— Como você está? — perguntou Gabriel a Ysadora quando os três garotos a avistaram no meio da floresta de alunos.

Ysa arfava e engolia em seco. Lucas virou o pescoço e mirou Gabi pairando sobre a torre da Ala Hospitalar. Sentiu uma estranha preocupação aflorar-lhe, e não soube dizer se era oriunda do fato do primo estar em perigo, ou porque sua cagança poderia causar muito mais estragos se ele saísse voando pelos terrenos da escola.

— Papoula, você e Pomona resgatam o sr. Stumpf. — mandou profa. Minerva, fazendo um gesto com a mão para que se apressassem, ao mesmo tempo que balançava a varinha para suspender a queda dos alunos da torre de astronomia.

Madame Pomfrey e profa. Sprout assentiram, tiraram as varinhas das vestes e com acenos delicados como quem toca em cristal puro, desceram Gabi até o gramado, contendo seus abruptos disparos de merda. O garoto exclamava e chorava enquanto apertava as nádegas vermelhas como tomates, os dedos totalmente marrons e melados.

Lucas considerou a ideia de se aproximar para tentar dar um auxílio, mas achou que as professoras poderiam achar suspeito, considerando que ele nunca demonstrara qualquer complacência para com o primo, e talvez o adicionassem à lista de suspeitos de "possíveis causadores desse episódio", como tinha certeza de que Minerva não se daria ao trabalho de esquecer de criar.

— Vamos. — disse ele aos amigos, ainda sem tirar os olhos do primo retorcido no chão. Piscou os olhos, sacudiu a cabeça e indicou o Lago Negro. — Vamos pra lá.

— Mas os professores vão precisar de ajuda para consertarem a escola. — pôs Ysadora.

— Dane-se. — cortou Lucas taxativo, e começou caminhar a passos sombrios até o lago.

Chegando à margem, esquadrinhou seu reflexo na água vítrea, e percebeu que seus olhos estavam emoldurados por olheiras, como quem não dorme há pelo menos duas noites; e somente naquele momento, sentiu suas pálpebras pesarem.

— Será que foi a Stelfart que causou isso? — Considerou Gabriel, baixinho.

— Quase certeza. — disse Pedro, desembaçando os óculos e colocando-os contra o sol. — Mas ela sozinha não faria isso, não é? Quer dizer, o Gabi se cagava, então ela cumpriu seu propósito de curá-lo... Por um tempo, mas cumpriu. Não faz sentido causar isso depois... Foi muito pior que com o Borela...

Naquele momento, foi como se uma lâmpada se acendesse no cérebro de Lucas. Ele arregalou os olhos conforme as teorias relampejavam em sua mente.

— É isso! — vociferou ele.

Ele girou os calcanhares e alternou o olhar astuto entre os três amigos, que pareciam não entender nada.

— O Borela não se cagou sem motivo. No "Poções muy potentes", dizia que só uma quantia exagerada faria o indivíduo se cagar em demasia. Mas o Borela não ingeriu uma grande quantidade. Achamos que havia sido porque ele não tem problemas de cagança, e por isso testamos no Gabi sem problemas. Mas a verdade é que isso não devia ter acontecido. Com nenhum deles.

"O Gabi demorou um pouco mais que o Borela para explodir, mas acho que isso é porque ele tinha de fato problemas, então a Stelfart agiu como deveria, mas depois o mesmo problema aconteceu. E se alguém alterou a poção para que causasse isso com quem ingerisse?"

Pedro franziu a testa boquiaberto, como se ao primeiro momento tivesse considerado essa ideia ridícula, mas aos poucos fora aceitando que fazia sentido; Gabriel permaneceu sério e imutável, crispando os lábios de vez em quando; e Ysa apenas balançou a cabeça.

— Mas quem seria talentoso o bastante para alterar uma poção daquele nível? — perguntou Gabriel.

Lucas olhou por cima do ombro do amigo, e fixou-se em um vulto negro e esguio que se apressava em ajudar os professores a reconstruírem as paredes do castelo. Os três amigos viraram os pescoços e olharam para onde ele olhava. Pedro se virou imediatamente, com a expressão de quem ouvira que Michael Bay era um diretor melhor que Scorcese.

— O Snape? — bradou ele, com a voz cheia de ar.

— Faz sentido. — reconheceu Gabriel.

Lucas fez que sim com a cabeça.

— Mas não tem motivos, Lucas! — repreendeu Pedro, gesticulando.

— Ah, tem sim! — bradou Lucas, com um fio de raiva despontando em seu peito. — Ele preza demais a Sonserina, e não poderia suportar me ter nela, considerando que eu a faria perder muitos pontos. Ouvi dizer que ele tinha um forte desprezo por Thiago Potter, e tanto ele quando McGonagall disseram que eu me assemelho a ele. Pedro, faz muito sentido. — acrescentou, ao ver o amigo ruborizar.

Lucas sabia porque Pedro estava defendendo tanto Snape. Ele era o primeiro professor que de fato o elogiara, e era a única disciplina em que ele era imensuravelmente melhor que os demais amigos.

Antes que Pedro pudesse soltar outro argumento, ouviu-se um som agudo subir e logo depois, uma explosão que lembrava fogos de artifício. Os quatro garotos olharam para trás novamente, e fagulhas vermelhas caíam lentamente sobre o castelo, como confetes cintilantes, e à medida que se aproximavam das torrinhas, iam se dispersando.

— Acho que é um sinal para voltarmos. — palpitou Ysadora, cujo rosto estava espremido contra as paredes da escola.

O grupo retornou desalentado ao limiar da escola, onde uma grande concentração de alunos se amurava ao redor dos professores. Assim que o grande anel de alunos se fechou por completo, o diretor levou a ponta da própria varinha à garganta, e começou a apregoar com voz saiu magicamente ampliada:

— Estamos encontrando dificuldades para reconstruir a escola. Portanto, resolvemos mandá-los de volta à suas casas, por ora, até que consigamos driblar este problema. O Expresso de Hogwarts irá partir hoje às vinte horas, e o prazo original para a entrega da carta que os informará quando devem voltar, é sete dias.

As vozes abafadas dos alunos estouraram como um formigueiro perturbado por um graveto comprido. Voltar para casa? Mas isso significaria não poder investigar Snape por pelo menos sete dias. A não ser que...

— Ysa. — Lucas elevou a voz para se sobressair ao som que os circundava. A amiga gigante virou-se para ele. — Há a possibilidade de eu ficar na sua casa? Preciso usar a bola de cristal da sua mãe.

O rosto de Ysa moldou-se em uma careta de surpresa. Seus olhos brilhantes olharam em volta, como se procurassem outra "Ysa" com a qual Lucas poderia estar falando.

— É... Claro. — disse ela, sem jeito. — Vocês também querem ir? — Perguntou a Gabriel e Pedro.

— SIM! — apressou-se Gabriel em dizer, e todos sabiam exatamente o porque de tamanha excitação.

— E você?

Pedro a principio demonstrou total certeza em negar o pedido, mas, aos poucos a dureza de suas expressões foi se dissipando, como se lembrasse de alguma coisa que o fizesse refutar a ideia de ir para a própria casa.

— Já que meu irmão está passando uns dias lá em casa, e eu não quero ter de olhar pra cara dele todo o dia, eu vou sim. — disse, tentando soar indiferente.

Ysa sorriu de orelha a orelha. Lucas logo pensou que esse deveria o momento em que a amiga se sentiu mais importante em toda sua vida.

Os professores permitiram que os alunos entrassem rapidamente na escola para apanharem seus pertences, mas sob a sugestão de usarem feitiços escudo a todo o momento, para evitar serem atingidos por destroços das paredes ou teto. O dormitório da Sonserina fora o menos atingido, pois ficava nas masmorras. Apenas dois dos sete túneis subterrâneos haviam sido bloqueados por pedras, e o do Salão Comunal estava intacto — com exceção talvez do cheiro forte de morte que permeava o ar de todo castelo.

— Faz tempo que não vamos à casa da Ysa. — comentou Pedro, enquanto fazia um aceno com a varinha para dobrar suas vestes e encaixa-las no malão.

— Não temos muitos motivos para ir lá. — pôs Lucas, fazendo o mesmo.

Pedro parou abruptamente e disse:

— É verdade. O que me leva a perguntar: por que quer usar a bola de cristal da Adélia?

— Quero usá-la para vigiar o Snape. — respondeu Lucas, sem rodeios. — Quero ver o que ele está fazendo, e quem sabe conseguir uma prova de que está envolvido no caso da poção.

"Se o Dumbledore resolver investigar a história a fundo, vai descobrir que fui eu quem deu a Stelfart pro Gabi, e com certeza serei expulso. Mas seu eu conseguir uma prova de que o Snape não só contrabandeou a poção para dentro da escola, como também alterou-a conscientemente, posso causar sua demissão."

— Mas você deu a poção ao Gabi. — retorquiu Pedro. — Isso te torna igualmente culpado.

— Dei porque realmente queria curar o Gabi. Se eu soubesse que iria causar aquela explosão, não teria dado.

— Não, mesmo? — Pedro se aproximou de Lucas, com as sobrancelhas franzidas, como se duvidasse veemente do que ele dissera.

— Bem... Teria. Mas a questão aqui não é essa.

Os alunos se reuniram na estação de Hogsmeade para embarcarem no Expresso de Hogwarts. O clima estava muito frio, e a ventania que fazia ali só piorava as coisas. O som dos dentes batendo ecoava pelos trilhos escuros, e alguns quintanistas conjuraram centelhas para esquentar um pouco ao redor.

Foi um alívio quando a buzina do trem foi ouvida, assim como o som de suas engrenagens deslizando pelos trilhos. A grande locomotiva vermelha veio para a luz, a fumaça subia da chaminé e espiralava na negritude do céu estrelado. O insuportável meio gigante, Hagrid apareceu diante dos alunos, o lampião balançando sobre as cabeças salpicadas com flocos de gelo.

— Muito bem, muito bem, embarquem...

— A GENTE SABE DISSO, SEU RETARDADO, IMBECIL! — bradou Lucas, se apressando para embarcar no trem.

Os quatro tomaram conta da primeira cabine vazia que encontraram, e fecharam a porta e as cortinas, para que ninguém se atravesse a perturbá-los. Lucas esborrachou a bochecha contra o vidro embaçado, e ficou pensando enquanto as vozes dos amigos se tornaram uma algaravia desinteressante.

A viagem transcorria enfastiadamente, e o cenário lá fora era apenas um conjunto de linhas enluaradas recordadas nas trevas. Lucas não entendia esse fascínio que os outros tinham por viagens de trem. Se conseguisse pensar em algo mais entediante que elas, provavelmente seria as aulas de História da Magia. Em dado momento, Ysa abrira uma caixa de Sapos de Chocolate que comprara da "Tia dos Doces", e o mesmo saiu pulando pela cabine, o que trouxe Lucas de volta ao mundo real.

— Nem os sapos gostam de você, Ysadora? — disse Lucas, com a voz rouca de quem fica muito tempo sem usá-la.

Pedro estava absorto em uma edição do Profeta Diário onde lia-se "Uma nova possível Revolta dos Duendes?"; e Gabriel se empanturrava com Feijõezinhos de Todos os Sabores — seu colo estava coberto de caixas abertas, de onde irrompiam cheiros doces e fortes, mas nada demasiadamente incomodativo.

— Espero que sua mãe tenha largado aquela mania de cuidar de criaturas perigosas, Ysadora. — falou Pedro, que provavelmente tinha lido algo sobre criaturas perigosas, portanto as palavras vieram à sua mente.

— Hum... — gemeu a ginórmica, esquivando os ouvidos da Torre Eiffel.

— Provavelmente não. — opinou Gabriel, com a boca cheia. — Virou hábito. -riu-se.

A mãe de Ysa adquira o costume de gastar a herança da família encomendando criaturas de alta periculosidade e cuidar delas até atingirem a idade adulta. Apesar de diversas vezes elas terem quase tirado a vida das filhas, Adélia não parecia se preocupar, e confiava excessivamente nos monstrinhos. Houve uma vez em que Gabriel salvara a filha mais nova, Alexia, de ser atacada por um Vampiro pré-adolescente, executando um perfeito feitiço estuporante, muito avançado para a idade.

Ao chegarem na plataforma Nove e meia, os garotos desembarcaram e desembocaram a caminhar na direção e um carro velho e enferrujado, que com certeza seria reprovado por qualquer pessoa que se preocupasse demais com aparências. Através do vidro gasto do motorista, havia uma mulher de rosto esguio e cabelos castanhos presos por um rabo de cavalo.

— OI, AMORES! — disse ela, radiante. — Entrem aí. — E indicou a porta traseira com a cabeça. A porta se abriu sozinha.

O carro era surpreendentemente espaçoso, e se ignorassem o cheiro de velho e os bancos cobertos por camadas de poeira, poderia até ser aconchegante. Os três garotos tomaram seus lugares e Ysadora sentou no banco da frente, tendo que dobrar seu corpo apenas nove vezes para caber ali.

— Você emagreceu, filha! — parabenizou Adélia, beijando o braço de Ysa. — Agora está apenas "gorda".

O carro saiu relampejando pelas ruas. Os vultos coloridos ao seu redor se revolviam e Lucas sentia uma forte pressão no peito, como se alguém afundasse suavemente sua mão ali.

— AI, EU VOU PASSAR MAL! — bradou Pedro, se segurando no banco. Seu rosto estava arroxeando e os óculos tremiam na ponte do nariz, ameaçando cair. — AI, ROXANA! AI "MIM" SEGURÁÁÁÁ".

O carro parou com um solavanco que fez todos esborracharem os rostos no banco. Assim que a cabeça de Lucas parou de zunir e sua visão voltara ao normal, viu, através do vidro, uma casa pequena e tortuosa, quase completamente escondida pela hera e por árvores cujos frutos flutuavam, e só não escapavam dos galhos por causa do caule que os prendia.

— Desçam. — mandou Adélia, simpática.

As portas se abriram e os meninos saltaram para fora. O estômago de Lucas deu uma cambalhota e sua cabeça rodopiou novamente; teve que se segurar na lataria do carro para não desabar no chão. Esticou-se e sentiu a brisa despentear seus cabelos. O clima era muito diferente do de Hogwarts.

Depois de descer do carro, Adélia abriu a mão direita e o automóvel foi diminuindo de tamanho até virar uma miniatura de si mesmo. Ele voou para a mão dela enquanto faiscava em azul. Adélia guardou-o na bolsa puída e tirou de lá sua longa varinha lascada, com a qual deu uma batidinha no alto portão negro, abrindo-o. O grupo seguiu pelo caminho calçado que serpeava pelo jardim alto, onde era possível ver alguns anõezinhos de porcelana -vivos- colhendo frutinhas e regando florezinhas.

Ao fim da estradinha, Adélia destrancou a porta, que se abriu para um corredor comprido e apinhado e objetos mágicos que se espalhavam pelo chão. O cheiro ali dentro era uma mescla de coisas velhas com grama cortada, e o tintilar de um relógio podia ser ouvido; assim como o borbulhar de um aquário onde um Grindylow sugava o vidro; e passos apressados que iam se avolumando no cômodo seguinte. De repente, uma menina surgiu emoldurada pela orla do corredor. Ela não devia ter mais de um e sessenta de altura, e era tão esguia quanto Gabriel. Lucas notou que seus cabelos outrora azuis mudaram para rosa assim que a menina colocou os olhos no grupo.

— Lexy! — bradou Ysa, correndo para abraçar a irmã.

Assim que Ysadora ameaçou fechar seus braços sobre Alexia, esta última passou pro baixo de suas ancas e correu desengonçada até Gabriel. Lucas não pôde ver o rosto do amigo, mas teve certeza de que estava ruborizado.

— Ai, que feio, Alexia. — repreendeu Adélia, fechando a porta. — Negar um abraço da sua irmã...

Alexia se desvencilhou de Gabriel, e voltou-se entediada para a irmã.

— Oi, Ysa. — disse, com um aceno molenga da mão minúscula.

Adélia conduziu os meninos até o quatro de hóspedes, onde poderiam dormir por essa semana. Era um pouco apertado, mas pelo menos tinha uma cama para cada um. Havia um espelho quebrado preso à parede por um único prego, uma janela cuja paisagem que mostrava podia ser mudada dependendo da vontade de quem tocasse nela com a varinha, e uma cômoda antiga de carvalho, de onde Lucas logo viu irromper uma aranha pequena e cinza.

— Depois de se acomodarem, venham a cozinha. — disse Adélia, sorridente.

E saiu, fechando a porta.

Os meninos atiraram os malões por cima das camas e começaram a desenterrar as vestes. Pedro dava olhares de soslaio para os cantos, evidentemente procurando alguma criatura que pudesse atacá-lo das sombras.

— Não sei se quero comer alguma coisa, depois da viagem que fizemos. — admitiu Gabriel, foleando um livro didático da escola. {[(redundante, mas necessário)]}...

— Eu tenho certeza de que há algo que você quer comer. — disse Lucas, sem tirar os olhos do uniforme da Sonserina que acabara de pousar ao lado da cama.

Eles deixaram o quarto sem demora, e rumaram para a cozinha, onde panelas, pratos, copos e talheres se lavavam sozinhos, utilizando uma torneira que abria e fechava sem ajuda. Prateleiras apertadas de madeira rangiam nos cantos, e guardanapos saíam voando como pássaros até pousarem totalmente dobrados ao lado dos pratos que encimavam a mesa recostada na parede encoberta de fotos que se mexiam.

Adélia, Ysa e Alexia já estavam sentadas, e a mais nova abriu-se em um sorriso vermelho ao vê-los... Ou ver apenas um deles. Seu cabelo novamente mudou de azul para rosa. Eles tomaram os lugares, e a mãe de Ysadora estalou os dedos. Quando todos pensavam que nada ia acontecer, cinco criaturas irromperam na cozinha, arrancando um berro petrificado de Ysadora. Eles se assemelhavam a pequenos macaquinhos brancos de pelagem lisa e brilhante. Traziam as panelas fumegantes perfeitamente equilibradas nos rabos mais compridos que eles próprios.

— SEMINVÍSOS! — bradou Ysadora indignada para eles. Ele se debruçou sobre a mesa, o rosto quase colando com o da mãe. — Mãe, não dá pra domesticar eles!

— Claro que dá, amada! — replicou Adélia. Adélia virou-se para um dos seminvísos e fez um carinho gentil sobre a cabecinha do animal. — Vê?

Os três meninos se entreolharam desconfortáveis, e se levantaram.

— Vamos... Hum... Esquecemos de lavar as mãos! — mentiu Pedro.

E saíram apressados.

— Ela está indo cada vez mais longe! — Pedro murmurou quando estavam próximos à biblioteca entreaberta.

— Fico preocupado com a Alexia. — disse Gabriel, olhando de esguelha para a porta da cozinha. — Ela põe as filhas em perigo e é míope demais pra ver.

Lucas olhou sorrateiramente para dentro da biblioteca, e ignorou o mundo todo ao seu redor ao colocar os olhos em uma coleção sobre feitiços-não-aconselháveis.

Ele deslizou para dentro do aposento, e Pedro e Gabriel colocaram apenas as cabeças ali, de modo que pudessem vê-lo e verificar o que estava fazendo. O garoto passou o dedo pelas lombadas grafadas com escritas douradas, e seu sorriso ia se alargando conforme lia. Em determinado momento, notou um livro de nome "Os Animais mais mortíferos do mundo", e tirou-o do lugar.

Gabriel e Pedro vieram ao seu encontro, e franziram o cenho ao lerem o nome.

— Deve ser o livro favorito da Adélia. — palpitou Lucas, foleando-o. Notou que havia uma página marcada com uma fita mascada. — O que é isso? "Manticoras"!

Gabriel arregalou os olhos e tomou o livro em mãos, fitando a figura da manticora com o rosto duro.

— Ela quer comprar uma? Meu Deus! É uma das criaturas mais perigosas do mundo da magia!

— Ou seja, o alvo perfeito pra ela. — disse Pedro, trêmulo.

Lucas pegou o livro de volta, e começou a ler o texto.

"... mas sem dúvida o maior motivo pelo qual bruxos e bruxas de todo o mundo arriscam os pescoços indo atrás dessas criaturas, são seus ovos. Os ovos das manticoras são, além de muito valiosos, ingredientes outrora muito requisitados por mestres de poções; uma vez que são capazes de ampliar o efeito de uma poção em pelo menos dez vezes."

Podia ser? Não... Seria muito difícil...

— O que foi, Lucas? — chamou Pedro, curioso.

Lucas fechou o livro e colocou-o de volta na estante. Ainda sem tirar os olhos da lombada, disse:

— Ali diz que os ovos das manticoras podem ampliar o efeito das poções em pelo menos dez vezes. E se o Snape usou um para alterar a Stelfart? O Dumbledore não disse no começo do ano que descobriram que um contrabando de ovos de manticora estava sendo feito?