Sua voz estava rouca, como se tivesse passado um longo tempo chorando. — olha, eu vou ser rápida, okay? Eu sinto muito, mas não vamos poder ir ao funeral. As coisas estão meio complicadas aqui. A Emma bebeu tanto depois que soube de tudo e acabou entrando em coma alcoólico.

— Merda!— foi só o que eu consegui dizer. Eu não fui a única a ser danificada pela a avalanche Nate. April e Emma Cohen também. E eu temia que o estrago fosse bem maior.

— É, eu sei. Os médicos disseram que ela já está reagindo. — April parou de falar. Eu podia ouvi-la hiperventilando. Nós nos conhecíamos o suficiente para eu saber que ela estava prestes a chorar. E com todo direito, por sinal. As gêmeas Cohen sempre foram nossas amigas desde a infância. Era de se esperar que elas estivessem abaladas também.

— April?

— Tudo bem, Brookster. Apenas diga a Jessica que sentimos muito — respondeu antes de desligar.

Nada estava bem. Estávamos todas despedaçadas.

...

O funeral já havia começado e alguém estava em pé falando algo sobre Nathaniel Grant. Afinal, todos tinham algo a falar sobre ele. O garoto prodígio. O atleta exemplar. O filho perfeito. O querido por todos. O suicida. Bem, ninguém mencionou essa parte, mas tudo bem. Dá pra passar. Todos se encontravam em pé ao redor do caixão fechado com os olhos tristes escondidos sob óculos de sol de luxo.

Bem típico de Beverly Hills, ninguém nunca perdia a oportunidade de ostentar.

Fiquei a uma distância considerável, porque não queria chamar atenção. Minha mãe mantinha sua mão entrelaçada na minha. Algo que não fazíamos há anos, mas mesmo assim era bom e confortador, como se a sua mão fosse o que me mantinha com todos os pedaços unidos.

Alguém havia deixado flores em cima da tampa do caixão branco. Hortênsias azuis, cravos roxos e mais alguns gladíolos verdes formavam um arranjo bonito. Não pude deixar de rir. Natie acharia um desperdício. Segundo ele, não fazia sentido comprar flores para alguém que nunca iria dizer se gostou ou não.

Fiquei surpresa com a quantidade de presentes. Era muito mais de cem pessoas. Eu reconheci muitos ali presentes. Todos tentando inutilmente reconfortar Jessica e Erick Grant, que pareciam estar dopados. Eu sabia que deveria ir lá e dizer algo. Eu deveria passar o recado de April, dizer que todas nós sentimos muito.

Mas eu não queria ir. Tinha medo de desmoronar.

Eu não fui.

Os jogadores do time de lacrosse, alguns professores da Avery Capshaw High School. Na verdade, boa parte da escola estava presente. Havia pessoas também que eu não conhecia. Provavelmente, parentes distantes e outros amigos de L.A. Todos se esforçaram tanto para estar ali com o objetivo mostrar o pesar à morte de alguém que não estava nem ligando para eles.

Eu queria ir para minha casa.

Natasha Beorlegui estava lá, com toda a sua perfeição arruinada pela tristeza. Com a cabeça baixa e o cabelo logo preso em um rabo de cavalo desarrumado com pequenos cachos negros escapando. Mesmo naquele estado, ainda parecia uma versão latina da Barbie. Por um segundo, nossos olhares se cruzaram. Seus olhos castanhos estavam vermelhos e envoltos por olheiras escuras. Natasha tinha todo o direito de chorar, Natie havia sido mais um da sua longa lista de namorados. Desviei o olhar o mais rápido que pude.

Ela parecia estar sofrendo bem mais do que eu.

Fiquei me perguntando como todos souberam. Minha mãe me disse que só foi declarada a morte cerebral na quinta feira e Jessica, a mãe de Nate, esperou até que seu irmão Tony chegasse de Dubai. Em Beverly Hills, as informações costumavam correr mais rápido que um carro de corrida. Será que eles sabiam como ele morreu? Quem o encontrou?

Provavelmente não. Não acho que alguém iria a um enterro de alguém que decidiu morrer por conta própria. Nem eu mesma iria. A verdade era que eu não sabia ao certo o que estava fazendo ali no meio de tanta gente dizendo que o amava.

Ele ficou sozinho por uma semana no necrotério frio.

E ninguém foi lá busca-lo

Senti que sendo observada. Levantei a cabeça e vi alguém entre as árvores, um garoto para ser mais precisa, vestido em uma daquelas jaquetas de aviador com a gola felpuda e jeans rasgados. Encontrava-se um pouco distante da maioria das pessoas, mas era o suficiente para eu conseguir enxergar o cabelo caindo sobre os óculos escuros.

Ele estava me encarando ou era só impressão?

Olhei para trás para ver se havia alguém além de mim pra ser encarado e não mais ninguém.

Quando voltei para a minha posição inicial, a fim de encarar de volta seja lá quem for, para a minha surpresa, ele não estava mais lá. Bem, seja lá quem for não era da região, porque ninguém no juízo perfeito usaria algo tão quente no calor da Califórnia.

— Brooks, está na hora — ouvi minha mãe dizer. Eu não havia tinha percebido que ela esteve ao meu lado por todo esse tempo.

Demorei um pouco para entender o que ela queria dizer. Natie estava descendo a terra. A terra já começara a ser jogada. Jessica caindo de joelhos clamava pelo nome do filho.

Espera!

Ele ainda não tinha feito dezoito e ia para a faculdade no outono. E não podia acabar assim.

Porra, eu o amava e estava disposta a perdoar o que me fez passar. Nós poderíamos resolver tudo. Só precisávamos de um pouco de tempo e paciência.

Nate estragou tudo.

Então eu dei as costas e corri, eu não queria acabar como uma pilha de destroços após um terremoto. Ignorei totalmente a voz da minha mãe me mandando esperar.

Eu corri ignorando o ardor nos músculos causado pelo esforço. Sem ligar para os carros e pessoas que passavam ao meu redor. As lágrimas não vieram e eu me sentia cada vez mais viva.

Não, ele não vai estragar a minha vida. Eu vou aguentar firme e me manter de pé porque eu sou inquebrável.

Notas finais
Então Aqui estamos nós. Vocês viram a capa nova? Eu só quero avisar que estou de volta e que vocês não vão se livrar de mim com tanta facilidade. . . ME AGUARDEM