Entre o céu e o inferno
6 Os homens de preto
Notas iniciais
Num lugar muito além da Via Láctea, uma estrela morria pouco a pouco, deixando esse lugar do Cosmos em penumbras. Mas, por estranho que pareça, um planeta ainda se alimentava dessa frágil luz para sobreviver, numa lenta agonia.
E além do mais, esse mundo possuía uma sociedade muito evoluída, pois antes da escuridão chegar eles já dominavam todas as formas de produzir força artificial. Tinham hastes gigantes que captavam a força dos ventos, e essa energia corria ladeiras abaixo levando potência para mexer máquinas, acender lâmpadas, e esquentar os lares com seus habitantes. Produziam os alimentos em subterrâneos pré-aquecidos, possuíam laboratórios onde brotavam os legumes dentro de bacias com água vitaminada, e colhiam frutas de pomares caseiros. Árvores que ainda faziam fotossínteses, da fraca luz solar, com ajuda de telhados que abriam e fechavam se nutrindo do ar.
Também os homens haviam se acostumado a enxergar na escuridão.
Além das cidades havia árvores petrificadas, rios congelados, e pouquíssimas estradas, iluminadas de dia e de noite, para ninguém se perder pelo caminho.
Era um mundo onde os homens não faziam turismo. As urbes eram o casulo que os alimentava, abrigava, protegia, e os faziam viverem.
Todas as cidades eram acima de morros. Escadas serpenteavam para as alturas, trenzinhos subiam em trilhos verticais, e no meio do caminho havia o entretenimento para um descanso. Cafés com mesas e cadeiras, restaurantes com delícias gastronômicas, lojas mostrando belas roupas, shoppings, supermercados e fábricas. As pessoas viviam no cimo, na parte mais alta, e desciam todos os dias para trabalhar, ou passear, ou se divertir numa conversa entre amigos.
Mas o tempo mais esperado pela população era a primavera, quando o Sol ficava mais quente e os dias mais longos. Era nessa época que os jovens desciam das cidades, e se aventuravam a ir mais longe durante o dia, e tinha os valentes que passavam a noite em meio das árvores petrificadas, num acampamento coletivo.
Era essa a época, também, quando as mulheres ficavam “quentes”.
Por ser um mundo escuro, o amor ardente e apaixonado era algo esquecido pela humanidade. Existia a amizade, a fraternidade, casais que namoravam ao longo de muitos anos, casais que viviam sob o mesmo teto, mas o amor abrasador, arrebatado, ciumento, exigente, não era conhecido por ninguém. Não existia o desejo da posse de um parceiro, e o casamento era algo soterrado há muitos milênios.
Mas, quando chegava à primavera, a povoação descia a montanha em busca de aventuras amorosas.
Gioconda, uma jovem virgem, desceu acompanhada de uma amiga rindo, dando-se tapas com risadas, pois iriam saber o que era o coito. E Gioconda contava para sua amiga que seu irmão a aconselhara e perder a virgindade com um homem mais velho. Eles sabiam como lidar com uma iniciante como elas, com sabedoria de mestre e sem fazê-las sofrer.
E entraram no vale das sombras, ao entardecer.
Mulheres como elas havia em todo lugar. A maioria sobre uma árvore. Algumas penduradas de cabeça para baixo, cabelos tocando o chão, balançando, sorrindo, e tinha as que se acariciavam a si mesmas, com gemidos suaves. Quem não resistia à miragem, puxava essa fêmea para si, ou, subia nas árvores e tentava acrobacias aeróbicas.
Gioconda deambulou assustada, pois era um bacanal que não tinha fim. Havia os que namoravam estendidos no chão, ou, contra as árvores, os sentados, um por cima do outro, e havia uma mulher com dois homens. Em meio disso tudo, viu um rapaz de uns 20 anos, recostado em pé contra uma árvore, quieto, que ficou deslumbrado assim que a viu, afinal, Gioconda era uma linda mulher. E como um autômato caminhou reto até Gioconda e deu-lhe um beijo na boca. Isso Gioconda já sabia fazer há muito tempo, com seus amigos da Universidade. Ele também a beijou no pescoço e o amor floresceu nos seus peitos, com todo o ardor que é próprio das pessoas muito jovens.
Enquanto o romance se alastrava sem fim, ela perguntou-lhe:
— Qual é seu nome?
— Leonardo. E você?
— Gioconda... Podemos tomar o café da manhã na sua casa? Eu estou de férias... Só volto a trabalhar daqui a 40 dias...
— Claro! Eu só quero você! E minhas férias durarão mais uns 50 dias... Agora me deixe ensinar-lhe algumas coisas.
E Gioconda foi uma aluna submissa. Aprendeu todas as maneiras de dar prazer ao parceiro, e foi amada como ela nunca imaginara. Ele simplesmente ficou apaixonado pelo seu corpo, sua inocência nas artes de amar, e sua doçura.
Foram para casa ao amanhecer.
Subiram o morro de trenzinho, e uma vez no apartamento minúsculo de Leonardo tomaram sucos de frutas, pão com doce de morangas, leite de soja com chocolate, e um resto de uma torta do dia anterior. Dormiram abraçados como bebezinhos.
Acordaram se beijando, e desta vez continuaram o chamego nessa cama macia até a hora do almoço.
Durante a tarde, passearam pela cidade, conversaram com amigos, pois havia casais em todo canto aos chamegos, fazendo planos para se perder na selva ao entardecer. Havia um ar leve, alegre, festivo, cheio de despreocupações, pois muitas mulheres juravam que desta vez iam engravidar. Era uma promessa geral naquele dia, num otimismo coletivo, pois fazia milênios que a maternidade não assustava ninguém. O monstro que assombrava essa civilização era a morte prematura dos bebês, dentro do útero. Os abortos naturais eram uma praga. E não havia remédio que segurasse as crianças dentro dos ventres femininos. Milagrosamente se davam alguns nascimentos. Pouquíssimos. Ano após ano, morria mais gente do que nascia.
E Leonardo e Gioconda desceram à lareira cantando. Cruzaram pelos casais, subiram numa árvore petrificada, onde sentaram confortavelmente, apoiando as costas dele contra o tronco. E os beijos se iniciaram com mais ímpetos, e com caricias que se perderam noite adentro. Em redor e embaixo deles, escutavam-se risadas, gemidos, de uma orgia que terminou quando a pálida luz do Sol iluminou essa selva fria.
Mas a primavera se foi e os dias passaram a encurtar, mais frios, e os homens começaram a trabalhar, estudar, ficando a cada dia mais sérios, solitários, e os romances se apagaram junto com a luz solar. Esfriaram as relações, e cada um tomou seu rumo.
Após três meses sem ver Gioconda, Leonardo entrou numa fábrica de alimentos a fazer estágio. Haviam descoberto umas algas em meio da selva, que sobreviviam ao frio, e elas estavam sendo analisadas por gênios dessa cidade. Leonardo olhou nos microscópios, fez anotações, misturou nutrientes, as fez se reproduzirem, e cuidou da estufa durante 60 horas seguidas.
Cansado, sonolento, saiu desse laboratório, e viu Gioconda chegando cedo, entrando numa sala, bem perto dele. Correu até ela com felicidade, deu-lhe um abraço carinhoso, um beijo, e lhe perguntou se ainda lembrava-se dessa primavera maravilhosa. E ela respondeu-lhe chorando:
— Perdi nosso bebê... Sequer completei um mês, pois ele saiu de entre minhas pernas como um brotinho de feijão...
Leonardo abraçou-a docemente, beijou de novo e invitou-a para ir a casa, pois ele tinha uma semana de folga.
E desta vez dormiram abraçados, chorando juntos, tristes, pois toda a humanidade sabia que eles estavam definhando, e chegaria o dia em que sobrariam um ou dois homens sobre a terra. Era fato que estavam no fim de uma civilização.
Acordaram se beijando, fizeram amor com doçura, dormiram abraçados, e ficaram trancados nesse apartamento, até o dia em que a folga de Leonardo acabou.
E os anos se passaram.
Leonardo e Gioconda envelheceram nesse apartamento, sem nunca conseguir ter um filho. Mas mesmo assim compartilharam os dias de primavera como se fosse o primeiro encontro deles, e durante o ano faziam amor sempre que dava vontade. Choraram pela morte dos pais, dos amigos, e quando chegou a vez de eles falecerem, essa cidade não tinha mais do que 300 pessoas.
E todos esses espíritos foram trazidos para a Terra.
Eles começaram a encarnar na Europa, no final do século XV, dando início à revolução cultural da Idade Média, que mais tarde foi chamada de Renascimento. Foram os grandes mentores da época de ouro, do despertar da inteligência humana, do acordar das ciências, do desenvolvimento das artes, da invenção das máquinas, da disseminação da cultura em geral.
Mas a grande maioria correu a se fechar nos conventos, por causa da luz do Sol. Foram os homens que inventaram a roupa preta, o capuz na cabeça, pois o Sol da Terra lhes feria a vista como agulhas.
Mas o que os deixou pasmos e os pegou de surpresa foi a grande desigualdade social da sociedade terrestre. Mulheres como Gioconda não tinham direito ao estudo, muito menos ao trabalho, e deviam casar virgens com um marido à escolha da família. Gioconda viu suas irmãs mais velhas sendo entregues a homens velhos, sem dentes, fedorentos, porém ricos o suficiente para garantir uma vida sem que nada lhes faltasse. E como era uma menina-gênio de outro planeta, viu a oportunidade de uma vida diferente num dia que passeava na beira do rio. Estendido sobre a areia havia um rapaz de seu tamanho, recentemente afogado. Rapidamente Gioconda trocou de roupas com ele e fugiu às pressas.
Nos dias seguintes, cortou os cabelos, pegou carona para Florença e entrou como servente no ateliê do pintor Andrea del Verrochio, onde se pintava, esculpia e se faziam belas imagens de ouro por gênios em redor do mestre.
E, pouco a pouco, “Leonardo da Vinci”, nome adotado por Gioconda, começou a ser notada pelo mestre Verrochio. Começou a pintar fundos das obras do mestre, dias depois detalhes da natureza, e retratos. Suas obras eram tão belas, delicadas, sutis, próprias da mão feminina que se escondia embaixo das roupas. Começou a ganhar dinheiro, viajou para outras cidades, realizou encomendas importantes, e num dia de solidão, na intimidade de seu quarto miserável ela realizou seu autorretrato, vestida de mulher, com os cabelos que ela deveria ter. Sorriu. Seria um consolo para sua vida solitária. Nunca poderia casar. Nem ser mãe. Seu verdadeiro sexo seria um mistério até o fim de sua vida.
Mas, uma tarde, enquanto pintava no ateliê rodeado de discípulos, já na beira dos 40 anos, sentiu uma voz atrás dela, de um aluno recém-chegado, observando seu retrato como hipnotizado:
— Quem é ela, mestre?
— Não lembro mais. Uma meretriz que posou para mim...
— Eu tenho sonhado com essa mulher desde que me conheço por gente. Estou procurando-a de cidade em cidade.
Gioconda olhou-o fixamente e teve um surto. Leonardo, o verdadeiro, a paixão de sua última encarnação estava em pé, ali na sua frente, mais novo do que ela, e mais belo do que nunca.
Numa noite de muito trabalho, sozinhos no ateliê, eles tiveram uma conversa diferente:
— Amaria essa mulher se ela fosse mais velha que você?
— Se fosse tão linda como o retrato, a idade não faria diferença, mestre...
— Eu menti. Eu sei onde encontrá-la...
E sorrindo sorrateiramente, marcaram o primeiro encontro de amor. Gioconda entrou num dormitório de um amigo, avisado com antecedência, vestiu-se de mulher e colocou uma peruca de cabelos longos. Quando seu amado chegou, não falaram nada. Ela perdeu a virgindade com dor, e soprou no ouvido de seu amado:
— Não pode me engravidar... Tome cuidado...
Extenuados, suados, antes do raiar do Sol, tiveram a terceira conversa, cada vez mais diferente do que a anterior:
— Eu não sou o que sou... Quer dizer, vivo vestida de homem para poder pintar, trabalhar, e ser eu mesma. Minha família acha que eu morri quando criança, pois nunca me procuraram... E você pode fazer duas coisas, me denunciar para ser condenada pela Inquisição, ou guardar meu segredo.
— E vamos ser amantes o resto da vida, isso bastará para mim...
— Mas tem que jurar que nunca vai me engravidar...
— E você vai ter que aprender algumas coisas...
E Gioconda mais uma vez foi uma aluna eficiente. De novo soube como fazer a felicidade de um macho, de 20 formas diferentes. E viveram esse amor em segredo, até que a morte de Leonardo os separou. Gioconda então, viveu o que restou de uma vida, colocando todo seu ardor nas suas invenções. Artefatos impossíveis de construir, numa época que os homens eram governados pelos Papas ignorantes, que implantaram o horror na Europa. Eram os dias terríveis da Inquisição.
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