Entre o Aço e a Sombra
22 O Brinde Final e a Rendição do Leão
O Palácio Real de Lâfrer estava em festa, mas o motivo era duplamente especial. O banquete celebrava não apenas o nascimento do herdeiro da Rainha Elowen — um menino robusto que dormia tranquilamente no berço de carvalho — mas também a oficialização do retorno de Claire Mackenzie à corte. O salão estava repleto de nobres, o cheiro de assados e especiarias flutuava no ar, e a música dos menestréis era alegre, contrastando com a melancolia dos anos anteriores.
Claire estava sentada à mesa real, ocupando novamente o seu lugar de honra ao lado da Rainha. Marcus, posicionado à sua frente, parecia inquieto. Ele não parava de tocar o punho da sua farda de gala, e os seus olhos escuros buscavam os de Claire a cada intervalo de conversa.
A Rainha Elowen, percebendo a eletricidade no ar, levantou a sua taça de ouro.
— Um brinde ao futuro de Lâfrer! — anunciou ela, com um sorriso radiante. — E que a paz que conquistamos seja tão duradoura quanto as amizades que cultivamos nestes salões.
O Rei Dhorwack ia levantar-se para prosseguir com os anúncios, mas Marcus Sinclair foi mais rápido. O General levantou-se com uma brusquidão que fez os talheres tilintarem. O silêncio caiu sobre o banquete como um manto pesado. Todos sabiam que, quando o General Sinclair falava, o reino ouvia.
— Majestades — começou Marcus, a sua voz profunda ecoando pelas vigas do teto. — Passei a minha vida a conquistar territórios e a defender fronteiras. Aprendi que a estratégia vence batalhas, mas a honra vence guerras. No entanto... — ele olhou diretamente para Claire — ...houve uma batalha que eu perdi miseravelmente. A batalha contra o meu próprio orgulho.
Claire sentiu o coração falhar uma batida. Ela apertou o guardanapo de linho sob a mesa, os olhos verdes fixos no homem que, pela primeira vez em público, parecia vulnerável.
Marcus contornou a mesa real com passos firmes. Ele parou diante de Claire, ignorando o protocolo que exigia que permanecesse sentado. Diante de toda a nobreza, diante da Rainha e dos seus próprios filhos, que observavam tudo com os olhos arregalados, o General Sinclair ajoelhou-se.
Um arquejo coletivo percorreu o salão. O "Leão de Lâfrer" estava de joelhos.
— Claire Mackenzie — disse ele, retirando do bolso uma pequena caixa de veludo azul-marinho. — Tu chegaste à minha vida como uma tempestade que derrubou todas as minhas defesas. Discutiste comigo, desafiaste-me, partiste o meu coração e, depois, voltaste para o colar com a tua coragem. Eu não quero uma vida de silêncio. Eu quero uma vida de debates ao pequeno-almoço, de críticas às minhas cortinas e de um amor que seja tão barulhento e vivo quanto tu és.
Ele abriu a caixa, revelando um anel de ouro antigo com uma esmeralda central, cercada por pequenos diamantes.
— Aceitas ser a minha esposa, a mãe dos meus filhos e a dona de todas as discussões que ainda temos por travar? Aceitas ser a Duquesa de Valle de Prata e a mulher que me manterá acordado para o resto dos meus dias?
Claire ficou em silêncio por um segundo que pareceu uma eternidade. Uma lágrima teimosa escorreu-lhe pelo rosto, mas o seu sorriso era puro deboche e ternura.
— Oh, Marcus... — ela sussurrou, mas a sua voz ganhou força para que todos ouvissem. — Eu passei anos a preparar o meu discurso de vitória, mas admito que esta tua rendição incondicional é muito mais satisfatória.
Ela estendeu a mão, os dedos trêmulos de emoção.
— Sim, seu urso teimoso. Eu aceito. Mas fica a saber que, a partir de amanhã, as cortinas do teu escritório vão passar a ser verdes.
O salão explodiu em aplausos e vivas. O Rei Dhorwack gargalhou abertamente, batendo na mesa, enquanto a Rainha Elowen limpava uma lágrima de alívio. Marcus deslizou o anel no dedo de Claire e levantou-se, puxando-a para um beijo que selou, finalmente, o destino que o tempo tentara separar.
Não havia mais segredos, não havia mais silêncio. O Leão tinha encontrado a sua Rainha, e Claire Mackenzie tinha finalmente encontrado o seu lar — num campo de batalha onde o único prémio era o amor.
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