Era Pra Dar Certo...
11 Eu achava que não poderia piorar
Notas iniciais
April sabia que não poderia beber tanto. Também sabia que não pode se misturar substâncias químicas de uma vez só. Todos nós temos um limite. Mas parece que ela não se lembrou de nada disso na sexta feira à noite. Ela estava tão doidona que esqueceu a blusa em algum lugar e bebeu até ficar desacordada. Nós a encontramos na dispensa da cozinha, largada sobre seu próprio vômito. Emma me fez ajudar a limpa-la e a colocar para dormir em um dos quartos de hóspedes.
April poderia ter tido uma overdose, sufocado no próprio vômito ou pegado AIDS transando com um estranho. Mas Emma disse “Tudo bem, você sabe que ela não é de fazer essas coisas.”. Ah, claro. Mas se ela realmente tivesse tido uma overdose o que eu diria a minha mãe? Ou aos seus pais? “Tudo bem, senhor e senhora Cohen. Ela só teve uma overdose e morreu. Vocês ainda têm mais duas filhas. Vivam com isso”
— Emma! — gritei enquanto procurava o que comer — Você precisa acorda-la!
Depois que o serviço de limpeza foi embora, ficou bastante claro que nossos convidados transformaram toda a comida da geladeira em um monte de embalagens vazias. Só nos sobrara um cacho de usas e pó de café instantâneo. E eu odiava café. Perfeito. Fechei a porta da geladeira e um post-it azul caiu no chão. Havia um numero e “caso as coisas fiquem estranhas” escritos em letras de forma.
— Hm, Brookster tem um herói secreto. Deixa eu ver. — Emma tomou o papel da minha mão.
Apenas revirei os olhos porque não havia mais nada o que ser feito. Eu era mesmo uma tapada e as gêmeas haviam me tirado do controle. Eu me esforcei ao máximo para acreditar que tudo o que estava acontecendo porque compartilhávamos a mesma dor. Nate também pertenceu a elas. Era estranho conhecer alguém a vida toda e depois ela ir embora sem se despedir. Não foi como se ele tivesse se mudado para outro lado do país, ou atravessado o mundo. Até porque o cemitério era em Los Angeles, mas não teria a mesma graça visita-lo. Balancei minha cabeça, tentando limpar a mente. É hora de se manter de pé.
— Não acho que seja para mim. — falei mais calma, apesar de estar mentindo. Tinha a total certeza de que isso era do garoto de sexta à noite. Qual era o nome dele? Nicholas? Não me lembro. E também procurei não pensar no assunto.
Sentei no balcão de mármore e fiquei olhando Emma preparar café instantâneo na sua própria xícara. Ela vestia um dos meus vestidos, o que era de certa forma bastante irritante. Ficaria feliz que as duas fossem embora. Muito feliz.
— Ei, Ems.
Ela acenou com a cabeça enquanto bebia o café.
— Se seu pai está na cidade, porque vocês não ficaram em casa com ele?
Houve uns segundos de silêncio até que ela bebesse mais café. Eu não queria parecer grossa, mas essa pergunta vem me rondando o fim de semana todo. E na verdade, era só uma dúvida inofensiva.
— Porque minha mãe não quer que a gente fique com ele. Ele está nos trocando pela secretária. — explicou calmamente. Deu para ver no seu rosto que, de certa forma, isso a machucava. — parece ele não percebeu que os silicones dela são bem maiores que o cérebro.
Senti uma pontinha de culpa por ter sido egoísta. Eu ia me desculpar, mas fui interrompida pelo grito de April.
— Pare de falar besteira! É só um divórcio, Emma. Deixa de drama.
Lá estava ela. Fabulosa. Vestida com as suas próprias roupas e com todo o seu cansaço oculto pela maquiagem. Essa era April. Resolvida, forte e estilosa. Em contrapartida, eu parecia uma mendiga com meus jeans folgados e rasgados. Mais cedo eu havia ligado para minha mãe, implorando para ficar mais um pouquinho em casa. Mas segundo ela, isso atrapalharia meus planos para faculdade. Eu perguntei se tinha cara de que iria para faculdade, mas ela já havia desligado. April sim parecia ser o tipo de pessoa que vai para faculdade no outono, eu não.
— Olha, a bêbada e drogada April acordou. Agora estamos no mesmo nível, não é mesmo?
Foi o gatilho para que toda a guerra começasse.
— Deixa de ser criança, Emma. O universo não gira em torno do seu umbigo
Abaixei a cabeça e decidi encarar o chão. Mais uma vez. Sim, eu estava entre fogo cruzado e não podia fazer nada a respeito. Ninguém pode, na verdade.
Senti o celular vibrar dentro da bolsa e ao destravar a tela vi dois novos e-mails. Poderia ser a Universidade da Califórnia me dizendo o obvio, não merecia nem estar na lista de espera da faculdade. Mas não. O primeiro era um aviso do lançamento da nova coleção de perfumes Carolina Herrera e outro era de Viollet Coubert. Bem, eu não a conhecia, mas também não parecia ser vírus. Poderia ser alguém tentando ser legal.
Eu abri. A curiosidade foi mais forte e também porque qualquer coisa seria mais legal do que prestar atenção na Cohen discutindo.
De: ViColbert28@aol.com
Para: bannvega@gmail.com
Assunto: PODE PARECER ESTRANHO, MAS NÃO É. ELES SÃO REAIS.
Minha cara, Xicaraapaixonada876
Espero que esse não seja seu nome e também espero que você esteja bem. Tenho que ser direta se não eu também vou estar encrencada. Sim, sua mãe está certa. E vamos logo falar que você é filha de Poseidon. Você já deve saber, é claro. Eu sou sua irmã. Surpresa! Você está bastante encrencada, sinto muito. Não posso te ajudar, a menos que você more na Austrália também. Provavelmente não, porque os deuses não gostam de sair da América. Louisa, minha amiga que é filha de um deus aí, me disse para tomar cuidado com os monstros. Eles usam os nossos celulares como GPS, sabe? EU NÃO ligo,jáme acostumei. Eles aprecem mesmo eu estando longe do celular. O que seria de mim sem meu Instagram?
Olha, eu sei que você deve me achar bem maluquinha, mas eu estou te dando uma sentença de morte. A ideia é te aliviar. Vamos fazer assim, se você tiver sobrevivido depois de postar naquele site (não foi nada legal) e se também sobreviver depois de ler esse e-mail, me responda, por favor. Vai ser legal ter alguém para conversar sobre monstros sem parecer completamente pirada. Se você sobreviver, é claro.
Beijos e cuidado.
p.s. acho que escrevi tudo errado. É difícil digitar com as mãos sujas de farinha
p.p.s. Achei seu email no seu perfil. Quis conversar por aqui. É perigoso sair por aí espalhando para todomundo que éfilha de um ser mitológico, sabia?
p.p.p.s Acabei de fazer cupcake. Aceita?
Fale com o autor