Entre o Dever e o Desejo
16 O Julgamento de Cinzas
O clima de conspiração que pairava sobre o castelo finalmente explodiu em caos. O que era um pacto silencioso entre quatro corações tornou-se um escândalo público, arquitetado pelas sombras que nunca dormem em Astúria.
O banquete de celebração pela colheita deveria ser um momento de união, mas a atmosfera estava carregada. Richard e Claire presidiam a mesa, enquanto Gaspar mantinha uma distância cautelosa, e Katrina servia o vinho com mãos trêmulas. O segredo estava no ar, mas ninguém esperava que ele seria arrancado à força.
As portas duplas do Grande Salão foram escancaradas com um estrondo. O som das conversas morreu instantaneamente. O Cardeal Malachi, representante máximo do clero em Astúria, entrou marchando, seguido por uma guarda de cavaleiros da Igreja e nobres de rosto severo.
— Interrompam esta farsa! — a voz do Cardeal ecoou como um trovão contra as paredes de pedra.
Richard levantou-se, a mão instintivamente buscando o punho da espada.
— Cardeal? Que insolência é esta? Estamos em meio a um banquete real!
— A insolência, Majestade, reside sob o teto deste palácio! — Malachi parou diante do estrado real, apontando um dedo acusador para Claire. — A pureza desta coroa foi manchada! Há testemunhas oculares de que a Rainha Claire entregou-se a atos de luxúria e traição com o próprio cunhado, o Príncipe Gaspar, nas cavalariças deste castelo!
Um murmúrio de horror percorreu o salão. Claire sentiu o sangue fugir do rosto, as mãos agarrando a borda da mesa até os nós dos dedos ficarem brancos. Gaspar deu um passo à frente, os olhos faiscando.
— Isso é uma calúnia infundada! — Gaspar rugiu.
— Temos o testemunho de dois guardas e de uma dama de companhia! — retrucou o Cardeal, virando-se para o povo. — A lei de Deus é clara. Traição e adultério dentro da linhagem real são crimes contra Roma e contra Astúria! Guardas, prendam a Rainha e o Príncipe Traidor!
Os cavaleiros da Igreja avançaram. Richard sentiu um impulso violento de desembainhar a espada e lutar por eles, mas sentiu o olhar de Katrina ao fundo do salão — um olhar de puro pavor. Ele olhou para os nobres; muitos já estavam de pé, com as mãos nas armas, prontos para se rebelarem se o Rei protegesse uma "adúltera".
Se ele lutasse agora, Roma declararia guerra, Valerion invadiria Astúria para "limpar a honra" de Claire e ele perderia o trono e a vida de Katrina no processo.
— Richard... — Claire sussurrou, os olhos suplicantes buscando os do marido.
Richard fechou os olhos por um segundo, uma dor lancinante atravessando seu peito. Quando os abriu, sua expressão era de uma frieza gélida, a máscara do Rei reassumindo o controle.
— Majestade, não vai fazer nada?! — gritou Gaspar enquanto era imobilizado por três guardas.
— O clero tem o direito de investigar acusações contra a santidade do matrimônio — Richard disse, sua voz saindo mecânica, morta por dentro. — Levem-nos para as torres leste. Eles ficarão sob custódia até que um tribunal eclesiástico seja formado.
— Richard, não! — Claire gritou enquanto era escoltada brutalmente para fora do salão.
Richard permaneceu imóvel enquanto via sua esposa e seu irmão serem arrastados. Ele se sentia a criatura mais impotente da terra. Ele sabia que, por hora, qualquer movimento em falso condenaria todos à morte. Ele precisava ganhar tempo, precisava de um plano, mas o som das correntes ecoando no corredor parecia o anúncio do fim de sua linhagem.
No fundo do salão, Katrina cobriu a boca para não gritar, enquanto Richard, o Rei de Astúria, sentava-se lentamente em seu trono, sentindo o peso da coroa esmagar o que restava de sua alma. A tempestade havia chegado, e ela não teria misericórdia.
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