Equilíbrio: Arco dos alados.
3 Cortinas da guerra - parte 2
Notas iniciais
Trevor Scott corria para se esconder no instante em que viu um tríplex demolindo por causa de um tanque de guerra. O som dos tiros podia ser ouvido a metros de distância, fazendo o garoto hesitar em seguir em frente.
Mesmo naquela agitação, ele tentou agir friamente. O que fazer? Aonde iria? Eram perguntas frequentes na cabeça do garoto. Uma coisa ele sabia: tinha que sair dali, e suas únicas opções eram se esconder em algum lugar seguro, que no momento não sabia se existia algum, ou ir de encontro ao exército. Deixando a hesitação de lado, Scott tomou a decisão de se aproximar do campo de guerra.
Chegando próximo do campo, escondeu-se numa esquina, espreitando os estragos do confronto. Os militares lutavam bravamente contra os seres alados que estava protegendo seu companheiro aleijado.
— E agora, o que faço? — perguntou-se.
Quando olhou para cima ouviu o som do helicóptero vindo ao resgate dos soldados. Ele logo se animou com a esperança de conseguir sair daquela zona. O percurso de onde estava até o ponto de pouso do helicóptero era extremamente perigoso; se não fosse pego pelas balas perdidas poderia ser alvo dos seres alados. Entretanto, era o único meio que tinha para poder sair dali, tinha que colocar a vida em risco.
Respirando fundo e juntando toda a coragem possível, Trevor correu como se nunca tivesse corrido antes. Ouvia o som dos projeteis passando próximo a ele junto com os soldados gritando incansavelmente enquanto os alados os atacavam. De repente, Trevor caiu ao chão após tropeçar numa pequena cratera no caminho.
Quando se virou para saber o motivo de seu infortúnio teve um grande susto ao ver um cristal brilhante cravado em sua perna direita. Sem se desesperar, tentou tirar o objeto com as mãos, mas antes que pudesse aproximar o membro para removê-lo começou a sentir uma enorme queimação na perna, fazendo-o se contorcer de dor. Segundos depois, a dor percorreu para a perna esquerda. Trevor cerrou os dentes para não gritar.
Ambas as pernas começaram a ter fortes espasmos musculares. Seus músculos pareciam estar sendo rasgados vários e a várias vezes, transformando o momento numa sessão de tortura. Minutos depois, a dor e os espasmos cessam. Trevor estava ofegante, sua visão ficou turva; com muita força ele conseguiu sair da cratera se rastejando, mas antes de poder fazer qualquer outra ação, desmaiou ali mesmo, em meio ao campo de guerra, próximo de seu objetivo.
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O helicóptero estava para aterrissar quando o piloto hesitou com a nave após presenciar aquela rajada negra destruindo tudo no caminho. Ainda faltavam alguns metros para os sobreviventes entrarem na aeronave.
Os seres alados olhavam para aquele objeto metálico, desconhecido para eles, flutuando como se fosse um pássaro. Intrigado com a aeronave, um deles ergueu a mão fazendo concentrar uma aura negra.
Percebendo o perigo que estava por vir, o franco atirador pôs-se em posição com seu rifle, mirando na cabeça do inimigo. No momento em que a rajada negra se concentrava mais densa na mão do alado, o franco atirador disparou prontamente.
— Não! — gritou um dos alados, se colocando no lugar do companheiro, mudando o alvo da bala em sua direção e sendo acertado na orelha esquerda.
Ao empurrar o companheiro, o alado fez com que a rajada fosse lançada para a direção errada do seu alvo. Assustado e aliviado ao mesmo tempo, o piloto do helicóptero decide recuar e escolher outro ponto de pouso. Os soldados não se opuseram na decisão, sendo que quase perderam a carona de fuga.
O local escolhido foi uma praça, próxima de umas cinco quadras. Um do militares arremessou uma granada de fumaça para distrair os inimigos enquanto ele e sua tropa corriam para o local de encontro.
A distração não lhes ganhou muito tempo; os alados usaram suas asas para dissipar a fumaça. Finalmente o alado com a espada se junta ao grupo. O aleijado foi locomovido para uma parede onde sua perna começava a se regenerar, mas não a tempo de poder avançar com seus companheiros. O quarteto liderado pelo espadachim começou a avançar contra seus alvos.
Após a chegada do primeiro helicóptero de resgate que levou os feridos e alguns outros para a base fora da cidade, restaram em terra apenas vinte e nove militares em ação. A capacidade do helicóptero que os esperava era de trinta pessoas e também seria a única chance de saída daquele inferno, já que não haveria mais como enviar outro resgaste, por causa dos riscos da batalha.
Enquanto corriam, um dos soldados avistou um garoto desmaiado no chão. Todos os demais soldados o ignoraram, mas seu senso de justiça o fez resgatar o garoto, não podia deixar um inocente envolvido naquele caos. Faltavam duas quadras para chegar ao local quando ouviram o grito de um dos militares sendo capturado pelo inimigo e, depois, o silêncio. Todos ali sabiam que se hesitassem e parassem para socorrer seu companheiro, seria a última ação que iriam fazer antes de serem mortos.
Os soldados cerravam os dentes diante da impotência deles. Mais três mortos no caminho. O alado espadachim desferia golpes certeiros pelas costas que deixavam os corpos de suas pressas inertes no segundo seguinte.
Um dos alados ergueu a mão concentrando a aura negra em seu membro. Os soldados viraram a esquina, chegando à praça onde o helicóptero já os aguardava pronto para decolagem. No mesmo instante em que dobram a rua, uma rajada negra passou por eles, fazendo com o que os últimos na corrida sentissem passar de raspão a pressão da escuridão.
Os primeiros que chegaram fizeram um cerco na aeronave atirando contra os alados na esperança de ganhar tempo para o restante. O soldado que trazia o garoto desacordado o pôs dentro da aeronave e logo se juntou aos seus companheiros no cerco.
A praça iluminou com o brilho dos projéteis sendo disparados. Colocando as asas em suas dianteiras, os alados ficaram parados numa posição defensiva. Um deles, imaginando que a aeronave pudesse estar decolando, fez um disparo da rajada negra para o céu, porém o raio negro foi vão, sem atingir ninguém.
No momento em que viram o raio negro passar por cima de suas cabeças e sumindo ao longe no céu, a guarnição militar havia percebido que se tivessem decolado estariam todos mortos. Independente de estarem no céu ou na terra, não teriam como escapar.
Alguns começaram a se conformar com a impossibilidade de vencer os seres alados, então se renderam e baixaram as armas. Seus olhares desesperançosos, os joelhos trêmulos faziam com que seus corpos perdessem a sustentação do corpo, desabando no chão com um sorriso forçado, não acreditando no que estava acontecendo. Outros atiravam em desespero, pois não podiam aceitar aquele fim. Tinham deixado suas famílias esperando e juraram voltar para os braços de seus entes queridos.
Quando a saraivada cessou, os alados abriram as asas majestosamente. A munição das armas havia se esgotado. Havia alguns poucos cartuchos dentro da aeronave, mas não daria tempo ou nem surtiria efeito; estava tudo acabado.
— Ainda não! — disse um deles, empunhando sua faca e se mantendo em posição de ataque. — Eu não vou morrer aqui! Prometi para minha filha que papai iria retornar. — Seus olhos brilhavam ao se lembrar de sua única família. — Que tipo de pai seria eu se não conseguisse manter uma promessa para sua filha?!
Ao ouvirem aquilo, os outros começaram a se erguer lentamente.
— Deixei minha esposa sozinha, tenho que me desculpar — disse outro soldado.
— Acredita que a minha pediu para eu voltar com leite?
— Próxima semana será o aniversário dos meus filhos, eles vão me perdoar se eu faltar.
Pouco a pouco eles iam recuperando a moral e se fortalecendo, com o pensamento de voltar para seus entes queridos. Todos empunhando suas facas como suas últimas esperanças. Era o ápice da batalha, o momento derradeiro para eles. Nenhum deles estava pronto para morrer. Nenhum deles ousaria morrer.
— Uuuuuoooaaahhhh!!!
Os gritos ecoaram pela praça enquanto os soldados corriam na direção dos alados que, surpresos com as atitudes dos humanos, ficaram sem reação. Eram seis soldados para cada um dos quatro alados que se defendiam apenas com as asas, com exceção do espadachim que contra-atacava sem piedade, lutando de igual para igual.
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Alicia Parker perambulava pela cidade destruída, estava aterrorizada pelo cenário catastrófico que presenciava. Construções demolidas, crateras no chão, corpos mortos de civis, soldados e seres desconhecidos. O ar fedia com a fumaça negra saindo dos automóveis incinerados. Ela não acreditava no que via além de também estar espantada com os cristais em seus pulsos. Não se lembrava de muito do que acontecera antes de desmaiar, mas sabia que algo sinistro havia lhe acontecido.
Ela tentou ir para sua casa, um tríplex, mas encontrou apenas escombros. Não havia ninguém para estar com ela, diante daquele caos estava totalmente sozinha. Muitas marcas de destruição onde quer que ela olhasse: cartuchos de munição para todos os lados, marcas de sangue no chão e o som agitado de disparo de armas de fogo, vindo de um lugar não muito longe, ecoava pelas ruas.
Alicia morou na cidade desde sua infância, conhecia o lugar com a palma de sua mão. E sabia que o local onde tudo aquilo estava acontecendo era na praça pública, lugar esse no qual ela passou maior parte da infância brincando.
Chegando lá viu um cenário de guerra: soldados arquejando, ensanguentados, alguns outros de pé resistiam bravamente aos seus agressores, seres com asas negras que os pressionava impiedosamente.
Um desses alados estava inerte no chão, sem vida. Outro tinha o braço decepado enquanto o terceiro havia levado um corte no olho direito. O espadachim ainda lutava vorazmente mesmo tendo sido acertado com um corte profundo no ombro esquerdo e de raspão na região esquerda do peito.
A guarnição militar sobrevivia com apenas nove dos vinte e nove que ficaram em terra. Estavam mais que fatigados, já haviam ultrapassados seus limites físicos. Suportar até aquele momento era um feito surreal. Os alados também não desistiam; mesmo com alguns membros decepados, continuavam pressionando. Ambos os lados estavam terrivelmente feridos e esgotados, mas nenhum deles retrocedia.
Alicia sentiu seu peito queimar, era medo. Ela não queria morrer e o cenário lhe tirava as esperanças. Seu corpo tremia, suava frio e se arrepiava, não conseguia fugir. Mesmo com medo, ela não conseguia ficar olhando para aqueles homens e não fazer nada. Sua respiração pesava, sua cabeça imaginava inúmeras cenas de filmes que havia assistido, mas isso não era ficção... Era a mais pura realidade.
Ela olhou para os pulsos marcados, o sangue começava a ferver. No primeiro toque que ela fez nos pulsos a luz roxa surgiu, materializando em duas espadas prateadas. Empunhando firmemente as armas, Alicia apenas seguiu seu instinto.
Um dos soldados revidou o golpe da espada do alado com sua faca, logo em seguida contra-atacando com um soco nas costelas feridas do inimigo. Percebendo que o ataque surtiu efeito, tentou uma continuação, mas o alado rapidamente recuou.
Ele ergueu a mão e a aura negra começou a se manifestar. O homem tentou correr para a lateral, mas sua perna vacilou de fadiga, deixando-o aberto para um ataque direto. Seus olhos se arregalaram quando a criatura mostrou um sorriso satisfeito ao perceber que seria o fim do seu inimigo.
—Cao...aaaaaahhhhhhh! – o ser alado urrou em dor.
O soldado estava incrédulo ao ver uma jovem garota empunhando duas espadas e decepando o braço da criatura, salvando sua vida. Num movimento preciso e sem hesitar, Alicia faz sua entrada de forma salvadora. Ela não fazia ideia do que estava fazendo, não sabia de onde vinha as força e precisão para conseguir decepar um braço, muito menos de onde havia tirado coragem para agir daquela forma violenta; seu corpo apenas agia.
Tomado pela fúria, o ser alado tentou lhe decepar a cabeça, mas ela foi rápida e pôs as espadas gêmeas em defesa, interrompendo a investida. Nesse momento, outro alado aproveitou que Alicia estava de costas para lhe atacar sorrateiramente. Um dos soldados percebeu a ação do inimigo e se joga na frente para impedir que a jovem garota fosse atacada. A mão do agressor penetrou o corpo do homem, que cuspiu sangue no mesmo instante.
— Vamos para o inferno juntos, desgraçado — Em suas últimas forças, segurou o braço do alado que ficou impedido de se locomover.
Outro soldado surgiu pelas suas costas e cravou a faca no pescoço do ser de asas negras que caiu ao chão retirando a mão de dentro do seu alvo. O soldado ferido deu um sorriso antes de seu coração parar de bater. Restavam apenas dois alados gravemente feridos, um deles com o braço esquerdo decepado, contra oito soldados e uma garota misteriosa, a vantagem estava a favor da humanidade.
Repentinamente um tremor foi sentido na praça, uma rajada negra abria caminho entre os escombros. Da nuvem de poeira surgia uma mulher alada com olhos melancólicos ao ver o cenário sangrento. Os dois alados abriram um sorriso.
— Nossa comandante chegou... finalmente.
Alicia Parker e os soldados encararam com espanto a mulher ruiva que erguia suas asas negras lentamente ao céu. Os olhos azuis dela foram de encontro aos deles. A alada começou a andar na direção deles enquanto eles ganhavam distância, permanecendo em posição de luta. Eles não iriam aguentar por muito mais tempo, haviam ultrapassado o limite. Tinham que fazer alguma coisa e rápido.
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