Equilibrium
10 O Outro Lado da Moeda
Notas iniciais
Rey saiu afoita do ginásio. Estava completamente cega de raiva. Caminhou á esmo pelas ruas espaçosas, sem realmente ver para onde ia. Não se preocupou com a paz interior – deveria ceder aos sentimentos agora que estava ali, afinal de contas. Que a raiva a consumisse, então.
As cenas do treinamento voltaram á mente para assombrá-la. Kylo, grande e forte, a pressionando contra a parede. Os lábios cheios tão próximos, olhos em chamas a consumindo por inteiro, o calor instigante de sua pele...
Que absurdo!
Não podia acreditar. Não queria acreditar. Ela o odiava com todas as forças. Ren matou a única figura paterna presente em sua vida, e quase fez o mesmo com seu melhor amigo. Por que, então, ficou tão vulnerável com a proximidade do cavaleiro? Por que sua Força a instigava sempre em direção a ele, como um ímã?
Sentiu-se confusa, absorta em pensamentos enquanto avançava pela calçada. Dobrou esquinas e atravessou cruzamentos repletos de speeders. Quando deu por si, já se encontrava muito afastada do ginásio. Parou de repente e olhou ao redor.
Ótimo. Estava perdida.
Viu-se em meio á uma zona mais simples da metrópole, e não encontrou nenhum ponto de referência que indicasse o caminho de volta. Os poucos transeuntes pareciam mal encarados e a fitavam de soslaio. Suspirou, analisando os arredores. Do outro lado da rua, avistou um estabelecimento com uma placa de metal na soleira da porta: “Angu’s Bar.” O único empreendimento aberto nas proximidades. Talvez encontrasse alguém ali disposto a lhe dar informações.
Cruzou a rua e, assim que passou pela porta estreita, desceu alguns degraus de pedra para o interior do pub. O ar carregado de fumaça e cheiro de álcool a fez lacrimejar, impregnando suas roupas. Levou algum tempo para seus olhos se habituarem á meia luz do local, revelando um bar pequeno e barulhento. Os clientes nem sequer perceberam sua aparição, distraídos em suas conversas e jogos de cartas. A decoração remetia á algo rústico, repleto de mesas de madeira e troncos de árvores saindo do piso. Um Jukebox tocava músicas aleatórias num dos cantos, mesclando-se ao som de risadas altas. Rey respirou fundo, um tanto temerosa, se dirigiu até o balcão.
— Com licença... – chamou pelo atendente, que estava de costas secando as louças. Ele não se virou, e ela repetiu mais alto. – Por favor, senhor... Pode me ajudar?
O Rodiano continuou suas tarefas sem lhe dar atenção. Era impossível não ter escutado: estava fazendo de propósito. Antes da terceira tentativa, uma voz arrastada soou ao seu lado.
— É melhor desistir. Ele vai continuar te ignorando.
Rey olhou para o lado, confusa. O homem louro sentado á beira do balcão girava o copo vagarosamente em círculos, observando os cubos de gelo flutuar na bebida.
— Perdão...?
— Ronan não gosta de atender humanos. Especialmente mulheres. É um rodiano bem infeliz, na verdade. — Ele bebericou um pouco e lambeu os lábios antes de continuar. — Deve ser falta de uma grande p- Bom, deixa pra lá.
— Mas parece ter atendido você.
— Ele tem um débito antigo comigo. Além do mais, Ronan sabe que se não me atender direito, vai levar bifa. – O desconhecido finalmente a fitou, abrindo um sorriso galante, bem contrário ás palavras escrachas que saíam de sua boca. A barba rala e bem feita emoldurava o rosto atraente, e o par de olhos azuis a analisavam com afinco. – Mas terei o maior prazer em lhe pagar uma bebida, se quiser.
— Ahn... Não, obrigada. Eu só preciso de uma informação.
— Talvez eu tenha essa informação que procura. – deu mais um gole, estalando a língua com o líquido queimando a garganta. Estreitou os olhos para Rey, apoiando o cotovelo no balcão. Seu olhar era zombeteiro e atento. — É nova na cidade, pelo visto.
— Não... Quer dizer, sim. Cheguei á poucos dias.
— E está gostando? — ele insistiu, desta vez parecendo realmente interessado. Rey não teve coragem de cortar o rapaz, já que ele poderia lhe ser útil. Por isso ofereceu um sorriso educado.
— Ah, sim. Ela é bem... Diferente. Olha só, eu preciso encontrar a casa de uma amiga minha. Pode me ajudar?
— Claro! Eu conheço a cidade como a palma da minha mão. Se me acompanhar em um drink, posso te levar aonde você quiser.
Rey arqueou uma sobrancelha, irritada com a entonação carregada de segundas intenções. Sentiu vontade de arrancar as respostas á força do desconhecido, mas temeu que pudesse levantar suspeitas ali dentro. O aspecto dos outros frequentadores daquele pub parecia muito pior – aquela era sua melhor chance. Por fim, suspirou desistente e se sentou na banqueta ao lado.
— Está bem.
— Relaxa. Eu não mordo. – ele alargou o sorriso, dando uma piscadela. Fez um sinal para o atendente, que veio se arrastando até os dois. – Ranon! Pare de reclamar da vida e venha servir um drink á essa moça.
— Sem álcool, por favor! – ela acrescentou rápido, recebendo resmungos ininteligíveis como resposta.
— A proposito, meu nome é Fenrir. – ele estendeu a mão. A garota hesitou um pouco antes de apertá-la, procurando por um nome falso para despistá-lo.
— Kyra.
— É um prazer te conhecer.
Surpreendeu-se assim que o homem lhe beijou os nós dos dedos, a barba fazendo cócegas em sua pele. O sorriso travesso de Fenrir se ampliou ao constatar as bochechas vermelhas de Rey, que pigarreou para disfarçar seu desconforto. Soltou-a gentilmente, bem humorado, e voltou a falar:
— Bem, Kyra, a cidade tem seus encantos. Mas pode parecer um tanto limitada para quem gosta de total liberdade, como eu. Sabe... Regime militar. Toque de recolher, essas coisas. É um saco.
— E por que continua aqui, então?
— Trabalho. – deu de ombros, acariciando o copo com o polegar. – Gosto do que faço. E segurança, é claro. Saber que estamos protegidos sob a asa da Primeira Ordem tem suas vantagens.
O rodiano reapareceu com uma taça cheia de um líquido escuro, estendendo-o á Rey. O cheiro forte da bebida a fez hesitar por alguns instantes. Assim que experimentou, no entanto, surpreendeu-se com o sabor adocicado e suave lhe agraciando o paladar, diferente do amargo que esperou descer pela garganta. Passou a língua nos lábios e continuou a conversa.
— Vocês tem uma defesa invejável mesmo. Eu já vi uma parcela dos caças TIE nas docas.
— Não poderia ser menos que isso, já que somos alvos constantes dos Rebeldes.
Um frio percorreu sua espinha. Ela o sondou, fingindo indiferença.
— Os Rebeldes já conseguiram penetrar a cidade?
— Já. Faz algum tempo, na verdade. A Nova República ainda estava de pé. Foi uma guerra bem feia... Milhares de feridos, centenas de mortos, incluindo mulheres e crianças. Eles não pensam duas vezes antes de jogar uma bomba no meio da cidade.
— Eu não sabia dessa história... Tem certeza que não foi uma facção diferente, sob outra liderança mais radical...?
— Não. Eu me lembro bem do símbolo nos capacetes dos pilotos. Eles massacravam quem estivesse no caminho, sem piedade. Escória rebelde... – ele comentou mais para si mesmo que para Rey, terminando sua dose em uma careta desgostosa.
Rey bebericou mais um pouco da taça, pensativa. Aquilo lhe trouxe grande mal estar. Os rebeldes realmente teriam feito aquilo? Sabia das consequências catastróficas de uma guerra, mas nunca imaginou que fossem capazes daquilo. Afinal de contas, os civis não tinham culpa de nada.
— Ah, mas que papinho caído, não é? – ele voltou ao tom descontraído, abrindo o sorriso charmoso. – Ei, vamos mudar de assunto. Me diz, Kyra: o que atraiu uma moça tão bonita á Hanoon, afinal?
(...)
Kylo Ren retornou ao Castelo-Forte após algumas horas, mas não sentiu a presença de Rey. Não se importou – ela não tentaria fugir, de qualquer forma. Passou por alguns serviçais em silêncio, ansioso para chegar á suíte máster da mansão.
Subiu os degraus para a torre leste, trancando-se em seu quarto. Arrancou as roupas de qualquer jeito e se enfiou no chuveiro, permitindo que a ducha gelada apaziguasse suas emoções. As lembranças do treino daquela tarde permaneciam vívidas, atormentando-o durante o banho: as formas esguias da Jedi contra seu corpo, os olhos cor de avelã hipnotizados, a respiração descompassada próximas ao rosto... Sentiu uma pontada involuntária no baixo ventre. O desejo de Rey estava explícito, deixando-a suscetível ao lado sombrio da Força. Em algum momento, ela teria de aceitar seu destino.
Saiu do banheiro com a toalha enrolada na cintura. Os músculos estavam relaxados, mas sua mente permanecia conturbada. Precisava desabafar suas angústias antes que entrasse em colapso, e já sabia o que fazer. Vestiu seu costumeiro uniforme negro e alcançou uma pequena estátua atrás de alguns livros na estante. Ouviu-se um “click” assim que ele afundou os dedos nos olhos do mármore branco, fazendo com que uma parede inteira se deslocasse. A brisa gélida soprou do túnel que se revelou perante seus olhos, dando acesso á uma câmara escondida.
O cavaleiro desceu alguns degraus de pedra, onde o cheiro de mofo prevalecia. Chegou então á uma sala circular simples, iluminada artificialmente por uma lâmpada no teto. Alguns artefatos antigos repousavam nas prateleiras das paredes, junto á livros ocultos por uma camada de pó. No centro, um pedestal com um capacete negro retorcido, semelhante á um crânio agourento.
Kylo sentou-se em um banco simples na frente da máscara que outrora pertencera á Darth Vader. Apoiou os cotovelos nas pernas e se inclinou para frente, alguns fios escuros caindo em sua face.
“Ela está aqui. A Jedi de quem eu falei. Eu a capturei no ataque á Resistência.” Sua voz grave soou como um sussurro através da câmara, como uma prece. “Creio que conseguiremos resgatar os outros artefatos com ela ao nosso lado. Rey é poderosa, mas ainda não sabe da profecia, nem do seu passado. Ela ainda acredita muito em Luke e nos ensinamos Jedi, e por isso tem seus poderes limitados. Mas em breve eu mostrarei á verdade. Já estou a treinando.” Kylo suspirou, fitando os buracos dos olhos na máscara por alguns instantes. Nunca recebia uma resposta, mas de alguma forma, conversar com seu falecido avô o fazia pensar melhor. “Ás vezes, me pego ponderando se estou no caminho certo. Esperei ficar mais forte com a morte de Han Solo, mas de alguma forma, me sinto mais fraco. Talvez eu não seja tão forte quanto o senhor. Talvez nunca seja...”
Os olhos se encheram de lágrimas. Ele não as derramou, entretanto. Engoliu em seco e continuou:
“Rey continua me achando um monstro. Mas ela não sabe... Não faz ideia de quem eu realmente sou. Nem do que está em jogo aqui. O senhor bem sabe como certos sacrifícios são necessários para se atingir um bem maior. Fui forte o suficiente para chegar até aqui, mas meu futuro é incerto. Temo que em algum momento, a Jedi fique mais forte e acabe se tornando a nova favorita de Snoke, me descartando antes da hora. Meu treinamento com Rey é crucial para que ela não permita ser totalmente influenciada pelo lado obscuro. Preciso me concentrar mais do que nunca, avô. Preciso de forças.”
Kylo embrenhou os dedos pelos cabelos escuros, fechando os olhos marejados. Suspirou, voltando a se apoiar nos joelhos.
“Sinto falta dela. Leia.” A confissão soou hesitante, como se falar aquilo em voz alta fosse uma tortura embaraçosa. “Talvez eu entenda agora por que não teve coragem de tirar a vida do seu filho. Ela é minha fraqueza, também... Eu não pretendo mata-la. Meu estado emocional entraria em colapso se o fizesse. Talvez até minha sanidade. Não... Eu vou continuar por esse caminho, e espero poder convencer Rey á segui-lo, também. Isso tem que dar certo.”
O cavaleiro se levantou, lançando um último olhar para o capacete deformado. Se Vader estaria escutando ou não, pouco importava. Verbalizar as angústias em voz alta parecia retirar um peso de seus ombros e clarear seu caminho. Sentiu-se renovado ao retornar pela escadaria escura, fechando a passagem secreta atrás de si. Agora seria uma boa hora para estudar o mapa do planeta que pretendia invadir na manhã seguinte, até que Rey retornasse.
(...)
Os minutos de conversa se estenderam por quase uma hora, e Rey não percebeu o tempo passar. Para sua surpresa, a companhia de Fenrir se mostrou bastante agradável. Seu jeito zombeteiro e galante se assemelhava muito á personalidade de Poe, o que lhe trouxe certa comodidade. A Jedi só se deu conta de retornar assim que ouviu uma sirene soar do lado de fora.
— O que é isso?
— Um anúncio. Pelo visto capturaram mais um rebelde.
— E o que farão com ele?
— Os guardas o levam até a praça do monumento para uma breve exibição publica, e então o prendem nas masmorras. Depois, o julgamento acontece em um salão especial. O Supremo Líder decide o que fazer, mas normalmente acaba do mesmo jeito: execução.
Uma sensação ruim afundou o seu estômago. A Jedi trincou o maxilar, aflita, mas fingiu casualidade.
— Eu gostaria de ir até lá. Pode me levar?
— Não é uma coisa muito bonita de se ver, Kyra... – O rapaz a alertou, arqueando as sobrancelhas. Não que ele se abalasse com isso; mas não queria que ela se sentisse mal.
— Tudo bem. Eu estou só curiosa. Por favor...
Fenrir cedeu ao pedido, levantando-se da banqueta após deixar algumas moedas no balcão como pagamento. Rey o seguiu até seu speeder estacionado á beira da calçada, parecido com o que havia sido escoltada até o Castelo-Forte. Quando o homem deu a partida, seguiu pela avenida até a praça, trocando poucas palavras com a garota. Ele podia perceber sua mudança de humor, mas não falou nada a respeito.
Assim que chegaram, ele parou o veículo a alguns metros, permitindo uma boa visão do cenário. A Jedi notou a grande movimentação de pessoas em torno da praça, e uma estátua do que deveria ser o Supremo Líder Snoke se erguendo imponente em mármore branco. Lá no centro, entretanto, seus olhos captaram o que tanto temia: uma garota da sua idade, acorrentada e escoltada por stormtroopers sem qualquer cuidado. Não havia brilho nos olhos castanhos, e o sangue jazia seco na pele clara, marcado por outros ferimentos mais profundos. Ela cambaleava sem forças em uma espécie de palco, sendo vaiada e ofendida pela população. Um dos soldados a empurrou, fazendo-a cair de joelho em um gemido sôfrego. Ele começou a decretar seus crimes, mas Rey não prestou atenção. Tudo que via era uma mulher humilhada por tentar lutar por paz e liberdade.
— Está tudo bem? – Fenrir a questionou, preocupado.
— Sim. Está. Importa-se em me levar para casa agora?
— Tudo bem...
Se alguém pudesse lhe dar as respostas por aqueles atos cruéis, com certeza era Kylo Ren. E ela o faria falar.
(...)
Rey o orientou a leva-la até uma casa próxima ao Castelo-Forte. Não queria revelar que estava alojada na mansão, isto levantaria suspeitas. Fenrir lhe entregou um papel com seu endereço e partiu de volta á cidade. Rey guardou-o de qualquer jeito no bolso da calça, se esquecendo rapidamente dos breves momentos agradáveis. Sentia-se traída e raivosa, com o sangue zunindo nos ouvidos, e tudo que desejava era exigir respostas. Entrou como um furacão pelos jardins, seu coração martelando contra caixa torácica. Abriu as portas duplas e sentiu imediatamente o pulsar obscuro do cavaleiro – ele estava ali. Queria chorar, mas não poderia se mostrar fraca. Guiando-se pela Força, ela atravessou o saguão e subiu as escadas para a torre leste, ignorando os pedidos dos serviçais para não interromper os estudos de seu “mestre”. Não tinha medo dele.
Avançou por um longo corredor á passos firmes, sabendo estar cada vez mais próxima de Kylo. Quando pensou que as ondas carregadas dele pudessem sufoca-la, soube estar no lugar certo: uma grande porta adornada em madeira antiga ocultava seu inimigo. Ali era seu maldito quarto. Bateu com os nós dos dedos em uma força desnecessária.
— Eu sei que está aí! Abra! Quero falar com você!
Sua voz tremia. Ela toda tremia. Não houve resposta, então continuou batendo. E batendo. Recebeu o silêncio como resposta, deixando-a ainda mais instável. Quando pensou em usar a Força para derrubar a porta, ela se abriu de repente, revelando um Kylo com o olhar de poucos amigos.
— Você é um monstro cruel, vil, e traiçoeiro... – não pensou antes de soltar as ofensas, os olhos embaçados por lágrimas contidas. – Como pode dormir a noite?!
— Do que está falando agora? – o cavaleiro chiou entredentes, segurando a si próprio para não fazer nada impensado.
— Vocês não precisam mais capturar rebeldes. E mesmo assim continuam fazendo. E o pior: os tratam como animais, julgando em praça publica como se estivéssemos na era medieval. Qual o sentido disso?! Como acha que vai conseguir me convencer se continua se provando um perfeito ditador sem coração?!
— Não sou eu quem toma as decisões por aqui. É a Primeira Ordem. É Snoke. Eu sou apenas um peão que obedece ordens. – respondeu lentamente, ácido e irritado. – Não posso interferir nisso.
— Mas você está com eles! Decidiu se aliar á essas pessoas! Por quê?! Por que traiu sua família?! Você não merece ser filho de Leia!
— Já chega! – a voz gutural ecoou pela mansão, estremecendo os cantos do corredor. Ele bateu a porta atrás de si, avançando contra Rey de maneira feroz. Ela recuou, parando ao sentir a parede contra ás costas.
Kylo subitamente estancou á um palmo de distância, contendo á si mesmo ao perceber que ela não tentou revidar – o que não era do feitio da Jedi. Rey odiava se sentir vulnerável, mas os últimos acontecimentos lhe pesaram nos ombros de uma vez, deixando-a abalada. As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto, incontroláveis. Ela soluçou alto, sentindo-se irada; confusa; sozinha. Partida em mil pedaços. O cavaleiro conhecia muito bem esse sentimento.
De repente, as feições dele se suavizaram. Não podia agir com impetuosidade, pois sabia exatamente o que se passava em seu coração. Não poderia afasta-la com seu temperamento explosivo – não agora que tinha a oportunidade de convencê-la á segui-lo. Além do mais, seria hipocrisia condena-la por estar furiosa.
— Rey... – o cavaleiro atenuou sua voz, tornando-se quase um sussurro. – Por favor, me escute.
— Me deixe em paz.
— Quero te mostrar uma coisa... – ele ameaçou tocá-la, mas Rey se esquivou, chiando em seguida.
— Se tentar entrar na minha cabeça, será a última coisa que vai fazer na vida.
— Por tudo que é mais sagrado, me escute! Não vou entrar em sua mente! – retrucou sem paciência. — Quero que você entre na minha!
Ela voltou a encara-lo, desta vez atônita. Os olhos profundos de Kylo penetravam sua alma com um brilho diferente, quase humilde. Ele parecia dizer a verdade, apesar das feições indecifráveis. A proximidade também não a ajudava á raciocinar de forma coesa.
Rey levantou a mão trêmula, hesitante, e encostou as pontas dos dedos na têmpora do rosto anguloso. A costumeira energia poderosa percorreu suas veias mais uma vez, graças ao contato direto com sua pele, e o cavaleiro percebeu a mesma corrente de eletricidade. A Força os envolveu em sua teia complexa, conectando-se entre si como duas partes de um todo. A garota engoliu em seco e se concentrou, mergulhando na psique complexa do cavaleiro. Ele piscou algumas vezes, aceitando sua luz e guiando-a pela própria mente por caminhos pré-determinados. Ocultou boa parte de seus mais profundos segredos, é claro, e permitiu acesso apenas ao necessário.
A Jedi sentiu a costumeira raiva, o temor a e Força obscura de Kylo. Não se abalou, já havia presenciado isto da última vez. Avançou um pouco mais, e então encontrou algo inusitado:
Amor.
Forte e incondicional; totalmente dirigido á mãe, Leia Organa. Havia também algo amargo com relação á Han Solo, uma decepção antiga aliada á recente frustração por ter percebido que não havia ficado mais forte por retirar sua vida.
E por fim, visualizou a si mesma sendo carregada por seus braços. O calor acalentador de seu corpo atingindo-o em uma sensação surpreendentemente agradável. A empatia que sentia pela mesma solidão e insegurança de ambos. Viu claramente a compaixão do cavaleiro, o impelindo a poupar sua vida por todas às vezes que se enfrentaram.
Basicamente, ele lhe mostrou o resquício da pouca Luz que residia dentro de si.
Rey rompeu o contato em um susto, como se tivesse levado um choque. Ela o encarou numa mescla de confusão e surpresa, sem conseguir expressar verbalmente o que se passava em seu âmago. O cavaleiro tomou a fala, sua voz grave vibrando em um tom profundo.
— Não me julgue tão superficialmente, Rey. Entenda que tenho meus motivos para fazer o que faço.
— Então me mostre. Eu realmente quero entender. – respondeu em um tom suplicante, devolvendo o olhar intenso ao cavaleiro.
— Em breve. Agora quero discutir outro termo com você.
Ele voltou a erguer sua barreira emocional, e o brilho de seus olhos se extinguiu. O habitual Kylo Ren, envolto por escuridão, voltou a falar.
— Escute com atenção: Amanhã partiremos em uma missão. Preciso de você do nosso lado e completamente focada. Se formos bem sucedidos, algumas respostas as suas perguntas poderão ser respondidas. Posso contar com você?
Ela concordou com a cabeça depois de alguns segundos, hesitante. Ficou subitamente envergonhada por ter desabado em frente á Kylo, enxugando o rosto molhado.
— Está bem. A que horas?
— Esteja no ginásio assim que o sol nascer.
Ele lançou um último olhar carregado de muitos significados e lhe deu as costas, adentrando seu quarto. Rey suspirou profundamente, pensativa, e retornou aos seus aposentos de forma automática. Parecia flutuar pelos corredores da mansão. Tinha muito que processar depois disso.
Não pôde ver o sorriso dissimulado de Ren por trás das paredes, satisfeito consigo mesmo. Mesmo que não gostasse de se expor dessa maneira, os frutos daquela conversa seriam colhidos em breve. Havia acabado de baixar uma das muitas barreiras da Jedi, e isso era um progresso.
— Prometo que não vai se arrepender, Rey...
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