Entre o Coração e a Honra [Em Hiatus]
1 Prenúncios da guerra
Notas iniciais
Tambores tocavam retumbantes ao alto de uma colina no campo de batalha Hao, em um triste prenúncio da maior guerra até então vivenciada naquele império decadente da dinastia Zhou.
***
China, 221 a.C.
Territórios Qin
— Precisamos derrotar o exército da poderosa família Zhou, senhor! – Esbravejou um soldado ao seu general.
— Yin, reúna os melhores soldados e todas as armas possíveis. Não perderemos esta batalha! Pela nossa honra, de nossa família e antepassados. – Respondeu compenetrado o general Quon.
— Sim, senhor! – Falou o soldado Yin curvando-se ao general e saindo da tenda, armada nas proximidades do território inimigo, os Zhou.
Assim que o soldado se retirou, Quon afastou o tecido de sua tenda e vislumbrou pensativo, aquela imensa paisagem tão bela, porém futuro palco de mais uma sangrenta batalha. Era fim de tarde e o vento uivava em seus ouvidos uma calma canção alojando-se em seu íntimo à medida que o sol se punha por entre longínquas montanhas cinzentas da China.
Uma águia veio ao seu encontro despertando-o das aflições do que teria que enfrentar em poucos dias: seu grande exército, a mando do respeitado Qin Shihuang, contra as tropas da poderosa família Zhou. O general mostrava sutis vestígios de dúvida para este embate, mas estava disposto a sacrificar sua própria vida pelo futuro imperador Qin e sua linhagem.
— Que notícia temos aqui? – Perguntou-se Quon estirando o braço para a águia que logo pousava. O general abriu o pequeno tecido que a ave carregava e abriu-o:
O soberano Qin Shihuang o aguarda.
Li Si, o Chanceler.
Tenso, sem saber o que o aguardava, o general Quon seguiu noite adentro rumo ao palacete de seu senhor, o conquistador e já considerado futuro imperador chinês.
***
— General Quon! A chamado do grande senhor Qin Shihuang! – Anunciou o general aos guardas do palacete.
Nos breves segundos que se passavam até as portas serem abertas, Quon observou ao seu redor e pôde perceber pela penumbra da lua a montanha rochosa em que fora construído o palacete. O lugar era alto e estrategicamente localizado. Uma pessoa sem preparo militar, não sobreviveria ao caminho perigosamente tortuoso. Tudo parecia estranhamente escuro.
— Deixem-no entrar. – Uma voz fria proferiu a medida que as enormes portas do palacete eram abertas.
— Chanceler Li Si. – Cumprimentou Quon austero.
— Acompanhe-me. – Falou em resposta o Chanceler adentrando o local.
Havia um pátio, aberto à luz das estrelas que pareciam ali não iluminar, envolvendo toda a estrutura central. Ao seguir em frente, mais uma suntuosa porta dava para a parte interna do palacete: Com alas, que não pôde perceber ao certo o general, o palacete, feito em uma curiosa engenharia de pedras, era repleto de corredores iluminados pela luz de tochas que davam para demais aposentos.
O Chanceler dobrou um dos corredores a passos largos dizendo:
— Aqui o aguarda Qin Shihuang.
Tudo era silêncio.
Quon olhou para o lado e viu uma sombra esguia atravessar o corredor. Voltou rapidamente seu olhar para o Chanceler que o repreendeu ameaçadoramente:
— Cuidado com o que vê e com o que ouve neste lugar, general. – Em seguida empurrou a pesada porta do aposento – Entre.
Uma imponente cadeira talhada em madeira era a primeira visão de quem adentrasse neste aposento.
— Aproxime-se general Quon. Deve curvar-se perante seu senhor. – Falou a voz grave e rouca do soberano Qin Shihuang.
Com passos firmes, Quon dirigiu-se à frente daquele velho homem e ajoelhou-se em reverência. Shihuang prosseguiu:
— Imagino que saiba o motivo pelo qual lhe chamei esta noite. – Falou compenetrando seu olhar clínico no general que permaneceu de cabeça baixa em sinal de respeito e submissão àquele que brevemente governaria um império unificado. – Ordeno que antecipe a guerra. Minhas tropas devem estar preparadas para daqui a uma lua. Informantes do meu Chanceler avistaram Hunos próximos a nossa fronteira.
— Um exército Huno, senhor?! – Exclamou Quon incrédulo.
— Sabe o que deve fazer. – Objetou o velho homem.
Quon não conseguia pensar, muito menos falar algo. Continuou Shihuang:
— A chegada de um exército Huno às terras dos Zhou é tudo que não preciso! – Bateu em uma mesa próxima, exasperado. – Preciso desse poder, e essa guerra me trará a vitória que desejo. — Pensou alguns segundos e nada mais falou, voltando à sua normalidade.
— Senhor, — começou Quon – farei o possível para recrutar os homens de guerra e-- — Foi interrompido:
— Faça o impossível! – Esbravejou o imponente Qin Shihuang – Os Hunos não podem invadir a China ou já considere-se condenado à morte!
O general Quon sentiu seu sangue congelar. Não possuía família; todos morreram em tempos sombrios de guerra e invasões, porém sentia-se no dever de honrar seus antepassados. Tantas guerras lideradas e vencidas, toda uma vida de perigo em busca de um motivo maior e não via sentido na vida a não ser lutar honrosamente. E morrer por motivos tiranos? Não aceitaria. Lutaria.
A guerra sempre fora seu maior motivo para desistir de viver, a cada sangue derramado, todavia também seu maior motivo para continuar a lutar pelo seu povo. Quon reconhecia-se e era reconhecido como um exemplar general, mas apenas ele conhecia as próprias fraquezas e tal dualidade ninguém via neste guerreiro forte e austero.
— Senhor, — proferiu Quon com sua voz agora retumbante e segura – não pode pôr o destino de seu império, o destino da China em minhas mãos!
— Como ousa?! – Shihuang chutou o general ajoelhado que em segundos se pôs de pé, encarando-o agora nos olhos.
— Antecipando a guerra, o senhor estará condenando todos seus soldados à morte!
— E o que quer que eu faça, seu insolente?! ALIE-ME AOS HUNOS?! Você e toda a tropa morrerá mais cedo ou mais tarde! – Levantou-se também o grande Shihuang.
Quon percebeu novamente uma sombra dessa vez próxima e em seguida adentrou no aposento uma bela jovem de longas madeixas negras. De olhar vívido e profundo como aquele lugar, encarou o general, confusa com o que havia escutado daquela reunião.
Era a princesa, sucessora de Qin Shihuang, seu tio.
— O que está acontecendo aqui? – Inquiriu assustada a bela Min Chong – Não pode condenar à morte nossas tropas, tio. Sem preparo, não teremos tropas em duas luas! E sem tropas, nosso império sucumbirá antes mesmo de tomar o poder que tanto deseja!
Antes que lhe respondessem, Li Si interveio:
— Princesa Min Chong! Este não é um lugar para a senhorita. Vamos.
Ela, porém, não se retirou e o general a olhou em um misto de vislumbre e raiva por não compreender se ela estaria compactuando com o tio ou apoiando-o pela segurança do povo.
Quon, então, saiu sem nada dizer, apenas com os mistérios da noite como testemunha de seus pensamentos.
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