O poder de mudar uma vida está nas mãos do acaso ou do destino?

Há quem chame tudo de destino; outros preferem acreditar em coincidências. Sophia Zapion não costumava pensar muito nisso.

Naquela manhã de domingo, por exemplo, estava mais preocupada em encontrar uma meia. Não qualquer meia: a meia direita.

De alguma maneira que desafiava as leis da física, ela havia desaparecido dentro do próprio quarto.

Sophia estava ajoelhada diante de uma gaveta aberta, cercada por roupas que, cinco minutos antes, estavam relativamente organizadas. Sua definição de organização era um pouco diferente da que aparecia nos vídeos de decoração que salvava no celular. A meia não estava na gaveta das roupas esportivas, nem nas outras duas que revirou. O celular vibrou sobre a cômoda.

Flávia: Você realmente vai correr às oito da manhã?

Sophia: Vou.

Flávia: Num domingo?

Sophia: Sim, Flávia.

Sophia: Decidi começar uma vida mais saudável.

Flávia: Você já corre.

Sophia: Mas nunca de manhã.

Flávia: E correr de manhã deixa mais saudável?

Sophia decidiu ignorar a mensagem seguinte.

Essa ideia havia surgido na noite anterior, quando uma influenciadora afirmou, num vídeo, que correr cedo melhorava o humor e aumentava a disposição. Sophia, deitada com uma tigela de pipoca, decidiu acreditar. Seu erro foi acreditar que a Sophia da manhã concordaria com os planos da Sophia da noite.

Consultou o relógio: 7h43. Ainda dava tempo. Foi quando avistou a meia desaparecida. Estava pendurada no puxador do guarda-roupa. Sophia encarou o objeto.

— Você tá de brincadeira comigo. Calçou a meia e examinou o reflexo no espelho. Os cabelos castanhos estavam presos num rabo de cavalo alto, com alguns fios soltos perto das orelhas. Vestia legging preta, top esportivo claro e os tênis comprados meses antes, com a promessa de que aquele seria o ano em que se tornaria uma pessoa atlética. Não era sedentária: gostava de correr. Só não gostava de sacrificar a manhã de domingo para provar isso

— Linda, saudável e determinada. Fez uma pausa. — E atrasada.

Pegou o celular e saiu. O cheiro de café recém-passado chegava até o corredor. Sophia desceu a escada tentando prender melhor os cabelos, mas desistiu quando ouviu a voz de Antônio.

— Bom dia, caiu da cama hoje? Ele estava diante do fogão, de camisa polo azul, com uma frigideira na mão e um avental de cozinha, que ela achava engraçadinho quando ele usava.

— Bom dia, acordou engraçadinho hoje! — Sophia beijou-lhe o rosto. — Tem café?

— Tem.

— Maravilha.

— Mas achei que você fosse correr.

Sophia parou com a mão estendida para a cafeteira. — Vou.

— Você disse que ia sair às sete e meia.

— E você disse que ia parar de implicar com meus horários. Antônio riu e voltou à frigideira.

Aos cinquenta e oito anos, Antônio fazia parte da família há mais de dez anos, tornou-se uma figura paterna para Sophia. Sabia onde ela escondia os chocolates, quais flores Helena gostava de receber e quanto tempo era preciso esperar para conversar com Agatha quando ela estava contrariada. Essa última habilidade, segundo Bruna, merecia ser reconhecida como patrimônio da humanidade.

— Sua mãe está no jardim — informou ele.

— Já tomou o remédio?

— Já. E comeu metade das frutas.

— Só metade?

— A outra metade disse que estava guardando para você.

Sophia sorriu. — Minha mãe sempre foi mais esperta do que todos nós.

Pegou uma fatia de maçã do prato sobre a mesa e caminhou até a porta de vidro. Helena estava sentada numa das cadeiras do jardim, com um pequeno álbum de fotografias apoiado sobre o colo. Os cabelos grisalhos estavam cuidadosamente penteados. Usava um cardigan claro e observava uma das fotografias com tanta atenção que não percebeu a aproximação da filha.

— Bom dia, mãe. Helena ergueu os olhos. Por um instante, seu rosto permaneceu sério, como se estivesse tentando organizar alguma informação. Então sorriu.

— Sophia!

Aquele sorriso ainda aquecia o peito da filha. — Dormiu bem?

— Dormi. E você?

— Também.

Sophia se inclinou para beijá-la.

— Você está tão bonita.

— Puxei à senhora.

— Ah, não. Você é muito mais bonita.

— Não fala isso perto da Bruna. Ela vai exigir uma votação.

Helena riu. Sophia sentou-se ao lado dela. No álbum havia uma fotografia antiga das três irmãs: Agatha, impecavelmente arrumada; Bruna, sorrindo de modo exagerado; e Sophia, ainda criança, fazendo uma careta.

— Olha só isso — Sophia comentou. — Como é que vocês me deixavam sair de casa com esse cabelo?

Helena aproximou a fotografia dos olhos. — Que menina engraçadinha.

— Sou eu, mãe.

— É?

— Sou.

— Você era muito bonita.

— Continuo sendo. Só fiquei mais cara de manter.

A mãe riu e tornou a examinar a fotografia. — Que menina engraçadinha...

Sophia sentiu a conhecida pressão no peito. Não era exatamente tristeza, mas a sensação de viver uma conversa que poderia desaparecer da memória da mãe assim que terminasse. Com o tempo, aprendera a não disputar cada lembrança perdida. Nem toda conversa precisava fazê-la recordar; às vezes, bastava permanecer ali.

— Mãe, vou sair para correr um pouquinho, tá?

Helena ergueu o rosto. — Tome cuidado.

— Pode deixar.

— E não esqueça de beber água.

Helena foi enfermeira durante muitos anos. Mesmo quando confundia datas ou acontecimentos, certos conselhos permaneciam intactos.

— Pode deixar, dona Helena.

Sophia beijou a testa da mãe e voltou à cozinha. Antônio lhe estendeu uma garrafinha.

— Vocês dois combinaram? —Questionou Sophia

— Sobre o quê?

— Me tratar como se eu tivesse oito anos.

— Com oito anos, você provavelmente era mais obediente.

Sophia pegou a garrafa e fingiu uma risada. Depois se aproximou e beijou a bochecha de Antônio.

— Cuida dela para mim?

— Pode ir tranquila.

Sophia saiu sem imaginar que, naquela manhã, a meia perdida seria o menor de seus problemas.


Do outro lado da cidade, Alex Launch tentava negociar com uma gata. Estava perdendo. — Você acabou de comer.

A pequena siamesa encarou-a de cima do sofá. Seu pelo creme estava ligeiramente despenteado, as patinhas marrons escondidas sob o corpo e os olhos azuis fixos na mulher que, claramente, não compreendia a gravidade da situação.

— Não adianta me olhar assim. Princesa soltou um miado quase inaudível. Alex suspirou. — Isso é chantagem emocional.

Princesa soltou outro miado, ainda mais baixo, e espirrou, algo que fazia habitualmente.

— E das mais baixas. A gata inclinou a cabeça. Alex resistiu por três segundos antes de caminhar até o armário.

— Só um pouquinho. E não se acostume.

Era a segunda derrota do dia. A primeira aconteceu quando o despertador tocou e ela se lembrou de que era domingo. Em circunstâncias normais, acordaria sem pressa, prepararia café, resolveria algumas palavras cruzadas e evitaria qualquer obrigação que exigisse trocar de roupa. Mas havia uma bicicleta no depósito do apartamento. E existia o doutor Ricardo. Infelizmente, os dois haviam se tornado parte do mesmo problema.

Na consulta da semana anterior, o médico dissera que Alex precisava sair mais de casa. Tomar sol, movimentar o corpo, respirar ar fresco. Alex argumentara que já respirava ar fresco sempre que abria a janela. O médico não achara graça. A consulta terminara com uma recomendação clara: atividade física regular.

Alguns dias antes, Alex retirou a bicicleta do depósito e verificou os pneus. Pedalaria no domingo. A decisão parecia razoável até o domingo chegar. Alimentou a Princesa e olhou para o relógio: 8h02. Ainda havia tempo para desistir. O celular vibrou.

Mariana: Bom dia, criatura.

Alex: Bom dia.

Mariana: Já saiu pra pedalar?

Alex: Ainda não.

Mariana: Você prometeu.

Alex: Não prometi. Disse que estava considerando.

Mariana: Você literalmente mandou uma foto da bicicleta.

Alex: Isso prova que tenho uma bicicleta.

Mariana: Você é insuportável.

Alex sorriu. Mariana era uma das poucas pessoas capazes de transformar cinco mensagens numa discussão completamente inútil. Talvez por isso gostasse tanto da amiga, guardou o celular e se aproximou da janela. O céu estava claro, com nuvens dispersas e uma brisa leve. Talvez não fosse tão ruim sair.

No armário, o inalador de Princesa ficava guardado com os acessórios respiratórios da gata. Desde que a adotara, Alex aprendera mais sobre a saúde dos felinos do que imaginara possível e como um animal de poucos quilos podia dominar uma casa. Alex saiu do prédio empurrando a bicicleta. Vestia camiseta preta, calça esportiva, tênis e boné escuro. Gostava de roupas práticas e cores neutras. Quando iniciou a pedalar os músculos protestaram nos primeiros minutos. O movimento foi ficando mais fácil. O vento tocava seu rosto e a cidade parecia diferente naquela hora. Havia menos carros, menos buzinas e menos pessoas apressadas tentando chegar a algum lugar. Não demorou para que ela encontrasse um ritmo confortável. Talvez o doutor Ricardo tivesse razão. Era irritante quando isso acontecia. O celular vibrou na bolsa presa à bicicleta.

Alex não olhou. O aparelho vibrou mais duas vezes. Ela parou num trecho seguro da pista e pegou o celular.

Rubens: Alex, bom dia.

Rubens: Desculpa incomodar no domingo.

Alex fechou os olhos por um instante. Mensagens que começavam com aquela frase costumavam comprometer seu descanso.

Rubens: É rapidinho.

A experiência demonstrava que a expressão “rapidinho” não guardava relação confiável com a duração de uma conversa.

Alex: Bom dia, Rubens. Aconteceu alguma coisa urgente?

Rubens: Não exatamente.

Alex: Então conversamos amanhã.

Rubens: Mas é sobre um cliente.

Alex: Amanhã, Rubens.

Rubens: Certo. Bom domingo.

Alex guardou o celular. Contou mentalmente até três. Ele vibrou de novo.

Rubens: Desculpa mesmo.

Rubens era excelente em cálculos, margens comerciais e negociações complexas, mas também conseguia transformar pequenas preocupações em catástrofes. Ela colocou o celular no silencioso e voltou a pedalar.


Sophia tinha uma teoria sobre exercícios físicos: uma das melhores partes de correr era ouvir suas músicas favoritas enquanto imaginava protagonizar uma montagem cinematográfica sobre superação. Naquele momento, a trilha sonora era animada demais para uma manhã de domingo. Gostava do movimento e da ideia de que tantas pessoas desconhecidas levavam vidas inteiras ao redor dela.

Começou a correr. Nos primeiros minutos, sentiu-se surpreendentemente disposta. Por alguns minutos, esqueceu o trabalho, as contas e os compromissos da semana. Era bom simplesmente correr. Até que seu cadarço se soltou.

Reduziu o ritmo e se aproximou da lateral da pista. Foi então que ouviu um latido. Depois outro. Em seguida, uma voz desesperada:

— Thor! Volta aqui!

Um cachorro de porte grande, era um labrador de pelagem caramelo, surgiu correndo, arrastando a guia que escapara das mãos de uma mulher. Sophia parou.

— Opa!

O animal passou alegremente diante dela. Sophia recuou para evitar a guia. No mesmo instante, uma bicicleta se aproximou pela pista.


Alex viu o cachorro, a guia atravessada e Sophia recuando. Apertou os freios, mas a roda dianteira perdeu a direção. — Cuidado!

Alex desviou tarde demais. O guidão bateu, a roda perdeu o equilíbrio e, por alguns segundos, tudo virou uma mistura de asfalto, folhas e susto.

Quando conseguiu se levantar, a primeira coisa que viu foi a garota à sua frente — irritada, ofegante e muito mais bonita do que deveria ser depois de quase derrubar alguém.

— Nossa... Alex ergueu a cabeça. — Você está bem?

Sophia examinou os braços e as pernas, parecia confusa com tudo que havia acontecido, mas seu rosto já havia suavizado.

— Acho que sim.

Alex se levantou, afastou a bicicleta e se aproximou. — Bateu a cabeça?

— Não.

— Está sentindo tontura?

— Não.

— Consegue levantar?

Sophia a encarou.

— Você trabalha no pronto-socorro?

— Não.

— Porque o questionário está bem completo.

Alex soltou o ar pelo nariz. — Estou tentando saber se você se machucou.

— Ah, então desculpa. É que eu não costumo ser atropelada antes das nove.

Alex ficou imóvel. — Eu não atropelei você.

— Não?

— Desviei de um cachorro.

— E resolveu desviar para cima de mim?

Era difícil contestar. Sophia começou a rir. Alex não sabia se deveria ficar aliviada ou preocupada. — Você está rindo?

— Desculpa.

— Não parece preocupada.

— É que... — Sophia o encarou por um momento — Você está com uma cara...

Alex olhou sério para ela. — Que cara?

— De quem vai processar o cachorro.

Alex não conseguiu evitar um sorriso. A dona de Thor apareceu segundos depois, seguida pelo cachorro, que abanava a cauda como se estivesse orgulhoso do caos provocado. A mulher parecia aflita.

— Meu Deus! Vocês estão bem? Me desculpem! Ele nunca faz isso! O animal abanava a cauda.

— Acho que ele faz, sim. Só não conta em casa.

Alex se apressou em tranquilizá-la. — Está tudo bem. Foi só um acidente.

— Vocês se machucaram?

— Só um pouco — respondeu Sophia, observando o joelho ralado.

Alex se agachou. — Deixa eu ver.

Sophia estendeu a perna. Havia um pequeno arranhão, com alguns pontos de sangue. Era superficial. Mesmo assim, Alex franziu a testa.

— É melhor limpar isso.

— Você leva a sério o trabalho de atropelador, né?

— Ciclista.

— Ciclista atropelador.

— Não foi um atropelamento.

Sophia assentiu solenemente. — Vamos chamar de encontro físico inesperado. Sophia sorriu.

Alex percebeu duas coisas. A primeira era que Sophia tinha olhos de um castanho muito claro, quase dourado à luz da manhã. A segunda era que provavelmente continuaria fazendo piadas enquanto pudesse falar.

— Há um posto de apoio ali perto — informou Alex. — Devem ter material para limpar seu joelho.

— Você conhece bem o parque?

— Não.

— Então como sabe?

Alex apontou para uma placa adiante. Sophia acompanhou o gesto. POSTO DE APOIO — 200 METROS. Ficou em silêncio. Depois assentiu.

— Observador.

— Costumo prestar atenção nas placas.

Sophia sorriu, havia alguma coisa diferente naquele garoto.

— Eu sou Sophia, aliás.

— Alex.

— Só Alex?

— Por enquanto.

Sophia abriu um sorriso. — Misterioso.

— Econômico.

— Ah, entendi. Economiza palavras.

— Tento.

Sophia apontou para o próprio joelho.

— Considerando que você praticamente destruiu minha carreira atlética antes de ela começar, acho justo me acompanhar até o posto de apoio

— Acho que sim.

— E manter essa bicicleta assassina longe de mim.

— Ela nunca fez isso antes.

Sophia olhou para a bicicleta. Depois para Thor, que já se afastava tranquilamente com a dona. — É o que todos dizem.

No posto de apoio, um funcionário ofereceu gaze, água e um curativo. Sophia agradeceu enquanto se sentava num banco. Alex permaneceu por perto.

— Você pode ir, sabia? — Sophia comentou. — Não preciso de escolta.

— Eu sei.

— Então por que está aí?

— Quero ter certeza de que ficou tudo bem.

Sophia inclinou a cabeça. Havia alguma coisa diferente nele. Os cabelos pretos eram curtos, de corte masculino, parcialmente desarrumados pelo boné. O rosto tinha traços delicados e não usava barba; a roupa escura, a postura e a voz grave reforçavam a primeira impressão. Era bonito, de um jeito que Sophia não costumava encontrar com frequência.

Parecia genuinamente preocupado, sem transformar aquilo em uma oportunidade para flertar. Sophia terminou de ajeitar o curativo.

— Pronto.

Alex observou o joelho. — Melhor?

— Muito.

— Ainda está doendo?

— Um pouquinho.

Alex franziu a testa. — Onde?

Sophia apontou para o próprio peito. — No orgulho.

— Eu estava me saindo tão bem! Dez minutos de vida saudável e quase virei estatística.

— Você corre com frequência?

— Corro.

— Então sua carreira atlética sobreviveu.

— Não necessariamente. Estou considerando aposentadoria antecipada.

— Parece precipitado.

— Você ainda não conhece meu histórico de decisões precipitadas.

Alex apoiou os braços sobre os joelhos. — Imagino que seja extenso.

— Nossa!

— Você mesma disse.

— E você acreditou?

— Contra fatos, não existem argumentos.

Sophia a observou por alguns segundos e começou a rir. — Meu Deus, você é muito sério!

Alex sorriu.

A conversa era agradável. Sophia gostava de falar sem precisar fingir desinteresse ou se diminuir.

— Então, Só Alex, o que você faz da vida quando não está perseguindo corredoras inocentes?

— Trabalho com exportação.

— Exportação de quê?

— Vinhos e destilados.

— Chique.

— Nem sempre.

— Na maior parte do tempo, estou olhando planilhas.

— Você sabe destruir a fantasia das pessoas, né?

— É uma habilidade profissional. E você?

— Trabalho em banco, sou gerente.

— De Agencia?

— Isso.

— Também sou gerente. — Indicou Alex, enquanto observava ela falar.

— Então você entende.

— Infelizmente.

— Sabe o que é mais difícil? — Sophia suspirou. — Todo mundo acha que, porque você é simpática, vai aceitar qualquer coisa. E, quando precisa ser firme, parece que está cometendo um crime.

— Você pode ser educada sem concordar com alguém.

— Dizer não, não exige uma justificativa de quarenta minutos.

— É ISSO!

O funcionário do posto olhou para as duas.

— Desculpa.

Alex parecia se divertir. — Você costuma falar alto?

— Só quando estou empolgada, ou nervosa e irritada.

Alex inclinou levemente a cabeça. — Então existe algum momento em que você fala baixo?

— Quando estou dormindo.

Alex riu, e Sophia percebeu que queria ouvir aquela risada novamente.

O relógio de Alex marcava 9h26 quando saíram do posto. Sophia já caminhava normalmente. O arranhão no joelho era a única lembrança física do acidente. A bicicleta continuava intacta, para indignação da corredora.

— Eu só acho injusto — comentou Sophia.

Alex olhou para ela.— O quê?

— Sua bicicleta sair completamente ilesa.

— Quer que eu a arranhe?

Sophia pensou por um instante. — Talvez.

Alex balançou a cabeça. — Você é uma pessoa vingativa.

— Sou uma pessoa que acredita em justiça.

— Claro.

Sophia percebeu que Alex não tentava preencher todos os silêncios. Muitas pessoas transformavam qualquer pausa num constrangimento a ser resolvido. Com Alex era diferente. O silêncio parecia parte da conversa.

— Você costuma vir aqui?

— Não muito.

— Eu também não venho nesse horário.

— Prefere correr mais tarde?

— No fim do dia. Quando consigo escapar do banco.

— Faz sentido.

— E você?

— Normalmente prefiro ficar em casa.

Sophia virou o rosto. — Sério?

— Muito.

— Fazendo o quê?

— Lendo. Cozinhando. Jogando.

— Jogando?

— Video-game.

— Ah, não acredito!

Alex franziu a testa. — O quê?

— Você tem essa aparência de pessoa séria e joga videogame?

— Uma coisa impede a outra?

— Não! É que imaginava você sentado numa poltrona, lendo um livro difícil e julgando silenciosamente a humanidade.

Alex olhou para a frente. — Também faço isso.

— Eu sabia!

— Mas geralmente os livros não são tão difíceis.

— De que tipo de livro você gosta?

— Terror, suspense, alguns mangás.

Sophia Virou-se.

— Aconteceu alguma coisa?

— Você gosta de terror?

— Gosto.

Sophia levou uma mão ao peito. — Finalmente alguém normal!

— Essa é uma definição bastante particular de normalidade.

— Exatamente, normalmente as pessoas não gostam, mas qual é o seu favorito?

— Depende. Terror psicológico, sobrenatural ou slasher?

— Alex...

— O quê?

— Acho que acabei de encontrar meu novo melhor amigo.

— Não parece um processo seletivo muito rigoroso.

— Você gosta de terror e sabe diferenciar os subgêneros. Está contratado.

— Existe período de experiência?

— Três meses.

— Benefícios?

Sophia fingiu refletir. — Companhia para filmes ruins e alguém com quem reclamar dos finais.

Alex estendeu a mão, simulando uma negociação. — Aceito.

Sophia apertou a mão oferecida. O gesto foi rápido e espontâneo, então ela observou os olhos dele, eram um tom de castanho escuro e parecia ter um mundo todo escondido lá dentro.

Na saída do parque, Sophia consultou o celular. Havia sete mensagens de Flávia, duas de Bruna e uma notificação do aplicativo de corrida. Tempo de atividade: doze minutos. Alex percebeu. — Algum problema?

— Doze minutos.

— O quê?

— Eu corri doze minutos.

— É um começo.

Sophia guardou o celular e soltou um suspiro dramático.

— Enfim. Acho que vou para casa.

— Melhor descansar um pouco.

— Olha só, além de ciclista, temos um médico.

Alex ficou a observando, como podia ela ser tão espontânea daquela forma, com um desconhecido

Sophia poderia simplesmente se despedir, agradecer a ajuda e voltar para casa. Contaria a Flávia que conhecera um homem bonito depois de quase ser atropelada por uma bicicleta. E a história terminaria ali, como tantas conversas entre desconhecidos. Mas havia alguma coisa que não queria deixar terminar. Talvez fosse o humor inesperado de Alex. Ou a maneira como prestava atenção enquanto falava. Ou a curiosidade de descobrir se era tão interessante quanto parecia.

— Então... Você vai querer saber se meu joelho sobreviveu?

— Gostaria.

— Bom, seria muito irresponsável da sua parte causar um acidente e depois desaparecer.

Alex estreitou os olhos. — Você está tentando me responsabilizar legalmente por um arranhão?

— Estou oferecendo a oportunidade de evitar um processo.

— Entendi.

— Sou muito generosa.

Alex olhou para o celular na mão dela. Depois para seu rosto. — Posso pedir seu número, então?

— Pode.

Alex retirou o aparelho do bolso. Sophia ditou os números. Quando o celular dela vibrou, apareceu uma mensagem de um contato desconhecido.

Número desconhecido: Alex.

— Objetivo.

— Você já sabe meu nome.

— Mas podia ter escrito alguma coisa interessante.

Alex: Espero que sua recuperação seja rápida e que consiga retomar sua promissora carreira atlética.

Sophia soltou uma gargalhada. — Idiota!

Pareceu a maneira natural de encerrar uma conversa que nenhuma das duas queria encerrar. Foi então que Alex se aproximou do rosto de Sophia e deu um leve sorriso.

— Tchau, Sophia.

— Tchau.

Sophia corou levemente, não esperava que ele fosse se aproximar tanto. Alex subiu na bicicleta e começar a se afastar.


Ao chegar em casa, Sophia encontrou Antônio organizando vasos no jardim.

— Já voltou?

Sophia parou diante dele. Antônio examinou seu joelho.

— O que aconteceu?

— Conheci alguém.

— Espero que não tenha sido um médico.

Sophia começou a rir. — Não!

— Então por que você está machucada?

— Foi um acidente. Um cachorro saiu correndo, uma bicicleta apareceu, eu caí e...

Antônio fechou os olhos. — Sophia.

— Eu estou bem!

— Eu deixo você sair por uma hora...

— Você não me deixou sair. Tenho vinte e seis anos.

Antônio examinou novamente o curativo. — Pelo menos limpou?

— Limpei

— Na proxima corrida, vou pedir joelheiras e um capacete para você. — Antonio riu e seguiu — Sua mãe está na sala.

— Ótimo. Vou reclamar de você para ela.

— Boa sorte.

Helena estava sentada no sofá com o álbum de fotografias.

— Oi, mãe.

— Sophia! O sorriso veio imediatamente. Sophia se aproximou e beijou seu rosto.

— Voltei.

— Você saiu?

— Fui correr.

Sophia pensou em contar sobre a queda, o cachorro e Alex. Mas Helena já havia voltado às fotografias. Sophia sentou-se ao lado dela. Ficou ali alguns minutos, acompanhando as imagens que a mãe virava devagar.

Até que o celular vibrou.

Era Flavia, após comentar o ocorrido ela exigiu a história completa. Sophia contou sobre o cachorro, a bicicleta, o joelho ralado e Alex.

Flávia: Ele é bonito?

Sophia pensou nos cabelos pretos, no sorriso discreto e, principalmente nos olhos que pareciam esconder muito lá dentro.

Sophia: É.

Flávia: E ele é legal?

Dessa vez, Sophia demorou um pouco mais para responder.

Sophia: Parece que sim. Ele é sério, mas tem charme ao mesmo tempo.



Alex chegou em casa. Deixou a bicicleta no lugar habitual, tirou os tênis e caminhou até a sala. Um pequeno vulto creme e marrom se aproximou de suas pernas com um miado.

— Eu também senti sua falta.

— Ou você quer comer. Outro miado. — Claro.

Alex se agachou para acariciá-la. Havia algo reconfortante naquela rotina. Era um espaço que construíra cuidadosamente ao longo dos últimos dois anos. Gostava da vida e da estabilidade que havia conquistado. Às vezes, porém, quando o apartamento ficava silencioso demais, a tranquilidade e a solidão pareciam coisas semelhantes vistas de longe. Alex preferia não pensar nisso. Levantou-se e caminhou até a cozinha. Estava abrindo a geladeira quando o celular vibrou.

Sophia: Oi, Alex.

Alex: Oi, Sophia.

Sophia: Vim informar que continuo viva.

Alex: Ótima notícia.

Sophia: Para sua felicidade, sim.

Alex riu sozinha, ainda estava se acostumando com a sua espontaneidade, deixou o celular sobre a bancada, abriu a geladeira e separou alguns ingredientes para preparar uma massa. O aparelho vibrou novamente.

Sophia: Posso fazer uma pergunta séria?

Alex: Pode.

Sophia: Você realmente gosta de filme de terror ou falou isso só pra me impressionar?

Alex: Acho que seria uma estratégia de conquista bastante específica.

Sophia: Então prove.

Alex: Como?

Sophia: Qual foi o último filme de terror que você assistiu?

A conversa sobre filmes atravessou o almoço. Descobriram que tinham opiniões igualmente severas sobre personagens que investigavam ruídos estranhos em casas abandonadas e sobre finais mal resolvidos. Discordaram sobre finais abertos, sustos fáceis e quais protagonistas sobreviveriam por mais de vinte minutos. E, em determinado momento, Alex percebeu que sorria sozinha havia vários minutos. A tarde seguiu entre suas rotinas, interrompida por mensagens, fotografias e comentários aparentemente sem importância.

Sophia enviou uma foto da sobremesa preparada por Antônio. Alex respondeu com a imagem de um prato de massa.

Sophia: VOCÊ QUE FEZ?

Alex: Fiz.

Sophia: Isso é injusto.

Alex: O quê?

Sophia: Ter gente que cozinha assim e eu queimo até torrada.

Alex: A torrada já está praticamente pronta.

Sophia: Obrigada pela observação.

Alex: Disponha.

Mais tarde, Alex enviou uma fotografia de Princesa dormindo enrolada no cobertor favorito. A reação foi imediata.

Sophia: MEU DEUS.

Sophia: QUE COISA MAIS LINDA.

Sophia: ELA É SUA?

Alex: É. Chama-se Princesa.

Sophia: Princesa?!

Sophia: Achei muito fofo.

Alex: Ela discorda da fofura. Acha que o nome é compatível com a posição que ocupa na casa.

Sophia: Ela parece exigente.

Alex: É.

Sophia: Puxou o dono.

Alex percebeu que Sophia formava uma imagem equivocada a seu respeito. Na maior parte das vezes que isso acontecia, já estava acostumada, precisava apenas de uma correção para as coisas se resolverem.

Mas entre a queda e as conversas, não considerara importante interromper tudo. Agora, porém, podia simplesmente explicar. Alex começou a escrever: “Acho que você entendeu uma coisa errada sobre mim.” A frase parecia anunciar uma conversa mais grave do que precisava ser. Alex apoiou o celular sobre a perna. Ao voltar a olhar para a tela, percebeu que Sophia havia enviado outra mensagem.

Sophia: Ela gosta de visitas?

Alex: Nem sempre. É meio medrosa.

Sophia: Ah, tadinha.

Sophia: Eu sempre quis ter um bichinho.

Alex: Nunca teve?

Sophia: Não. Mas um dia quero.

Alex observou Princesa, que já se acomodava sobre seu braço.

Alex: Ela provavelmente gostaria de você.

Sophia: Você acha?

Alex: Acho.

Sophia enviou um coração. Alex bloqueou a tela. A explicação poderia esperar alguns minutos.


Às 22h43, Sophia já estava de pijama e pronta para assistir a uma série quando o celular vibrou. Era Alex perguntando sobre alguns dos filmes e se ela já havia assistido. Ela decidiu que a serie poderia esperar mais um pouco, e seguiu com as mensagem para Alex. Após um tempo de conversa Sophia o questionou

Sophia: Me conta uma coisa.

Alex: O quê?

Sophia: Você sempre fala tão pouco assim?

Alex: Não acho que esteja falando pouco.

Sophia: Por mensagem você até que fala, mas pessoalmente é bem monologo.

Alex: É mais fácil, por aqui.

Sophia: Por quê?

Alex demorou um pouco para responder.

Alex: Tenho tempo para pensar antes de responder.

Sophia leu a mensagem e, pela primeira vez naquela noite, não fez uma piada.

Sophia: Eu não tenho muito esse problema.

Alex: Percebi.

Sophia: HAHAHA.

Sophia: Mas acho legal isso.

Alex: O quê?

Sophia: Você pensar antes de falar.

Alex: Por quê?

Sophia: Porque, quando você fala, parece que realmente prestou atenção no que eu disse.

Alex ficou olhando para a tela. Era uma frase simples, sem grandes palavras. Ainda assim, algo nela se moveu. Havia muito tempo que ninguém elogiava uma característica que Alex frequentemente considerava um defeito. Estava acostumada a ouvir que precisava sair e conversar mais, ser mais sociável, animada e interessante. Ser interessante, aquela era a parte que mais doía nela. Sophia, entretanto, elogiou justamente sua maneira de se comunicar. Alex apoiou a cabeça no encosto do sofá.

Alex: Você também é interessante de ouvir.

Sophia: Sério?

Sophia: Mesmo eu falando pelos cotovelos?

Alex: Mesmo assim.

Sophia mordeu discretamente o lábio e sorriu, como ele podia ser tão serio e direto ao mesmo tempo.

Sophia: Gostei de conversar com você hoje.

Alex: Eu também gostei.

À 1h52, Alex consultou o relógio. Quase duas da manhã. Aquilo era um absurdo. Alex costumava respeitar os horários. Gostava de dormir cedo quando trabalhava no dia seguinte e de manter a rotina sob controle.

Mesmo assim, passara horas conversando com uma mulher que conheceu naquela manhã. Uma mulher que gostava de filmes de terror e batatas fritas com sorvete, falava bastante e tinha opinião sobre quase tudo. E que fazia o tempo passar depressa demais.

Sophia: Alex?

Alex: Oi.

Sophia: Acho que a gente devia dormir.

Alex: Acho uma decisão sensata.

Alex: Boa noite, Sophia.

Sophia: Boa noite Só Alex.

Alguns segundos depois, outra mensagem apareceu.

Sophia: Ei.

Alex: O quê?

Sophia: Obrigada por hoje.

Alex: Pelo acidente?

Sophia: Não, idiota kkkkk.

Sophia: Pela companhia.

Alex: Eu que agradeço.

Sophia enviou um coração. Dessa vez, Alex sentiu o rosto aquecer. Deixou o celular sobre a mesa. Observou a sala silenciosa, os livros alinhados e a Princesa dormindo no sofá. Tudo estava no lugar. E, ainda assim, algo parecia diferente. Talvez fosse a novidade de uma conversa agradável com alguém interessante. Não precisava transformar aquilo em algo. Afinal, conhecera Sophia naquela manhã.

Nos últimos anos, aprendera a apreciar a própria companhia e a não esperar demais das pessoas. Mas, no fundo, sabia que havia um mal-entendido entre as duas. Talvez surgisse uma oportunidade natural durante a conversa; se não, explicaria pessoalmente quando voltassem a se encontrar. Não havia inventado uma história e o problema não era ter deixado Sophia acreditar em algo errado.

O problema era que, pela primeira vez, Alex não tinha certeza se queria corrigir aquilo.

Deixou o celular sobre a mesa e se levantou. Apagou a luz da sala. No quarto, tirou o boné, em frente ao espelho, tirou a camiseta e observou o top que apertava o seu peito e o fazia desaparecer sob as roupas largas.

Suspirou, colocou o pijama e depois se deitou. Princesa apareceu e se acomodou perto de seu braço.

Enquanto encarava o quarto escuro, se pegou pensando em uma mulher de olhos cor de mel que a fizera rir mais vezes naquele domingo do que muitas pessoas em meses. Sorriu no escuro. Contaria amanhã.

Foi ai que Alex percebera que algumas omissões começavam com uma verdade tão simples de contar que acreditava poder deixá-la para depois.

Talvez o depois nem existisse. Talvez elas nem voltassem a se falar.


Sophia permanecia acordada, olhando para a última mensagem recebida.

Antes de fechar os olhos, pensou que talvez devesse correr no parque mais vezes. Não sabia se acreditava no destino nem se as pessoas estavam predestinadas a se encontrar. Mas, se alguém perguntasse naquela noite se estava arrependida de ter acordado cedo, Sophia responderia que não. Passara a manhã com o joelho machucado e terminara o dia sorrindo. Por enquanto, parecia uma troca justa.


Notas finais
Obrigada por chegar até aqui! Espero que você tenha gostado de conhecer Sophia e Alex — e desse encontro um tanto inesperado. Se puder, deixe seu comentário contando o que achou do capítulo. A opinião de vocês é muito importante para mim. Nos vemos no próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.