Equilibrium
21 Destino
Notas iniciais
A pequena fogueira crepitava alegre sob o manto infinito de estrelas. Suas fagulhas vermelhas dançavam para o alto e desapareciam na escuridão, como pequenos vagalumes partindo em zigue-zague. Os jovens ao seu redor conversavam e enchiam o ar de risadas, chamuscando xermaaucs espetados em galhos para deixá-los mais crocantes. Alguns falavam com sotaques carregados, o que era bem comum por ali: espécies de todo o universo procuravam pela academia de Luke Skywalker em busca de treinamento Jedi. Uma futura linhagem promissora para a galáxia.
Ou era o que se pensava antes do pior acontecer.
—... Saudades de casa? Nem pensar! – Um garoto Rakata de cabeça pontuda e olhos projetados espalmou as mãos quando lhe fizeram a pergunta. — Muito melhor bater em vocês com pedaços de pau do que ficar em casa, naquele fim de mundo, ajudando minha mãe a limpar o pó dos móveis.
— Concordo, Jorak. A essa hora eu estaria ouvindo minha avó roncando como um rastejador de areia. – A menina de pele verde e lekkus sobre os ombros o complementou enquanto enfiava um xermaauc na boca. Um rodiano que não deveria passar dos seus nove anos de idade comentou em seguida, com uma voz sonhadora.
— Eu sinto falta as vezes. Mas gosto muito do Mestre Luke e de treinar aqui.
Todos concordaram em uníssono. As antenas do jovem rodiano estremeceram de excitação quando se pronunciou.
— Não vejo a hora de ter meu próprio sabre de luz. Vou levar ele atrelado ao cinto pra todos os lugares que eu for, só para saberem que sou um jedi.
— Do jeito que você é ruim com os staffs, vai ter que usar uma armadura pra não decepar o próprio braço. – Jorak tirou sarro do rapaz, acompanhado pelas risadas dos colegas. O outro fechou a cara. – Deveria tomar umas aulinhas com a Lyra.
Lyra, que estava em silêncio observando o fogo transformar a lenha em cinzas, levantou os olhos azuis para o Rakata e os estreitou.
— Por que está dizendo isso?
— Porque você é uma das melhores.
— Sou a segunda melhor. – ela enfatizou, sorrindo prepotente. – Só o Ben ganha de mim, e eu tenho certeza que é porque ele é sensitivo a Força e eu não.
— Falando em Ben... – desta vez um humano de cabelos cor de palha interviu. Seu nome era Yarael Fisto, e sua língua era tão rápida quanto as pernas compridas. Deveria estar com seus treze anos de idade, assim como Lyra e a maioria dos alunos ali. — O que foi aquilo que aconteceu no treinamento hoje, hein? Parece que aquele garoto tá cada dia mais pirado.
Uma parte concordou, a outra permaneceu em um silêncio incômodo. O rapaz continuou.
— Ah, qual é! Vocês todos concordam comigo, mas tem medo de admitir só porque ele é sobrinho do Mestre Luke.
— E neto de Anakin Skywalker. – a loura o cortou, fuzilando-o com os olhos. – Você deveria ter mais respeito.
— Grande coisa. Ele mal consegue controlar o poder que tem, nosso Mestre o repreende a todo instante. E fazer aquelas colunas se partirem ao meio, só para se exibir, foi o cúmulo. Poderia ter matado a gente.
Os poucos que resistiam à tentação de concordar agora cediam e assentiam com suas cabeças. Lyra apertou as mãos em punhos.
— Ele não fez de propósito! Foi um acidente. É por isso que estamos aqui, para aprender...
— Por que está defendendo tanto ele? Está apaixonada pelo orelhas de abano? – o rosto da garota esquentou de repente. Pelo menos três pessoas sufocaram risadinhas. – Ele está sempre nos evitando, nunca participa de nada. Eu digo que ele se acha muito superi –
Mas ele não conseguiu terminar a frase. Lyra avançou sobre o garoto como um lince furioso e, antes que pudesse prever, foi atingido por um soco em cheio no meio do nariz. Yareal gemeu e caiu de costas do tronco de árvore em que estava sentado, apertando o rosto com sangue escorrendo entre os dedos. Ninguém pareceu se mexer no primeiro momento, mas logo se adiantaram para ver como ele estava.
— Imbecil.
Ela deu as costas para a turma e pisoteou a grama de volta ao alojamento da academia. Estava indignada. Como ele ousava dizer a ela o que sentia sobre Ben? E como poderia ofender alguém em cujas veias corria o sangue do próprio Darth Vader? Ela conhecia muito bem as histórias. Seus pais lhe contaram superficialmente quando era mais nova, mas ela aprendeu muito ouvindo de outras pessoas e lendo os registros históricos. Aquele era o descendente do último Sith, um dos homens mais poderosos que já existiu, o responsável por causar uma revolução na galáxia. E isso era incrível. Ben Solo poderia até ser um hutt asqueroso e cheio de banha – ela continuaria a admirá-lo e respeitá-lo da mesma forma.
Sem se dar conta para aonde ia, Lyra acabou alcançando a cabana de número 14. O quarto de Ben. Ele estaria lá, ela tinha certeza disso. Parou em frente a porta de madeira e, antes que pudesse bater nela, ouviu a voz do rapaz lá de dentro.
— Pode entrar.
Ela girou a maçaneta e passou para dentro, cautelosa.
— Como sabia que eu estava na porta?
— Eu senti.
Lyra se aproximou da escrivaninha onde ele estava inclinado. Havia uma pilha de livros ao seu lado, rolos de papeis e um tinteiro. O garoto parecia concentrado em transcrever runas com uma precisão meticulosa. Ela o observou por um tempo, perdida em pensamentos. Ela sabia tudo sobre a Força na teoria, mas jamais seria capaz de entender plenamente o que “senti-la” significava. Era espantoso, de certa forma, mas também a deixava com uma pontada de inveja. A garota sabia muito bem que jamais seria tão forte quanto um usuário pleno da Força. Jamais seria tão forte quanto Ben Solo.
— Pelo menos você reconhece seus limites. – ele cortou o silêncio, jocoso. Havia um sorriso soberbo no rosto.
— Pare de ler meus pensamentos. – rebateu incomodada, cruzando os braços. – Não é ético.
— Tanto faz. O que você quer?
— Nada demais. Só vim te ver. – deu de ombros, observando os dedos precisos dele deslizarem a ponta do pincel na folha. – O pessoal está fazendo uma espécie de “luau” perto do bosque.
— Se está aqui para me convencer a me juntar a eles, pode esquecer.
— Não vou fazer isso.
— Ótimo.
— Eu estava lá, sabe, mas começaram a falar bobagens e eu me irritei...Dei um soco na cara do Yarael pra ele aprender a lição.
— Hum. Ele merecia isso a um bom tempo.
Ben respondeu de maneira distante. Estava realmente concentrado nos estudos e desinteressado em toda aquela conversa. As vezes virava as folhas do livro, murmurava algo e então voltava a mergulhar o pincel no tinteiro. A garota rolou os olhos e decidiu ir direto ao ponto – quem sabe assim ele lhe desse a atenção que queria.
— Era sobre você.
— Sobre mim? – ele tentou permanecer desinteressado, mas Lyra notou que seus músculos se tencionaram sob a camisa do pijama.
— É. Sobre sua falta de controle.
Interrompeu por um segundo o glifo complicado que copiava. Logo em seguida, continuou seu trabalho. A voz vacilou um pouco quando voltou a falar, mas ela não sabia dizer se era raiva comprimida ou só as mudanças vocais que acometem os garotos na puberdade.
— Não dou a mínima para o que eles dizem. Se veio só me falar essa estupidez, então pode sair.
— Não! Não é isso. Eu não estou aqui para te provocar. – Lyra acrescentou rápido, curvando-se sobre a escrivaninha e apoiando os cotovelos nela, deixando seu rosto próximo ao de Ben. Seus cabelos ainda úmidos cheiravam a shampoo. – Vim aqui porque estou do seu lado. Gosto de você.
— Ah! Quanta gentileza a sua. – ele ironizou. – Só que eu não preciso de ninguém. Especialmente alguém com pena de mim.
— Não sinto pena! Eu te admiro muito, sempre admirei. Desde que cheguei aqui eu venho reparado no seu jeito, em como você consegue fazer coisas que os outros não conseguem....
— Claro.
— Pode ler minha mente se quiser.
Ele a analisou por um momento, desconfiado. Lyra projetava um sorriso que jurava ser amigável, mas para o garoto pareceu apenas dissimulado. Apesar das feições delicadas, algo em suas orbes azuis denunciava uma malícia não condizente com sua idade. Quando sondou seus pensamentos, não encontrou resistência. A aprendiz de Luke sentiu uma leve tensão nas laterais, como o início de uma dor de cabeça, mas não se importou – estava hipnotizada com a maneira como ele fixava seus olhos nos dela e usava seu truque. Ele balançou e largou o pincel de lado, anunciando sem emoção.
— É a minha linhagem que te fascina, só isso.
— E que diferença faz? O importante é que você é quem você é. Nada no mundo vai mudar seus ancestrais, sua história. E isso é fantástico. – ela voltou a se endireitar, colocando as mãos nos bolsos de trás da calça. — Eles implicam com você porque tem medo, Ben. Tem medo do poder que você tem, do que pode se tornar, e tem inveja disso.
Ben não respondeu. Estava ocupado refletindo em suas palavras. Não era a primeira vez que lhe diziam isso. Seu amigo oculto – a voz que o acompanhava desde criança – o lembrava deste fato o tempo todo. Talvez estivessem certos. Talvez devessem mesmo teme-lo, sentir inveja de seu poder. Isso não era ruim, certo? Lhe dava uma sensação boa de controle, de superioridade. Tamborilou os dedos na escrivaninha, guardando uma nota mental para refletir a respeito mais tarde, e rompeu o silêncio.
— Ainda não disse o que quer de mim.
— Quero ficar perto de pessoas importantes. Gente que acrescenta algo na minha vida, que me ajude a ser alguém. E quero sua amizade, também. Eu preciso dela, Ben.
Ele a mediu com os olhos, hesitante. Sua atitude era no mínimo duvidosa e provavelmente repleta de segundas intenções. Ben desconfiava de qualquer pessoa que tentasse se aproximar dele porque elas simplesmente o temiam – ou o achavam muito esquisito. Já havia se acostumado e não se importava mais. Por algum motivo, no entanto, ele sentiu que poderia confiar nela, apesar de suas ambições não serem tão honrosas. Posteriormente, essa parceria poderia vir a ser útil.
E como acerto definitivo, a voz sussurrou novamente em seus ouvidos. “Aceite”.
— Está bem. – Deu de ombros, voltando a se apoiar contra a mesa. – Puxe uma cadeira, então. Vamos discutir os termos dessa “parceria.”
XXX
Fenrir sentiu a garganta queimar depois de virar a oitava dose de whiskey com gelo. Ele estralou a língua e depositou o copo contra a bancada, enchendo-o novamente do líquido âmbar que o barman serviu. Sentia-se um pouco tonto e não pretendia sair daquele bar até ver objetos duplicados. O vazio em seu peito clamava por álcool. O estabelecimento estava barulhento e cheio como sempre, mas ele não reparou em ninguém. Nem mesmo em Lyra, que se sentou no banco ao lado o encarou com um sorriso presunçoso.
— É aqui que você vem afogar suas mágoas, então.
A fitou de soslaio sem muita emoção, depois tomou outro gole generoso.
— Eu não sabia que gostava desse tipo de ambiente.
— Não gosto. Mas não tenho muito o que fazer essa noite e preciso de um porre.
A moça fez um sinal para que o barman lhe servisse uma garrafa fumegante e de um verde néon esquisito e encheu um copo. Parecia saber exatamente do que se tratava, porque virou a bebida de uma vez só, fazendo uma careta esquisita depois. O cavaleiro abriu um sorriso zombeteiro.
— Caramba. Brigou com o namorado?
Ela o fuzilou com os olhos frios.
— Eu não tenho namorado.
— Desculpe, deixe-me reformular a frase. Brigou com a foda fixa?
Lyra agarrou o colarinho de Fenrir em um reflexo e fechou a mão direita, pronta para lhe desferir um golpe raivoso. Ele apenas ergueu as sobrancelhas, parecendo se divertir com a situação. Teve de se segurar no balcão para não cair do banco.
— Me dê um bom motivo pra não te arrebentar inteiro.
— Está nervosa porque é verdade. E eu não ‘to’ aqui pra te julgar. – lhe mostrou as palmas das mãos como forma de rendição. Suas palavras saíam meio amolecidas – Eu também estou tentando esquecer alguém. Podemos beber juntos e discutir nossa falta de sex appeal.
Lyra rolou os olhos e decidiu soltá-lo. Não adiantava discutir com um bêbado. Se apoiou no balcão e voltou a bebedeira. Fenrir arrumou a gola da camisa e virou o corpo na direção da garota. Sua voz saiu sussurrada.
— Não fique brava comigo, mas eu sei que você e o Kylo tem um lance. Na verdade, todo mundo sabe, mas ninguém comenta, é claro. – ela trincou o maxilar, irritada, fitando um ponto qualquer das prateleiras de bebidas do outro lado. O colega acrescentou rápido: — Só que o que eu quero dizer é: você não tá perdendo nada. Vai por mim.
— Você não faz ideia do que está falando.
— Talvez. Mas o que eu sei é que ele não vale seu sofrimento.
— Não estou sofrendo. Eu não dou a mínima se Kylo está comendo outra mulher. – sua voz falhou nesse ponto. Ela virou o rosto e encarou Fenrir como uma ave ferida que tenta parecer forte. – Nós nunca estabelecemos regras, nem fizemos promessas ou algo do tipo. Mas o que me machuca é o fato de ele fazer isso com aquela sucateira magrela.
— Rey?
— É. – ela torceu os lábios com asco. – Ela é uma Jedi. É como se ele traísse toda a ordem dos Cavaleiros de Ren, e não só a mim. E eu sinceramente não sei o que ele viu naquela menina.
— Como você pode ter tanta certeza disso?
— Qual é, Fenrir! É óbvio demais! Faz dias que ele não vem me ver. Os dois moram juntos, e a única luz que está acesa nesse exato momento é a do quarto dele. E a maneira como eles se olham... – ela apertou os dedos sobre o copo, ameaçando trinca-lo. — Os sinais estão todos aí, só não vê quem não quer.
O cavaleiro franziu as sobrancelhas. Ele não pôde evitar um gosto amargo na língua acompanhado por um sentimento ruim crescendo no peito. Não sabia dizer por que a confirmação de suas suspeitas o incomodaram tanto, e temia descobrir. O que lhe restou foi virar mais um copo e se distrair com o líquido entorpecente.
— Também não gosto disso. – finalmente disse. – Mas o Supremo Líder parece não se importar, então...
— Tenho medo das coisas que aquela garota pode enfiar na cabeça do Kylo. Você não faz ideia do poder que uma mulher tem de mudar um homem.
— Ah, eu faço. Pode acreditar. – ele arregalou os olhos como se lembrasse de algo traumatizante e depois voltou a se apoiar no balcão. – Mas eu não acho que ela possa convencê-lo a mudar de lado. Quero dizer, veja onde estamos... O que conquistamos... Seria burrice.
— Você não conhece ele tão bem quanto eu. Ele sempre teve dualidades, dúvidas. E nunca diz o que está realmente sentindo. Meu medo é que eles estejam tramando algo... Algo que afete o Supremo Líder e a todos nós, também.
Em um momento de lucidez, Fenrir largou o copo e se inclinou sobre Lyra, fitando-a em uma seriedade mordaz. Os dois abaixaram a voz para um sussurro.
— Isso que está falando é algo sério. É uma acusação perigosa demais.
— Mas é algo a ser considerado. Devemos lealdade ao Supremo Líder, não podemos deixar que uma escória rebelde nos leve a ruína. Se algo acontecer a Kylo, e ele cair, nós provavelmente vamos cair junto.
— Talvez, mas... Olha só, nem deveríamos estar falando desse assunto aqui. – ele rondou os arredores, certificando-se de que ninguém os ouvia.
— Então vamos a um lugar mais privado. – ela sugeriu com um sacudir de ombros. Fenrir arqueou as sobrancelhas, tentando focalizar a colega com certa dificuldade. – Ou prefere ficar aqui se lamentando, como dois idiotas?
Não foi preciso responder. Lyra recebeu sem resistência o beijo que o cavaleiro lhe roubou, perdendo-se no gosto de álcool que seus lábios tinham naquele momento. Havia raiva e frustração naquele ato, mas também uma carga de alívio. Fenrir deixou três notas no balcão e deixou ser guiado pela moça de cabelos dourados para fora do bar – não era bem a pessoa com quem ele queria passar a noite, mas não havia motivos para recusar o convite.
XXX
Rey sentiu o rosto queimar com uma fúria sem controle. Até a ponta de suas orelhas sofreram com a onda súbita de calor que as palavras do cavaleiro surtiram em si. Toda a leveza que seu corpo ainda entorpecido experimentou momentos atrás foi substituído por um peso de vergonha e culpa. Suas mãos buscaram pelo lençol para se cobrir, e foi nesse momento em que Kylo percebeu sua falta de tato. Ainda nu e de joelhos sobre a cama, segurando o fruto de seu desejo pela Jedi em uma das mãos, o cavaleiro substituiu o sorriso malicioso por olhos brilhantes e pedintes.
— Não, Rey, eu sinto muito... Só estava brincando, eu não quis dizer...
— Deixa pra lá.
A Jedi cruzou os braços a frente dos seios, de cara amarrada. Kylo mordeu os lábios, apreensivo, e saltou da cama em direção ao banheiro.
— Eu só vou me limpar e já volto, ok? Vai ser rápido.
Ela o acompanhou com o olhar e acabou se perdendo alguns instantes no corpo de Kylo. Foi algo inevitável. O cavaleiro tinha as costas extraordinariamente largas com a pele marcada por cicatrizes, coxas grossas e um bumbum digno de apreciação. Rey piscou aturdida e relaxou um pouco quando o ouviu ligar o chuveiro, largando os braços sobre a cama. Seu coração insistia em permanecer acelerado no peito, entretanto. A garota ainda tentava assimilar o que havia acabado de acontecer, e seu corpo parecia levitar pelo quarto. Aquilo era inacreditável. Fantástico, satisfatório, mas ainda assim.... Ainda assim, havia certa parcela de culpa. Como se uma parte de sua consciência a acusasse de um erro imperdoável.
Mas por que seria errado? Eles eram adultos. Rey era dona de si própria. Kylo ainda possuía luz dentro dele, e eles estavam praticamente planejando um motim contra Snoke. Estavam do mesmo lado, certo? Então não havia motivos para se envergonhar.
Ou havia?
De repente, ela sentiu um impulso forte de se levantar e ir até ele. Um bolo se formou em sua garganta, uma antecipação do que poderia acontecer se o fizesse. Talvez fosse o próprio Kylo quem a instigava através da Força, mas boa parte de si acreditava ser inteiramente o seu desejo. Ela queria mais. Queria vê-lo melhor, queria lhe dizer o que estava sentindo. Estava completamente envergonhada, mas sabia que precisaria vencer esse medo e encará-lo nos olhos para se certificar o que havia lá dentro. Não poderia se cobrir com o lençol até o topo da cabeça e fingir que dormia, como parte de si desejava.
Atendendo ao seus subconsciente, Rey se levantou e caminhou até a porta do banheiro. Cada passo parecia mais leve, como se calcasse uma escada até as nuvens e cada membro do seu corpo agisse por conta própria. Ela decidiu não pensar no que estava fazendo, era loucura demais. As asas voltaram a bater em seu estômago, causando um rebuliço dentro de si. Quando entrou lá, havia um pouco de vapor subindo até o teto, e seus olhos foram direto até o box – Kylo estava de frente, passando as mãos pelo rosto, inconsciente de sua aproximação. Água escorria por seus músculos definidos, os cabelos encharcados estavam escovados para trás. A imagem lhe causou uma onda de calor involuntária, obrigando-se a admirar por um instante. Ele interrompeu o ato de se ensaboar quando finalmente a viu ali, parada, nua.
A troca de olhares foi como um choque elétrico. A energia trocada ali poderia ser sentida a quilômetros de distância. Kylo admirou cada centímetro de Rey antes de falar com a voz rouca.
— Quer entrar aqui?
Ela concordou de forma breve. Mais uma vez, sentia-se guiada sem realmente pensar no que fazia. Estava dormente. Até seu cérebro parecia ter congelado na cabeça. Ele a acompanhou em silêncio e saiu de baixo da ducha para que Rey pudesse se molhar. A Jedi tentou ignorar a fome com que o cavaleiro a devorava pelos olhos enquanto sentia água escorrer pelo corpo em uma distância perigosamente próxima. Se a tensão fosse algo físico, provavelmente já os teria sufocado.
— Você está bem? – ele voltou a cortar o silêncio, os cabelos pingando.
— Estou. E você?
— Bem.
Silêncio novamente. Ela abriu a boca, mas voltou a fechá-la. Quis encarar o chão, mas enrubesceu quando a excitação de Kylo Ren se tornou gritante aos seus olhos. Ele já estava pronto para ela pela segunda vez aquela noite, e não parecia envergonhado por isso. A garota voltou a encará-lo em uma surpresa notável, limpando a garganta.
— Eu só precisava entender... Falar....
— O que você quiser. – ele concordou, mas dava para perceber que ele parecia se segurar. Estava dando tudo de si para não dominá-la ali mesmo. Mudava o peso do corpo a toda hora e seu pomo de adão subia e descia com ansiedade. Seus olhos mal conseguiam parar no rosto da Jedi.
— Você não parece muito bem. – ela arqueou a sobrancelha, segurando um sorriso. Estava começando a gostar daquele joguinho.
— Eu estou ótimo.
— Me parece nervoso.
— Eu já disse que estou bem. – o tom de voz ficou mais grave, quase irritado. Rey não conteve um sorriso travesso desta vez e Kylo finalmente entendeu que ela estava gostando daquilo. De provoca-lo.
Ah, ela iria pagar.
Toda a postura do cavaleiro mudou. Seus olhos se tornaram mais escuros, seu rosto adotou uma feição perigosamente predatória. Ele deu um passo a frente, seu membro quase tocava a barriga dela, um pouco acima do umbigo. Rey engoliu em seco.
— Pode falar, Rey. Sou todo ouvidos.
— Ok. – sua voz falhou, ela se perdeu nas orbes escuras do seu algoz e o desejou ardentemente. Tentou colocar os pensamentos em ordem antes de continuar, o que não foi fácil. – Eu só quero entender o que vai ser de nós dois agora, depois disso, porque acho que tudo está mudado e.... Kylo, o que está fazendo?
Ele começou a se abaixar, deslizando as mãos por seu corpo, sem cortar o contato visual. Um dos joelhos alcançou o piso, ele a fitou com lascívia. Ela estava em choque e sem reação. As palavras se perderam na garganta.
— Continue. – ele a incentivou, mas suas palavras soavam libertinas demais para que a Jedi conseguisse se expressar.
Ele começou a beijar a parte interna das pernas, apertando sua bunda, subindo até alcançar sua intimidade. Rey prendeu a respiração quando ele simplesmente colocou a língua para fora e a passou devagar em seu ponto mais sensível. Um suspiro de surpresa e prazer escapou da boca dela.
— A-acho que... Podemos conversar mais tarde... – espalmou as mãos na parede e inclinou o quadril para a frente, o recebendo de bom grado. A água do chuveiro continuava a cair na metade do seu corpo. Vê-lo ajoelhado daquela forma aos seus pés a excitou de uma maneira indescritível e, quando ele começou a movimentar a boca contra sua intimidade, Rey começou a gemer.
Era uma sensação única de poder e entrega. Ele lambia, sugava e torneava seu clitóris em uma lentidão maravilhosa. Uma de suas mãos ocupava-se com o próprio membro enquanto a outra explorava o corpo rijo da Jedi. O cavaleiro a ajudou a colocar uma das pernas sobre seu ombro, dando-lhe mais espaço para explorar aquela área convidativa. Quando a garota pensou que não poderia ficar melhor, ele inclinou mais a cabeça e mergulhou a língua em sua intimidade, arrancando-lhe um suspiro trêmulo. Kylo abriu os olhos para vê-la daquele ângulo e se deliciou com a imagem do corpo nu, molhado e exultante da Jedi rendida aos seus caprichos.
— Ben, eu vou... Eu vou...
Sabendo exatamente do que se tratava, o homem voltou ao ponto mais sensível e mergulhou dois dedos dentro da garota, movimentando-os enquanto a lambia. Rey não conseguiu mais se segurar e seus gemidos explodiram pelo banheiro, ecoando como música aos ouvidos de Kylo. Não demorou muito e os espasmos de puro prazer estremeceram seus músculos, fazendo-a ver uma constelação inteira diante dos seus olhos fechados. Levou alguns segundos para que as ondas ardentes de calor finalmente acabassem e clareassem seus pensamentos. Ele passou as costas da mão contra a boca e voltou a ficar de pé, aquele brilho malicioso queimando no fundo das íris como fogo. Rey ameaçou se abaixar, mas ele a impediu.
— Você não quer...?
— Não. Quero que fique de costas pra mim.
O tom autoritário a teria irritado em outra situação, mas naquele momento, ela obedeceu sem questionar. Ela queria aquilo mais do que queria respirar. Ele puxou seus quadris para trás e a obrigou a inclinar o tronco, mais uma vez espalmando as mãos na parede. O vapor do chuveiro já havia deixado o aposento completamente branco. Os dois estavam cegos de desejo. O que Rey tinha ido fazer ali mesmo? Ela não conseguia se lembrar. A única coisa que era capaz de assimilar, naquele instante, era o modo como Kylo se empurrava sem dó para dentro dela, a sensação da ducha em suas costas enquanto o som imoral do choque de pele contra pele ecoava pelo banheiro, o calor que subia de sua intimidade e crescia até o peito, enlouquecendo-a. Ele estava fazendo com certa ferocidade agora e isso a inebriava de uma forma indescritível. A maneira como ele apertava seus seios e murmurava palavras incompreensíveis perto do seu ouvido bastou para que ela alcançasse o clímax mais uma vez, sendo acompanhada em seguida pelo cavaleiro, que pronunciou seu nome em um gemido rouco. Ela o sentiu gozar fora, mais precisamente sobre sua bunda, e não se importou.
Ele a ajudou a se ensaboar depois disso. Não sentiram a necessidade de falar a respeito. Pelo menos não agora.
xxx
Rey acordou com uma sensação estranha de ausência. A cama parecia grande demais. Ela se espreguiçou, ainda de olhos fechados, e tocou o espaço vazio ao seu lado. Ainda estava quente. A Jedi tinha certeza de que alguém ocupava aquele lado a alguns minutos atrás, envolvendo-a em um abraço reconfortante. Sua cabeça entorpecida pelo sono não elaborou pensamentos coerentes, apenas ideias difusas como fumaça. Sua única vontade era a de tê-lo ali de novo, junto dela. Ben Solo.
Ben?
Sua consciência despertou de uma vez. A garota abriu os olhos, confusa e de pálpebras pesadas. Havia uma luz cinza inundando o quarto através das cortinas, um sinal que antecedia o nascer do sol. Ela olhou para o lado e ele realmente não estava ali. Sentou-se no colchão devagar, esfregando os olhos, e a voz inconfundível do cavaleiro soou em um canto do quarto.
— Eu estou aqui.
Ela olhou para o lado esquerdo e o viu sentado defronte a escrivaninha, usando apenas uma calça, parecendo ler alguma coisa. Sua pergunta soou amolecida.
— O que está fazendo?
— Venha ver.
Rey se levantou e vestiu a camisa dele para se proteger do frio antes de se aproximar. Viu uma espécie de livro com folhas amareladas escrito a mão e alguns livros publicados em runas antigas dispostos sobre a mesinha. Kylo empurrou a cadeira um pouco para trás e fez sinal para que a Jedi se sentasse em seu colo – algo que soou meio provocativo da parte dele a princípio, mas que ela logo percebeu se tratar de um pedido sincero. A Jedi deu de ombros e se acomodou em uma das suas pernas enquanto ele a envolvia com o braço. Levantou o rosto para fita-la nos olhos e foi direto ao assunto.
— Já ouviu falar de Darth Plagueis?
Ela pensou um pouco.
— Não.
— Ele foi um Lorde Sith, mestre de Palpatine. Creio que já tenha ouvido falar de Palpatine...? – ela assentiu com a cabeça. – Bom, Plagueis era tão poderoso e tão sábio que podia usar a Força para influenciar as midi-chlorians para criar vida. Ele tinha tantos conhecimentos do lado sombrio, que podia impedir aqueles com quem ele se importava de morrer. Esse é o diário dele.
Rey olhou para o livro como se ele fosse uma serpente venenosa. Ela franziu as sobrancelhas e se remexeu inquieta sobre a perna dele.
— Certo, eu tenho algumas perguntas....
— Fique a vontade.
— Como você conseguiu isso? E por que tem esse diário? Snoke sabe?
— Consegui em uma das minhas viagens junto aos cavaleiros. Sempre cacei relíquias Sith e Jedi, como você bem sabe. Foi mais sorte do que qualquer outra coisa. Não, Snoke não sabe disso. Tenho esse diário porque desconfio que parte dos planos de Snoke envolva manipular as midi-chlorians para ser imortal.
— Mas isso é impossível. Não é?
— Eu não teria tanta certeza assim. Muitas coisas aqui fazem sentido. E Snoke é muito mais antigo do que imagina, além de possuir uma contagem de midi-chlorians excepcionalmente alta. Quero dizer, eu nunca vi alguém tão forte como ele.
Aquela era uma afirmação que a Jedi não esperava ouvir. Se isso fosse verdade, estavam em um perigo muito maior do que imaginavam.
— Explique melhor.
— Bom, de acordo com o diário, é possível transferir sua mente para a de outro usuário da Força, preservando assim seu espírito e descartando a carne. Como um vírus em um hospedeiro.
— Isso parece muito errado...
Ele fez uma pausa, tamborilando os dedos na madeira. Depois anunciou sem emoção.
— Temo que é o que Snoke planeja.
— O que?!
— Se parar para pensar, ele não precisa realmente de mim. Não se analisarmos friamente o poder que ele possui. Hux já o serve quando precisa de forças táticas, não há necessidade de me colocar em campo além de puro capricho. Ele me escolheu quando eu ainda estava sendo gerado no ventre de Leia, porque eu o ouço em minha cabeça desde que me conheço por gente. Minha descendência faz de mim o hospedeiro perfeito.
A Jedi o fitou com espanto, sem saber o que dizer. Aquela enxurrada de informações a acertaram como um soco nas costas, deixando-a sem ar. Saber que Ben era assolado pela sombra maligna de Snoke desde bebê era ainda pior do que as possíveis pretensões daquele ser asqueroso.
— Temos que mata-lo antes que –
— Shh! Tente não falar em voz alta. – ele a interrompeu com cautela. – Ele pode sentir nossas intenções.
— Tá. – rebateu impaciente. — Temos que fazer alguma coisa antes que seja tarde, então.
— A Togruta disse que precisamos trabalhar juntos. Aquele pergaminho que você pegou na nossa primeira missão confirma isso. Veja... – ele apanhou o rolo entre os livros e o abriu, lendo as runas em voz alta:
“Primeiro vem o dia
Então vem a noite
Depois a escuridão
Brilha através da luz
A diferença, todos dizem
Está no único caminho certo
Pelo resolver cinza
Através do mais refinado Jedi”
— Faz sentido... – Rey olhou para o papel com cuidado. – Ela mencionou algo sobre o cristal Kyber negro, também. Sobre forjarmos um sabre a partir dele. Alguma ideia de como vamos fazer isso?
— Eu fiz algumas pesquisas. O princípio é o mesmo de se montar um sabre comum, mas o cristal vai querer resistir. Vamos precisar fazer juntos.
— É....
Rey olhou para todos aqueles documentos sobre a mesa e sorriu. Pela primeira vez desde que chegou naquele planeta, sentiu esperança. Forte e consistente como uma muralha. Kylo franziu as sobrancelhas.
— O que foi?
— Temos um plano, então. Nosso plano.
Ele entendeu aonde ela queria chegar. Seus olhos brilharam com algo bem mais intenso que apenas desejo, e ele pousou a mão sobre a coxa da Jedi.
— Temos.
— Acha que vai dar certo?
— Tem que dar. Nós somos a resposta, Rey. Nós dois juntos.
A garota o fitou nos olhos e seu coração esquentou. A conexão entre eles continuava a crescer e se fortalecer; eles sentiam isso com uma certeza incontestável. O beijo que se seguiu selou esse destino, calmo e carregado de sentimentos profundos demais para serem expressos em palavras.
Não muito longe dali, Snoke sorria triunfante.
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