Entrelinhas

3 O moleque Joestar


Joseph Joestar teve uma infância normal e uma adolescência tão normal quanto. E normal, para ele, era o extremo da chatice. O garoto nunca pegou, de fato, para estudar. Dono de uma esperteza anormal, ele sempre se virou pela lógica das coisas. Seu histórico escolar nunca foi um dos melhores, o que rendia broncas de Elizabeth e Erina quase toda semana. Mas ele não se importava muito com aprender matemática, inglês e afins. O que lhe atraía mesmo era treinar com o avô e o pai, quando este não estava de serviço para a Rainha. Joseph tinha uma afinidade incrível com o Hamon, o que deixava Jonathan estupefato por levar menos tempo de treino com ele do que com seus filhos.

Quando Joseph completou 16 anos, os pais foram morar na Europa. Elizabeth tornou-se uma Mestra de Hamon graças a Straits e, por ordens dele, foi morar na Itália a fim de ter novos pupilos, dada a idade de seu Mestre. Mesmo treinando Hamon, a idade batia à porta de Straits. Jorge Joestar achou a notícia maravilhosa, pois a esposa poderia estar mais perto dele e seriam visitados pelos pais com uma certa frequência. Por sugestão de Erina, Joseph ficou com os avós em Nova York.

Numa certa tarde, o telefone da residência Joestar tocou. Jonathan correu para atendê-lo:

—Residência Joestar, Jonathan falando. Oh, olá Speedwagon, como vai? Estou ótimo. Você o que?! Mas isso... Certo, certo, eu vou visitar a célula da empresa aqui na cidade e ajudá-lo quando retornar. Certo, certo. Obrigado, até mais.

—Meu bem, o que foi? -Erina deixou o chá sobre a mesa

—O Speedwagon está fazendo uma expedição no México com Straits e a Fundação, e os escavadores encontraram o que parece ser um santuário de Máscaras de Pedra. Ele mesmo vai lá conferir amanhã e, quando estiver de volta, pediu para que eu fosse à Fundação estudar aquilo com ele.

—Isso é ótimo. Só espero que ele tome cuidado.

—O que são Máscaras de Pedra, vô? -Joseph fechou o gibi que estava lendo

—A razão pela qual nosso Hamon é útil. É como se, quem a usa, torna-se vampiro.

—Um vampiro como esses dos quadrinhos?

—Eu acho que sim. Se lembra da história que eu contei pra você dormir quando era mais jovem?

—Sobre o tal Dio Brando? É claro que lembro, adoro a história.

—Eu nunca disse como Dio virou um vampiro. Foi por meio da Máscara que havia na casa do seu bisavô, meu pai.

—E agora o vovô Speedwagon achou uma loja de Máscaras de Pedra?

Jonathan riu ao ouvir "loja de Máscaras de Pedra". O garoto terminou de ler o gibi e foi pegar uma maçã na cozinha. De repente, pegou-se com o olhar perdido no marco da porta e a maçã nas mãos:

—Vó.

—Hmm? -Erina virou o rosto

—Será que ele tá bem?

—Quem seria "ele", meu bem?

—O Speedwagon.

—Você está preocupado com ele? -ela sorriu — Não se preocupe, ele já é um menino grandinho como você e tem a cabeça no lugar.

—Eu acho que a senhora me comparou a um idoso... Assim, um idoso mesmo.

—Eu e seu avô somos idosos, e ainda estamos muito bem.

—Tá, mas... Você gosta de caminhar com o vovô, e ele sabe Hamon.

—Mas abdicou de treinar mais para envelhecer comigo. E isso não foi por falta de chamadas do Straits.

—É uma ideia legal. -Joseph arrancou uma lasca da maçã

—Sabe, JoJo... -o bastão do apelido passara do avô para o neto — A vida é muito boa, se dividida com alguém. É como uma aventura dessas que você me conta que está lendo.

—A senhora tá querendo dizer que eu vou achar uma mulher voadora que tem poderes mentais? -ele coçou o queixo com a maçã

—Não, não foi no sentido fantasioso que eu quis dizer. Talvez não para a sociedade, mas você vai achar uma mulher que fará sua vida ser mais divertida. Quem sabe uma que seja seu completo oposto: que fale pouco e seja tímida. Ela vai fazer você ser um homem melhor do que já é. Eu me orgulho muito de todos os homens Joestar que conheço.

—Mas a senhora só conhece a mim, ao papai e ao vovô.

Ela sorriu, e o fez entender. Mais uma lasca da maçã mordida, e Joseph decidiu caminhar pelas ruas da cidade. Assim que chegou ao portão, deu de cara com o carteiro. Voltou e deixou as cartas com a avó. Conhecera um jovem chamado Smokey por meio de um assalto fracassado, e acabaram se tornando amigos. Mesmo tendo tentado roubá-lo, Joseph sabia que um soco seu destruiria o jovem afrodescendente. Resolveu perdoá-lo e tomar rumo pela cidade com ele:

—Ei Smokey, quer ver uma coisa engraçada?

—O que você vai fazer, JoJo?

—Olha aquela pomba bem ali. E olha a maçã.

Joseph respirou e transmitiu Hamon para o fruto em sua mão. Como um jogador de baseball, ele lançou-a em direção à ave, que rapidamente foi comer os restinhos. Quando seu bico tocou na maçã, ele ficou preso, o que gerou risos dos garotos. Foram ao parque, onde um grupo de garotas estudava geometria sentadas na grama:

—Ei Smokey, tá vendo aquelas belezinhas ali?

—E como estou!

—Olha só, está vendo aquela árvore? -JoJo apontou para a árvore onde as garotas estavam à sombra — Consegue ver o ninho de pássaros? Tem três ovos, e temos três garotas. Entende onde eu quero chegar?

—JoJo, são garotas. Por que azucriná-las?

—Aaaaah Smokey, não seja chato. No fundo no fundo você quer ver os cabelos delas sujos de ovo!

O menor deu-se por vencido, e observou os atos de Joseph. Este arrancou um tufo de grama do chão, envolveu-o com Hamon e atirou em direção ao ninho. O fundo foi cortado pelas folhas de grama que passaram em alta velocidade, deixando os três ovos caírem sobre as garotas. Elas saíram correndo, desesperadas com os uniformes sujos:

—Viu isso, Smo-- Ué, cadê ele?

Nisso, um policial pescou Joseph pela orelha esquerda e o levou ao solo:

—Você está perturbando a paz, meu jovem. Quantos anos tem?

—Ai ai ai ai ai ai ai ai, calma aí cara! Era só brincadeira. Eu tenho 16 -ele mentiu

—Onde você mora?

—A algumas quadras daqui.

—Certo, vamos conversar com seus pais um pouquinho.

Conduzido pelo policial, Joseph foi levado de volta à Residência Joestar. Lá, um calmo Jonathan atendeu o policial e resolveu a situação. Assim que despachou o agente, virou-se para o neto:

—Isso foi deveras oportuno.

—Como assim, vovô?

—Sua mãe nos enviou um telegrama. Arrume suas malas, você está indo para a Itália amanhã.

—Mas por que?! Eu vivo e quero viver em Nova York com você e a vovó. Minha mãe já não decide o que eu faço da vida.

—Ouça JoJo, é hora de conversarmos como usuários de Hamon. Sente-se. -Jonathan riu — Sabe, é bem estranho te chamar de JoJo, sendo um JoJo anterior. Enfim, você precisa treinar o seu Hamon mais do que aquilo que eu pude ensinar. Eu sei muito pouco de Hamon, e ensinei tudo o que sabia a você. Sua mãe foi treinada pelo Straits, ou seja, ela tem mais domínio do que eu. Gostaria de ter tido mais tempo com o Senhor Zeppeli para aprender...

—Mas sério, eu não quero ir. Não dá pra cancelar? Eu quero ficar com vocês. Quem vai cuidar de vocês?

—Não se preocupe, ainda não estamos obsoletos. E eu ainda sei dar uns bons cascudos em qualquer patife que se meta com a sua avó. Ela pode estar velha, mas é a velha mais linda que essa cidade tem.

Sem olhar para a amada, Jonathan sabia que ela estava sorrindo atrás do livro de poesias que estava lendo:

—De qualquer maneira, eu preciso ficar. Nova York é mais legal, e eu sou americano! América pros americanos!

—JoJo. — Erina intercedeu

—Falou comigo? -Jonathan e Joseph responderam ao mesmo tempo

—É ele, querido.

—Qual deles? -mais uma vez

—Jonathan, por Deus, o nosso neto. -ela riu, fechando o livro

—Desculpe... Ainda não me acostumei com isso.

—De qualquer forma, você precisa ir. Se treinar com a sua mãe, poderá nos proteger de verdade quando ficar mais forte.

—Mas o Dio já era, vó. O que eu sei de Hamon é mais que suficiente.

—É, mas... -Jonathan pôs-se de pé e virou para a janela — Parece que o Straits agora é o inimigo.

—Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-Q-QUÊ?! -Joseph quase se pendurou no lustre

—Fui à Fundação agora há pouco, e o Departamento de Comunicação informou que o Speedwagon não respondeu ao chamado. Ou seja, a expedição não foi um completo sucesso.

—M-mas o que te faz pensar no Straits, vovô?

—Elizabeth me confessou numa carta que ele reclamava muito da idade, e chegou a citar o Dio algumas vezes para ela. Acho que ele ficou fascinado com o detalhe da imortalidade em troca da luz do Sol que a Máscara deu ao Dio, e aproveitou que encontraram um lugar cheio delas para se tornar um vampiro.

—Quer dizer que ele matou o vovô Speedwagon?!

—Eu acredito que não... Speedwagon envelheceu, mas ainda é safo. Ele deve ter conseguido fugir de alguma forma. Acredito nele.

—Droga... -o garoto socou a parede — Eu preciso achar o Straits e tirar satisfações com ele o quanto antes.

—Então você decidiu ir para Veneza?

—Irei. E por favor, fiquem bem. Prometo voltar esse ano ainda para morar com vocês.

Jonathan e Erina sorriram. O neto correu para seu quarto e aprontou suas trouxas. Aproveitou a última noite com os avós e dormiu cedo. Assim que amanheceu, foram os três para o aeroporto. Joseph os abraçou, em meio a uma corredeira de lágrimas, e se despediu. O voo logo partira para a Itália.

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Horas mais tarde, o avião chegou ao seu destino. Joseph tomou um táxi para a cidade de Veneza, num endereço dado por seu avô. Chegou a um hotel, onde deveria passar a noite e na manhã seguinte encontraria com a mãe no lobby. Assim que chegou, pagou o taxista e adentrou. Fez o check-in e subiu as escadas. No caminho, trombou com um casal de italianos que descia as escadas em meio a beijos e carícias:

—Dispiaccio.

—Mamma mia, vocês gringos são mesmo mal-educados. -o jovem loiro encarou Joseph por um tempo — Se diz: Mi dispiace.

—Você deveria olhar por onde anda, ao invés de quase engolir a garota na escada.

—Ei ei, não me diga o que fazer no meu país. Muito menos me diga como tratar esta signorina.

O Joestar largou as malas e envolveu a jovem nos braços:

—Não ligue pra ele, garota. Você merece um pouco de liberdade. Prazer, eu sou a Liberdade.

—Ora, seu.

—Opa, sua próxima frase vai ser: "É melhor largar a minha garota, ou vou esmagar os seus miolos!"!

—É melhor largar a minha garota, ou vou esmagar os seus miolos! Hã?! -o loiro pareceu confuso

Ele disparou um soco em direção ao jovem americano, que tocou com Hamon num quadro e o usou como escudo, enquanto segurava a garota no outro braço. O rival pareceu surpreso com a técnica e voltou-se para a posição em que estava:

—Então é você.

—Então sou eu...?

—É, quem a Mestra Lisa Lisa disse pra esperar. Meu nome é Caesar Anthonio Zeppeli, sou discípulo dela e encarregado de te buscar. O seu quarto é do lado do meu, 415. E você é...

—Joestar! Joseph Joestar!

—JoJo, então. Certo, agora dá pra largar a garota?

Descruzaram seus caminhos. Caesar seguiu seu caminho com a garota, e Joseph foi para seu quarto dormir. Algumas horas depois, a porta do quarto foi tocada quatro vezes:

—Tá aberta!

O loiro apareceu, já sem a garota:

—Você já jantou?

—Não. Tô tentando entender o que tá escrito nesse cardápio daqui.

—A comida daqui é horrível, então vamos comer fora. Aproveito pra te mostrar a beleza veneziana.

O americano aceitou. Os dois saíram pelas ruas da cidade bem iluminada e, a cada ponto relevante, Caesar explicava. Passaram por um grupo de garotas, e o loiro as cortejou em sua língua nativa:

Buona sera, belle ragazze. Il mio amico qui oggi è venuto nella nostra città, e ci si sente un po 'soli. Chi di voi accettare passare la notte con JoJo?

As jovens riram entre si e uma loirinha dos olhos azuis foi a escolhida. Joseph a cortejou, tentando arranhar algo em italiano:

—Não precisa, eu entendo seu idioma perfeitamente.

Caesar pescou uma jovem de cabelos ruivos e os quatro foram a um restaurante de massas e frutos do mar. Conversaram, riram e comeram macarrão com frutos do mar. Estranhamente, JoJo se pegava olhando muito para a garota de cabelos dourados. Cortejou-a a noite inteira, e ela lhe dava liberdade para continuar. No final da noite, Caesar abandonou a jovem ruiva e os três seguiram até o hotel. O loiro subiu para seu quarto, deixando os outros dois do lado de fora:

—Foi uma noite legal, pra quem acabou de chegar na cidade.

—Verdade. -ela sorriu — Você é bem educado e gentil.

—E sou bonitão, não sou? Vai, pode dizer.

—Talvez eu diga da próxima vez que nos encontrarmos.

—Opa, então quer dizer que você gostou de um pouquinho de JoJo na sua vida? Eu sabia que meu charme irresistível funcionava até internacionalmente.

—Se você diz... Se quiser me encontrar, tome. -ela entregou um papel com um telefone — É de onde eu moro. -ela se virou e tomou seu rumo

—E eu devo pedir pra falar com quem?

—Com Suzie Q, a assistente. -ela fez careta e disparou a correr

Olhando para o papel, Joseph suspirou:

—Mal cheguei aqui e já tenho um encontro? NICE!

Subiu as escadas e desmaiou em sua cama. Na manhã seguinte, acordou com as batidas na porta. Levantou-se e abriu a porta, ainda esfregando os olhos:

—Bom dia, quem é...?

Lá estava sua mãe, com a mesma cara de sempre:

—Você demorou a acordar.

—Foi mal... Que horas são?

—São 7h30.

—E isso é tarde?!

—É. Você perdeu uma hora do treinamento. Loggins com certeza vai compensar isso quando chegarmos lá.

O americano pescou as malas e seguiu viagem com a mãe e o italiano loiro. Seguiram de barco até uma ilha afastada da cidade, onde havia apenas uma mansão. Não trocaram uma palavra durante o trajeto. No porto, foram recebido por dois homens gêmeos:

—JoJo, este é Loggins, seu tutor. Caesar já conhece, mas também apresento Messina. Eles serão responsáveis pelo treinamento de vocês. Bom, assim que completarem as 8h de treinamento diário, podem entrar na casa. O quarto de vocês é no segundo andar. Caesar, ajude-o com isso.

—Pode deixar, Maestra.

Eliazabeth, agora Lisa Lisa, tomou rumo para dentro da grande fortaleza de pedra que era sua mansão. Caesar e Messina tomaram rumo para um lado, e Loggins indicou para Joseph o rumo que deveriam seguir. Antes que entrasse em campo, o tutor lançou uma máscara de ferro em direção ao rosto do garoto, e esta se prendeu a ele por conta do Hamon:

—Ma-mas o quê?! Eu não consigo respirar direito.

—Ótimo, ela está bem encaixada então. Isto vai ajudar você a melhorar sua respiração e controlar melhor o seu Hamon. Você pode tirá-la para comer e tomar banho, fora isso deve usá-la e será penalizado se for pego sem ela.

—Penalizado por quem?

Loggins estendeu seu dedo indicador e esbanjou um sorriso confiante:

—Por mim, Loggins.