Notas iniciais
Olá! Demorei de novo, eu sei, desculpa. E esse capítulo ficou gigante, então se preparem hehe. Não faço ideia de como vai ser a resposta para esse capítulo porque ele é bem... humm...único, então se puderem comentar e dizer o que acharam eu ficaria super feliz! Talvez fiquem chateados comigo, talvez não. Vamos ver haha. Beijinhos e boa leitura ♥

Pela enorme janela da sala de estar, Rey observou Kylo Ren marchar imponente pelos jardins e partir em um flash speeder rumo a cidade. O dia não denunciava qualquer problema — nuvens preguiçosas deslizavam pelo céu azul, as folhas de uma Galek adulta farfalhavam com a brisa fresca, uma espécie de roedor com duas caudas felpudas escalava seu tronco rumo aos botões das flores. Nada parecia errado. Ainda assim, a energia estática poluía o ar. Algo poderoso, um prelúdio de um choque. Quando ele sumiu em uma curva, o medo inundou seu peito como uma represa de água fria. Estava com um mal pressentimento.

A Jedi olhou ao redor, para o luxuoso recinto em tons de vinho e dourado, e abraçou o corpo em um reflexo de auto preservação. Estava sozinha mais uma vez. Os empregados foram dispensados para lhe darem maior privacidade, mas agora aquele lugar parecia muito maior sem a companhia de Kylo. Não sabia o que estava acontecendo lá fora, ou do que Snoke trataria com o cavaleiro. Fora deixada ás escuras. Será que o Supremo Líder os havia descoberto? Tinha chamado Ren para lhe aplicar uma punição? Onde será que estava a Resistência naquele momento?

Barrou seus pensamentos com dificuldade e deu meia volta. Tinha de manter a cabeça fria. Caminhou até a biblioteca, moveu o dorso da estátua e entrou na sala oculta onde vinham trabalhando na arma de cristal escuro pelas últimas semanas. Aquele era o único lugar que parecia desorganizado, com artefatos raros espalhados em estantes, livros com cheiro de mofo e anotações por todos os lados. Lá estava ela: a chave para livrá-los desse caos. Quando apanhou o sabre de cima da mesa, sua energia escura formigou a ponta dos dedos e lhe causou uma súbita dose de coragem, como se o objeto a incitasse para ser usado. Apesar do desejo em sair da mansão e concretizar seus devaneios, era óbvio que deveria seguir seu bom senso e esperar pelo retorno do cavaleiro. Assim, escondeu a empunhadura entre as vestes e saiu do cômodo sem um rumo certo. Saiu da biblioteca, passou pelo corredor e, com a cabeça baixa, continuou o caminho sem destino. As formas hexagonais do tapete rubro se destacaram em seus olhos, provavelmente em uma tentativa de se distrair do tumulto de perguntas e temores que se aglomeraram em sua cabeça. Tentava convencer a si mesma que sua insegurança era infundada: Eles tinham sido discretos, se ocupavam em aparecer em público para não trazer suspeitas e Ben até a ensinou como manipular os próprios pensamentos para driblar a telecinese incomum de Snoke. Seguiram tudo à risca, sem brechas. Mas então, por que ela ainda tinha aquela sensação de estar sendo observada? Até onde seus poderes alcançavam? Como podiam ter certeza que estavam realmente seguros?

Interrompeu subitamente seus passos quando uma nova energia arrepiou os pelos do braço.

Ela congelou, apurando os ouvidos. Por um segundo, pensou ter escutado passos na cozinha, no andar de baixo. Na verdade, a garota mais sentiu do que ouviu. Seus dedos automaticamente pousaram sobre o sabre bastão que ficava encolhido em um terço do seu tamanho, atrelado ao cinto. Só o ligaria em último caso. Manteve-se alerta, tencionando os músculos do corpo, concentrando sua atenção nos arredores da casa como um radar de caça. Devagar, Rey desceu as escadas, tomando cuidado para não fazer barulho. Seus pés se moviam como o de um lince, incapazes de serem detectados. Ela contornou o hall de entrada e passou por mais um corredor em direção a origem do distúrbio, cada vez mais certa de que sim, havia alguém ali dentro.

Ainda mais lentamente, ela puxou sua arma e a segurou com ambas as mãos, aproximando-se do aposento em posição de ataque. Ainda não o ligaria. Pé ante pé chegou ao piso de linóleo e apertou os olhos, pronta para se defender. Tudo parecia no lugar, exceto...

A despensa. Alguém estava escondido ali. Ela tinha certeza disso. Seu coração disparou dentro do peito, ansioso. Se posicionou em frente ao arsenal de comida e o que aconteceu a seguir não durou mais que um segundo.

Usou a Força para abrir a porta de madeira, que se escancarou com um estrondo, e acionou seu sabre amarelo para rebater a rajada de blaster que surgiu de lá de dentro em sua direção. O tiro ricocheteou em sua lâmina de luz e atingiu o teto, fazendo o lustre de vidro despencar, mas o ataque cessou por aí: Rey congelou seu rival com o poder que emanou das pontas dos dedos e o focalizou, furiosa, pronta para subjugá-lo. Mas o que viu fez seu estômago dar uma cambalhota e as pernas amolecerem. A voz saiu em um risco, esganiçada.

— Finn?!

Desfez a artimanha no mesmo instante e empalideceu quando o amigo conseguiu retomar o controle do próprio corpo, se desequilibrando no processo. Largou a arma no chão e correu na direção da garota, envolvendo-a em um abraço caloroso. Ela não conseguiu se mover, apenas desligou o sabre e piscou devagar, encarando a despensa aberta.

— Rey, me desculpe! Eu não sabia que era você, pensei que fosse o Kylo! Céus, por que não falou alguma coisa?

Ele se afastou um pouco e a fitou com alegria. O sorriso se desfez quando constatou a feição petrificada da amiga.

— Está tudo bem com você? Te machucaram?

— Mas... O que... Finn, o que...? – tentou formular a pergunta, mas suas palavras se perderam no meio do caminho. Olhou ao redor como se esperasse que a Resistência fosse pular de dentro dos armários e lixeiras, mas como nada aconteceu, voltou a encará-lo, desta vez se esforçando para terminar uma frase. – Finn, o que está fazendo aqui?

O sorriso voltou a iluminar o rosto dele.

— Vim te levar te volta, é claro. – espiou para fora da cozinha, subitamente preocupado. – Tem mais alguém aqui?

Ela só conseguiu balançar a cabeça em negativa.

— Ótimo. Tenho uma pequena nave nos esperando no hangar, só precisamos ser rápidos.

— Finn, espera! Como você conseguiu chegar aqui? Como sabia onde me encontrar? Ninguém te viu?

— Não, ninguém me viu. É uma história meio longa, no caminho eu explico. Precisamos ir agora!

Ele pegou sua mão, apressado, mas não levou mais do que três passos para Rey parasse e a puxasse de volta. O ex trooper a encarou com a mais plena confusão estampada no rosto.

— Não posso ir, Finn.

— Do que está falando?

— Não posso ir com você. Estamos tão perto... Temos um plano e precisamos ficar aqui.

— “Nós” quem?!

— Eu e o Ben.

Finn fez uma careta desgostosa que a obrigou encolher os ombros, envergonhada.

— Por acaso você está falando do Kylo Ren?

— Ele mudou, Finn. Não é mais o mesmo. Estamos trabalhando juntos agora, temos uma arma secreta, não posso te dar detalhes mas –

— Rey, por tudo que é mais sagrado nessa galáxia, me escute. – o rapaz voltou a se aproximar dela, segurando seu rosto com ambas as mãos com carinho e a fitando em urgência. – Não sei o que fizeram com você aqui, que tipo de lavagem cerebral você foi submetida, mas eu não vou deixa-la nesse lugar. Esse pessoal vai pagar por tudo o que fez, estamos muito perto de derrotar a Primeira Ordem agora. A Resistência está te esperando, não vai mais ser preciso esse plano ridículo de tentar trazer aquele monstro para o nosso lado.

— Não, você não entende... – ela segurou as mãos dele com as suas, os olhos queimando pelas lágrimas que ameaçavam derramar. Ainda não conseguia absorver a ideia de tê-lo ali, na sua frente, mas não podia perder o foco da missão. Tinha de manter o sangue frio e tomar a decisão certa. – Não vamos conseguir derrotar a Primeira Ordem com meia dúzia de pessoas, mas temos uma chance se fizermos de dentro, entende? Ben Solo está do nosso lado, você precisa confiar em mim.

— Você ouvindo a si mesma?! – seu tom acalentador se fora. Agora havia apenas desespero e uma pitada de rancor. – Não sei que tipo de utopia você está vivendo aqui dentro desses muros, mas as pessoas estão se unindo a causa lá fora! Somos um exército agora, construímos algo sólido e bem debaixo do nariz da Primeira Ordem! Eles nem desconfiam do nosso poder de fogo, Rey. Agora chegou a hora de revidar e você não pode estar desse lado quando começar.

Rey puxou o ar para responder, mas hesitou. As palavras de Finn flutuaram em sua cabeça como bolhas de sabão, estourando em todos os cantos e nublando sua percepção. Os pensamentos giraram muito rápido, embora tudo parecesse em câmera lenta na visão da Jedi. Se isso fosse verdade, então voltar para lá não parecia má ideia. Por um momento, a garota se viu tentada a aceitar o pedido e partir com Finn. Afinal, estaria de volta com seus amigos, no conforto de algo semelhante a um lar, lutando ao lado das pessoas que amava. Mesmo que perdessem a batalha, passaria os últimos momentos de sua vida com sua família – não de sangue, mas uma ainda melhor, uma que a acolheu de braços abertos quando ela ainda não era ninguém. Era uma chance única.

Mas então, pensou em Ben. Imagens dos últimos dias passaram por seus olhos em uma avalanche de sons e toques, lembranças de todas as conversas, dos momentos juntos, de todos os planos para um futuro promissor. Naquele milésimo de segundo, encarando os olhos castanhos do seu melhor amigo, Rey avaliou como se sentiria se estivesse no lugar de Ben Solo. Como ficaria ao voltar para casa e ver que ela o abandonou? Que o traíra? Não apenas devastado, mas furioso. Seria mais uma decepção para sua coleção de acontecimentos ruins, coisas que o levaram ao lado negro. Talvez fosse o acontecimento decisivo que o faria extinguir de vez a pouca luz que sobrara nele. Como conseguiria viver com a culpa? Se isolaria em uma ilha, assim como Luke? Não. Além disso, havia aquela fagulha em seu coração, aquela coisa nova que se alastrara por ali nos últimos dias e fizera com que ela se importasse mais com Ben do que o normal. Algo que ela ainda não conseguia classificar. Apenas sentia.

— Leia sabe que está aqui? – Falou finalmente, tomando sua decisão.

— O que...? Não, mas isso não vem ao caso...

— Se ela não pediu para você me buscar, então eu não devo voltar.

— Rey!

— Finn, não! Foi um erro você vir pra cá. Alguém provavelmente te viu, precisamos te colocar de volta naquela nave agora!

— Eu não vou sem você!

É claro que ele não iria. Finn era um amigo de verdade, que se preocupava com seu bem estar. No entanto, por mais que suas intenções fossem boas, ele jamais entenderia os laços que foram criados nesse tempo em que esteve com Ben, e não havia tempo para explicar. Rey suspirou, como se decidisse fazer algo ao qual não se orgulhava, e se concentrou. Olhou no fundo das íris cor de chocolate de Finn e disse em uma voz solene.

— Você vai embora sem mim. Vou te ajudar a voltar até sua nave e você irá até a Resistência e dirá que estou bem.

Imediatamente, Finn relaxou os músculos da face e adotou uma expressão neutra, quase dispersa. Assentiu uma vez e deu meia volta, pronto para segui-la até o hangar. Era um truque baixo, Rey sabia, mas era a única forma de convencê-lo a deixa-la para trás. Se dirigiram até uma porta que dava acesso aos fundos da casa e, quando saíram para a luz do sol, foram recebidos por uma voz feminina de desdém.

— Olha isso, meu dia de sorte. Dois coelhos em uma cajadada só.

Rey não sabia como não pôde perceber a aproximação deles. Mas lá estavam eles, cercando o fundo da casa com armas apontadas para seu peito: Lyra, metade dos cavaleiros, alguns stormtroopers e dois guardas Pretorianos. O sol refletia em seus capacetes vermelhos e a lembravam do fogo se alastrando por uma floresta.

— Lyra, saia do meu caminho. Só vou avisar uma vez.

A mulher de cabelos dourados deu uma risada forçada e olhou brevemente para seus companheiros com deboche.

— Ouviram isso? Ela está me mandando sair. – depois se voltou para a Jedi, se aproximando dos dois com presunção. – Desculpe desapontar, garota prodígio, mas não vai rolar. Vou levar vocês dois para o Supremo Líder e denunciar sua tentativa de alta traição. Isso vai ser divertido.

— Você vai sair da minha frente e me deixar passar. – novamente o tom solene, o brilho voraz nos olhos, o punho fechado. Mas nada pareceu mudar. Talvez estivesse muito distraída com a própria raiva e o desespero de não conseguir ajudar Finn.

— Ah, esse truquezinho não vai funcionar comigo. Não tenho a mente fraca como esse seu amigo aí. – apontou Finn com a cabeça. Ele parecia desinteressado no que acontecia ali e fitava um ponto qualquer do céu. – Confisquem os dois.

Um cavaleiro tomou a frente do stormtrooper, assumindo a tarefa. Rey identificaria seus cachos louros a quilômetros de distância. Fenrir se aproximou com as feições endurecidas, inabalado pela situação, e apalpou um Finn completamente anestesiado. Quando ele ameaçou fazer a mesma coisa com a Jedi, ela sibilou entre os dentes.

— Se você fizer isso, é um homem morto.

Além da raiva, sentia-se tola. Como pode achar que ele era seu amigo? Essa era sua sina, afinal de contas. Acreditar no bem das pessoas, mesmo que elas não mereçam. O cavaleiro lhe deu aquele sorriso que ela um dia achara charmoso, mas que agora parecia apenas debochado e cruel, e ergueu as mãos em forma de rendição.

— Tudo bem. Me entregue seu sabre de luz então.

A garota hesitou. Olhou mais uma vez para a frota que apontava suas armas, analisando suas chances. Com certeza conseguiria derrota-los, especialmente na posse do sabre negro. Mas e então o que? Estavam presos naquele lugar, ela não conseguiria dar conta de uma legião inteira de Stormtroopers além do próprio Snoke. O melhor a se fazer era se render e então pensar em um plano mais concreto.

A contra gosto, Rey desatrelou devagar seu sabre bastão. Enquanto fazia isso, os soldados engatilharam seus blasters, pronto para despejar uma saraivada de tiros caso ela tentasse alguma coisa. No entanto, a garota apenas o entregou a Fenrir com uma careta de quem sente um cheiro ruim bem embaixo do nariz. Seu ódio podia ser lido em cada milímetro do rosto.

— Desculpa neném, só estou fazendo meu trabalho.

— Aproveite bem enquanto pode.

Mais uma risada. Então, com um tom a baixo do normal, ele voltou a falar.

— Preciso do outro sabre também.

Seu sangue gelou nas veias. Foi como se o chão tivesse se aberto sob seus pés, uma enorme cratera fria a engolindo por inteiro. Como ele sabia do sabre negro? Ela tentou ler qualquer resposta que pudesse encontrar nas orbes azuis do cavaleiro. Não encontrou nada além de frieza. Quando ele estendeu a mão, esperando, ela finalmente cedeu e puxou a empunhadura comprida de dentro das vestes, o coração retumbando contra a caixa torácica. Quando o entregou a Fenrir, sentiu como se estivesse desistindo da única esperança que lhe restara naquele lugar. Como se aquela fosse sua sentença de morte. Estava mais surpresa que desolada. Como?

Sem falar mais nada, ele guardou o objeto dentro da camisa e voltou para sua formação. Um soldado qualquer se aproximou em seguida, puxou algemas especiais e as selou nos punhos dos dois, cutucando suas costas com a ponta da arma. Finn apenas a seguia obedientemente até o Juggernaut A4 trazido especialmente para leva-los. Lyra parecia radiante pelo caminho, como se tivesse encontrado um tesouro muito valioso. Uma vez sentados dentro do tanque, a Jedi sussurrou um simples “acorde!” para Finn, que piscou devagar e olhou ao redor com uma mescla de surpresa e terror. Então, se virou para Rey, irritado.

— Você usou aquele truque em mim, não usou?!

XXX

— Você sabe por que está aqui, meu aprendiz?

Kylo se ergueu da reverência mas continuou fitando o chão. Ele realmente não sabia, mas tinha suas hipóteses. Negou com a cabeça e respondeu em tom neutro.

— Imagino que seja por causa da interferência que a Resistência causou na nossa frequência de rádio.

— Ah, isso foi um infortúnio, de fato. Mas já foi resolvido. Rastreamos o sinal e eliminamos o responsável. Na verdade, está aqui por outro motivo. Chegou a hora decisiva de provar sua lealdade, de mostrar do que é capaz. – fez uma pausa, refletindo algo consigo mesmo, então continuou. — Sabe, confiança não é algo que surge naturalmente entre duas pessoas. É algo que se constrói com o tempo, se ergue bloco por bloco, como um castelo. Veja só o exemplo seu e da garota Jedi...

O cavaleiro ergueu os olhos no mesmo instante. Quentes, profundos, letais. Snoke sentiu uma perturbação vinda do homem e ficou satisfeito por provocar a reação esperada nele.

— Vocês se odiavam a até pouco tempo atrás. Eram inimigos mortais. Mas agora, as coisas mudaram. Quem iria imaginar que luz e escuridão pudesse entrar em tamanha harmonia? — O Supremo Líder forçou um tom enérgico que pareceu oco e debochado aos ouvidos de Kylo. – E para isso acontecer, vocês precisaram confiar um no outro. Precisaram aprender a construir uma ponte de lealdade. E é exatamente isso que eu peço de você.

— Tenho sido leal aos seus propósitos desde sempre, Supremo Líder.

— De fato. Apesar de ser uma decepção constante, você não me traiu. – fez uma pausa, então se inclinou em sua cadeira e carregou a sentença seguinte de malícia. – Até agora.

Kylo Ren piscou devagar. Houve silêncio. Sua natureza humana insistia em revirar as memórias das semanas que se passaram, ressaltando os planos que vinha arquitetando com Rey, mas isso seria um prato cheio para Snoke. Remoer a culpa seria sua sentença de morte, divagar se ele saberia de algo a respeito do sabre negro também o mataria. Ao invés disso, o cavaleiro usou todo o seu auto controle para deixar a mente vazia. Absolutamente nada se passava em sua cabeça. O esforço fez uma gota de suor brotar em sua têmpora. Vendo que não falaria nada, o ancião continuou.

— Estive preparando as tropas para realizar o ataque final que concretizará meus planos e estabelecerá as raízes da Primeira Ordem na galáxia. Partiremos ao amanhecer. Seu papel aqui, Kylo Ren, será exterminar de vez a Resistência. E você usará a garota para tal.

— Usarei? – um vinco de sincera dúvida surgiu entre suas sobrancelhas.

— Ah, sim. Você já ganhou a confiança dela, eu presumo. Está na hora de usar isso a seu favor. Você irá encontrar o que sobrou da Resistência e ajudar Hux a guiar as tropas para exterminá-los. Sem falhas dessa vez.

— Sim, senhor.

Não foi tão ruim quanto ele esperava que fosse. Claro que Snoke estava o colocando em uma situação delicada, mas ele daria um jeito. Sempre há uma saída. Ele pensaria em algo mais tarde, quando estivesse jantando com Rey, e ela provavelmente lhe daria alguma ideia criativa, como sempre fazia. Também havia o fato de que o Primeiro Líder estava praticamente admitindo que não confiava nele, mas não havia prova alguma de traição. Muito pelo contrário.

Nesse instante, Hux adentrou a sala do trono com sua postura prepotente e a reunião se seguiu com dados técnicos de guerra e sugestões táticas. Kylo não prestava atenção em nada daquilo. Pescava algumas sentenças como “usaremos o AT-AT em terra” e “sem prisioneiros”, mas não sugeriu nada. O general de cabelos cor de fogo parecia ter treinado sua tática a semanas, então ele lhe concedeu de bom grado esse gostinho especial para ter toda a atenção para si. Patético.

Quando finalmente acabaram, uma centelha de contentamento piscou em seu peito. Finalmente iria para a casa, de volta para Rey. Tinha a estranha, porém reconfortante sensação de voltar ao lar, a um lugar que ele simplesmente adorava passar o tempo. Ele lhe diria que não havia sido nada demais, que a hora de agirem estava muito próxima e que tudo parecia correr com o plano. Talvez fossem a um restaurante na cidade – como nesses encontros comuns de namorados. Poderia lhe comprar flores no caminho.

Mas então, apenas Hux foi dispensado. Snoke queria falar algo a mais. O cavaleiro aguardou paciente até que apenas os dois estivessem na sala e tratou de regular seus batimentos cardíacos enquanto esperava o ancião se pronunciar.

— Não me julgue mal, meu jovem aprendiz. Não desconfio de você. Mas se coloque em meu lugar: um golpe de estado é muito comum na política. Na história dessa galáxia, inclusive. Você, em meu lugar, também iria querer provar diárias de lealdade.

— Eu o compreendo.

Snoke assentiu contente. Parecia ansioso com alguma coisa, como se algo muito bom estivesse prestes a acontecer. Isso era um mau presságio e estava começando a perturbar Kylo Ren.

— Que bom. Então você pode começar a fazer isso nesse exato momento.

— Perdão?

Batidas na grande porta de carvalho adornado ecoaram pela sala. Sem tirar os olhos do seu aprendiz ou diminuir seu sorriso medonho, Supremo Líder anunciou.

— Entrem.

Como protocolo, Kylo permaneceu imóvel. Sua curiosidade era grande, mas ele não queria demonstrar nenhum tipo de fraqueza, então não se virou. Ouviu passos se aproximando – muitos passos. De pelo menos dez pessoas. Mas algo se destacou. Algo único e incomparável entre aquele grupo, algo que o fez enrijecer. A energia que sempre o recebia como um cobertor de seda, quente e confortável. A luz de Rey. Algo não estava certo.

O cavaleiro não conseguiu se aguentar. Virou de repente, sem disfarçar surpresa, e arregalou os olhos com a cena que se desenrolava a sua frente. Stormtroopers conduzindo Rey e Finn algemados, com Lyra e Fenrir em seu encalço e alguns guardas Pretorianos fazendo a escolta. Seu olhar passou brevemente por todas aquelas pessoas que faziam a reverência de praxe e parou por fim na Jedi, completamente confuso. Ela retribuiu com algo semelhante a desamparo.

— O que está acontecendo? – ele se atreveu a perguntar, virando-se para Snoke.

— Lyra, queira nos responder essa pergunta, por gentileza.

— Fizemos o que o senhor nos pediu, Supremo Líder. Fenrir e eu seguimos este homem que atracou no nosso hangar hoje cedo, escondido entre uma carga de mantimentos. Ele foi até o Castelo-Forte, como o senhor presumiu. – Lyra falava com um orgulho mal contido, e desta vez Kylo não conseguiu não pensar em nada. Seu pomo de adão subiu e desceu na garganta de forma nervosa – algo que beirava o medo, medo do que ela diria a seguir. – E se juntou a Jedi. Os dois estavam planejando escapar juntos.

O cavaleiro desviou os olhos um instante para encontrar os de Rey, mas ela estava de cabeça baixa, fitando o chão. Esperou ver lágrimas de ressentimento, mas encontrou uma feição vazia no rosto dela.

— Você. – o ancião apontou o dedo cadavérico para Finn, levantando-se de sua cadeira e se aproximando devagar. – Você é o traidor, não é? O stormtrooper desertor?

— Sou Finn. Fiz o que era certo e faria tudo de novo, se tivesse a chance. – Ele ergueu a cabeça e estufou o peito, mas Kylo pôde perceber que suas mãos tremiam.

— Ah, claro. Eu estava louco para te conhecer. Hoje é meu dia de sorte, pelo visto. Devo dizer que foi bastante estúpido entrar na minha base pensando que conseguiria sair ileso. Mas não dá para esperar muito de quem cuidava do saneamento, não é mesmo? – Snoke riu com deboche. — Obrigada pelos seus serviços, vocês dois.

Lyra fez uma reverência exagerada, Fenrir apenas assentiu. Finn de repente cuspiu as palavras como se estivesse as segurando desde que entrou ali, mas só agora tivera coragem para falar.

— Rey não tem nada a ver com isso. Ela não sabia que eu viria. Não há motivos para prendê-la.

— Mas ela não ia entrega-lo, como manda o protocolo. Ou ia?

Ele puxou o ar para responder, — provavelmente tentar defende-la — mas Rey interpôs, neutra.

— Não.

— Claro que não. E isso a torna cúmplice do crime. – ele voltou morosamente para seu assento, a roupa dourada deslizando no chão. — Todos aqui sabem qual é o castigo para traição.

Uma leve agitação tomou conta da sala do trono. Alguns se olharam, outros se remexeram inquietos. Rey ergueu o rosto e finalmente adotou uma expressão facial – medo. Kylo imediatamente interpôs.

— Senhor, se me permite a palavra, poderíamos usá-lo como prisioneiro para -

— Não. – ele ergueu a mão no ar ao dar a ordem. – Nossas leis são claras. Traição é a mais alta classe de crime entre nossa jurisdição. Este homem não só feriu nossas leis, como também nos atingiu de maneira pessoal ao abandonar seu posto e se virar contra seus companheiros. Sua sentença é a morte.

Por alguns minutos, o mundo ficou desfocado. Aos olhos de Rey, todos pareciam flutuar em um grande aquário de águas turvas, onde cada pessoa se movimentada com letargia. Suas vozes soavam distantes, desconexas, como folhas jogadas ao vento. Kylo parecia ainda tentar argumentar com Snoke, — ela identificou seu tom único, embora não compreendesse as palavras — mas em seu íntimo ela sabia que a decisão estava tomada. Era o fim. Não conseguiu pensar em um plano, não conseguiu formar nada coerente em sua cabeça – estava mergulhada em um pesadelo onde nem seus músculos nem sua mente respondia aos estímulos externos. Depois do que pareceu uma eternidade, virou o rosto e focalizou seu melhor amigo. Ele suava com o nervosismo, mas parecia disposto a enfrentar qualquer coisa. Rosto erguido, maxilar trincado, postura perfeita. O homem que havia arriscado a vida, mais de uma vez, para salvá-la. O homem que fora até o covil das cobras para tentar livrá-la das garras da Primeira Ordem. O homem que decidiu lutar por uma causa, lutar pela galáxia. Ela o amava como a um irmão. E agora ele iria morrer. Por sua causa.

Aos poucos, Rey começou a emergir da paralisia e forçou sua cabeça a funcionar. Exigiu que os neurônios voltassem ao lugar e suas emoções vieram como uma tsunami, destruindo toda a lógica pelo caminho. A primeira coisa que fez foi chorar – silenciosamente, com pernas trêmulas, sem se importar em parecer forte.

— Por favor, Supremo Líder. – ela ajoelhou de frente a Snoke, que não poderia parecer mais satisfeito. – Eu imploro... Poupe sua vida. Tire a minha, se for preciso. Mas aplique outra punição a ele.

— Por mais improvável que essa sentença seja, sua vida é, no fim das contas, mais valiosa que a dele. Além disso, que exemplo eu estou dando para o povo se não aplicar as leis que eu mesmo criei? Não, não. Sua punição é ver a execução desse rebelde.

Ela piscou, enxergando apenas a silhueta de Snoke através das lágrimas. Precisava pensar em algo. Tinha de bolar um plano. Mas como fazer isso quando se está tão impotente? Como pensar direito quando tudo está ruindo, quando seu mundo está desabando, quando seu coração está se partindo em pedaços? Como evitar que Snoke descubra a única arma capaz de mata-lo sem deixar que ele descubra tudo antes? Ela não conseguia. Simplesmente não sabia ser uma Jedi centrada, sem emoções, sem conexões com outras pessoas. Sua maior qualidade também era sua fraqueza.

— Rey, calma, não fique assim.... – ela ouviu a voz de Finn e quando se virou, o encontrou trêmulo, mas firme. – Não se preocupe comigo. Vai ficar tudo bem.

— Não.... Finn, me perdoe.... – ela se levantou, correu até o ex stormtrooper. As pessoas que presenciavam a cena não ousaram se mover. Primeiro, por causa de Snoke – ninguém tentaria se opor ao Supremo Líder. Segundo, porque a cena toda era bastante desconfortável. Vê-la naquele estado de pura desestabilidade e desamparo não agradava nem mesmo a Lyra. Apesar disso, ela decidiu apenas virar o rosto e evitar que a culpa lhe acometesse.

Kylo nunca a viu daquela forma. Ele achou que a conhecia, que Rey era uma pessoa forte e inabalável, mas aquilo provou o contrário. O despedaçou por dentro, o enfureceu de uma forma totalmente nova. Sua vontade era a de correr até ela, envolve-la em seus braços e acalmá-la. Mas não podia fazer isso. Ali, ele não era Ben Solo. Ele era Kylo Ren. E não poderia pôr tudo a perder por se entregar as suas emoções, não agora. Quando despertou dos seus devaneios, percebeu que Snoke o estava chamando e finalmente desviou o olhar da Jedi.

— Kylo Ren, estou falando com você.

— Perdão, mestre.

— Primeiro essa interferência ridícula no sinal de rádio, agora mais uma traição. Precisamos por ordem nesse lugar. Você fará a execução. Agora.

Ele piscou aturdido.

— Pensei que faríamos a cerimônia...

— Nada de cerimônias. Faremos agora, rápido e eficiente. A palavra se espalhará pela cidade de qualquer forma.

Pelo canto do olho, Kylo percebeu que Rey havia parado de se lamentar com Finn e virado o corpo em sua direção. Não pôde ver a expressão em seu rosto, mas tinha a certeza que era questionadora, quase fulminante. “Você não vai fazer isso, vai?”

Ele sabia o que tinha de ser feito.

O cavaleiro adotou sua máscara de guerra. Postura ereta, perfeita. Rosto endurecido. Mãos cerradas em punho. Subitamente se virou e marchou até Finn. O segurou rudemente pelo braço, puxando-o para o centro da sala. As pessoas se afastaram, exceto Rey – ela os seguiu de perto, a voz trêmula, completamente fora de si. Parecia uma garotinha assustada.

— Não, Ben, não... O que está fazendo?

— Acho melhor você se afastar, Rey.

— Ben...

Kylo sabia que Snoke poderia simplesmente a imobilizar, deixa-la congelada em um canto da sala sem atrapalhar o processo. E sabia também que ele não estava fazendo isso porque estava gostando do show. O Supremo Líder era um ser devasso que sentia prazer na dor das pessoas, e agora não seria diferente. A Jedi parou bem em frente ao cavaleiro e o fitou de maneira súplice. Sua voz saiu em um sussurro.

— Ben, eu te imploro, não faz isso....

— Se eu não fizer, — ele respondeu com frieza, suas orbes escuras semelhantes a dois buracos negros sem vida. – Outra pessoa irá fazer. E será bem pior.

— Rey, me escuta. – Finn se interpôs antes que ela recomeçasse as súplicas, fazendo-a estancar com os olhos arregalados. Seu tom não era maior que um sopro. – Por favor. Eu estou feliz de estar aqui. Feliz de te ver novamente. É pela Resistência, lembra? Pela esperança. Vai ficar tudo bem. Eu prometo.

E sorriu. Um sorriso afetuoso, como se estivesse apenas dizendo um “até logo.” Tudo que aconteceu a seguir não passou de um borrão. Um borrão de cores, sons e terror. Rey começou a gritar. Com toda a força que reuniu, do fundo da alma. Sentiu fúria, medo, incredulidade. Kylo não podia fazer isso. Snoke não podia destruir tudo que ela amava dessa forma. Não podia. Ela queria mata-lo. Queria matar a todos e fugir dali com Finn. Sentiu alguém puxá-la por trás, muitos braços fortes e coronhadas na cabeça, mas nada disso conseguiu imobilizá-la. Ela estava possuída por um desejo maior, uma força que nem mesmo ela conhecia. Quem tentava entrar em seu caminho era derrubado, nocauteado com seus punhos, pernas e dentes. O piso sob seus pés rachou em certo ponto devido ao esforço, assim como seu coração. Uma força maior congelou seus músculos, Snoke teve de intervir. Viu as costas de Kylo Ren, cada vez mais distante, cada vez mais impossível de se alcançar. Viu seu braço erguido, a mão em forma de C no ar, Finn sendo erguido do chão pela Força e sufocado sem chance de se proteger. Gritou mais forte, mas não ouviu o som que saiu de sua boca. Não ouviu som algum, além de ecos distantes em sua cabeça. Não sentiu a dor que lhe infligiam, nem o sangue que escorria de sua têmpora. Não sentiu o próprio corpo. Parou entre um fluxo atemporal, sugada por uma tempestade terrível, uma sensação de afogamento que trancava sua traqueia. Mas não era ninguém lhe impondo dor física, era apenas sua cabeça entrando em colapso, chegando ao limite do juízo, causando desespero no mais alto grau. Finn parecia perder gradativamente suas forças, inconscientemente desistindo de lutar pela vida. Os braços penderam ao lado do corpo, os olhos se fecharam depois do que pareceu uma eternidade. De repente, ele despencou com um baque. Por algum motivo, Rey também se encontrava no chão, a face molhada, as mãos espalmadas no piso para suportar seu peso. Tudo ao redor se tornou nublado. As botas escuras de Kylo se afastaram, e então ela o viu com maior clareza. No mesmo instante, desejou não tê-lo feito. Finn parecia dormir tranquilamente contra o piso rachado da sala do trono. Como se estivesse sonhando com algo bom.

XXX

O silêncio caiu como um bloco de gelo dentro da sala. Lyra estava pálida, parecia prestes a vomitar. Os guardas Pretorianos e alguns stormtroopers tentavam se recompor dos golpes violentos da Jedi, alguns permaneceram desacordados. Snoke sorria de maneira perversa, admirando a cena em silêncio. Kylo correu em direção a Rey, sem perguntar se poderia ajuda-la. Ninguém o impediu.

— Preciso saber se ele está realmente morto.

Fenrir se adiantou até o corpo do ex stormtrooper. Tocou seu dedo indicador e médio na jugular em busca de pulsação. Ergueu a cabeça para um Supremo Líder iluminado de alegria e assentiu.

— Está morto.

— Ótimo. Tirem o corpo daqui. Estão dispensados até o amanhecer.

XXX

Kylo ergueu a garota paralisada do chão. Ela não protestou. Pensou em carrega-la no colo, mas Rey parecia disposta a caminhar de maneira trêmula ao seu lado, então ele apenas passou o braço dela por cima de seus ombros enquanto segurava sua cintura. O olhar dela parecia perdido no infinito. Estava em estado de choque. Alguém se encarregou de levar o corpo de Finn para outro lado, algo que Ren fez questão que a garota não visse. Lyra parecia querer dizer algo a ele, mas vendo sua expressão perigosa, decidiu deixar para outro momento.

A acomodou no banco do flash speeder e atrelou o cinto. Dirigiu em silêncio até o Castelo-Forte, de vez em quando a espiando para analisar seu estado. Puxou o ar uma ou duas vezes para dizer algo, mas não encontrou palavra alguma que a confortasse. Quando estavam no meio do caminho, ela finalmente interrompeu o silêncio com uma firmeza cortante.

— Me deixe aqui.

— O que?

— Pare o speeder. Quero descer aqui.

Kylo a olhou sem entender, mas achou melhor não questionar. Parou o veículo ao lado da calçada e se espantou quando ela simplesmente abriu a porta do speeder e saiu andando. O cavaleiro acelerou para acompanhar seu passo e ignorou os olhares curiosos vindos das janelas dos apartamentos quando gritou seu nome. Quase ninguém perambulava na rua.

— Rey! O que está fazendo?!

— Quero ficar sozinha.

— Não, aqui é perigoso. Vamos pra casa.

Ela não respondeu. Teria virado alguma esquina para escapar dos seus olhos mas precisava caminhar mais um pedaço para a próxima viela.

— Pare de ser tão teimosa! – ele se irritou, não pensando muito nas consequências. – Precisamos conversar! Eu tenho algo pra te falar, tem que ser o quanto antes!

De repente, Rey parou. O cavaleiro também interrompeu seu percurso com o speeder. Ela demorou um pouco para se mover e, quando o fez, girou devagar nos calcanhares e se aproximou do veículo com a expressão vazia e a voz fria como gelo.

— Precisamos?

Ele não conseguiu responder. Estava ocupado recebendo o maior olhar de desprezo que já presenciara na vida.

— Rey, me escuta –

— Não. Me escuta você. Como pôde? Como pôde concordar com isso? Não, eu não quero saber o que você tem a dizer. Se tentar chegar perto de mim outra vez, ou dirigir a palavra a mim, eu juro que vou mata-lo. Seu maior erro foi pensar que teria qualquer chance de uma vida ao meu lado, como se merecesse qualquer felicidade nesse universo sendo quem você é. Eu tenho pena da sua pessoa. Na verdade, você deveria ter morrido no lugar do Finn, já que tudo isso é culpa sua. Sua mãe tinha razão quando disse que você era um caso perdido.

Sua sentença foi calma, calculada, carregada de um desdém cruel feito para machucar. Houve um momento de silêncio enquanto se encaravam. Rey podia jurar que os olhos dele marejaram, mas foi só por um segundo. Uma sombra escura cobriu a aura de Kylo, que apertou os lábios em uma tentativa de conter sua fúria. Esmurrou com força o volante do speeder, entortando-o ao meio, e pisou firme no acelerador, disparando pela avenida e quase batendo em um poste no percurso. Quando sumiu de vista, Rey simplesmente piscou e retomou sua caminhada pelas ruas iluminadas de Hanoon.

A noite veio fresca e acompanhada por uma cortina densa de sereno. Ninguém a incomodou. Rey precisava caminhar, precisava se distrair com o frio e com a dor dos machucados. Ela precisava se punir pelo o que tinha acontecido. Tudo o que aconteceu antes desse episódio ficou trancafiado em uma gaveta de sua mente, e a única coisa que sobrou foi o choque. O rancor. O peso esmagando seu peito. Como conseguiria viver em um mundo sem o Finn, ela não sabia dizer.

XXX

Quando o sol despontou no horizonte, Rey ainda estava acordada. Tinha achado uma praça qualquer na cidade e sentado no chão, escorada em um tronco de árvore, sem saber o que fazer de agora em diante. Sua mente insistia em mantê-la acordada. Tinha medo de dormir e sonhar com o que havia acontecido na sala do trono. Ainda assim, a fadiga falava mais alto e seus músculos clamavam por uma trégua. Estava com sangue seco na testa e seu corpo doía graças ao esforço e as pancadas que recebeu dos guardas no dia anterior. A garota se arrastou até o Castelo-Forte a contragosto e ficou aliviada quando percebeu que Kylo não estava lá dentro.

Ela pensou muito durante a madrugada. Até seus neurônios queimarem no cérebro. Mas todo o raciocínio a guiava pela mesma linha incoerente de pensamentos: Morte, tragédia, ódio, Kylo Ren. Nada coeso se formulava. Sentia-se estúpida. Traída. Magoada. Incrédula. Em um estado de torpor sufocante. As lágrimas cessaram quando parecia que todo o líquido do seu corpo já havia ido embora. Estava sem rumo, sem chão, sem perspectiva de vida, sem esperança. Se o universo inteiro explodisse agora, ela não se importaria. Seria melhor do que conviver com a culpa.

A cidade parecia estranhamente quieta e isso lhe deu a oportunidade de dormir pesado por algumas horas. Foi um descanso sem sonhos, para seu alívio.

XXX

Quando acordou, não parecia ter descansado nada. Seu corpo pesava, a cabeça doía, os olhos ardiam. Seu estômago roncava mas não lhe veio nenhuma vontade de se levantar da cama. Ainda estava sozinha. Não quis saber para onde aquele monstro tinha ido. Preferia nunca mais vê-lo em sua vida. Ela fitou o teto por um longo tempo, as mesmas perguntas flutuando em sua cabeça como espinhos na carne. “Como pude me apaixonar por um assassino? Como pude deixar que Finn morresse? O que vou fazer da vida agora? Como as coisas deram tão errado em tão pouco tempo?” Até vinte e quatro horas atrás, tudo parecia bem. Não exatamente perfeito, mas correndo nos trilhos. Ela até estava feliz. Feliz com Ben Solo, com uma perspectiva boa de vida, com a esperança mais acesa do que nunca. A lembrança disso a fez afundar as unhas na palma da mão. Como fora burra... Tão ingênua...

Nada mais parecia ter propósito. Ganhar, perder, tanto faz.

Seus devaneios cessaram quando alguém apertou a campainha da mansão. Ding-dong. Ela nem sabia que existia uma campainha naquele lugar. Suspirou, incomodada, esperou em silêncio, não queria descer para ver quem era. Qualquer pessoa naquele lugar era desprezível aos seus olhos. Ding-dong. Quem ousaria ir ali, especialmente depois do que aconteceu? Ding-dong, ding-dong, ding-dong. Movida pela raiva, Rey saltou da cama – apesar do protesto de seus músculos doloridos- e desceu as escadas correndo, disposta a esmurrar quem quer que estivesse do outro lado. Escancarou a porta e a pessoa parada ali a fez estancar no lugar, sem reação.

— Rey –

Fenrir não conseguiu completar sua frase. A garota tomou impulso com o braço e, reunindo toda a força que lhe restara, desferiu um soco no lado esquerdo do rosto simétrico dele. O cavaleiro caiu de costas no chão, gemendo de dor, segurando o local machucado com a mão. Ela segurou seu colarinho e o ergueu no ar, usando inconscientemente seus dotes da Força para ameaça-lo.

— O que está fazendo aqui?! Perdeu o juízo?!

— Rey, não! Por favor, me escuta!

— O que deu nas pessoas para simplesmente acharem que eu vou ouvir o que elas tem pra dizer?! – ela o esmagou contra a parede, fazendo-o ofegar por um instante quando o ar lhe saiu dos pulmões com o impacto. — Você é um verme e não merece nem estar vivo, seu –

— Tem uma coisa que você precisa ver! A Resistência depende disso!

Silêncio. Ela balançou a cabeça, incrédula, e fez uma careta de desgosto.

— O que é isso, uma piada? Querem ferrar ainda mais com minha cabeça?

— Não, Rey, você tem que parar de se descontrolar e ouvir. Estou do seu lado, apesar de não parecer. Me preocupo com você. Tenho algo que preciso lhe mostrar, mas não posso dizer em voz alta aqui, você tem que me acompanhar.

Ela hesitou por longos segundos e então o largou. Fenrir cambaleou um instante e conseguiu se firmar depois, o lado esquerdo do rosto já começando a inchar. Rey parecia perdida e desolada.

— Fenrir, sai daqui agora...

— Não. Você acha que eu viria aqui só porque gosto de apanhar? Não sou masoquista. O que estou tentando te dizer é que tenho a chave para você conseguir aquilo que precisa. – olhou para os lados com urgência, certificando-se de que ninguém os ouvia. – Eu não tenho motivos para te enganar.

Aquilo não fazia sentido nenhum e, mesmo assim, Fenrir a mirava com expectativa, parecendo certo do que dizia.

— Eu não confio em você.

— Sei que não. Mas vai precisar. Eu estou te pedindo por favor.

Ele estendeu a mão a ela. Rey o fitou com incredulidade.

— Você me dedurou para Snoke. Esteve me espionando esse tempo todo, não esteve? Pra saber do sabre e do... do... – engasgou e não conseguiu dizer o nome dele. – Por que deveria te dar ouvidos?!

— Por que eu sou o único que sobrou nesse lugar que se importa de verdade com você. Rey, eu fiz o que tive que fazer. Entre na minha mente, se precisar. Estou sendo sincero.

Ela analisou um instante, negou, deu um passo para trás, depois soluçou. Estava com medo, com raiva, com exaustão física e psicológica. Por fim, vendo que ele não desistiria fácil, decidiu fazer o que lhe foi sugerido. Não foi nada gentil quando ergueu a mão e entrou na mente de Fenrir. Ele gemeu de dor, cambaleando para trás como se acometido por uma súbita enxaqueca, suas barreiras mentais ultrapassadas com violência até alcançar a memória da qual ele vinha falando. Seus sentimentos pareciam verdadeiros e a coisa que ele queria que ela visse flutuou sobre seus olhos como o fantasma de uma imagem.

Estava difícil enxergar, mas no fim se tornou nítido e inconfundível. Seu coração disparou no peito. Ela voltou do tour em sua cabeça com as pernas bambas e o rosto pálido. Estava respirando ofegante, completamente confusa.

— O que... Isso é verdade....? Mas como....?

— Eu não tenho a Força. Não sei manipular memórias como vocês fazem. Estou falando a verdade. Venha comigo.

Ele estendeu a mão novamente. Rey aceitou, hesitante. Tinha de conferir isso pessoalmente, por mais despedaçada que estivesse naquele momento.

Notas finais
Até mais, pessoal ♥