Entre o rio
31 Reencontro
Notas iniciais
Recuperar a memória foi um divisor de águas importante, mas sei que tenho uma longa jornada pela frente até retomar a habena da minha vida de verdade. Também sei qual o próximo passo para isso.
Preciso vê-la. Reencontrá-la. Dizer que sinto muito. Que não se culpe mais. Nunca foi sua culpa. E agora eu voltei. Nunca estive morto.
Venço os degraus da varanda. Alcanço sua porta. Toco a campainha. Bato com urgência.
Certa irritação paira em seu rosto surpreso. Quero me desculpar pela insistência, mas estou concentrado demais em seu delicado vestido de noiva.
Sei que Angela está para se casar, mas é de outra coisa que lembro agora. Certa vez, durante uma brincadeira, perguntei se casaria comigo quando crescêssemos. Rindo, ela afirmou que sim.
— O que aconteceu com você?
A preocupação mistura-se com a confusão em seu semblante.
— Você. E o rio.
— Como assim?
Estou um caco. Resultado da empreitada que me trouxe até aqui.
— Está vazio, anjinha. O caixão. E eu lembrei de tudo. Tudo.
O antigo apelido. Seu olhar oscila. Encara-me perplexa. Aos poucos, a incredulidade é vencida.
— Daniel?
Sem pensar duas vezes, puxo-a para um forte abraço. Angela corresponde com a mesma emoção.
— Sou eu.
FIM
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