Equilibrium

18 Metade de um Todo


Notas iniciais
DEmorei mas cheguei ♥ Espero que gostem ♥

O silêncio os esmagou como uma compressa fria de gelo. Rey pulava seus olhos arregalados de Kylo para Ahsoka, os lábios entreabertos em surpresa, as palavras presas na garganta. Estavam todos em uma área afastada da cabine, bem no fundo da nave, longe dos ouvidos curiosos dos cavaleiros. Ele estava com os dois sabres de luz da prisioneira nas mãos e agora a fitava com uma expressão vaga no rosto, uma que o deixava ainda mais imprevisível. O ar se tornou carregado entre os três, quase tóxico.

Ren lutava contra seus próprios pensamentos. Como ela poderia saber seu verdadeiro nome? Sobre sua família? Um segredo guardado meticulosamente por tantos anos, o motivo de usar uma máscara sobre o rosto, o passado complicado no qual fora forçado enterrar? Como ela ousava mencionar seu avô num contexto absurdo desses?

Era rídiculo. Uma piada de mal gosto.

Mas ainda assim...

Ainda assim, ele precisava averiguar. Era possível contar nos dedos as pessoas que sabiam do seu passado, do seu verdadeiro nome. Alguma coisa ali estava erradada, e sua paciência já estava esgotando. A raiva manchava seu coração de preto como tinta escura. Se a Jedi não estivesse presente, ele certamente já teria feito a togruta falar a verdade á sua própria maneira. Rey tentaria intervir e mais uma vez eles teriam que recomeçar aquela frágil aliança do zero. Não; não poderia usar seus métodos convencionais...

Aflita pelo silêncio angustiante, Rey finalmente falou.

— Talvez devêssemos escutá-la. Ela parece disposta á colaborar...

— A colaborar com mentiras. – ele a cortou com frieza. — Você sabe, Rey. Sabe que isso é impossível.

— Até alguns meses atrás, eu achava que controlar a mente de uma pessoa era impossível. Pensava que fazer uma aliança com meu inimigo era a coisa mais absurda que alguém poderia insinuar. Mas aqui estamos nós, não é?

— Isso é diferente.

— Diferente como? — ela colocou as mãos na cintura. — Pode ser uma força maior que está tentando nos ajudar através dela. Não me olhe desse jeito, sabe que é possível. Apenas dê uma chance á ela. Por favor.

Ele suspirou. Passou os dedos pelos cabelos escuros, um cacoete que Rey já sabia o significado: ele fazia isso quando estava ansioso, ou frustrado, ou confuso... Ou tudo isso junto. Ahsoka apenas os observava em silêncio, atenta ao desenrolar da conversa, refletindo sobre o que mestre Yoda lhe falou.

Ele realmente escuta a Jedi.

— Certo. Me convença, Togruta. Você tem um minuto.

Mas Tano não teve a chance de falar. As extremidades do seu corpo formigaram, antecipando uma perturbação na Força, e ela olhou automaticamente em direção á cabine. A mesma energia inquieta percorreu Kylo e Rey, que se empertigaram de repente — algo estava prestes á acontecer. A voz ansiosa do piloto ecoou pela nave alguns segundos depois.

— Senhor! Temos um problema!

Kylo girou nos calcanhares com altivez. Rey deu uma olhada em Ahsoka para ter certeza de que estava bem, e seu meio sorriso encorajador bastou como resposta. Quando se aproximaram do painel, viram o radar piscando e apitando como um alarme. Pequenos pontos na tela se aproximavam em uma velocidade grande demais para não significar problemas.

— Quatro naves se aproximando. Tentei usar o salto no hiperespaço, mas a nave ainda não está cem por cento estabilizada.

— E por que não?! – o cavaleiro questionou, irritado.

— Por conta da queda, só consegui reparar danos superficiais, senhor...

A Jedi sentiu a garganta secar. Só podiam ser caças, pequenos e velozes daquele jeito, cercando-os como lobos famintos em busca de uma presa. A questão era: Seriam da Resistência? Mas como os haviam encontrado? Quem as estava pilotando? Sabiam que ela estava dentro daquela TIE Silencer, infiltrada?

— Saia.

A voz cortante de Ren dirigida ao piloto a despertou de seus devaneios ansiosos. O homem imediatamente obedeceu, dando espaço para que o cavaleiro assumisse o manche. Ele estava prestes á tomar o controle de co-piloto quando Rey também o impediu.

— Tudo bem, deixe comigo.

Ele hesitou por um momento, como se esperasse objeção de Kylo Ren. Como essa objeção não veio, o homem deu de ombros e afivelou o cinto em um banco de passageiro, deixando os dois no comando. Levou alguns segundos para se familiarizar com o painel á sua frente e, apesar de ser mais moderno, se assemelhava muito aos comandos da Milleniun Falcon.

— Qual a situação das turbinas? — Kylo perguntou.

— Estão um pouco avariados, mas ainda com 60% da capacidade. Vou acionar os escudos.

Rey começou a trabalhar com o painel, mas se encolheu um pouco quando ouviu o zunido característico das turbinas dos caças rasgando o céu logo acima de suas cabeças. Seu coração disparou dentro do peito no momento em que identificou o formato único das naves: X-Wings da Resistência. Dois estavam á frente, as outras se posicionaram atrás, preparando-se para uma tentativa de render a TIE. Ela piscou aturdida, imaginando se Poe estaria liderando essa pequena frota, imaginando se Luke os teria mandado para lá em seu resgate...

— Rey. — o chamado suave de Ren a fez virar bruscamente a cabeça. Ele a fitava com uma atenção cuidadosa como um adulto faz quando uma criança está prestes a pedalar de bicicleta sem as rodas.

— Eu não os chamei...

— Sei disso. — os olhos castanhos denotavam compreender bem o dilema no qual ela se encontrava, mas também brilhavam em urgência. — O que preciso saber é se posso contar com você.

Os curtos três segundos de hesitação se esticaram em sua cabeça. A Jedi sabia exatamente o que acarretaria em concordar com aquela simples, porém significativa, pergunta. Ren precisava ter a certeza de que estavam do mesmo lado da batalha, mesmo que fosse preciso lutar contra seus amigos. Por mais que seu coração queimasse de culpa, Rey sabia que não podia mais voltar atrás. Não poderia abandonar o novo plano e voltar á Resistência, especialmente agora que sentia estar tão perto de descobrir como derrotar Snoke. As decisões tomadas a partir daquele ponto não se resumiam mais á certo e errado, e sim no que era necessário para ganhar a guerra. E o necessário, naquele momento, era controlar suas emoções e se livrar de algumas X-Wings. Era o que um Jedi fazia, não era? Livrar-se dos sentimentos e colocar a razão acima de tudo?

Assentiu por fim uma única vez, isolando suas dualidades em um canto obscuro da mente.

— Farei o que for preciso.

— Ótimo.

Kylo voltou sua concentração na pilotagem. A falta de atitude por parte dos caças significava apenas uma coisa: "estamos dando uma chance de rendição. Qualquer movimento suspeito e vamos atirar". Seu olhar ia do radar para a escuridão infinita do universo pontilhado de estrelas á frente, calculando suas chances em um semblante focado.

— É muito arriscado entrar em um combate direto agora. — ela disse depois de analisar alguns dados do painel. — Parte da turbina direita está detonada, e estamos tendo muita oscilação de força. Preciso de mais energia pra podermos saltar no hiperespaço.

— Use a reserva de energia dos escudos. — Rey o fitou como se ele estivesse louco, então ele reafirmou sua decisão com firmeza. — Desligue, Rey. Não vão nos atingir.

Ela mordeu os lábios, tensa com a ideia, mas fez o que ele pediu. A tripulação inteira mergulhou em um silêncio ansioso, apertando melhor seus cintos. Kylo puxou o manche para trás de repente, inclinando o bico da nave para cima, e a fez girar no lugar como uma ave de rapina. Eles ficaram de ponta-cabeça por um instante e então dispararam na direção contrária dos rebeldes, saindo do cerco. A vantagem durou pouco, no entanto, já que dois segundos depois eles viraram com seus canhões de laser para descarregar munição pesada contra os cavaleiros. Os tiros passavam raspando pelas asas pontudas do TIE, de todos os lados e ângulos, mas milagrosamente não os atingiam. Ficaram imunes pois de repente sacolejavam como se tivessem montado em um Bantha furioso — giravam em loops furiosos, mergulhavam em rasantes velozes e quando ela tinha a certeza de que haviam perdido o controle da Silencer, voltavam a estabilizar.

A Jedi segurou no próprio banco e se segurou para não vomitar. Era inacreditável saber quem era o autor daquelas manobras, mas não tanto quando Rey parava para pensar no assunto — é claro que ele seria bom. Excelente, para ser mais sincera. Parte disso poderia ser uso da Força, mas ela sabia que também se tratava de um dom. Algo nato e latente herdado no sangue Skywalker. Esse pensamento causou um arrepio em sua espinha, mas ela jamais admitiria em voz alta.

Uma das X-Wings, no entanto, parecia conseguir acompanhá-lo quase de igual para igual, como uma sombra. E a Jedi soube, em uma das muitas piruetas imitadas pelo caça, que o homem a pilotando só poderia ser Poe Dameron. Não era apenas uma intuição sem embasamento; dava para sentir isso. Sendo assim, eles jamais conseguiriam apenas despistá-los — Poe só desistiria se fosse avariado. A garota tratou de se inclinar mais uma vez sobre o painel e preparar as armas da Silencer.

"Vamos ver do que essa belezinha é capaz..."

— Canhões á laser prontos! — ela afirmou por fim com certa ferocidade. — Vou abrir fogo!

Não estavam com sua capacidade máxima, mas ela não pretendia explodir ninguém de qualquer forma; apenas causar danos. Seu estômago continuava embrulhado, mas ela conseguiu ignorar a sensação ruim. Travou a mira no alvo e mordeu os lábios. Apertou o botão com o polegar firme, disparando os raios parecidos com flechas luminosas no escuro. Alguns passaram de raspão, mas cinco tiros acertaram duas naves diferentes no primeiro bombardeio. "Meu Deus, essa coisa faz um belo estrago..."Elas começaram a expelir fumaça escura e sumiram de vista. Estavam com um oponente á menos, e então mais um foi abatido alguns minutos depois, e logo o número de caças se reduziu á dois. Kylo deu uma volta particularmente brusca quando se fez ouvir em meio ao caos de tiros e ruídos de turbinas.

— Como está a energia?!

— Estamos quase alcançando potência máxima. Mais dois minutos e...

Um tranco seco interrompeu sua frase. O barulho inconfundível de um tiro atingindo a parte de trás da TIE fez as luzes de dentro da cabine piscarem e então se apagarem. O alerta vermelho do painel indicava que precisavam pousar para reparar os danos ou logo a nave perderia força total. Quando ela o informou sobre isso, Kylo bufou irritado.

— Precisamos acabar logo com isso.

Agora o Silencer também fumegava e parecia mais lento. A lataria rangia um pouco. O cavaleiro tinha razão, não poderiam prolongar aquela luta. Uma ideia insana surgiu na mente de Rey no instante em que um dos caças esquivou magistralmente dos seus tiros. Ela não tinha certeza se conseguiria, mas precisava tentar.

— Vou abandonar o controle por um minuto.

Seu olhar caiu sobre a Jedi por um segundo e a compreensão tomou conta do seu rosto. Logo em seguida, pareceu tenso.

— Não acho uma boa ideia!

— Preciso tentar! Não temos muita escolha!

Ele assentiu relutante com a cabeça e jogou a nave para a esquerda, escapando por pouco de uma nova saraivada de tiros. Enquanto isso, Rey largou o controle se recostou no banco de olhos fechados. Respirou fundo uma, duas, três vezes. Empurrou os pensamentos para longe, clareando a mente em um esforço tremendo. Atentou-se ao ar passando pelo diafragma, ás batidas cada vez mais lentas do coração, ao sangue pulsando nos ouvidos. De repente não estava mais ciente do seu corpo — apenas sua psiqué elevando-se até o universo, ultrapassando a barreira de metal da nave e alcançando os pilotos das X-Wings. Os sentiu presentes, agitados, resolutos. O primeiro ela não conhecia; mas não havia dúvidas sobre o outro. Imaginou-se sussurrando ao pé do ouvido do amigo e falou sem mover os lábios. “Você precisa desistir da missão e voltar, Poe. Dê a ordem ao seu amigo e retornem á Resistência agora.” Ele pareceu ouvir sua voz de dentro da cabeça, como um zumbido incômodo de um inseto.

Houve alguns segundos sem reação. Dameron ficou confuso e lutou contra a súbita e inexplicável vontade de desistir da missão, mas nem mesmo alguém persistente como ele era capaz de resistir a uma ordem direta pelo uso da Força. E então, ela o ouviu falar pelo rádio com uma voz robótica e sem emoção.

— Abortar missão. Repito, abortar missão.

— O que?!

— Você entendeu bem. – A monotonia continuava presente.

— Mas senhor, a nave deles está avariada, nós podemos...

— Precisamos voltar á Resistência agora. Apenas obedeça.

Relutante, o segundo piloto aceitou a mudança brusca de planos e o seguiu para longe da TIE. Os imponentes caças foram diminuindo na escuridão até desaparecerem por completo na imensidão escura.

Rey soltou o ar preso na traqueia e desmanchou-se na cadeira. Pelos próximos minutos, permaneceu em um silêncio atônito, tentando assimilar o que havia acabado de acontecer. A nave, porém, fumegava mais do que nunca e havia um tremor estranho sob seus pés, vindo do motor principal. A voz abafada de Kylo a trouxe de volta ao presente junto ao ranger inconstante da TIE. Ela piscou devagar e se virou para ele, por fim.

— O que...?

— Eu disse que vamos ter que pousar. A nave precisa de reparos.

— Ah... Ok.

— Você está bem?

— Estou. — Pigarreou desconfortável. Aquilo era notoriamente uma mentira, mas ele não insistiu. A garota digitou um comando e coordenadas apareceram na tela, com o nome “Myrkr” surgindo no radar. Estavam com sorte. – O planeta mais próximo está a cinco quilômetros á oeste. Tem oxigênio, mas não sei de mais detalhes.

— Vai servir.

Ren virou o manche e seguiu devagar, tentando não forçar o motor avariado. Não demorou muito para que um planeta muito verde se destacasse no céu escuro da galáxia, parecendo jovialmente convidativo. Possuía duas luas e um sol em sua órbita, e mesmo daquela distância a garota sentiu vida pulular lá em baixo. Conforme desciam, a paisagem ia tomando forma e Rey se esqueceu um pouco da sensação ruim na boca do estômago: Parecia uma gigantesca floresta tropical coberta de árvores, montanhas que se erguiam por todos os lados e cachoeiras com quedas d’água. Algumas aves coloridas voaram em debandada quando Kylo passou perto das copas frondosas. Por mais que sua beleza fosse selvagem e intocada, era bem melhor lidar com animais do que com energia escura e templos Sith.

Avistaram por fim uma clareira rodeada por cipós, uns 300 metros a direita de um riacho que serpenteava entre rochas escuras. Era perfeito para reparar a TIE e aproveitar o suprimento natural da água também. A nave balançou um pouco e estremeceu quando tocou o chão, fazendo folhas e arbustos se curvarem com a força das turbinas. A tripulação desatrelou seus cintos de segurança assim que as portas se abriram e um ar quente e úmido penetrou a cabine, junto ao cheiro fresco de relva.

— Eu cuido de Ahsoka. – Rey se levantou antes que dar a chance de o cavaleiro falar alguma coisa. – Vou leva-la até o riacho comigo. Isso deve melhorar sua saúde.

— Vou junto.

— Nem pensar.

Ele lhe lançou um olhar perigoso, mas Rey não se abalou. Ao invés disso, piscou com inocência para o homem de pé a sua frente.

— E se quisermos tomar um banho? Vamos precisar de privacidade.

— Não vou deixar você sozinha com ela. – rebateu com impaciência, ignorando sua pergunta. – É arriscado demais.

— Primeiro: eu nunca precisei de ajuda para me proteger. Segundo, ela não vai tentar me machucar. Eu sinto isso.

— Sua teimosia está começando a me irritar. Eu -

— Com licença, posso me meter na briga de casal?

Os dois olharam para a origem da voz ao mesmo tempo, perplexos. Agora os três estavam parados na cabine, envoltos em uma aura esquisita e tensa. Como não houve resposta, a alienígena retomou a palavra.

— Posso ajudar a concertar a nave, mas concordo com a Jedi. Gostaria de um pouco de água fresca primeiro.

— Não somos um casal. – Rey finalmente conseguiu dizer, afetada.

— Estou desarmada. – ela ignorou o comentário e se dirigiu á Kylo com as mãos para cima, como se em rendição. – Você está com meus sabres de luz e eu não tenho motivo algum para lutar contra as pessoas que me salvaram. – ela fez um sinal de X no ombro — Dou minha palavra.

O cavaleiro ponderou um instante, trincando o maxilar. Sentia vontade de prendê-la em um banco e rasgar sua mente impiedosamente até arrancar toda a verdade crua, mas sabia que Rey faria de tudo para impedir – e ele não estava nem um pouco no clima de brigar com ela mais uma vez. Com seu atual mal humor, poderia fazer coisas que se arrependeria depois. Decidiu que, por hora, era melhor dar prioridade ao reparo da nave e acompanhar a prisioneira com cautela. Por fim, a respondeu em um tom frio e cortante.

— Se tentar me enganar, será a última coisa que fará na vida.

Ele deu ás costas as duas depois de lançar um último olhar de aviso á Ahsoka. Acompanhou o co-piloto até lá fora e começou a verificar sua TIE enquanto Rey indicava com a cabeça para que a acompanhasse.

— Vamos lá.

A pequena área circular estava tomada por cavaleiros que exploravam sem muito ânimo a flora do planeta. Havia uma brisa fresca que formava um coro suave de milhares de folhas dançando. Estavam rodeados por cipós e troncos grossos de árvores que Rey nunca tinha visto antes, além de insetos . O chão era de terra e limo e havia uma mistura de ruídos de pequenos animais vindo de todas as partes. As duas encontraram uma trilha entre arbustos espinhosos e seguiram em direção ao riacho.

— Obrigada mais uma vez.

Ahsoka se fez ouvir depois de alguns segundos. A Jedi olhou de esguelha para ela enquanto saltava uma por uma raíz contorcida no chão.

— Pelo o que?

— Por tudo. Por me salvar e confiar em mim.

— Ainda não confio em você. Sobrevivi por anos em um planeta inóspito, sozinha, porque estou sempre alerta. Mas ainda tenho esse impulso, algo mais forte do que eu...

— Impulso?

— Sim. De dar um voto de confiança nas pessoas, de ter fé no lado bom delas, mesmo que esse lado não exista. Não que seja o seu caso, é claro.

— Coisa de Jedi. – Ela comentou com um ar pensativo. Desceram um pequeno declive onde as árvores começaram a rarear e o som da água corrente se tornou mais forte. — Mas é o caso do Ben, imagino.

Rey olhou para ela com as sobrancelhas franzidas. Era estranho ouvir o nome verdadeiro dele, especialmente vindo de uma pessoa que ele acabou de conhecer, e mais estranho ainda estarem puxando assunto sobre Kylo Ren.

— Como assim?

— Você deu um voto de confiança em Ben, mesmo que ele não mereça.

— Não é bem isso. – ela encolheu os ombros. Afastou um galho retorcido e acabaram saindo nas margens do riacho, recebendo a luz direta do sol contra a pele de maneira agradável. Água transparente fluía por entre as pedras escorregadias, e sua boca pareceu mais seca do que nunca. Havia uma concentração maior de insetos zumbindo ali. – É... Complicado.

Elas se aproximaram e Ahsoka foi a primeira a se ajoelhar e apanhar água com as mãos em forma de concha, trazendo até os lábios. Rey repetiu o movimento em seguida, sentindo o líquido fresco descer pela garganta com fluidez e melhorar imensamente seu humor. Ela molhou o rosto e depois se sentou em uma pedra grande, olhando para o horizonte de onde a corrente descia. A nascente vinha de uma montanha alta á muitos quilômetros dali. Ela podia sentir os olhos de Ahsoka em sua nuca, mas por alguma razão, não se preocupou. Apesar do estado constante de alerta – algo adquirido naturalmente com seus anos sozinha em Jakku – uma sensação forte e primitiva brilhava em seu peito, indicando que ela era confiável.

— Você está infiltrada, eu suponho. – a Togruta perguntou depois de alguns instantes.

— Não sei se eu deveria ter essa conversa com você.

— Se eu te deixar entrar nas minhas lembranças, você ficaria mais confortável em conversar comigo? Podemos fazer isso, se quiser.

Rey se atentou a feição no rosto dela em busca de qualquer coisa suspeita, mas não pressentiu nada ruim. Ela parecia cansada, mas calma e firme em sua decisão. Havia um brilho diferente nos olhos azuis, algo que a fazia parecer muito mais velha do que aparentava.

— Ok.

Ela se sentou com pernas de índio em uma rocha de frente para a Jedi e fechou os olhos quando Rey ergueu a palma da mão direita em sua direção. Tano sentiu as portas de sua mente serem abertas uma a uma, sem objeção ou incômodo, e as partes mais importantes do que ela vivenciou passaram direto para a mente da garota como uma correnteza do oceano. Lentas no começo, ferozes e irrefreáveis depois.

A Jedi sentiu sua pulsação acelerar. Seus olhos remexiam-se sob as pálpebras de um lado para o outro freneticamente. As palmas das mãos suavam. Era difícil assimilar, mas sua mente tentava absorver com coesão cada detalhe relevante. Ahsoka estava falando a verdade... Ela viu sua relação achegada com Anakin, seu antigo mestre. Viu outro Jedi poderoso, Obi Wan Kenobi, e sentiu uma pulsação elétrica esquisita sob a pele nesse instante, mas então se foi. Viu de relance a jornada da Togruta, a acusação de um crime não cometido, a fuga dela do Conselho Jedi para se descobrir. Viu luz e escuridão dentro de si, em harmonia, e havia tantas vidas salvas em suas costas quanto sangue derramado...

Por fim, ouviu parte da conversa confusa com Yoda. O equilíbrio. Seu dever em ajudar duas pessoas que apareceriam em seu caminho... Dois opostos da moeda que juntos derrotariam o mal da galáxia...

Quando Rey tentou ver mais a fundo, no entanto, foi acometida por uma vertigem poderosa. Ela engasgou e puxou o ar de repente, abrindo os olhos e rompendo a conexão mental. Ahsoka estava igualmente ofegante e um pouco pálida.

— E-eu não... Isso é...

— São vocês dois, entende? – ela a cortou, desta vez com certa ansiedade na voz. — Eu estou viva porque preciso indicar o caminho para acabarem com o mal do universo. Luz e escuridão, juntos.

— Mas você tem os dois lados dentro de si! Você quem deveria ser mais forte...

— Há coisas mais poderosas do que saber balancear o poder da Força. O que está no sangue, por exemplo. Ben Solo é descendente da família mais poderosa do universo, e você... – ela hesitou um momento. Rey se levantou, agitada, e espalmou as mãos.

— Eu não sou ninguém.

— É mais do que você pensa.

— Todos vivem me dizendo isso, mas eu sinceramente não vejo como. – ela deu as costas e caminhou a passos firmes na direção oposta, chutando algumas pedras pela margem.

— Duas metades de um inteiro, Rey! – Ahsoka a acompanhou de perto, energizada. – Você sente uma ligação com ele, uma conexão forte que nenhum dos dois entende muito bem. É a vontade da Força que estejam juntos. – a garota continuou de cabeça baixa, em silêncio, movendo as pernas de forma automática. – Aonde está indo?

— Lugar nenhum. Só não consigo ficar parada.

— Ah, certo. Só não podemos nos afastar tanto...

— Então está dizendo que eu e o B... – parou de repente com a voz cética e se virou, quase colidindo com Ahsoka. — Eu e o Kylo, estamos destinados a salvar a galáxia...?

— Sim.

— Juntos?

— Isso.

— Metades de um inteiro, você disse?

— Aham.

Hesitou um segundo. Fez uma careta e voltou a andar, dessa vez mais rápido.

— Quanta bobagem.

— Não tem como você duvidar depois de ver tudo o que eu vi.

— Ah, tem sim. Kylo Ren não quer salvar a galáxia. Ele quer apenas tomar o lugar do Supremo Líder para governar o universo ele mesmo.

— Como pode ter tanta certeza disso?

Rey parou mais uma vez e Ahsoka já estava a ultrapassando quando percebeu a distância e deu meia volta. A Jedi a fitava como se fosse óbvio.

— Ele matou o próprio pai, Ahsoka. – sua voz tomou um tom sombrio. — Eu vi. No momento em que Han ofereceu ajuda ao filho, ele perfurou o estômago dele com o sabre de luz.

Ela não pareceu abalada.

— Anakin matou milhares de pessoas durante sua vida, incluindo crianças. Mesmo assim, ele se redimiu pelo filho.

— Você ouviu o que eu disse?

— Ouvi, mas é disso que o universo precisa! Ele é a escuridão. Foi atormentado por esse... Smoking aí...

— Snoke.

— É, Snoke. Ele tem influência de energia escura desde o ventre e isso o atormenta, o deixa em pedaços. Eu consigo sentir sua dualidade á quilômetros de distância. – ela gesticulava energicamente agora. — E você é pura luz, um poço de inocência no meio de trevas, a única que consegue ter influência sobre ele...

Rey soltou uma risada sem humor pelo nariz. Olhou para o horizonte, para onde o sol estava começando a se pôr e a manchar de laranja o céu azul.

— Não seja tão otimista. Ele ainda é a marionete do Supremo Líder.

— Não estou falando de obedecer a ordens. Estou falando disso. – Ahsoka apontou direto para seu coração. – Você consegue tocá-lo aí. Ele te ouve. É impossível que você não tenha notado como ele te trata diferente de qualquer outra pessoa.

É claro que Rey sabia, mas ela preferia não pensar no assunto. Pertencia a uma parte obscura de sua mente, um local onde ela preferia guardar a sete chaves e nunca abrir. Tinha medo de descobrir o que seu coração dizia a respeito disso, especialmente pelo sentimento de culpa e incoerência que aquilo ameaçava gerar. Mas estava ali, presente, pulsante, quase indomável. Pronto para explodir como uma caixa cheia de dinamites. Uma verdade nua e crua pela qual a Jedi não gostaria de encarar.

Tano permitiu que ela refletisse em paz por alguns minutos. Agora o céu estava pintado de púrpura com uma risca laranja atrás das montanhas. O som do riacho deslizando entre as pedras molhadas trazia certa tranquilidade ao local, mas agora o ruído dos animais também estava mais alto. Eram chiados baixos, cricrilar do que pareciam grilos e uivos esquisitos. Não seria seguro ficar ali ao anoitecer. A Togruta se perguntou como Ben havia permitido que elas ficassem tanto tempo afastadas...

Ele provavelmente sentia. Nessa conexão entre os dois, ele saberia se Rey estivesse em perigo ou planejando algo suspeito. Enquanto ela estivesse bem, não havia riscos.

— Digamos que isso esteja interpretado da maneira correta. – A Jedi falou com um suspiro, cruzando os braços a frente do peito. – Como derrotamos Snoke?

— O cristal Kyber negro. –A garota arregalou os olhos, surpresa com a resposta na ponta da língua. – Yoda me mostrou. Agora precisam forjar uma arma a partir dessa joia.

— E como fazemos isso?

— Não sei dos detalhes. – ela encolheu os ombros. – Mas sei que seu tempo está esgotando. Snoke pretende fazer algo ruim muito em breve, e talvez vocês não tenham outra chance.

— Ah. Esse tal Yoda está sendo muito útil mesmo. – soou mais irônica do que pretendia. Depois se arrependeu um pouco e acrescentou. – Pelo menos já sabemos o que usar.

Um ulular estranho ecoou próximo a margem. As duas olharam ao redor, dando-se conta do quão longe estavam da nave e percebendo que a escuridão da noite se aproximava. A Togruta foi a primeira a se mover.

— Bom, acho melhor voltarmos.

— Não podemos! – Ela segurou seu ombro, preocupada. — Temos que pensar em um jeito de você escapar.

— Ah, não. Não sou do tipo que foge. – Ahsoka deu um sorrisinho presunçoso.

— Mas Kylo vai te entregar para Snoke... Você vai acabar morrendo!

— Que assim seja, então. Meu dever eu já cumpri. Avisei sobre o que devem fazer. Agora é com vocês.

— Não vou permitir. – Rey bloqueou o caminho com firmeza. – Não precisa ser assim. Vamos bolar um plano aqui e agora.

— Céus, você é mesmo teimosa. – ela riu. Trocou o peso do corpo para outra perna e colocou as mãos na cintura. – Ok, certo. Preciso te contar uma coisa antes. Aquelas naves que nos atacaram antes.... Eu as chamei.

— Como...?

— Com isso. – mostrou um pequeno aparelho metálico tirado do bolso. – Ficou guardado comigo durante todo esse tempo e, por algum milagre, ainda funciona. Envia sinais de longa distância para qualquer nave que não seja do modelo do Império. Ou, no caso agora, da Primeira Ordem. Foi um pouco de sorte eles nos terem encontrado, na verdade.

— Mas se você queria ser levada, porque os chamou?

— Eu queria ver se eram vocês as tais pessoas que Yoda me falou. Precisava vê-los trabalhando juntos.

— Ah....

Um leve rubor surgiu em suas maçãs do rosto, mas Ahsoka não notou.

— Enfim... São seus amigos, não são? Posso usar o mesmo aparelho para me encontrarem aqui.

— Ou eu posso dar um jeito de liberar uma escotilha da TIE. É mais arriscado, mas vai ser melhor.

Pela segunda vez naquele dia, Tano abriu a boca para responder e então tornou a fechá-la. Um arrepio esquisito percorreu sua espinha junto a uma sensação de perigo que eriçou sua pele. Um segundo depois, ouviram um uivo longo e horrível vindo de algum ponto da floresta.

— Temos que ir agora.

— Mas...

— Eu me escondo quando estivermos perto. Vamos!

Elas apressaram o passo em um trote rápido pela margem do riacho, entrando em estado de alerta. Atentaram-se ao som de qualquer ruído próximo, mas por enquanto ouviam apenas o cascalho sendo triturado por seus pés e a respiração acelerada. A sensação ruim cresceu em ambos os peitos num ritmo alarmante, como se alguém as estivesse observando. Agora estava se tornando difícil enxergar, pois os últimos raios de sol banharam as águas cristalinas á um minto atrás e então sumiram no horizonte. Não demorou muito e os uivos começaram a surgir por todos os lados, ecoando pela floresta, altos e agourentos. Estavam se comunicando. Estavam vindo para caçar.

As duas começaram a correr. Rey não sabia explicar o motivo, mas a pressão que afetava seu corpo inteiro era um alerta muito maior do que simples predadores. Era como se sentisse algo mais complexo e presente, quase racional.

— Está sentindo o mesmo que eu?! – A Jedi ofegou, amaldiçoando a si própria por ter se afastado tanto. Estava procurando com os olhos a raiz proeminente á beira do riacho pela qual passaram quando chegaram ali.

— Sim!

Ao mesmo tempo, a Jedi constatou mais uma presença, desta vez quente e bem familiar, no fundo da cabeça. Ela soube que Kylo pressentiu que ela estava com problemas. Rey quase conseguia escutar a voz em sua cabeça “Estou a caminho.”

Mas elas foram forçadas a parar. Tano escorregou um pouco sobre as pedras e quase caiu, mas logo ficou de pé mais uma vez para encarar o que havia acabado de saltar na frente delas: parecia um enorme cão com pelo menos cinco metros de altura, pelos marrons encardidos, focinho longo e garras afiadas nas patas. Havia sangue seco perto da bocarra. Os grandes olhos amarelos brilhavam famintos para as duas e ele rosnava com os dentes de navalha a mostra. Rey imediatamente puxou seu sabre bastão e o acionou, ficando em posição de ataque. Antes que pudesse se mover, no entanto, outro “lobo” surgiu por detrás, rodeando-as com ferocidade. Em seguida mais três surgiram da mata. Estavam cercadas.

— Não se preocupe comigo. Consigo me defender sem meus sabres. – Ahsoka sussurrou em tom urgente, de costas para a Jedi. Seu coração martelava contra as costelas. Rey suava frio, mas girava sua arma com confiança.

O primeiro animal arqueou as pernas e se preparou para saltar. Antes de erguer o sabre, Rey sentiu uma energia horrível e quase humana emanando das criaturas, e viu algo ainda pior em suas caras feias: era como se estivessem sorrindo para elas.

O sorriso da morte.