Entre letras e números
2 Capítulo 2 - Não consigo tirar meus olhos de você.
Notas iniciais

“Você é muito bom pra ser verdade. Não consigo tirar meus olhos de você.”
Can’t Take My Eyes Off Of You – Frankie Vallie.
Entrei na universidade com o pé direito.
Essa era uma supertição boba, mas eu gostava de usá-la às vezes.
Segurava em minhas mãos a papelada que deveria ser entregue na diretoria antes que as aulas começassem. Olhei em volta. A universidade era grande demais. Era um contraste entre a simplória cidade que mais parecia um vilarejo, com uma moderna estrutura que abrigava alunos de vinte e três áreas, que se dividiam pelos mais inúmeros e específicos cursos.
O meu curso era o de Letras e Jornalismo. Uma variação do curso principal, que permitia ao aluno atuar em diversas áreas.
Caminhei confiante até a secretaria. Uma moça loira, com cabelos curtos na altura dos ombros e olhos azuis, me sorriu educada, enquanto examinava os papeis que eu a entregara.
— Está tudo correto, senhorita Lopez. Aqui está o seu fardamento e os seus horários.
— Muito obrigada.
Sorri para a moça educada e saí da secretaria em busca de um banheiro para trocar-me.
Desembrulhei o pacote que continha três opções de uniforme. Escolhi um que era composto por uma blusa social branca, um colete de lã creme, um blazer azul marinho e uma saia de pregas da mesma cor. A ideia de usar uniforme não me parecia boa, mas não iria me opor às regras da universidade.
Depois de vestida, me olhei no espelho. Não era de todo mal.
Guardei minhas roupas na bolsa e verifiquei o horário. A primeira aula seria de Introdução à Narrativa, com a professora Bethany Taylor. O problema era que eu simplesmente não fazia ideia de onde era a minha sala. O lugar era verdadeiramente enorme e os alunos pareciam brotar do chão a cada passo que eu dava.
Eu estava completamente perdida ali.
— Não esperava revê-la tão rapidamente.
Novamente a voz soou de trás de mim. Eu sorri antes mesmo de fitá-lo. O timbre de Sebastian era simplesmente inconfundível.
— Digamos que eu estou um pouco perdida.
— Eu iria dizer isso, mas achei que talvez soasse mal-educado da minha parte.
Ele riu e eu o acompanhei. Ele usava um blazer cáqui com os botões todos fechados, uma blusa branca por dentro e uma calça azul. Certamente o uniforme dos garotos.
— Deixe-me ver se posso ajudá-la. Qual o seu curso?
— Letras e Jornalismo.
— Ah, você é de humanas — Ele disse balançando a cabeça em negativo.
— Não me diga que você é de exatas?! — Entrei no seu jogo e fingi indignação, enquanto andávamos pelo corredor da universidade.
Eu o fitava intensamente. Suas feições sorridentes eram tão agradáveis de serem observadas que eu não conseguia parar de olhá-lo.
— Temo pelo futuro dessa amizade agora, Santana.
Ele lembrava-se do meu nome? Interessante.
Sorri da declaração dele, que estendeu o braço para que eu o pegasse.
— Posso levá-la para o seu bloco?
— Não vou te atrapalhar, né?
— Claro que não, caloura.
Seu sorriso torto era incrivelmente atraente, deixando-o ainda mais interessante.
— Pra falar comigo assim, certamente você é veterano, certo?
— Mas é claro! Eu sou do quarto período de Engenharia Civil.
Revirei os olhos do jeito que ele falou sobre seu curso, todo orgulhoso e cheio de si. Sebastian me pareceu aquele tipo de garoto que mesmo sendo legal, consegue te tirar do sério pelo seu jeito convencido.
Ele sorriu novamente, ajeitando o braço que abrigava minha mão.
— Você é nova na cidade?
— Sim.
— Veio para cá só por conta da faculdade?
— Sim. — Afirmei limitando-me a concordar.
— Você sabe falar algo além de sim?
— Sim! — Disse rindo e ele revirou os olhos, acompanhando-me logo em seguida. — Eu morava em Liverpool.
— Sério? Sempre quis conhecer a cidade dos Beatles. É a minha banda favorita, sabia?
— Lógico que não. Acabei de te conhecer.
Ele me olhou com os olhos castanhos semicerrados e eu dei uma gargalhada baixa.
— Você até que é legal para quem faz humanas.
Suspirei e o olhei com sarcasmo.
— E você é tão convencido quanto um de exatas poderia ser.
Ele riu e em seguida anunciou que havíamos chegado ao meu bloco. O lugar era distante de onde eu estava a princípio, mas tudo passou tão rápido que parecíamos ter apenas atravessado à rua.
— Bom, eu tenho que ir, pois o meu bloco é do outro lado e eu vou me atrasar para a aula.
— Mas você disse que isso não te atrasaria! — Falei mais alto enquanto o via se afastando, caminhando de costas.
— Falei para poder conversar com você. Nos vemos por aí!
Ele virou-se na direção normal e andou apressadamente. Meus olhos o seguiram até que eu não conseguia mais vê-lo. Eles pareciam está encantados e não me deixavam deixar de olhá-lo.
Durante todo o caminho foi assim. Eu estava até com medo de que ele notasse e achasse ruim. Que tipo de maluca anda o caminho inteiro te encarando? Aquele tipo de maluca que se perde no primeiro dia de aula na faculdade e te faz atravessar um campus inteiro para levá-la até a sala.
Apressei-me para entrar, antes que fosse repreendida por alguém. A maioria da turma já estava lá, por isso, consegui um lugar apenas na penúltima fila encostada à parede. Definitivamente eu tinha passado muito tempo admirando Sebastian se afastar.
Na minha frente uma menina de cabelos loiros cacheados que parecia está nervosa, já que não parava de balançar suas pernas. Do meu lado um rapaz de moicano que estava mais interessado em desenhar na carteira do que na aula que estava prestes a começar.
Olhei para frente assim que a professora chegou, concentrando-me em cada palavra que ela dizia. A princípio foram só apresentações dos conteúdos e eu estava adorando o que me esperava pela frente.
Mesmo achando a aula interessante, meus pensamentos ainda focalizavam a imagem de Sebastian. Seus olhos azuis que roubaram totalmente minha atenção. Não só os olhos, mas também o sorriso, o jeito de falar e a gentileza que chegava a despertar desconfiança.
Tudo isso me fazia não conseguir tirar os olhos dele.
Fale com o autor