Entre água e sangue

2 Vamos pegar aquele vampiro


A chuva tinha acabado de parar de cair quando a carruagem de Rose e Vincent parou na frente do maior prédio da rua principal, a estalagem e taverna Cálice do Arqueiro. Diferentemente de outras estalagens, que ofereciam quartos comuns e comida barata, o Cálice do Arqueiro oferecia apartamentos individuais, comida de primeira, e atendimento especial o dia todo. Era luxuoso, quase como um castelo.

A chegada deles na cidade foi quase um evento: todos os cidadãos se juntaram para tentar conseguir um olhar do famoso caçador que prometia salvar o local do monstro, e sua companheira, uma jovem cama corajosa o suficiente para acompanhá-lo. A dona da estalagem, uma mulher baixinha e com aparência juvenil chamada Charlotte, nunca tinha visto tantas pessoas querendo um lugar em sua taverna, e recebeu seus novos hóspedes em pessoa, oferecendo seu melhor quarto gratuitamente.

"Me agradeçam quando matarem a fera" ela disse, sorrindo. Charlotte tinha perdido sua própria irmã pela fera, assim como quase todos da cidade. Todo mundo conhecia alguém, um irmão, primo, amigo, que havia sido levado. Todos estavam depositando suas esperanças naquele casal jovem, e recém chegado a cidade, embora muitos os olhassem com cara de dó: todos os caçadores que já tentaram, desapareceram. O vampiro era indomável.

Rose saiu da carruagem com cuidado para não sujar seus pés na lama. A cidade, embora linda, estava mal cuidada, um reflexo de seus cidadãos amedrontados pelo vampiro. Os olhares dos cidadãos caíram sobre ela quando, numa virada, tirou de sua bolsa seu punhal de prata, para colocá-lo no cinto. Era um costume. Em cidades grandes, mesmo seu status de caçadora não parecia afugentar enxeridos, mas a faca na cintura… Isso sim fazia as pessoas se afastarem. Com um sorriso, a garota conseguiu alguns aplausos, e os olhos de algumas mulheres brilharam: sua presença trazia esperança. Ela caminhou em direção a estalagem, distanciando-se da carruagem, e então, Vincent desceu. Desta vez, no lugar de apenas observar, os cidadãos o aplaudiram, ovacionado o jovem como se ele fosse uma estrela teatral se apresentando para seus fãs. Ele tirou a besta da carruagem e a apontou para cima, o que causou uma emoção ainda maior na "platéia". Rose riu. Ela sabia que ele estava adorando seus cinco minutos de fama, mesmo que ela soubesse que não iria durar muito. Eles matariam o vampiro naquela mesma noite, e logo mais iriam partir para o próximo caso.

O casal adentrou a estalagem, conseguindo se livrar do amontoado de pessoas querendo os ver, e logo mais os funcionários trouxeram suas malas. Poucas delas continham roupas. A maioria estava cheia de armas dos mais diferentes tipos, algo que Rose demorou a se acostumar. Eles esperaram as malas a serem levadas para o quarto, e então Charlotte os acompanhou até a porta.

Assim que entraram no quarto, ou melhor, apartamento oferecido por Charlotte, Rose soltou um suspiro: o local, enorme, era composto por um banheiro luxuoso, um quarto enorme com uma cama grande, lustres de cristais… E a sala de estar, onde ela entrou… Ela mal conseguia conter sua empolgação: livros, de todos os tipos, assuntos, idades, por todas as paredes, e uma grande mesa onde poderiam revisar o plano de captura, além da lareira e poltronas.

Assim que desfizeram suas malas e tiveram tempo para apreciar o quarto, o jantar foi anunciado. Um grande banquete havia sido preparado em homenagem a chegada dos dois corajosos que acabariam com o vampiro, e então é claro que Vincent não poderia perder a oportunidade de se sentir a estrela do show.

Todos os nobres, ricos e influentes da cidade compareceram, querendo prestigiar o tal caçador e sua acompanhante. Charlotte estava quase sobrecarregada com a quantidade de pessoas, e fez questão de agradecer aos novos hóspedes por trazer tantos clientes.

A mesa foi posta, e o casal se sentou em tronos, quase como se fossem reis. Todos os presentes queriam apertar a mão de Vincent, ou elogiar Rose, ou os dois. A música animou o jantar, e em suas pausas, Vincent se gabava de seu histórico de caçador.

Eles estavam sendo tratados como celebridades, e ainda nem tinham feito nada.

Ao fim do jantar, o casal subiu ao quarto, para começar a discutir como fariam para atacar o vampiro.

“É incrível,” Rose disse, ao se sentar na poltrona da sala de estar, “eles nos tratam como heróis e nem fizemos nada!”

“Rose, querida.” Ele a olhou de cima a baixo, fechando a porta. “Eles me tratam como herói porque eu sou um herói. Mas agora, deixe de besteira, e vamos resolver isso logo. Você já sabe o que fazer, o nosso plano?”

“É óbvio. Vamos fazer como sempre. Eu vou me vestir como uma camponesa, caminhar perdida pela floresta, e esperar ser atacada. No meio tempo, você atrás de mim espera o vampiro aparecer para abate-lo”

“exatamente, querida. Vamos esperar a Lua subir mais ao céu e você pode sair. Agora, vá se arrumar”. Vincent se virou, e andou até o quarto para separar suas armas.

Rose então seguiu suas ordens, separando suas roupas e caminhando até o banheiro. Lá, ela tomou um banho demorado, para esperar o tempo passar, e se vestiu: um vestido simples, branco e esvoaçante, e sapatos confortáveis para a longa caminhada. Seus cabelos, agora trançados, caiam pelas costas da garota. Ela parecia frágil, inocente. Talvez até fosse, pensou. Mas o seu cinto de prata, um chicote disfarçado, e a faca escondida em suas pernas lhe diziam o contrário.

Quando o relógio bateu nove horas, ela pegou uma cesta, onde escondeu um segundo punhal, e se dirigiu em direção a floresta, para colher flores, ou ao menos, fingir que estava as colhendo.

O plano era perfeito, nunca tinha falhado: enquanto o vampiro se distraia com sua possível presa, uma garotinha provavelmente perdida, caçador o atacava pelas costas, e se não conseguisse, Rose era rápida o suficiente para cortar sua garganta com seu punhal. Em menos de uma hora, estariam de volta na estalagem descansando, para no dia seguinte receber a recompensa e partir para a próxima cidade.

A garota adentrou a floresta, que ficava logo atrás do Cálice do Arqueiro. Era linda, outrora. As árvores altas, e arbustos com flores por todos os cantos. Mas agora, era apenas um lugar sem saída para os que entrassem. Nem mesmo os animais ousavam fazer barulho.

A Lua, cheia, iluminava a floresta de uma maneira que a garota nunca havia visto. As flores cintilavam, com as gotas da recente chuva brilhando como cristal ao refletir a luz, e a terra macia e molhada amortecia seus passos lentos. Rose caminhou, adentrando a mata e apreciando toda a beleza do local. De tempos em tempos, abaixava-se rapidamente para colher algumas flores, para dar a impressão de que havia motivos para estar na floresta a tal horário.

Uma rosa vermelha lhe chamou atenção. Coincidindo com seu nome, Rose, rosas eram suas flores preferidas, e aquela parecia mágica, com um brilho quase hipnotizante. Não era o objetivo da garota colher flores, embora o estivesse fazendo, e ela nem gostaria de arrancar uma rosa tão bonita, mas se sentiu atraída a segurá-la nas mãos, como se a flor a chamasse.

Ela se ajoelhou, pondo as mãos em torno da flor e a cheirando profundamente. Era bela, e delicada, seu vermelho sangue brilhando ainda mais com a luz da lua. Mas seus espinhos, escondidos pelas folhas, estavam lá, prestes a machucar quem tentasse destruí-la… O farfalhar das folhas a distraíu.

“Vincent..?” A garota falou, mas mal conseguiu terminar a frase, e caiu no chão, apagada. Uma figura envolta nas sombras parou em cima dela, a observando, e gentilmente a pegou no colo, como se Rose estivesse apenas dormindo. Ele havia dado uma pancada na cabeça da garota, o que havia feito ela desmaiar. Ele teria apreciado mais o olhar de sua vítima, se o barulho das botas na terra molhada, correndo em sua direção, não tivessem chamado sua atenção.

Vincent apontou sua besta ao vampiro, mas com medo de machucar Rose, não atirou. Ele estava sozinho, e sua amada estava no colo de um daqueles monstros asquerosos. Pela primeira vez, Vincent não sabia o que fazer. O vampiro, que mesmo com a garota no colo foi mais rápido que ele, se afastou, montando em um cavalo negro como a noite que parecia ter se materializado no ar, e fugindo em direção a mansão.

Quando finalmente voltou a si, a garota não fazia ideia de quanto tempo havia se passado. Abriu os olhos lentamente, olhando para baixo. Suas roupas estavam sujas, mas inteiras e sem sangue, e tirando a leve dor de cabeça, não havia mais nenhum sinal de que havia sido machucada. Enquanto sua consciência e sentidos iam voltando, percebeu que estava acorrentada a parede pelas mãos, em algo que parecia um calabouço. Rose tremia, mas sabia que se estava viva, o vampiro queria algo dela. Ela sentiu seu punhal em suas pernas, embora o cinto tivesse sido removido. Era mais um sinal de que ela não havia sido tocada, além da pancada.

Rose juntou forças para levantar a cabeça, e a sua frente, encontrava-se o próprio. O vampiro estava sentado numa poltrona vermelho-escuro, e parecia encará-la profundamente. Seus olhos, curiosos, a penetravam, suas íris roxas brilhando, e trazendo ainda mais um ar místico para a cena. Era assustador. Com um sorriso de lado, ao notar que a garota acordou, apenas mudou de posição na cadeira, praticamente deitando nela, e apoiando o queixo em sua mão, sem fazer nenhum som além de sua respiração.

“Por… favor, me solte…” Rose sussurrou, implorando. Ele apenas soltou o ar, como quem estivesse rindo da cara dela, e se manteve em silêncio.

Lágrimas começaram a escorrer do rosto da garota, enquanto ela implorava para ser solta. Ela estava aterrorizada. Nunca antes tinha visto um vampiro como aquele. Geralmente, os monstros se apresentavam como seres sujos, fracos e magros, com a pele pálida por não sair ao sol e os olhos vermelhos, sedentos de sangue. Este, não. Sua pele era pálida, porém escura, e ele era forte, tanto quanto Vincent. Sua roupas, no lugar dos trapos de sempre, eram da mais alta qualidade, coisas que nem ela e Vincent conseguiriam bancar.

O vampiro continuava parado, a encarando, como se esperasse algo a mais dela além do choro. Apesar disso, não falava, nem se mexia.

O tempo se passou, e Rose, fraca, desistiu de implorar. Ela sabia que ele não faria nada, além de rir do sofrimento dela. Mas então, era pra isso que a queria? Tortura-la, vê-la sofrer, até que então, quando estivesse desistindo da vida, fosse matá-la? O vampiro, então, ficou em silêncio, como se tivesse parado de respirar. Com um último olhar, se levantou da poltrona, retirando-se da masmorra por uma escada que parecia ser longa, mas não que a garota conseguisse ver muito além dos primeiros degraus.

Ela voltou a chorar quase imediatamente, sem conseguir imaginar como escaparia. Ela estava presa pelos braços, mas não havia ninguém a vigiando, e quem sabe ela conseguisse alcançar o punhal…

Vincent adentrou o lugar, gritando por Rose, e a encontrou no chão, se contorcendo para escapar, a apenas alguns metros das chaves de suas algemas. Ele a pegou no colo, e decidiu voltar para a estalagem, pois por mais que quisesse esperar o vampiro para matá-lo, ele sabia que a garota estava fraca demais. Ela não aguentaria muito mais tempo sem comida, haviam passado-se horas, e ela precisava descansar. Rose desmaiou antes mesmo de sair da mansão.

A luz do sol entrou pela janela do quarto, iluminando o rosto de Rose e a acordando. Ela mal conseguia se lembrar de sair da mansão, e agora estava em seu quarto, dormindo com roupas limpas e confortáveis. Vincent se encontrava sentado numa poltrona ao lado da cama, lendo.

“Você foi imprudente.” Ele inclinou-se para frente, sem nem tirar os olhos do livro. “Podia ter morrido. E me impediu de capturá-lo. Por sorte, conseguimos voltar, e os cidadãos daqui não acham que sou uma fraude.”

“Eu não… Eu… Você sabe,” ela sentou na cama, “não foi minha culpa, eu não o vi nem o ouvi, ele veio por trás e eu só…”

“Se distraiu. Para variar. Da próxima vez, se preocupe menos com flores e mais com sanguessugas imundos.”

“Mas… Está bem.”

Vincent levantou, e com passos pesados e rápidos se moveu até a mesa, apoiando-se sobre papéis.

“Enquanto dormia, aprimorei nossa tática. Hoje a noite tentaremos de novo, e você, tente não ser tão inocente, querida.”

“Vincent, me perdoe, tudo bem? Eu sei que me distraí mas…” A garota levantou-se da cama e o seguiu, o abraçando por trás. “Não se preocupe, meu amor. Vamos fazer diferente hoje, e vamos pegar aquele vampiro desgraçado.”