Na manhã seguinte, os quatro se reuniram com a turma de suas Casas no Grande Salão para tomar café. O céu estava desanuviado e pálido, e o frio continuava a cercar o castelo.

Embora fosse costumeiro que os alunos de uma Casa não se misturassem com outros fora das aulas, Lucas, Gabriel, Pedro e Ysadora não se preocuparam em se agruparem na mesa da Sonserina — o motivo por não terem escolhido a de Corvinal, era Gabi -, para conversarem sobre como havia sido a primeira noite no castelo.

— A tal de Chris Coinfield é bacana. — comentou Ysadora, passando geleia nas torradas. — O pai era um jogador de Quadribol do time The Red Griffins. Ela também coleciona as figurinhas das cartas de chocolate, Pedro.

—Hum. — gemeu o garoto, que estava a mastigar uma panqueca doce.

Pouquíssimos professores se encontravam sentados à grande mesa no altar, e Dumbledore não estava entre eles. Conforme mais alunos irrompiam no salão, com caras cansadas e balançando as varinhas como se fossem baquetas, o som das conversas se avolumava. Gabriel torcia mentalmente para que evitassem o assunto "Gabi" durante a mesa... E possivelmente para o resto da vida.

—Como foi dividir o quarto com o Fezes? — Pedro quis saber, com a boca cheia, sem conseguir conter a curiosidade.

Gabriel fechou os olhos, respirou fundo, e abriu-os vagarosamente; fulminando Pedro.

—Eu preferia ter ido para a Lufa-Lufa. — No mesmo instante, um aluno da Lufa-Lufa passou pela mesa. — É isso mesmo! — Gabriel bradou com ferocidade para o garoto, que balbuciou algum xingamento.

—Nossa. — Comentou Ysadora, tentando achar uma brecha para se enturmar na conversa.

—Minha. — Disse Lucas, com os olhos ainda fixos no Livro Padrão de Feitiços.

—O quê? — Ysadora indagou, desconcertada, inclinando-se para perto de Lucas.

—"Nossa".... "Minha".... — explicou ele, indiferente, ainda de olho no livro.

Gabriel chegou a ver apenas um vulto passando diante de seus olhos, e no instante seguinte, um som metálico ecoou no salão, atraindo a atenção de vários alunos. Pedro havia arremessado uma taça de suco em Lucas, que, Gabriel deduziu, só desviara porque já esperava alguma represália.

—Espero que o Snape não resolva tirar pontos da Sonserina por piadas ruins! — exclamou Pedro, escarlate, com os óculos embaçados.

—É mais provável ele tirar pontos por você sair atirando taças em todo mundo. — retorquiu Lucas, marcando uma página no livro com o dedo indicador. Ele olhou em volta, sorriu de forma cruel, e disse: — Olhem isso:

O garoto tirou a varinha das vestes, e apontou-a sorrateiramente para as costas de uma aluna da Grifinória à sua frente.

—Levicorpus. — sussurrou ele.

A garota foi içada para cima pelo pé direito, enquanto berrava desesperadamente. Os demais alunos da Grifinória se apressaram e tentar puxá-la para baixo, sem sucesso.

Gabriel não conseguiu conter o riso, e Ysadora observava a cena chocada, claramente em dúvida se deveria ajudar e mostrar para todos sua prestatividade, ou ficar rindo junto aos garotos. Pedro vestiu uma máscara escarlate de pânico e incredulidade, que apenas se intensificou ao perceber que o professor de Feitiços, Filius Flitwick, se aproximava do salão, como uma sombra.

Gabriel, que também havia percebido, abaixou a varinha de Lucas apressadamente, e a garota caiu estirada no banco como uma boneca de trapos. Flitwick surgiu no salão, parecendo um Feijãozinho de Todos os Sabores se comparado à Ysadora. Dois garotos da Grifinória levantaram a menina amaldiçoada por Lucas pelos braços, e arrastaram-a até o professor.

—Alguém... Alguém usou um feitiço de levitação... — ofegou o garoto mais baixo e feio; com dentes de coelho e cabelo áspero e volumoso.

Flitwick estudou o hematoma na coxa da menina, e depois voltou-se para seu rosto ainda em choque.

—Não pode ter sido um aluno do primeiro ano. — afirmou o professor.

—Não importa quem foi! — esclareceu Lucas, se levantando do banco para ajudar a garota. — A única coisa que importa, é que ele foi um covarde, canalha e sem tato.

Gabriel e Pedro ficaram em estado de choque observando. Gabriel primeiro apertou os olhos com força, para se certificar de que o que estava vendo era real. Depois, trocou olhares com Pedro, que pareceu não saber se devia rir ou ir até lá e puxar Lucas de volta à mesa, pela gola.

—Eu ajudo a levá-la até a Ala Hospitalar. — ofereceu-se Lucas, pegando a menina por um braço.

—Muito obrigado. — aprovou Flitwick.

Os quatro desapareceram no portal.

Pedro sacudia a cabeça negativamente enquanto lia uma matéria no Profeta Diário que chegara pelo Correio-Coruja, e Ysadora pegou o livro Padrão de Feitiços e começou a foleá-lo com curiosidade; Gabriel deduziu que deveria estar procurando o feitiço de Lucas usara. Assim que viu os cabelinhos negros do professor passando por ele, Gabriel saltou da mesa e abordou Flitwick antes que o mesmo pudesse atingir metade do caminho até a mesa dos professores.

—Professor — chamou ele. — Posso conversar com o senhor?

O nanico se virou, e Gabriel percebeu, pela primeira vez, que era poucos centímetros mais alto que o professor.

—Ora, meu rapaz, é claro!

Gabriel pensou por onde devia começar, de modo que não soasse demasiadamente estranho ou nojento.

—Bem, tem um aluno no meu dormitório... — começou ele, torcendo para que o professor percebesse logo de quem se tratava. -... e ele é... inconveniente.

O professor franziu o cenho e entortou a cabeça para o garoto.

—Quem? E que tipo de inconveniência ele provoca?

Gabriel não queria que houvesse essa pergunta. Imediatamente se lembrou do cheiro lúgubre e podre que encobriu o quarto noite passada. O garoto evitava olhar nos olhinhos negros do professor, pois eles o lembravam...

—É o Stumpf. — disse ele, atropelando as palavras para fora.

Flitwick enrugou a testa e apertou ainda mais fortemente os livros encapados que trazia nos braços.

—O que tem ele? Discutiram, ou algo assim?

—Achei que se discutisse, eu faria a Corvinal perder tantos pontos que nem o Lucas e a Sonserina ficariam atrás da gente. — O garoto disse mais para si mesmo do que para o professor. Percebendo que o professor era demasiado desatento para entender alguma coisa, mesmo sendo o diretor da Casa mais inteligente de Hogwarts -, Gabriel disse: — Ele caga nas calças, professor. Ficar preso no mesmo quarto que ele é o mesmo que dormir com os trasgos! Se o senhor pudesse transferi-lo para algum lugar... Acredito que os demais alunos partilham da mesma opinião que eu.

Flitwick estarreceu-se e quase cambaleou para trás. Gabriel sabia que o professor jamais devia ter ouvido queixa semelhante, e sinceramente, se sentia um grande imbecil por estar dizendo isso. Aquilo lhe soava muito estranho, e ainda não se acostumara em reclamar do Gabi ao invés de tirar sarro dele. O professor engoliu em seco, e recomeçou, tentando manter a postura:

—Bem, creio que os dois possam...

—ELE CAGA NAS CALÇAS! — interrompeu Gabriel, desesperado. — Ele tem problemas! Não sei se é preguiçoso ou simplesmente tem medo que um Explosivim saia do vaso sanitário e entre no...

—Tente se acalmar, sr. Decian. — pediu Flitwick, que agora se preocupava com os grupinhos que pareciam atentos à conversa. — Terei uma conversa com o sr. Stumpf e...

Gabriel agarrou o professor e o ergueu alguns centímetros do chão; com o rosto encolerizado e sacudindo Flitwick com uma força descomunal que não sabia que tinha, Gabriel disse, da maneira mais exasperada que pôde:

-ESCUTA AQUI SEU GNOMO MISERÁVEL! É COCÔ! Um aluno da sua Casa faz as necessidades nas próprias calças, e impregna todo o dormitório. A Luizze Boult teve que atear fogo nas cortinas porque o cheiro se recusava a sair. Ontem eu sonhei que um tolete rolante me perseguia, e não tinha para onde eu corresse! Aquela bosta gigante gargalhava à minha desgraça.

—PELO AMOR DE DEUS, SR! TENTE SE CONTROLAR! — Flitwick não estava pedindo.

A voz do professor agarrou seu cérebro e o fez despertar do que julgara ser um transe de fúria. Gabriel retomou a respiração no instante em que percebeu que alguns alunos assistiam a cena, engolindo gargalhadas.

Ele pousou o professor novamente no chão, com uma veia pulsando na têmpora e a cabeça tomada pela lembrança excruciante do cheiro de Gabi esmurrando suas narinas.

—Mais calmo? — perguntou Flitwick, ajeitando os cabelos.

Gabriel assentiu, com a boca seca.

—Ótimo, agora — disse ele, como se tentasse amansar um hipogrifo. -, vou conversar com o Sr. Stumpf, e ver se encontramos uma solução para esse problema.

Flitwick se afastou de Gabriel á passos arrastados, e se sentou à mesa do professores, escondendo o rosto com uma folha do Profeta Diário.

Gabriel se sentou de volta à mesa da Sonserina, e somente quando fitou seu reflexo na taça de suco, percebeu que estava vermelho. Seu coração ainda batia rápido e a ira escorria pelo seu corpo, mais presente do que sangue.

—O que foi aquilo? — Ysadora quis saber.

—Fezes. — disse Gabriel, rapidamente.

Ysadora girou o pescoço, e mirou Gabi, sentado isolado nas sombras da mesa da Corvinal, com apenas alguns passarinhos de papel voando ao redor de sua cabeça oleosa.

Antes que a garota pudesse perguntar qualquer coisa, Gabriel tomou a palavra:

—Vamos subir? Ou, no caso do Pedro, descer? Precisamos nos arrumar para Feitiços, e a última coisa que eu quero é me encrencar com o Flitwick.

Ysa e Pedro concordaram, e cada um rumou para seu respectivo dormitório. Gabriel e Ysa subiram pela longa escada espiral que levava à Torre da Corvinal, e diante de um aro de pedra com antigas runas, havia a estátua de uma águia, abrindo as asas majestosamente como um anjo.

—Crepúsculo ou Cinquenta Tons de Cinza? — perguntou a águia.

—Três dedos de lobisomem enfiados no meu ânus. — respondeu Gabriel, calmamente.

—Correto.

A águia girou e desapareceu na negritude do aro de pedra. Gabriel adentrou o dormitório masculino sem retribuir a despedida de Ysa, e percebeu que o cheiro continuava ali; tão sólido e impiedoso, que era quase possível vê-lo ondulando no ar. O garoto apanhou seu Livro Padrão de Feitiços e alguns pedaços de pergaminho surrados onde fizera anotações, e saiu daquela cova fedorenta.

Á caminho da sala de Feitiços, Gabriel encontrou Lucas, que vinha subindo do Grande Salão com o Livro Padrão de Feitiços e um Pomo de ouro flutuando por entre sua cabeça, fazendo acrobacias e relampejando dourado quando entrava em contato com a luz do sol.

—O que foi aquela cena lá embaixo? — indagou Gabriel, prestando atenção no Pomo.

—Só aproveitei a chande de testar o Levicorpus, e de sair com uma aluna, ao mesmo tempo.

—Havia outros modos de sair com ela. — disse Gabriel, enquanto galgavam a escadaria de pedra para o patamar da sala de Feitiços. — E que feitiço foi aquele?

—Estava anotado no meu livro. — contou Lucas, sacudindo o livro como uma prova de crime. -Descobri que ele foi criado por um aluno...

À porta da sala, Pedro os esperava, com um rosto impaciente que logo se moldou em uma careta de desaprovação ao ver o Pomo de Ouro.

—O que é isso? — Ele quis saber, apontando caracteristicamente para a bolinha dourada.

—É o Gabriel. — respondeu Lucas, metendo a mão da argola de ferro da porta.

—Me referi á ISSO! — Ele apontou novamente para o Pomo, agora tocando o pomo com a ponta do dedo.

—Então! — disse Lucas, empurrando a porta.

A sala de feitiços era ampla e espaçosa, com vários patamares de mesas em um semicírculo, defronte à mesinha de madeira de Flitwick.

Os três tomaram seus lugares no patamar mais ao topo, de forma que pudessem ver todos os outros claramente, e o Pomo de Ouro se enfiou no bolso das vestes de Lucas. Ysadora irrompeu na sala apressadamente, e se juntou á eles como se fosse caso de vida ou morte.

—Ótimo! — Soltou Lucas, sorrindo sarcasticamente. — Vamos chamar o Gabi para sentar junto da gente, também!

Mas antes que Ysa pudesse dizer qualquer coisa, Flitwick adentrou à sala, encalçado por Gabi, que se arrastava, cabisbaixo. Por algo que Gabriel não conseguiu chamar de outra coisa, se não de "milagre", o cheiro excruciante não o acompanhara. O professor de Feitiços subiu em cima da mesinha de madeira, usando uma escadinha de livros velhos, e sacudiu sua varinha curta. Várias penas flutuaram de cima da mesa e pousaram suavemente sobre os livros de cada aluno.

Assim que se certificou que todos estavam com o material, Flitwick pigarreou, e disse com sua vozinha caricata e fina:

—Bem-vindos à sua primeira aula de Feitiços! Uma das habilidades mais elementares de um bruxo, é o Feitiço da Levitação — ele fez uma pausa e estudou os rostos de cada um. Gabriel suspeitou que se tratava do incidente com o Levicorpus. Vendo que ninguém ia se entregar dessa forma, o professor continuou: — Então vamos começar pelo mais simples e clássico Feitiço da Levitação: O Wingardium Leviosa! Quero que girem suas varinhas em sentido horário, e depois deem uma sacudida de leve enquanto pronunciam o nome do feitiço, certo? Três, dois, um... Podem começar.

Lucas não demonstrou a menor dificuldade em conseguir executá-lo logo da primeira vez, já que fora ele quem desferira o Levicorpus na aluna da Grifinória. Sua pena flutuara alguns centímetros, e foi subindo, vacilante, até atingir o teto sombreado. Gabriel murmurou o feitiço algumas vezes, até que a pena resolveu fazer o que deveria. Não subiu tão alto quanto a de Lucas, mas conseguira satisfatórios resultados. Ysa, que observava nervosa os demais colegas conseguirem, só executou o Wingardium Leviosa com sucesso após a vigésima tentativa.

—Muito bem! — aprovou Flitwick, excitado, observando todas as penas no ar. — Vocês são a turma mais...

—EU NÃO CONSIGO! — Uma voz fina e agressiva roubou a atenção de todos.

Pedro chacolhava sua varinha vorazmente contra a pena, enquanto seu rosto assumira o tom púrpura e se transformava em uma careta de irritação e frustração. Sua pena só se movia em círculos por causa do vento que a manga das vestes provocavam.

—Sr, Alves, por favor, tenha calma. — pediu o professor, aumentando a voz para se sobressair das risadas da turma. — Não... Sr, Alvez, não é assim... É mais suave.

Pedro foi diminuindo o ritmo gradativamente, ao mesmo tempo que seus olhos pareciam se encher de lágrimas. Lucas e Gabriel gargalhavam em tons muito altos, e Pedro lhes lançava olhares agrestes que não pareciam amedrontá-los.

—Tente com mais delicadeza, Sr. Alves. Balance a varinha e diga: "Wingardium Leviosa".

—Wingardium Leviosa. — disse Pedro, obedecendo aos comandos do professor.

A pena não se moveu.

O tom púrpura voltou ao rosto de Pedro, e ele balançou a varinha com ainda mais raiva, às vezes parando para fulmina-la com olhares encolerizados , como se fosse culpa dela.

—EU... NÃO... CONSIGO! — Bradou ele, com muito mais fúria que antes.

No último movimento de Pedro, três jatos de luz vermelha irromperam da ponta de sua varinha, passando por entre as cabeças dos alunos, e estilhaçando duas janelas nas laterais; porém, o terceiro jato de luz acertou o professor.

—RATAZANAS DO INFERNO! — berrou ele quando o feitiço de Pedro acertou-o no peito e arremessou-o para fora da grande janela ornamentada.

A turma ficou em choque á princípio, depois aplaudiram enquanto davam gargalhadas conjuntas. Pedro se enfiou debaixo da mesa, escarlate e suado, enquanto todos, até mesmo Gabi, imitavam seus movimentos ao disparar o feitiço contra Flitwick.