Entre feitiços, uma negra e um gordinho excitado
4 Vomitilhas
Ysa encontrou-se em desespero assim que não avistou Igor no café da manhã. Mesmo com sua visão superior aos dos mais poderosos satélites, não encontrou o namorado espinhento e de pau pequeno.
— Ele pode não ter acordado. — palpitou Alexia, que alterava partes de seu rosto de forma cômica para fazer Gabriel rir.
— Que espécie de parvo dorme demais logo no primeiro dia de aula? — perguntou Gabriel.
— A mesma pessoa doente o suficiente para se apaixonar pela Ysadora. — e o comentário de Alexia fez o namorado rir ainda mais.
Ysa estava demasiado preocupada para sequer dar uma de suas respostas burras.
— Acho que vou atrás dele. — disse Ysa, olhando para o portal do Grande Salão por cima dos masculinos ombros.
— Por falar nisso, aonde o criminoso e leitão foram? — perguntou Gabriel, olhando em volta. — Eles disseram que não iam demorar. Será que estão tendo um caso?
— Lucas é maluco mas não tem tamanho mau-gosto. — retorquiu Alexia. — Tirando o fato de que comeu o João com o dedo...
Mas antes que mais uma palavra pudesse ser dita, Telena Agott, uma aluna que reconheciam da Grifinória por causa da cerimônia do Chapéu Seletor, apareceu de repente, roubando a atenção de Ysa.
— Você é a namorada do Igor, não é?
Ysa estudou aquela menina de cima a baixo, levemente desconfiada, e assentiu na defensiva.
— Ele não está passando bem. — contou Telena. — Pediu para eu avisar você.
Ysa arregalou os olhos e franziu a testa enquanto levantava-se lentamente, a cabeça de alfinete roçando no teto encantado.
— O que ele tem?
— Está vomitando muito. — e a garota fez uma cara de nojo. — Acham que alguém deu Vomitilhas pra ele.
— Mas quem aceita algo suspeito pra comer desse jeito? — perguntou Alexia, cuja boca parecia o bico de um tucano.
Gabriel riu pelo nariz e pegou uma fruta da travessa à sua frente.
— O Igor não é muito mais inteligente que o Borela. — mordiscou, fazendo a fruta soltar o leve ganido.
— MAS FODE MELHOR! — exclamou Ysadora, sentindo o rosto ruborizar.
No mesmo instante, percebeu o que tinha dito. Tentando ignorar os risos às suas costas, disse, para tentar mudar de assunto:
— Ele disse algo sobre me querer lá?
— Ele não disse nada. — respondeu a garota, claramente envergonhada pelo que Ysa dissera. — Não sei se ele vai querer que você o veja naquele estado... Só pediu para eu avisa-la...
Ysa entortou a boca enquanto pensava. Será que era isso mesmo? Ou será que Igor estava se esfregando com alguma leoazinha da Grifinória lá em cima, e então inventara essa desculpa?
— Mas afinal, o que você é dele? — Ysa perguntou com o alfinete de ciúmes cutucando-lhe o útero do tamanho de um bebê baleia.
— Eu sou a namorada do irmão dele. — respondeu Telena, claramente ofendida.
Ysa entreabriu a boca e tornou a estudar a garota. Era muito mais bonita que ela, e decididamente era muita areia para o irmão de Igor.
— Ele nunca falou sobre você. — respondeu Ysa.
Telena então desviou o olhar. Seu rosto ficou rosado e ela contraiu o corpo, como se Ysa tivesse dito algo sobre os mamilos duros que era possível ver por baixo do manto negro.
— Isso não tem importância. Só vim dar um recado...
— Mas por que ele não comunicou nenhum professor? — perguntou Gabriel, num tom que fazia aquela parecer a ideia mais óbvia.
— Iriam tirar sarro dele. — respondeu Telena. — Por isso só contou pra mim. Ele está trancado no banheiro. Colocou um feitiço da confusão na maçaneta. Qualquer um que tente toca-la, vai esquecer o que ia fazer. Por isso ninguém o achou ainda.
Alexia soltou um assobio com a boca que agora estava normalizada, mas seus cabelos estavam uma sopa de cores.
— Até que ele é bem talentoso com feitiços. — comentou. Então virou-se para Gabriel e continuou: — A mãe disse feitiços da confusão são complicados até para alunos do sétimo ano.
— Não foi ele quem colocou o feitiço. — afirmou Gabriel. Ele passou o olhar intrigado para Telena. — Ou foi?
Telena negou com a cabeça.
— Ele trouxe em uma daquelas garrafas-porta-feitiço.
Ysa nunca ouvira falar daquilo.
— E o que é esse negócio?
— Quer mesmo ficar perguntando essas coisas ao invés de ver como seu namorado está? — disse Alexia
— E se ele não quiser me ver nesse estado?
— Se ele tivesse bom senso, não iria quer te ver nunca. — retrucou Gabriel, dando um gole em seu suco.
— Ele sempre te trata assim? — Telena quis saber.
Ysa fez que não com a cabeça e respondeu:
— Ele nem é o pior. Precisa ver o Lucas.
A giganta dos infernos juntou suas tralhas, colocou-as nas costas e deu um breve aceno ao casal microbiano e Telena.
— Vou ver se o Igor precisa de alguma coisa. Ele não pode perder o primeiro dia de aula...
— Olha que namorada exemplar. — disse Gabriel, com ironia.
"E pensar que já te amei mais que tudo no mundo..." sussurrou Ysadora na própria mente.
Assim que Ysa começou a subir as escadas, uma primeiro-anista da Lufa-Lufa soltou um grito esganiçado pouco antes de se esconder atrás de um grupo de alunos mais velhos.
— UM MONSTRENGO GIGANTE! — berrava ela, à beira do choro.
— Calma. — disse um dos alunos mais velhos. — Parece um monstrengo gigante, mas é só uma aluna que não executou bem o feitiço de espichamento. Quer dizer... executou bem até demais...
Ysa ruborizou e exclamou:
— Não foi acidente nenhum. Eu nasci assim, está bem?
Os alunos ficaram claramente sem jeito, trocaram olhares culposos como se tivessem ferido a pata de um cachorrinho. Então o mesmo garoto que dissera aquilo sobre Ysa, manifestou-se.
— Nos desculpe. É que não estamos acostumados a ver meios-gigantes...
Ysa simplesmente virou as costas e continuou a galgar os degraus a passos pesados, com as bochechas cheias de ar quente de irritação.
O banheiro masculino ficava no fim do corredor. Ela olhou a sua volta para certificar-se de que ninguém a veria entrando, então, num gole de coragem, entrou no santuário de urina.
— AI MISERICÓRDIA! — berrou a voz de Igor.
O cheio de vômito era ainda mais forte que o de urina. Teve de controlar o próprio estômago para não colocar o café da manhã para fora.
— Amoreco? — perguntou Ysa com a orelha colada na porta do boxe de Igor.
— A — e Ysa ouviu uma golfada. — mor? O que está fazendo aqui?
— Eu vim ver como você está, oras! — disse Ysa. — Deixa eu entrar...
E Ysa, sem lembrar-se, meteu a mão na maçaneta do boxe.
Foi instantâneo. Todos os pensamentos foram varridos de sua mente oca, e substituídos por nuvens vagas de ideias incompletas.
— Mor? — ouviu-se a voz de Igor.
— Igor? — perguntou Ysa. — MEU DEUS? TEM ALGUM BICHO MORTO AÍ DENTRO?
— Ai, meu Deus, amor. Você tocou na maçaneta... Ah... — e ouviu-se novamente o som de vômito caindo na água. — COMO AINDA PODE TER ALGUMA COISA DENTRO DE MIM PARA VOMITAR?
— Você está vomitando, amor? — perguntou Ysa.
— Sim. — respondeu Igor, a voz trêmula. Por favor, não toque na...
Mas Ysa novamente tocou na maçaneta.
— Eu gosto da cor azul. — disse Ysa. — Tudo que é azul é gostoso.
— Meu pau não é. — replicou Igor.
Embora o argumento tivesse sido acachapante, Ysa respondeu:
— No frio ele é. Ele é tão pequeno, amor... Ui... mete sua varinha em mim e fala "Crucio"?
— Ysa... por favor... — e ouviu-se mais barulho de vômito. — Eu vou melhorar logo. Me deixe sozinho por enquanto...
— Mas o que você tem, amor? — perguntou Ysa, esfregando a bunda na porta encardida do banheiro.
— Vomitilhas... Aquele seu amigo Lucas deu pra mim... Ele disse que queria fazer um experimento....
— Ai... Vomita em mim. Deixa eu entrar aí...
— Não, amor, não to...
Mas Ysa tocou.
— AI EU VOU FICAR NUA — bradou em tom embrigado.
E a giganta começou a rasgar as próprias roupas e a dançar no meio do banheiro empesteado com o cheiro do vômito de Igor.
— Ysadora, coloque as roupas agora! — ouviu-se a voz de Igor mandar com rispidez.
— Sai fora, mermão! Agora eu quero é dar pra alguém com um pau digno desse túnel que eu chamo de buceta.
No exato mesmo instante, Lucas e Pedro irromperam no banheiro com máscaras de gás que compraram para questões de Gabi.
— Oh, céus. — murmurou Lucas ao pôr os olhos naquele cu gigantesco que mais parecia um monstro prestes a devora-los.
Pedro, por outro lado, Ysa notou, estava com a "varinha em mãos".
— Gordinho! — exclamou a giganta nua enquanto bamboleava na direção do amigo porcino. — Você quer dar um trato nessa giganta puta, quer?
— SE TRATA! — berrou Pedro, empurrando a amiga para longe.
— Mas você já sentiu paixão por mim, gordinho. — disse Ysa, parecendo cada vez mais bêbada. — Não negue seus instintos, amor meu.
— YSADORA, CHEGA! — a voz de Igor estava ainda mais zangada, mas a gigante não tinha a intenção de parar.
— Meu toquinho pertence a Inês! — disse Pedro.
— Ela não precisa saber... — disse Ysa, avançando contra a batata de óculos novamente.
— Ela deve ter tocado demais na maçaneta. — palpitou Lucas. — A mente dela virou mingau.
— E já não era antes? — perguntou Pedro, se afastando conforme a giganta avançava.
— Precisamos leva-la à Madame Pomfrey. — disse Lucas, colando na parede para ficar longe da giganta.
— Isso é tudo culpa sua. — disse Igor.
— Eu só queria testar se as Vomitilhas funcionavam bem. — disse Lucas.
— Ah, funcionam muito bem! Mas para que precisava disso afinal?
— Eu já disse, imbecil. É segredo!
— Considerando que minha namorada está tonta, nua, e querendo dar pro gordo aí, e eu estou vomitando minha alma, acho que me deve uma explicação!
— Não posso. — disse Lucas, inflexível.
— Nesse caso vou contar ao professor Snape sobre isso. — ameaçou Igor.
— Conta. — mandou Pedro, que estava quase fora do banheiro. — Não quero perder quatrocentos pontos antes do ano começar.
— Depois eu conto. — Lucas respondeu com severidade, os olhos faiscando.
— Agora. — exigiu Igor. — Não tenho como garantir que vai me contar depois.
Lucas trocou olhares amedrontados com Pedro, que retribuiu com um aceno de cabeça.
O criminoso mordeu o lábio, soltou um gemido de descontentamento, e então correu para junto da porta de Igor, e Ysa conseguiu ouvir algo sobre envenenar o Filch para que pudessem entrar na biblioteca e pegar livros sobre uma lenda da escola.
— Ai, ninguém foder-me-a?
— PETRIFICUS TOTALLUS! — Exclamou Pedro, e no instante seguinte, a giganta nua caiu dura no chão, fazendo o castelo todo estremecer junto a seus minúsculos seios que sequer encheriam a palma de uma mão.
— Vista ela. — mandou Lucas. — Eu vou chamar a Madame Pomfrey.
— Por que eu preciso ir para o abate? — perguntou Pedro, em tom de lamento.
— Porque você já gostou dela. — argumentou Lucas, muito sensato.
— Não toque aonde não deve. — alertou Igor.
— Relaxa. — disse Lucas. — O Pedro não violaria uma mulher comprometida. Seu coração já pertence ao travesti mais amado do Brasil.
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