Equilibrium
11 A Missão
Notas iniciais
Antes que o alvorecer extinguisse o brilho pálido das estrelas, Rey já estava no banco de trás de um speeder, rumo ao centro da cidade. O chofer de feições rígidas dirigia em silêncio, cumprindo as ordens explícitas de Kylo Ren em deixa-la nas docas. Enquanto a Jedi observava a paisagem pálida pelo vidro, sua cabeça girava em suposições, causando uma sensação ruim na boca do estômago. Qual seria a missão? Teria de machucar alguém? Capturar rebeldes? O frio na espinha intensificou, e logo o veículo pareceu pequeno demais para conter seu nervosismo. Abriu um pouco a janela, permitindo que o ar frio da manhã atingisse seu rosto.
Isso a ajudou a despertar, já que a ansiedade a impediu de dormir direito também. Seu sono foi composto basicamente por breves cochilos agitados, repleto de sonhos desconexos. Lembrou-se da noite anterior com um suspiro profundo, apoiando o queixo na palma da mão. As lembranças de seu contato com Kylo Ren permaneciam zunindo em sua cabeça, matutando suposições. Leia estava certa: ainda havia luz em seu filho. Bem escondida, mas real.
A questão era: como trazer isso a tona?
Seus pensamentos foram interrompidos no momento em que o motorista passou pelo ginásio sem desacelerar.
— Ei! Eu não tinha de descer aqui?
— Recebi instruções para que a levasse direto até as docas, senhorita.
A Jedi arfou, descontente. Naquela fortaleza, sentia-se imponente e a mercê da boa vontade de Kylo Ren. Sua voz não tinha qualquer força, e apesar da aparente liberdade, era óbvio seu estado de prisioneira. Estava sendo jogada de um lado para o outro, obrigada á acatar ordens. Tinha de pensar em algo para mudar esse cenário logo.
Levou alguns minutos para que chegassem ao grande muro separando a metrópole da base militar. Os portões se abriram após uma breve identificação e as docas recheadas de caças TIE se revelaram perante os seus olhos. Tropas de stormtroopers e oficiais da Primeira Ordem marchavam pelo local em seus afazeres, reparando naves e cumprindo relatórios. O chofer estacionou em frente á uma das torres de controle, indicando que era o local certo para Rey descer.
— Você deve ser Rey. – um militar de roupas cinza a indagou logo na entrada, o olhar indiferente sob a aba do cap. – Estão a aguardando na sala de reuniões.
Ela apenas assentiu, subindo as escadas. A cada degrau calcado, o frio na barriga intensificava. Não estava atrasada, tinha certeza disso: na verdade, se certificou em ficar pronta antes mesmo do sol nascer. No entanto, por algum motivo, os outros resolveram chegar ainda mais cedo.
Ouviu as conversas abafadas do outro lado, e abriu a porta sem bater. No momento em que adentrou o cômodo, as vozes cessaram. Todos os olhares foram direcionados á Jedi ao mesmo tempo.
Ela não se atentou a rostos. Viu apenas de relance vários homens de vestes negras em torno de uma mesa e... Uma mulher? Sim, definitivamente uma mulher. Rey estufou o peito, inabalável, e caminhou em uma postura altiva para perto do círculo, posicionando-se entre Kylo e outro cavaleiro mais baixo de barbas escuras. As íris castanhas do líder a acompanhavam como um falcão observando a presa, intensas como de costume. O silêncio tornou-se sufocante, mas não a abalou. Não havia motivos para se mostrar insegura, principalmente na frente daquelas pessoas.
— Creio que agora possamos esclarecer nossa missão. – Ren finalmente se fez ouvir, desviando os olhos da Jedi. – Como a maioria já sabe, nosso destino é o planeta Moraband. O objetivo é encontrar o restante de um pergaminho incompleto, provavelmente guardado em uma câmara no subsolo.
Puxou um pedaço de papel amarelado das vestes, estendendo-o para que todos dessem mais uma olhada. Depois, voltou a guarda-lo e continuou seu discurso.
— Entretanto, a passagem está protegida por guardiões e magia antiga. É de extrema importância que façamos tudo o mais rápido possível. Fenrir, acione a planta do templo.
Fenrir?! Não, não poderia ser o mesmo...
Sim, era.
Estava do outro lado da mesa, envolto pela túnica escura característica dos cavaleiros. Quando Rey o encarou, seus olhos intensamente azuis já a fitavam em um misto de diversão e curiosidade. Ele pigarreou, a sombra de um sorriso nos lábios, e voltou sua atenção para os botões da mesa.
— Sim, senhor.
Um holograma surgiu bem ao centro. Kylo retomou a fala, mas a Jedi não prestou atenção. Lembrou-se do que o estranho no bar havia dito na noite anterior, quando questionado sobre os motivos de continuar em Hanoon: “Gosto do meu trabalho.”
—... De acordo com o que vocês me disseram, não foi possível passar pelos portões internos, pois sua magia requer um tipo especial de ritual para permitir o acesso á câmara. – pescou a frase no ar, voltando sua atenção ao líder dos cavaleiros. — É neste ponto em que a presença de Rey se torna vital.
Um arfar de desdém ecoou pela sala. Rey encarou a autora do descaro com o olhar afiado.
— Algum problema?
— Não... Nenhum. – a loura comprimiu os lábios como se tentasse segurar um sorriso.
— Ótimo. Por que se tiver algo para reclamar, aproveite e o faça agora.
A súbita tensão entre as duas deixou a atmosfera carregada. Fenrir arqueou as sobrancelhas, surpreso pela resposta ácida. Os outros se entreolhavam em silêncio. Kylo lançou um breve olhar de alerta para Lyra, dando a ordem muda para que a mulher não retrucasse. Ela encolheu os ombros e fechou a cara, engolindo todas as coisas que gostaria de falar.
— Como eu ia dizendo, Rey é essencial para que obtenhamos sucesso desta vez. É preciso duas pessoas sensitivas á Força para abrir a passagem, e somente nos dóis podemos entrar naquela sala. Enquanto estivemos lá dentro, precisamos que mantenham bem longe o que estiver guardando a porta.
Todos assentiram. Kylo Ren passou mais algumas notas importantes e por fim concluiu a pequena reunião, vestindo o capacete escuro e tomando a frente até as docas. A Jedi apenas seguiu o grupo, um pouco afastada.
— Oi. – Levou um susto assim que Fenrir surgiu ao seu lado, estampando seu costumeiro sorriso charmoso. Ele acompanhou seu ritmo sem encará-la. – Que bom te ver de novo. Me tira uma duvida... Devo te chamar de Kyra ou de Rey?
— É Rey. – ela cochichou, revirando os olhos. Era possível avistar as costas largas de Kylo vários metros á frente, os guiando pela pista. – Então este é o seu trabalho dos sonhos.
— Dá pro gasto. – deu de ombros. – Vai se juntar ao grupinho agora?
— Temporariamente.
— Ah. Isso é uma pena. Eu realmente gostaria de te ver enfrentar a Lyra mais vezes.
Rey sorriu de canto, observando a bela mulher de cabelos dourados em meio aos cavaleiros. Chegaram á temível espaçonave em forma de Y, especialmente projetada para Kylo Ren. A rampa de acesso desceu vagarosamente, permitindo a entrada do grupo.
— Qual o problema dela, afinal?
— Ciúmes. – ela finalmente o encarou enquanto subiam até o interior da nave, evidentemente confusa. – Lyra tem uma admiração esquisita pelo kylo, algo beirando a obsessão. E ele não esconde que você é agora a menina dos olhos dele. Isso a incomoda.
Rey sentiu as bochechas avermelharem. Eles a viam dessa forma, afinal? O tesouro perdido de Davy?
— Bom... Seja como for, estarei sempre por perto, caso precise de um conselho amigo. – lhe deu uma piscadela, carregado de segundas intenções. – Vamos, antes chamem nossa atenção.
Não houve tempo de resposta. Fenrir apertou o passo e se adiantou até os outros, deixando-a para trás. A Jedi os seguiu até a cabine de comando, sentando-se em um dos bancos e afivelando o cinto.
Levantaram voo e, assim que a embarcação alcançou o espaço, as potentes turbinas rugiram e os impulsionaram contra o céu escuro na velocidade da luz.
(...)
— Senhor, estamos entrando na órbita de Moraband.
— Inicie o procedimento de pouso. – a voz robotizada pela máscara respondeu.
— Sim senhor.
O percurso não durou mais que uma hora. A nave finalmente desacelerou e começou a perder altitude, movendo as grandes asas em um ângulo de 90 graus, apontando para o céu. A neblina ocultava a maior parte da superfície do planeta, impedindo uma melhor visão do que os aguardava. Apesar disso, Rey pôde sentir algo obscuro pesando em seu peito, tornando-se quase sufocante á medida que se aproximavam da terra firme.
Havia algo de muito errado – e familiar — ali. Assim que desligaram os motores, os cavaleiros vestiram suas máscaras e empunharam as respectivas armas. Havia lanças com lâminas, bastões personalizados, blasters modificados e chicotes com anzóis na ponta. Eles passaram por ela e marcharam até a saída, imponentes. Kylo Ren foi o último a passar. Parou em frente á ela e lhe recomendou em um tom neutro:
— Fique perto.
Ela lhe lançou um olhar intrigado e o seguiu para fora da nave. Tomaram á frente dos cavaleiros e partiram em silêncio pelo caminho tortuoso até o templo.
O grupo passou por escombros de concreto e rochas pontiagudas espalhadas pelo deserto árido. Ren os guiava com maestria através dos destroços, demonstrando conhecer o caminho como a palma da mão. As nuvens baixas ocultavam a maior parte do cenário desolado, e até mesmo o oxigênio parecia contaminado. Assovios agourentos de vento sopravam ao longe, parecendo fantasmas gemendo em sinfonia.
Após alguns minutos de caminhada, Rey não conteve mais a dúvida que permeava sua mente agitada.
— Você também está sentindo...?
— Sim. – o cavaleiro respondeu de prontidão, parecendo menos incomodado que Rey. — Este é um planeta sagrado, lar do primeiro templo Sith. Tudo aqui está carregado de escuridão.
Ela o encarou atônita.
— E quando pretendia me contar?!
— Logo.
A Jedi pensou em mil maldições contra Kylo, mas optou por permanecer em silêncio. A ansiedade que a atormentava possuía um fundamento, afinal de contas. Continuara sua marcha sem proferir qualquer outra palavra, lindando a sós com seus próprios receios.
Em certo ponto da trilha, a névoa finalmente dissipou. E, neste exato momento, Rey estancou no lugar com o coração saltando no peito: ela conhecia aquele lugar. Estátuas de homens encapuzados os fitavam de cima, e um grande templo de pedra se erguia imponente á alguns metros. A sensação de déjavu consumiu seu âmago.
— Espera! Eu conheço esse lugar!
Kylo a encarou através do visor de seu capacete.
— Impossível.
— Não, eu conheço sim! Existem catacumbas lá dentro, não é? E um trono de pedra, grande... O lugar é assombrado por espíritos, ou algo assim. Eu tenho sonhado com esse planeta á meses!
O cavaleiro permaneceu em silêncio por alguns instantes, ponderativo. Por fim, ele retomou o passo, agora mais rápido.
— Vamos. Não podemos perder tempo.
A Jedi acompanhou sua marcha, assim como os outros do grupo. Ele estava escondendo algo, mas agora não era o momento certo para tentar desvendar. Nas atuais circunstancias, seu único desejo era cumprir com a missão e ir embora daquele lugar.
Assim, eles subiram as escadas de pedra e se depararam com a colossal entrada adornada de inscrições rúnicas. Quando passaram para o lado de dentro, Rey encontrou o mesmo saguão dos seus sonhos, coberto por uma densa camada de pó. O lustre suntuoso dependurado, as catacumbas ordenadas em pilhas, os crânios “enfeitando” os túmulos: tudo exatamente igual.
E então vieram as vozes.
Primeiro em um sussurro hostil, depois evoluindo gradualmente para um coro de lamúrias em outra língua. Rey tinha a sensação horrível de que gemiam apenas em sua cabeça, até que Kylo se pronunciou mais uma vez.
— Eu também os ouço.
— De quem são as vozes?
— Espíritos de Sith Vermelhos. São os guardiões do templo, e não gostam de intrusos. Estão nos mandando partir.
Outro calafrio a atormentou, arrepiando os cabelos da nuca. Kylo os guiou por um labirinto de corredores e escadarias escuras, sabendo exatamente onde encontrar a câmara de artefatos. Por fim, chegaram á uma porta dourada repleta de trancas e linhas em relevo, formando um hexágono símbolo do Império Sith. Os dois pararam em frente á ela, lado a lado.
— É necessário duas pessoas sensitivas á Força para destrancar. – ele explicou. — Mas só irá funcionara se ambas as partes utilizarem o Lado Negro.
A Jedi ponderou alguns instantes, puxando o ar de maneira profunda. Não gostava de sucumbir ás emoções para usar a Força, mas não tinha escolha. Portanto, o que poderia instigar suas emoções negativas? Possuía várias lembranças ruins, mas apenas uma forte o suficiente á fim de ascender seu lado obscuro. Por fim, assentiu para o cavaleiro, indicando que estava pronta. Ergueu o braço, concentrando-se, e Kylo repetiu o gesto. O ar tornou-se carregado, fazendo pressão contra as paredes. E então, em um clique, as trancas começaram a reagir sozinhas.
Uma a uma se moveram, obedientes á Força obscura. Quando a ultima peça foi destrancada, um chiado alto ecoou pela sala, fazendo as portas finalmente se abrirem em um ranger pesado. Quando a câmara se revelou, Rey não evitou um arfar surpreso: Eles conseguiram. Neste mesmo instante, no entanto, outro som chamou sua atenção.
Rosnados guturais vieram das sombras, ecoando pelas paredes. Os cavaleiros se puseram á postos, erguendo suas armas em posição de combate. Por fim, três Rancors surgiram por detrás dos pilares que sustentavam o teto, seus dentes afiados bem á mostra entre os grunhidos ferozes. As enormes criaturas avançaram intrépidas, movendo seus braços com garras contra os cavaleiros.
Rey ameaçou ligar seu sabre, disposta a ajudar, mas Kylo segurou seu braço com urgência.
— Venha! Temos que encontrar o pergaminho!
A Jedi hesitou, mas por fim o seguiu para o interior do salão. Avançaram pelos corredores com urgência, procurando por algo que pudesse ser o restante da maldita folha. Dobraram esquinas e varreram prateleiras com os olhos, analisando a imensidão de objetos dos mais variados tipos e tamanhos – Nenhum deles era o certo. O som da luta estava distante, porém ainda presente. Não poderiam demorar. Talvez fosse sua única chance de encontrar...
— Lá está! – foi o cavaleiro que avistou um pedestal com a outra metade do pergaminho sob um compartimento de vidro.
Kylo avançou até o papel, guardando-o nas vestes com grande satisfação. Procurou por Rey, pronto para partir, mas percebeu que ela não estava mais ao seu lado. Olhou em volta e a avistou á alguns metros, imóvel.
Vozes sussurravam seu nome, chamando-a em um apelo tentador. Rey decidiu seguir a origem do chamado de forma quase hipnótica. Não sabia o porquê, mas tinha de encontrar o que tanto a instigava. Seguiu por um corredor estreito e chegou até uma á parede de pedras irregulares, encontrando um pequeno objeto em forma de triângulo incrustado entre as rochas. Por alguma razão, sentia que precisava pegá-lo. O cavaleiro a alcançou e franziu o cenho, soando irritado.
— O que está fazendo?! Precisamos ir ago -
Ele interrompeu a frase ao constatar o artefato repleto de desenhos ornamentais pulsando em uma luz vermelha. Rey o apanhou e encarou Kylo em um misto de confusão e receio.
— Isso aqui me chamou...
Ele estreitou os olhos, pensativo. Por fim apenas assentiu.
— Guarde com você e vamos embora.
Sem esperar por mais um segundo, os dois partiram em direção a saída. Depararam-se com os corpos dos Rancors caídos ao chão quando passaram pela porta, com exceção de um – Kylo não previu as garras lhe rasgando a pele do ombro, sujando suas vestes de sangue. Irado, ligou seu sabre rubro e atingiu a criatura na perna direita, obrigando-o se ajoelhar com um urro de dor. Quase no mesmo instante, Rey saltou em um rodopio e cravou seu sabre-bastão na nuca do monstro, fazendo-o tombar sem vida no chão. Não foi preciso dizer nada para entenderem que estava na hora de partir. A passos largos, voltaram para o saguão principal do templo, ansiosos em deixar o planeta. A Jedi olhou de relance para o ferimento do cavaleiro, preocupada com a profundidade do corte, e pensou em perguntar se ele estava bem...
Foi neste instante em que o chão estremeceu.
— O que é agora...? – um dos cavaleiros resmungou, erguendo seu bastão.
Todos entraram em posição de alerta, atentos á qualquer movimentação. Houve silêncio, pesado e suspeito. E então, em uma explosão de gritos, figuras pálidas saíram de seus túmulos e avançaram contra os cavaleiros. Fantasmas na forma de antigos Sith pareciam resolutos em impedir os intrusos de sair da construção, atacando-os entre gritos ensurdecedores. Rey tentava revidar com seu sabre, que apenas traspassava os fantasmas sem realmente feri-los. Sem mais opções, eles correram em direção á entrada principal, fugindo das investidas enraivecidas dos espíritos.
Não pararam até alcançar a nave ao fim da trilha.
(...)
O curso para Hanoon já havia sido traçado. A nave avançava na velocidade da luz contra o espaço, deixando Moraband para trás. Em seu interior, os cavaleiros discutiam sobre a missão bem sucedida, animados em delatar os detalhes da luta entre si.
Rey não encontrou Kylo na cabine. Estranhou sua ausência, mas não se abalou. Ele provavelmente estaria se recuperando de seus ferimentos em alguma ala específica, com cuidados especiais. Seguiu a passos largos pelos corredores estreitos, procurando por algum lugar mais tranquilo á fim de descansar durante a viagem – não gostaria de ser incomodada por Fenrir. Passou por uma porta entreaberta, e o vislumbre do que havia em seu interior a fez estancar no lugar. A Jedi espiou pela fresta, preocupada, e imediatamente se compadeceu com a visão: Ren estava sentado á beira da cama, pressionando sua blusa contra o corte que continuava a sangrar abundantemente. Seu dorso desnudo marcado por cicatrizes reluzia graças ao suor frio que brotava da pele alva, deixando-o quase febril. Rey se sentiu impelida a ajuda-lo – afinal, sua empatia lhe motivava a querer socorrer até a pior das criaturas, e agora não seria diferente. Antes disso, porém, Ren já percebera sua presença e erguera os olhos para a Jedi.
— Me parece que você tem um prazer singular em invadir minha privacidade. É a segunda vez. – comentou com o tom frio.
—Eu só quero ajudar.
— Não preciso de ajuda.
— Na verdade, precisa sim. – Rey teimou, irritada. Adentrou o quarto sem se importar com o olhar ferino do cavaleiro, avançando em sua direção. — Seu orgulho mesquinho vai fazer você sangrar até morrer. Você tem que estancar o sangramento antes que tenha uma hemorragia.
Kylo odiava ser alvo de piedade. Depender da ajuda de outra pessoa lhe soava fraco e medíocre. Entretanto, ela tinha razão. Talvez esperar para chegar até a base em Hanoon fosse arriscado demais. E talvez, ser cuidado por Rey não era tão ruim assim. Por fim, suspirou desistente.
— Está bem. E você sabe fazer pontos?
— É mais fácil me perguntar o que eu não sei fazer. Agora, onde estão os kits de primeiros socorros?
Ele lhe indicou onde encontraria os materiais no pequeno quarto e a observou se sentar ao seu lado com um pano úmido. Rey pôs de lado a camisa embebida de sangue e começou a limpar o ferimento com agilidade, fazendo uma careta ao constatar a profundidade do corte. Seu toque era leve, e as mãos macias traziam certo conforto ao cavaleiro. Por fim, preparou uma agulha com linha já desinfetada e começou o trabalho meticuloso de costurar a pele. Apesar da dor incômoda, Kylo estava distraído demais em observar as feições concentradas da Jedi, deslumbrado com o que via.
— Eu conseguia te sentir. Lá em D’Qar, durante o meu treinamento. – a voz baixa de Rey se fez ouvir, enquanto ela passava a agulha pela ferida com muito cuidado. – Quando você ficava com muita raiva, ou muito triste... Eu também ficava. Não imagino o que Snoke tenha feito para ascender tantas coisas negativas em você. Seja lá o que for, eu sinto muito.
O cavaleiro estudou suas feições por alguns instantes, pensativo. Respirou fundo e respondeu em um tom baixo, o que fazia sua voz se tornar ainda mais grave.
— Os sentimentos negativos alimentam minha Força. Mas confesso que, quando sua luz me alcançava, eu não achava ruim.
Ela levantou os olhos, parando a agulha no ar.
— Você... Também podia me sentir?
— Ás vezes, sim. Quando você ficava muito eufórica, contente. Ou com saudades da sua família. Era bom, e me fazia lembrar Leia. Como um sopro morno de verão em meio á um inverno rigoroso.
A Jedi piscou algumas vezes, digerindo as palavras enquanto se perdia no olhar expressivo do homem. Foi então que finalmente conseguiu encontrar a pergunta que tanto a assolava, terminando os pontos no ferimento e deixando a agulha de lado:
— Por que temos essa conexão, afinal? Por que me sinto tão ligada á você?
O rosto de Rey estava próximo. Perigosamente próximo. Ele pulou rapidamente seus olhos para os lábios bem desenhados da garota, absorto em pensamentos. Qual seria o seu gosto?
— Não sei ainda. Mas vou descobrir.
Kylo estava tão perto que era possível sentir seu calor emanando do corpo, e isso a distraía.
— Eu gostaria que não estivesse do lado deles. Que pertencesse á luz. –Ela continuou, sussurrando as palavras, sem realmente pensar no que dizia.
— Não pertenço á escuridão, também. — Qual seria a textura dos lábios dela? Eles pareciam tentadoramente macios.
. – Você precisa escolher um lado. – murmurou com a respiração descompassada. Por que não conseguia se distanciar dele? Por que estava sentindo asas batendo no estomago? O que estava acontecendo ali? .
— Não... Eu não preciso.
“Eu preciso de você”, foi o que pensou. Mas ao invés de proferir em voz alta, inclinou o corpo em um ímpeto e fez o inesperado: seus lábios foram de encontro aos de Rey, em um beijo delicado e cauteloso.
E todo o universo parou.
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