Entre o céu e o inferno
1 Elon e Eloísa
Notas iniciais
??” Vamos ser para sempre seres invisíveis, pai?
??” Acho que sim... Não vejo uma maneira de nascermos com um corpo.
??” Mas os bichos encarnados também possuem espíritos! E nascem para transar, ter filhos, e povoar os mundos. O universo é deles. Enquanto nós, só temos a massa negra para viver. Por que isso, pai?
??” Porque somos muito mais velhos do que o Universo vivente. Nossos ancestrais viraram espíritos logo após a grande explosão. Eles presenciaram o nascimento de cada estrela, de cada planeta e de cada Galáxia existente. Os animais surgiram depois, pois eles são filhos da terra, do pó, enquanto nós somos filhos do vento e dos raios. Somos como luzes viventes.
Muito antes da formação da Via Láctea e do Sistema Solar, quando as primeiras espécies habitavam os planetas mais velhos da criação, milhares de anjos contemplavam extasiados os milagres da natureza desde o lado invisível. Almas que voavam entre os mundos silvícolas, trafegando entre cavalinhos pequeninos, ou, correndo atrás de bestas maiores, como os mamutes gigantes. Esses anjos riam, davam gargalhadas, e tinham os que cantavam deslumbrados com a maravilhosa beleza terrestre.
Elon, um anjo muito velho, conversava com seu pai sobre o destino de todos os espíritos como eles:
— Vamos ser para sempre seres invisíveis, pai?
— Acho que sim... Não vejo uma maneira de nascermos com um corpo.
— Mas os bichos encarnados também possuem espíritos! E nascem para transar, ter filhos, e povoar os mundos. O universo é deles. Enquanto nós, só temos a massa negra para viver. Por que isso, pai?
— Porque somos muito mais velhos do que o Universo vivente. Nossos ancestrais viraram espíritos logo após a grande explosão. Eles presenciaram o nascimento de cada estrela, de cada planeta e de cada Galáxia existente. Os animais surgiram depois, pois eles são filhos da terra, do pó, enquanto nós somos filhos do vento e dos raios. Somos como luzes viventes.
— Então os bichos nasceram com mais vantagens... São donos do prazer em forma dupla: orgasmos e paternidade. Deve ser lindo ter um recém-nascido no colinho...
— Mas nós também podemos amar! Custa trazer filhos, isso sim... E eu só tive você, e tenho amigos que nunca tiveram um anjinho...
— E eu acho que também nunca serei pai... Faz um milhão de anos que estou tentando fazer um gurizotinho, e nada...
— Mas com quantas mulheres-anjos?
— Perdi a conta, pai...
— Então, é porque está faltando o principal. O amor eterno! Eu sou apaixonado pela sua mãe faz 6 milhões de anos e nunca tive outra mulher... Aposte no amor verdadeiro, filho... Se arrisque no amor interminável e único. Apaixone-se de verdade.
— Vou tentar... Estou de olho na Eloísa...
— Hum... Acredito que achou sua alma-gêmea verdadeira, pois serão Elon e Eloísa. Eu sou Páris e sua mãe se chama Parizete. Não faz sentido?
E pai e filho riram abraçados por longo tempo, enquanto olhavam para uma nebulosa que estava formando-se na última dimensão universal.
Elon e Eloísa começaram seu namoro estendidos sobre a grama de um planeta com criaturas magníficas, e uma paisagem afrodisíaca que convidava ao chamego. Vislumbravam-se montanhas gigantes com neve caindo pelas encostas, peixes coloridos nadando eufóricos pelas águas dos rios caudalosos, aves berrando com seus bicos abertos atrás dos peixinhos, e mamíferos dispersos, aos milhares. Havia cavalos brancos extraordinários, elegantes leões de juba vermelha, girafas, pois até em meio dos desertos existia vida. Serpentes se alastravam atrás de um coelho, ou desenterravam ovos de alguns lagartos, e ratos corriam para suas tocas fugindo de aves de rapina, que os pegavam no voo com suas garras poderosas.
Eloísa estendeu-se por cima de um capim alto com os braços para cima, enquanto Elon descia para beijá-la. Uma sensação de eletricidade os chacoalhou, elevou-se pela coluna, chegando à cabeça, e o exstasses fixou-se por tanto tempo, que quando se afastaram estavam tontos. Bêbados. E riram alto, pois o amor verdadeiro era assim mesmo, como magia universal, que penetrava neles para fazê-los felizes.
O desejo e a paixão avassaladora de Elon e sua amada redobraram logo. Parecia que a fria essência dos corpos ficara quente, e um anseio de praticar “aquilo” pela eternidade pareceu-lhes a coisa mais certa de se praticar.
Elon pulou por cima de um elefante que passava junto e sentou com firmeza. Pegou a mão de Eloísa e puxou-a no ar. Ela abancou de frente para ele, e em pouco tempo formavam novamente um corpo só, grudados numa corrente sem fim, enquanto balançavam no lombo desse animal.
Depois vestiram suas vestes luminosas e iniciaram um giro ao redor do Universo. Como numa viagem de Lua de mel. Visitaram asteroides estéreis, de rochas sólidas e incandescentes, navegaram junto aos cometas, deitados sobre o rabo brilhante, e assentaram nas massas abrasadoras de muitas estrelas. Seus espíritos ardiam com o calor do Sol. Mergulhavam no magma, nadavam, e saíam das chamas para o sexo candente. Elon conseguia voar pelo espaço infinito e beijar ao mesmo tempo. Eloísa se abraçava nele de braços e pernas, abria a boca para um beijo de muitos anos, e viajavam na escuridão, com movimentos ondulantes, sem cansaço, nem sequer cochilar, até chegado o momento de cair em algum planeta qual meteorito candente. Até parecia que nadavam no ar.
De vez em quando o Conselho Cármico os chamava para trabalhar.
Recebiam uma cesta de sementes de capim selvagem, e eles partiam numa viagem milenar a distribuir os grãos em mundos que começavam a esfriar. Procuravam os lugares apropriados e semeavam. Depois saíam em busca de água. Geralmente encontravam gelo em alguma Lua, ou asteroide errante. Cortavam gelo o com um raio de energia que saía dos olhos, qual faca afiada. Em seguida amarravam um a um os blocos com uma corda fluídica. Carregavam quais escravos através da imensidão. Elon deixava a carga no Polo Norte enquanto Eloísa deixava o carregamento no Polo Sul. Era como guardar água para a eternidade desse planeta.
E esperavam pacientemente, que rios fininhos nascessem das geleiras para depois descerem pelas quebradas se alastrando como cobras cristalinas, umedecendo o chão escaldante para o verde nascer. Imediatamente o vapor tomava conta, refrescando o ar. Vapor que Elon assoprava para descer e encostar-se no chão. Heloísa tecia uma fina camada de energia sobre o vapor, qual cúpula translúcida, pois essas gotículas eram primordiais para o milagre da vida.
Quando o capim começava a brotar, era uma alegria só. Esse mato primitivo começava a exalar oxigênio, mais vapor de água, e o milagre da vida florescia como mágica. E, finalmente, as nuvens aumentavam, subiam para formar a camada de ozônio, essencial para iniciar a vida de seres mais sofisticados. Depois era tudo rotina, pois as primeiras nuvens despencavam como chuva torrencial para molhar o capim. O verde crescia mais alto, com samambaias e xaxins gigantes, exalando mais vapor, enquanto Elon e Eloísa se dedicavam a aumentar o tamanho da zona verde. Recolhiam sementes das plantinhas, sopravam-nas para longe, e mexiam com as nuvens para regar as novas mudas miudinhas.
E enquanto o matagal se multiplicava com passos lentos, eles rolavam sobre o chão rindo, gargalhando, fazendo amor pela eternidade. Eloísa recebia seu amor, que a beijava com apetite sem fim, sem nunca adivinhar quando esse chamego terminar, pois isso era sempre uma incógnita.
E a vida de ambos começou a se alastrar lentamente, pois fazer surgir a vida num planeta levava milênios, e a missão de ambos só terminava quando o mundo era um vergel visto desde o espaço, com rios, mares, e as primeiras minhocas rastejando e cavando buracos para arejar o chão. Desta feita viram nascerem bichinhos alados, rasteiros, e vir ao mundo peixes nos mares de muitos mundos. Ajudaram a esfriar planetas ardentes e fizeram os mais belos jardins de flores nos planetas aos quais lhes deram a vida.
A única felicidade que nunca tiveram foi o nascimento de um anjinho cor de rosa. Embora eles estivessem grudados por milênios a fio, o sonho de ter um filho nunca se realizou.
Olhando para o cruzamento de uns porcos, que grunhiam enquanto se mordiam nos momentos do prazer maior, Elon teve uma inspiração.
— Gostaria de nascer como uma porca? Só uma vez?
— Mas, eu seria estuprada como um animal...
— Prometo que vou ser delicado...
E em seguida Elon deu-lhe uma dentada forte no pescoço, em seguida lambuzou suas costas enquanto Eloísa pensava se entraria a fazer parte dessa loucura, nascer gorda, com 4 patas curtas.
— E daí? Gostou das minhas lambidas? Essa boca de porco não vai dar para beijar...
Eloísa riu alto desta vez, mas aceitou nascer como uma besta peluda. Elon então falou-lhe, sempre rindo:
— Então venha para cá, minha porca feia... Fedorenta... Briguenta...
E desta vez eles se amaram entre gritos, mordidas, brincando e dando-se coragem mútua para a loucura que iriam encarar.
Numa corrida veloz, Eloísa entrou no ventre de uma porca que passava por um orgasmo, já fazia uma hora, e Elon entrou na barriga de outra porca que terminava de cair exausta ao chão, depois de um cruzamento de duas horas seguidas.
E um dia, Elon e Eloísa nasceram com um corpo, e conheceram o deleite da gula. Delícia! Mamaram agarrados às tetas das mães, quando bebezinhos, e engoliram gulosamente frutas deliciosas quando adolescentes. Além de comer como porcos, também corriam sobre a terra com os irmãos porcos, rolavam pelas encostas cheias de pó, se lambuzavam na lama, tomavam banho de rio, e um dia, finalmente começaram a se cruzar. E Eloísa aguentava firmes os 100 quilos de banha de Elon por cima dela. Suavam, tremiam, corriam a se refrescar no rio, e comiam esfomeados para voltar à carga. Era uma vida de duas coisas, amor a toda hora e comida. Delícia! Era um verdadeiro paraíso terreno.
Durante uma vida de 200 anos, eles tiveram mais ou menos uns dois mil duzentos filhos-porcos. E esses seus filhos herdaram deles a inteligência, o espírito de luz, a energia vital, e formaram casais unidos pelos laços invisíveis do amor.
Abrolhara em meio da imensidão uma nova espécie universal, que com decorrer dos milênios perderam pouco a pouco as características das bestas. Em cada geração de 100 em 100 anos, nascia uma raça diferente, mais inteligente, com menos pelos no corpo, boca sem focinho, nariz humano, cabelos longos na cabeça, mais parecidos aos anjos e cada vez menos iguais aos porcos selvagens.
Elon e Eloísa viram com emoção, seus descendentes levantando as casas de paus firmes para se abrigarem das chuvas, semear a terra para ter o trigo, e tecer fibras vegetais para as primeiras roupas que os protegeriam do frio. Afinal, com menos graça na pele, magros, sem pelos no corpo, o frio os castigava cruelmente desta vez.
Mas, o que os derretia de verdade, era que esses primeiros homens da criação só possuíam um vício, se acasalarem eternamente, sem períodos de cio, pois era cio o tempo todo. A toda hora, e em todo lugar.
Notas finais
E um dia, Elon e Eloísa nasceram com um corpo, e conheceram o deleite da gula. Delícia! Mamaram agarrados às tetas das mães, quando bebezinhos, e engoliram gulosamente frutas deliciosas quando adolescentes. Além de comer como porcos, também corriam sobre a terra com os irmãos porcos, rolavam pelas encostas cheias de pó, se lambuzavam na lama, tomavam banho de rio, e um dia, finalmente começaram a se cruzar.
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