Entre o céu e o inferno
4 Rebelião no Inferno
Notas iniciais
No ano primeiro de nossa história, na vida espiritual, após a morte de Jesus, houve uma festa de comemoração no mundo das trevas. A maldade triunfara sobre o amor, e o único salvador da humanidade estava crucificado, morto, sepultado, e em pouco tempo ninguém mais se lembraria do sujeitinho audacioso.
Três mil anjos haviam chegado à Terra, e estavam recenseando as almas boas, alinhando-as numa fileira gigante, para removê-las para outras Dimensões Universais, melhores do que a sociedade dessa época. Mundos sem mais torturas, nem guerras, e sem soldados para dominar povos indefesos. Portanto, a Terra ficaria sob os domínios dos senhores das trevas por tempo indeterminado. Dos espíritos do mal, que fariam dos homens seus escravos eternos.
E para homenagear o trunfo, Satã reuniu todos os líderes das gloriosas lutas em Roma. Abraçou Belfegor, o deus da luxúria, Abador, o rei dos homicidas, Mamon, o príncipe da avareza, além de Moloc, Belial, Baalgad e Astarot. Fez um breve discurso, narrando com detalhes as proezas de cada um, e cada vez que o nome de alguém era gritado com euforia, o responsável se erguia, levantava os braços como um campeão, e os capetas iam aos delírios com gritos e aplausos.
Calígula foi um dos mais festejados. Além dele, Herodes foi aplaudido com admiração. Nero recebeu muitos elogios, e Messalina, a mulher mais bela do Inferno, foi condecorada como a “Rainha da maldade”. Uma honra disputada por muitas.
Depois aconteceu o bacanal de sempre. Damas nuas, dançando, provocando os demônios num bailado cheio de luxúria e sensualidade. Pouco a pouco, os homens se isolaram com suas mulheres, e algumas damas como Messalina deitaram em sofás macios, entre uma turma máscula, todos disputando a gritos pelo seu belo corpo e seus beijos ardentes.
Satã contemplava tudo com orgulho. Só havia gente linda nos domínios do Averno. As mais belas prostitutas de Roma estavam ali. E os soldados romanos eram belíssimos e os homens mais fortes, cheios de musculatura, verdadeiras esculturas humanas durante a vida. Afinal, nos domínios do Inferno, não entrava nenhum espírito feio, ou com dores físicas. Quem morria na agonia, ficava detido nos portões externos, pois se havia alguma coisa em que Satã era firme era que nenhum deformado, ou feioso, podia entrar nos seus domínios. Por esse motivo, os demônios eram os homens mais sedutores da terra, e de corpos fortes, para torturar com eficácia suas vítimas.
Num outro lugar do céu, bem longe do Inferno, onde estavam as almas iluminadas, 3.000 anjos estavam esgotados, chateados, num trabalho insano. Haviam terminado de evacuar 800.000 espíritos para mundos superiores, e Remígio, um Santo da Terra, estava levando o último comboio para um lugar do Cosmos. Afazer que Remígio recebera, assim que ele morrera.
Os anjos também tiveram que preencher as vagas deixadas por essas almas boas que se foram. E dispersaram-se em busca de seres de outros mundos, em outros planetas próximos da Via Láctea. Mas essa missão fora como buscar ouro, em meio de pedras. Em todos os planetas vizinhos da Terra, só havia seres muito atrasados, com inteligências baixíssimas, quase idiotas, e pessoas ruins. A Sexta Dimensão, o endereço universal da Via Láctea, só tinha gente má. E os anjos escolheram os menos agressivos, os menos ladrões, os menos infiéis, e enfileiravam-nos com destino à Terra.
Mas um dia, depois de preencher as vagas, os anjos também se foram. Ficaram na Terra para marcar as datas de nascimento, só alguns anjinhos de luz. Jovens anjos, que deviam fazer trabalhos voluntários e preparatórios, em mundos como a Terra. Ou seja, o trabalho dos anjos justiceiros estava acabado desta vez. Só voltariam ao batente quando um novo ciclo astrológico começasse, ou seja, no início da Era de Aquário.
Quando Remígio regressou de sua viagem, só encontrou uma dúzia de amigos como ele, que se negaram a partir. Amotinados que brigaram com os Anjos cara a cara, e que ficaram, por rebeldia, exilados temporariamente na Lua.
Estavam Ador e sua mulher Aurora, com os filhos Osíris e Salina, e os Santos Adelaide, Dalmácio, Abílio, Benildo, Marçal, Rosalina, Demétria, Gotardo, Gaudência, Calínica, Gianna, Caemon e Cassiano. Até Jesus partira, pois sequer um apóstolo conseguira ficar.
E Remígio juntou-se aos amigos, que discutiam há muito tempo, o que é que fariam sozinhos dali em diante. Eles eram os únicos espíritos luminosos que restaram no mundo. Em terra, havia mais uns 47 encarnados, que poderiam ser chamados a se unir ao grupo depois da morte. No total, seriam 65 criaturas de luz, contra mais de um milhão de adversários. Homens das trevas. Criaturas dispostas a torturá-los sem pena, vida após vida.
O primeiro a dar um palpite foi Gotardo. O mundo das trevas governaria a Terra através da ditadura religiosa, pois os anjos haviam vaticinado que se iniciaria o reinado dos reis cristãos. Eles seriam conhecidos como Papas. Então, havia que entrar nos santuários, e dividir o poder eclesiástico. Aquinhoar sempre. Combatê-los dentro de templos, ou o que fosse. E aguentar no couro, pois iam ser perseguidos como ratos.
Já Ador achava que se podiam infiltrar entre os penitentes, os espíritos desprezados por Satã. Construiriam uma Casa de saúde para atendê-los, sarar suas dores, e os conquistar para o lado da luz. Um terço da humanidade era composto de pobres coitados. Malvados, mas com uma estrela no olhar. Ainda havia salvação para eles. Poderiam se converter em pessoas boas, num longo trabalho de aconselhamentos, conversas e educação.
Mas, Salina, filha de Ador e Aurora, teve uma ideia mais ousada. Conquistar um demônio chefe para o lado deles. O pior de todos, Belzebu, o “Deus dos desejos impuros”. Dessa forma o Inferno ficaria dividido. Enfraquecido. E ela se candidatava a fazer isso. Belzebu não resistia a sua beleza. Já tinham sido amantes, pois ele a estuprara cada vez que cruzaram durante as muitas vidas vividas. E antes de Ador dar um berro, ou Aurora começar a chorar, ou seu irmão Osíris dar-lhe um tabefe na cara, Salina pediu votação para aprovar seu plano, falando alto e levantando o braço como uma guerreira.
Remígio pediu uma trégua, para cada um raciocinar sobre o assunto. Afinal, quando Salina fora Helena, Belzebu saiu atrás dela que nem demônio, e fez uma guerra contra os troianos para trazê-la de volta. O homem era louco por ela. A estratégia era boa e Salina sabia se cuidar. Era uma ótima lutadora.
E na votação, quem ficou contra o plano de Salina foi apenas sua família. Todos os outros Santos aprovaram sua ideia.
Osíris acompanhou sua louca irmã, em seu plano sinistro. Tomou-a pela mão, e viajaram para as profundezas da Terra em busca do Averno.
O primeiro lugar que descobriram foi o corredor das almas penadas. Sofredoras. Era um mar humano com gente estendida no chão, chorando as dores da morte e a desgraça das vidas passadas. Algumas estavam enterradas na lama até o pescoço. Teve vezes que tiveram que colocar o pé, por cima das cabeças, pois eram tantas que não havia espaço entre elas.
Finalmente chegaram aos precipícios do Inferno.
Osíris procurou uma árvore de raízes fortes, e foi descendo como um campeão numa corda firme. A seguir fez buracos com um machado, virado de cabeça para baixo, como artista de circo, para Salina descer enterrando os pés e fincado os dedos nas paredes escorregadias.
Quando atingiram o chão, perceberam almas diferentes. Haviam desfigurados, corcundas, cegos, sentados em redor de fumaças que saíam do chão, desprezados por Satã, e desamparados pelos anjinhos de luz. Eles não sabiam sequer o que é que eles eram. Bons? Ruins? Afinal, ninguém os recebia.
Como as almas de Aurora e Osíris brilhavam como luzes, eles se ajoelharam pedindo “clemência”. E Osíris aproveitou para falar que levaria a todos para cima no seu caminho de regresso, mas primeiro necessitava que lhe mostrassem onde estava a entrada do Inferno. E os homens os guiaram, descendo por estreitos corredores entre rochas, as quais possuíam curvas sinuosas para despistar espíritos como eles. Quando chegaram em frente ao portão, Osíris preferiu a grosseria. Tomou impulso, correu e voou pelo ar, e caiu com todo peso que era possível contra a porta. E todo o esplendor do “mundo das trevas” ficou na sua frente, mostrando um mundo vermelho, iluminado com candelabros nas paredes, e com aveludados tapetes negros esparzidos em todo lugar.
Como os espíritos de luz são inatingíveis durante a morte, Osíris cruzou a entrada principal até chegar à frente de Satã, e lhe falou suavemente enquanto se ajoelhava aos seus pés. Trazia como oferenda para Satã sua irmã, pois ele reconhecia que a Terra seria seu reino dali em diante. Um reconhecimento dele e seus amigos ao poder soberano de Satã.
A seguir levantou-se, deu-lhe as costas, e saiu se odiando a si mesmo, pois deixar sua irmãzinha naquele antro de perdição era a coisa mais doida que fez através dos milênios.
À medida que saía desse inferno, algumas mulheres tentaram ir com ele, pois Osíris era um dos homens mais belos da Terra. Sorriu com ele mesmo. Virou-se para encarar Satã, e perguntou:- posso levá-las comigo? E Satã lhe disse: — Não, e eu nem gosto de tua irmã. Então vou fazer um leilão com ela. E se ninguém a quer vai ser enviada de volta.
Mas Osíris sentiu Belzebu chegando à corrida, e gritando forte, para todos ouvirem: — Se alguém tocar nela, eu o mato. E a seguir, ele carregou-a nos braços, com destino desconhecido.
A confusão estava armada.
Enquanto Osíris se retirava contendo um sorriso, as esposas de Belzebu correram a reclamar para Satã, pois isso não estava dentro dos códigos de honra do Inferno. Nenhum espírito de luz podia entrar ali. E para acalmar os ânimos, Satã lhes deu permissão para sair a dar um passeio, em busca de outros machos. Lá fora estava cheio de homens. Podiam escolher 10 para cada uma, e trazer para dentro.
Enquanto isso, num beco escuro entre as rochas, Salina foi amarrada nas mãos e pernas, para uma tortura sem fim. Belzebu deu-lhe mordidas no corpo qual canibal, afinal, os demônios se excitavam na brutalidade. No estupro. Na dor das vítimas. Havia que aguentar. Durante o estupro ele enterrou os dentes no pescoço, como um vampiro, depois lhe deu uma tapa na cara, mais um soco nas nádegas, sempre apertando com mãos ávidas, e mordendo-a com sadismo.nEla desmaiou. E ele continuou no estupro, pois era um macho que demorava em apagar seu apetite libidinoso.
Salina acordou deitada de costas, numa pedra dura, com Belzebu dormindo por cima dela. Estava toda machucada. Mas, mesmo assim, ela acariciou os seus cabelos, como um bebezinho, e assim que acordou ela beijou-o na boca, e abraçou-o firme com os braços ao pescoço. Belzebu a estuprou mais uma vez, até desmaiar cansado sobre seu corpo. E novamente ela continuou a o acaricia-lo, beijá-lo, com toda a doçura que se afaga um filho.
Enquanto Belzebu desfrutava de uma lua de mel diferente com Salina, a vida do Inferno continuou a transcorrer na desarmonia de sempre. Bacanais, algumas brigas de ciúmes, e o descontentamento geral dos homens, pois Belzebu ainda não oferecia a mulher aos amigos, para desfrute geral, como era o costume nesse lugar. Para cúmulo, ninguém sabia onde eles estavam escondidos.
Depois de 20 anos transcorridos, uns anjinhos vieram buscar Salina para nascer de novo. E ela desceu para a terra, enviando um beijinho no ar ao seu amante, que nunca a deixou sozinha nesse tempo todo.
E Belzebu nunca mais foi o mesmo.
Dali em diante ele deitava-se de costas com até 15 mulheres que o lambuzavam por inteiro, como quem come manga. Mas ele só pensava em Salina. Ninguém dava um beijo doce como ela. Nenhuma dessas mulheres importava-se com a felicidade e deleite dele. Recebia mais mordidas doloridas do que prazer no amor. Elas o faziam sofrer. Mas se deixava comer, pois suas mulheres pulavam por cima dele sem trégua, num rodízio eterno. Ele só descansava quando era possível. Então dava um passeio, brincava com os filhos menores, ou conversava com Satã sobre algum tema.
Quando os anjinhos de luz vieram em busca de Belzebu para reencarnar, ele imediatamente lhes perguntou:
— Cadê Salina?
— Na selva amazônica. Ela é a criança mais bela do lugar. Mas você vai nascer num palácio cheio de ouro, na Índia, e vai ter um harém de 150 concubinas. Como você merece.
— Não! Vocês estão me enganando! Quero ser índio. E nada de truques, pois quem manda agora somos nós. Eu vou ser o chefe daquela tribo. Quero ir para essa selva. Como é que se chama?
— Amazônia. Vai gostar, está cheio de canibais...
Aos treze anos, Belzebu fez os testes para ser um homem, numa tribo brasileira. Teve que meter as mãos numa cova cheia de formigas, matar uma onça, e disputar uma corrida entre a mata selvagem, com 50 índios como ele.
Convertido em guerreiro, começou a caçar para trazer sustento à tribo.
E foi durante essas viagens que descobriu uma mulher de estranha beleza nadando no rio. Como ele ainda era virgem seguiu os conselhos dos amigos. Assim que Salina saiu da água, correu, empurrou-a contra um tronco firme e estuprou-a como um bruto. Ele só regressou à tribo quando seus amigos saíram em sua busca, pensando que estava morto em meio do mato. Levou Salina junto com ele, para fazer amor só com ela, pelo resto de sua vida.
Quando Belzebu morreu, ele já não era mais o mesmo. Só teve uma esposa, cuidara de sua família com zelo, defendera sua tribo contra invasores, e o povo o amou como o maior chefe dessa tribo. Levantaram uma imagem sagrada com seu nome, e toda a tribo fez luto por longo tempo.
Na vida espiritual, Satã sequer o deixou bater contra a porta. Ele foi interceptado na caminhada, e considerado indigno do convívio nos Infernos, pois morrera cheio de amor, e o que era pior de tudo, combatera em vida o filho mais amado de Satã, Lúcifer, além de Abadon, Moloc, Belial, e Astarot que foram chacinados em guerras terríveis.
Como os anjinhos de luz também lhe impediram o passo para as alturas, ele ficou vagando entre as almas penadas, chorando as mágoas, sem saber onde era seu lugar.
Até que, um dia, Salina apareceu-lhe na sua frente. Ela tomou-o pela mão, e foram até uma colina. Entraram numa gruta escura, cheia de morcegos, ratos, e foram abrindo caminho até chegar num lugar aonde existia uma pedra alta, como um santuário, levemente iluminada por uma entrada de luz, onde se podiam estender os corpos.
Salina tirou as roupas com sutileza, estendeu os braços para cima mostrando com sadismo seu corpo sedutor, e Belzebu perdeu totalmente o bom senso. Ficou louco de paixão por essa mulher deslumbrante, durante um século inteiro, esperando pela próxima reencarnação.
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