Entre o céu e o inferno
5 Belzebú, uma alma em desespero
Notas iniciais
Depois de Satã banir Belzebu dos Infernos, aconteceu uma pequena rebelião em seu reino, pois as esposas culpavam-no de todas as desgraças que se sucederam. Haviam ficado viúvas, com filhos para cuidar, com amantes que eram uns porcarias como machos, e o que era pior de tudo, Salina havia enfeitiçado Belzebu pela eternidade. O melhor amante desse Averno estava perdido. Para cúmulo de desgraças, metade dos seus filhos estava perguntando para os anjinhos luminosos o que se devia fazer para ir atrás do papai.
Era um terror! As consortes estavam perdendo seus meninos para as alturas! Ridículo!
Satã então, com sua sabedoria diabólica, escolheu o mais belo dos demônios, seu amado filho Lúcifer. Ele era alto, enganador, e lhe deu por missão satisfazer a essas esposas lamurientas.
Lúcifer dançou nu entre elas, beijou-as uma a uma, e cada vez que era agarrado, seja das nádegas, pernas, ele se deixava acariciar. E quando as esposas de Belzebu estavam cheias de excitação, ele estendeu-se como um príncipe em meio de seu harém. Mas, ele só queria seduzir. Ser o mais desejado.
Mas, para Satã a situação dos infernos foi se complicando cada vez mais. Os 300 filhos de Belzebu estavam agora órfãos de pai e de mãe, pois a mulherada só queria tocar em Lúcifer, namorar com Lúcifer, dançavam para ele, e não queriam saber de filhos nenhum. Os coitadinhos se agrupavam juntos, num canto, e quando chegava um demônio a dar uma surra, ou estuprar uma menina, não havia nem pai nem mãe que os defendesse.
Satã chamou então Antônio, o garoto mais esperto desse reino, e filho de Belzebu, entregou-lhe uma carta, e deu-lhe a missão de trazer seu pai de volta para cuidar deles. Satã escrevera para Belzebu que estava perdoado de suas bondades e Salina podia vir junto para serem felizes dentro do Inferno. Pronto. O problema estava resolvido.
Quando Antônio finalmente encontrou seu pai, deitado sobre as pernas de Salina, junto de uma pequena lagoa azul, ele correu aos berros de: — papai, papai... E Belzebu o recebeu eufórico. Era mais um filho atrás dele. Tomou-o nos braços, e lhe mostrou o caminho para ir falar com os anjinhos de luz. Mas, depois de ler a carta de Satã, ele começou a chorar que dava dó.
E desesperado, pediu para Salina uma separação temporária. Salina cuidava de seus filhos nas alturas, e ele ia cuidar daqueles que ficaram nos Infernos. Depois se juntariam quando fosse possível, seja na morte, ou durante a vida.
E Salina o deixou partir. Tomou Antônio pela mão, e caminhou com ele até o corredor que levava para as quebradas que separavam os céus das profundezas. Fez Antônio escalar o alto paredão, colocando os pés nos buracos da rocha, e quando ambos chegaram ao cimo, ao vale das almas iluminadas, Antônio correu ao encontro de seus outros irmãos. Era uma felicidade geral. Formaram uma roda de mãos dadas e cantaram até a hora do jantar. Tomaram sopas, comeram bolachas, e Salina os fez dormir entre um jardim cheio de rosas. Como uma mãe. Com amor verdadeiro. E o tempo da morte ficou desta vez interminável para ela.
Enquanto os homens como Ador, Gotardo, Remígio, Osíris, nasciam e morriam em tempos curtos, Rosalina, Aurora, Adelaide, Demétria, ficavam mais tempo na espiritualidade cuidando de espíritos doentes, num ambulatório espiritual que eles construíram por cima do planeta. Recebiam almas de homens queimados, ou sem cabeça, ou sem pernas, que morriam torturados em vida. Mulheres que morriam atormentadas eram recebidas numa corrida maluca, pois a terra estava transformada num verdadeiro pandemônio. Havia guerras em toda a Europa, nas Américas, onde quer que se olhasse, só existia o sofrimento.
E um dia, Salina sentiu que devia fazer algo mais útil. Os filhos de Belzebu já estavam trabalhando pela paz, enquanto Belzebu nunca mais regressara para ela, perdido nos Infernos. Pediu então uma espada para seu pai, e a seguir desceu o paredão que a separavam de Belzebu. Caminhou com passos firmes, mas entrou no Averno de fininho, se escondendo entre buracos escuros. Aguçou os ouvidos, e sentiu gritos de dor. Engatinhou, e em seguida se alastrou como cobra, até ver ao longe Belzebu acorrentado pelas esposas, no ar, num bacanal estranho. Algumas lhe passavam a língua, já outras lhe mordiam o corpo, davam-lhe pontapés nas pernas, ou socos no estômago, chicotavam-no sem dó, enquanto Lúcifer dançava nu às gargalhadas, com mais uns 12 demônios que beijavam suas esposas e chamavam-no de corno aos berros.
Salina esperou com paciência que essas loucas fizessem amor com seus amantes, para poder agir. Uma a uma, elas foram se amontoando com seus homens, e finalmente dormiram. Só então, Salina cortou as correntes de Belzebu com sua espada de luz, e o carregou desmaiado, sobre seus ombros.
Quando Satã cruzou na sua frente, olhando-a intrigado, Salina deixou seu homem no chão, pegou a espada com as duas mãos, e aprontou-se para o combate.
Mas Satã caiu na gargalhada. Belzebu não era mais o macho de antigamente. Era um frangote. Um débil mental, pois sequer sabia mais como controlar suas esposas. Belzebu, dentro desse Inferno, não servia para mais nada. Podia levar esse lixo para fora e carregar sua ninhada de filhos lamurientos também. Nos portões do Averno, havia uma legião de novos bandidos, ferozes, terríveis, brigando para entrar em seus domínios.
Salina preferiu não falar nada. Carregou mais uma vez Belzebu, e deu um assobio para os filhos dele. Os guris se abraçaram em redor, como cardume de peixes, e saíram todos juntos, rapidinho, bem longe daquele lugar. Só ficaram para trás os filhos mais velhos. Homens maduros, fortes, robustos, envergonhados pelas fraquezas do pai. Teve os que cuspiram nele ao passar junto dele.
Quando Salina chegou ao paredão, fez os meninos subirem, e procurar pelos irmãos nas alturas. Ela ficou embaixo, se recuperando, e mais uma vez carregou seu macho. Entrou na caverna com ratos, dando pontapés, chegou até essa pedra alta, estendeu o corpo ferido de Belzebu de costas e lhe fez aplicação de energia sobre as feridas. As cicatrizou uma a uma, com passes espirituais, e deu-lhe de beber água pura, de uma bolsa pendurada na cintura.
Em seguida estendeu-se junto, e fechou os olhos, esperando o tempo passar e dormiu abraçada nele. Um dia, ela acordou sendo beijada com ânsia. Era beijos e lágrimas de amor. Entre suspiros, Salina escutou-o falar:
— Promete para mim que nunca vai me deixar...
— Se continua fiel, eu nunca vou abandonar você...
— Jura que me ama...
— Só depois de me morder...
Belzebu pegou-a pelos cabelos, e lhe mordeu o cangote como um vampiro. Enquanto isso, as gargalhadas de Salina se elevaram até os céus, e se arrastaram até os Infernos.
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