Genny Wayland sentou-se na cama fitando a escuridão à sua frente. De início, ouvia apenas o som de sua respiração. Colocando em prática os ensinamentos de seu pai adotivo, Jace, ela apurou a audição e o som de lâminas se chocando chegou até ela.

Rapidamente, Genny pulou da cama e descalça correu para fora do quarto.

Uma pantomina havia se instalado em seu lar, o Instituto de Nova York. Shadowhunters corriam de um lado para outro. Uns armados com suas lâminas serafins e outras armas celestiais. Outros corriam com os aprendizes, tentando salvar as crianças. Rosnados e grunhidos se ouviam mesclados a gritos de dor e raiva. Barulho de coisas se quebrando e uivos demoníacos.

— Genny!

Virou-se ao ouvir seu nome. Adrian Lightwood, seu melhor amigo corria ao seu encontro. Apesar de jovem, ele portava uma lâmina serafim. Genny tinha uma pouco de inveja dele, pois apesar de serem da mesma idade, ela ainda não fora sagrada uma Shadowhunter. Mas Adrian tinha Isabelle como mãe, e ela era a imagem do perfeccionismo.

Os dois jovens se abraçaram. Ao se separarem, o rapaz pegou na mão de sua amiga.

— Venha! Tio Jace disse para leva-la à um local seguro.

— E ele? Onde Jace está?

— Lá embaixo. Lutando com os outros mais velhos. Tia Clary está com ele. Houve uma invasão de demônios de uma forma nunca vista.

— A Clave não enviará ajuda? É claro que isso é obra de Sebastian!

— Isso eu não sei. Tentei falar com minha mãe, mas os telefones não funcionam. Venha! Temos que ir logo.

Mas antes que os jovens pudessem correr, um demônio apareceu na frente deles. Era horrendo com corpo de homem, mas no lugar da cabeça havia uma aranha. Suas oito pernas ou tentáculos moviam enlouquecidamente e pequenas esferas moviam como se fossem olhos. Nas extremidades, onde deveriam existir mãos e pés, haviam garras que gotejavam icor preto e viscoso.

A criatura avançou contra os jovens e Adrian tomou a frente de Genny.

— Corra! Vou detê-lo.

— Mas Adrian... – a menina não queria deixa-lo

— Em nome do anjo, Genny. Corra! – ele gritou enquanto amparava o golpe da besta.

Genny correu pelo corredor, enquanto ouvia os grunhidos da fera. Entrou em uma das salas. Era a sala de armas de seu pai. Ela pegou uma adaga e encolheu-se em um canto. Adrian, seu amigo e amor secreto estava enfrentando sozinho um demônio por que ela, Genny, nunca fora capaz de lutar. Ela era fraca. Uma inútil, pensou, com as lágrimas a escorrer pelo rosto.

Ela não poderia dizer quanto tempo ficou ali. Os barulhos da luta diminuindo com o passar do tempo. O que tria acontecido como sua família? E Adrian, o corajoso amigo. Estaria ele ajudando seus pais adotivos a combater os asseclas de Sebastian? Ou, e ela sentia uma dor imensa ao pensar isso, haveria ele sucumbido as feras demoníacas?

O ranger da porta se abrindo fez com que Genny se encolhesse ainda mais.

— Genesis... – uma voz masculina ecoava. Era uma voz humana e ao mesmo tempo não era. Como se alguém falasse através da água. – Genesis... Apareça criança. Não há onde se esconder de mim. — Para atemorizar mais a moça, Sebastian corria a ponta da lâmina demoníaca que segurava no chão produzindo um som irritante.

Era ele. Sebastian, o filho demoníaco de Valentim. Valentim Morgenstern fizera experimentos com seus dois filhos Clary e Jonathan. Ao tomar conhecimento dos atos do marido, Jocelyn fugiu de Idris para o plano mundano com a filha Clary. Dezoito anos haviam se passado até que ele descobrisse o paradeiro da mulher e da filha. Envolto em sua insana busca pelo poder, Valentim desencadeou uma guerra entre os membros da Clave e seus próprios seguidores.

A guerra conduzida desde o plano mundano até Ideis manchou de sangue as paredes da cidade, mas por fim Valentim e seus seguidores foram vencidos. Mas não sem custar um alto preço.

Enquanto Clary tinha recebido sangue de anjo enquanto ainda estava na barriga da mãe, Valentim havia injetado sangue de demônio no próprio filho transformando-o em algo abominável, capaz de tentar seduzir a própria irmã ou matar uma criança inocente à sangue frio.

Ao lembrar-se do que lhe contaram sobre a morte de Max Lightwood, Genny levantou-se com um grito de raiva e avançou sobre Sebastian com a adaga erguida.

Ela o atingiu em pleno peito, esperando que ele se contorcesse em agonia, mas para sua surpresa, Sebastian riu.

— Ora veja... Talvez Jace tenha ensinado uma ou outra coisinha a você.

Sob o olhar estupefato da moça, ele arrancou a adaga do peito de onde escorreu um sangue vermelho escuro quase preto. A adaga caiu no chão com um retinido metálico.

O sorriso maquiavélico não o deixou nem por um segundo.

— Ou não... – com um único golpe ele arremessou Genny através da sala.

A moça ainda se recuperava quando Sebastian posicionou se pé sobre o peito dela.

— Cada um tem sua missão, cara Genesis. Jace Wayland tentou passar, sem sucesso, tudo que sabia para você. Por que sua missão não é lutar. Não é defender os mundanos das minhas criações. Sua missão é me dar aquilo pelo qual você foi criada. Eu quero para mim a promessa que o seu nome encerra, Genesis.

Certa que seu fim havia chegado, a moça não teve medo. Encarou seu assassino como seu pai adotivo havia lhe ensinado. Sem temer, nem por um segundo, a morte.

Mas, de repente, uma lamina serafim atravessou o peito de Sebastian fazendo-o recuar. O rosto de sua mãe adotiva Clary, marcado por ferimentos, mas ainda bonito a deu forças para levantar.

— Vamos Genny!

— Clarissa! Minha odiada irmã! Ainda viva?

Sem dar importância aos gritos de Sebastian, Clary e Genny correram para o corredor. Corpos e cinzas de demônios se misturavam num espetáculo dantesco. Mas a imagem do corpo de Adrian caído junto às cinzas do demônio que ele enfrentara despedaçou o coração da moça.

— Adrian! Pelo anjo, não! – ela ainda quis correr para ele, mas Clary a segurou.

— Não. Teremos tempo para chorar pelos mortos. Temos que fugir.

— Clarissa! – a voz de Sebastian ecoava pelas paredes do Instituto. – Clarissa, não adianta fugir. Eu as encontrarei.

As duas se trancaram dentro de uma das salas subterrâneas do lugar. Em seguida Clary pegou sua estrela e fechou os olhos tentando se concentrar.

— O que está fazendo? – Genny perguntou.

— Estou tentando criar um portal. Magnus me ensinou algo a respeito há algum tempo. Mas preciso lembrar do símbolo certo.

— Todos tem um talento especial. Eu sou uma inútil, um fardo. Você deveria me deixar e se salvar.

Clary avançou para ela e segurou em seus ombros.

— Nunca mais diga isso! Você não é uma inútil, Genny. Enquanto você estiver à salvo, nenhuma vida perdida hoje terá sido em vão. Cada um tem a sua missão. Chegará a hora em que você saberá a sua. Agora deixe-me pensar. – Clary segurou a estrela novamente nas mãos voltando a se concentrar.

As palavras de sua mãe adotiva aqueceram o coração de Genesis, embora ela não pudesse pensar em que ela seria boa o bastante.

Lentamente, a mão de Clary começou a desenhar no vazio usando a estrela. Um círculo arroxeado começou a se formar na parede próxima de onde elas estavam. Logo, ele se expandiu formando algo parecido com uma porta.

Clary pegou na mão de Genny.

— Sabe para onde estamos indo? – a moça perguntou a mulher mais velha.

— Nenhuma ideia. Apenas passe e reze para ser um lugar seguro.

Ao mesmo tempo em que as duas passaram pelo portal, a porta da sala explodiu e Sebastian entrou ainda a tempo de ver o portal se fechar. Por alguns segundos ele ficou olhando estupefato para a parede. Mas, ao perceber que seu prêmio havia lhe escapado...

Deu um grito de puro ódio que poderia abalar os alicerces do inferno.