Entre estrelas e engrenagens
3 Doença inevitável
Notas iniciais
— Uah...
Minerva ergueu os braços para cima e se espreguiçou, a boca escancarada num bocejo. Inclinou a cabeça para trás e fixou o relógio do laboratório: 1h17min. Não muito depois do primeiro bocejo, veio o segundo. A engenheira balançou a cabeça e deu tapinhas no rosto.
— Você deveria ir dormir – disse Arion do canto do laboratório onde trabalhava
— Sem chance – ela respondeu voltando a se debruçar sobre a bancada. – Acumulei um monte de trabalho aqui nas Stark por estar trabalhando com meu pai naquele projeto, e agora preciso correr atrás do prejuízo. Precisamos entregar isso em menos de 48 horas, e ainda falta muita coisa.
Arion saiu detrás da sua bancada e foi até onde Minerva estava trabalhando. Olhou preocupado para ela, tentando ler alguma emoção em sua expressão. Fora o sono estampado em suas pálpebras pesada e olheiras bem marcadas, ele não conseguia ler mais nada. Isso o deixou agoniado. Gostava da facilidade com que conseguia ler os sentimentos de sua professora, e se frustrava muito quando ela lançava mão de uma máscara impassível. Tinha um impulso de fazê-la falar, narrar cada pensamento que estava passando em sua cabeça.
— Está chateada? – perguntou ele com cautela.
Minerva piscou e olhou sinceramente confusa para ele.
— Chateada?
— Você teve que sair da polícia, não teve? Voltou a trabalhar que nem uma condenada para as I.S., sem contar seus projetos com seu pai.
Minerva olhou intrigada para Arion. Já presenciara Arion demonstrando diversos sentimentos, mas culpa era uma novidade. Sua última fala tinha sido permeada de uma culpa profunda e sincera. Um dos cantos de sua boca subiu num meio sorriso sutil.
— Você está me perguntando isso... – começou devagar. – Porque se sente culpado de eu ter saído da polícia?
Arion apertou os lábios numa linha fina e desviou os olhos para o chão, coisa que raramente fazia. Minerva o observou com um ar divertido e curioso. Era sempre encantador ver uma nova emoção humana se manifestando nele. Com um minúsculo sorriso nos lábios, Minerva ergueu uma mão e deu tapinhas no braço de Arion, que voltou a encará-la confuso e até um tanto assustado.
— Não se sinta culpado – disse ela alargando o sorriso. – Juro que saí porque eu quis. Não sou de ceder ao que os outros querem por capricho deles. Principalmente ao Stark.
Arion ficou alguns instantes em silêncio, um leve vinco entre as sobrancelhas denunciando que ele raciocinava sobre alguma. Devagar, como se pesasse cada palavra com a língua antes de coloca-la para fora, disse:
— Espera... Você... Você não saiu da polícia porque o Stark disse que precisava de você nas I.S., certo?
Com um sorriso reprimido, Minerva balançou a cabeça positivamente, concordando com a colocação.
— Então... Você só poder ter vindo porque eu...
— Te ensinar e te ajudar em projetos aqui nas I.S. – cortou a engenheira quando a voz de Arion deu uma pequena falhada – é bem mais divertido que consertar viaturas, que era basicamente o que eu estava fazendo lá.
Pegando Minerva completamente despreparada, Arion esticou a mão bruscamente e segurou a da engenheira que estava sobre a bancada. Ele a apertou com certa urgência e cravou os olhos alaranjados nos dela. Um tanto assustada, ela inconscientemente puxou a mão, mas o engenheiro a segurou bem firme entre os dedos calejados e ágeis.
— Isso é mesmo verdade? – perguntou ele numa voz quase esganiçada.
— S-Sim – respondeu ela deixando o nervosismo explícito em sua voz. Seu coração pulava contra suas costelas e um calor estranho subiu por seu peito até a cabeça, fazendo suas bochechas esquentarem e doerem. A aproximação tinha sido brusca demais, e o toque, completamente inesperado.
— Jura? – Arion ergueu um pouco o braço, puxando as duas mãos unidas mais para perto de seu tronco.
Minerva só conseguiu assentir, pois ficara completamente sem reação diante do gesto do engenheiro. Arion permaneceu encarando-a, como se analisasse cada vinco de seu rosto a procura de um indício de mentira. De repente, um barulho desviou a atenção dos dois para baixo. Minerva sentiu as bochechas esquentando e ela rapidamente puxou sua mão com força, libertando-a do aperto de Arion. Levantou-se de forma brusca, quase empurrando-o e se afastou na direção da saída do laboratório.
— Onde está indo?
— Arranjar alguma coisa para comer – respondeu Minerva com uma pitada de rispidez.
— Quer que eu peça uma pizza?
Ela parou na porta para digitar a senha.
— Nem pensar! – retrucou ela ainda sentindo as bochechas doendo. – Não aguento mais comer pizza. Vou para a cozinha preparar alguma coisa.
Minerva seguiu para as escadas que levavam ao térreo da mansão de Stark. O bilionário estava numa conferência em Washington com Pepper, e instruíra Minerva e Arion a trabalharem em seu laboratório particular devido à alguns problemas de vazamento de informação que estavam acontecendo na sede das Indústrias Stark. Entregou a eles sua mansão sugerindo que se sentissem em casa e, inclusive, sugeriu que usassem o quarto de casal para dormir. Claro que a reunião acabou num quase espancamento de Stark por Minerva, sendo necessário que Happy a arrastasse para fora do gabinete enquanto ela praguejava a sequência mais longa de palavrões que dissera na vida. Por fim, a contragosto, a engenheira aceitara passar alguns dias na mansão trabalhando com Arion, e a sugestão indiscreta de Stark não parava de ressoar em seus pensamentos. E os momentos de aproximação excessiva de Arion, mesmo quando ele simplesmente se esticava sobre a bancada para pegar algo que estava mais próximo a Minerva, não ajudavam em nada. Já fazia muito tempo que sua mente e seu coração estavam completamente confusos sobre quem Arion havia se tornado para ela.
Ao alcançar o último degrau, ela ouviu lá embaixo pequenos bipes e um mais alto que indicou que a porta fora aberta novamente. Seu coração saltou um pouco com a perspectiva de ter Arion em seus calcanhares, mas sua mente direcionou sua atenção para sua necessidade imediata: achar a cozinha. Ela caminhou pela mansão tentando ignorar a presença discreta do ruivo seguindo-a. Ao chegar lá, avançou direto para uma das geladeiras para conferir os ingredientes disponíveis. Arion chegou segundos depois, parando um pouco atrás de Minerva.
— O que vai cozinhar? – perguntou com um interesse franco.
A engenheira fingiu um pequeno susto, virando-se com os olhos arregalados e a mão sobre o peito.
— Faça o mínimo de barulho quando me seguir. Que susto!
— Desculpa – pediu ele com um olhar sinceramente culpado. Minerva se derreteu um pouco por dentro. Ela sabia que era errado, mas aquela nova expressão de Arion era interessante demais. Ela fez um gesto de dispensa com a mão.
— Tá tudo bem! E eu ainda não sei... – ela voltou a abrir a geladeira, e depois abaixou-se para a abrir o congelador. – Ah! Tem uns camarões congelados aqui!
Ela puxou o pacote e jogou-o sobre a pia para voltar a vasculhar a geladeira. Arion acompanhou sua movimentação em silêncio e, subitamente, teve uma ideia.
— Onde fica a dispensa? – perguntou Arion começando a abrir os diversos armários e gavetas da cozinha.
— Aquele armário do fundo tem algumas coisas da dispensa – respondeu Minerva apontando sem ver para o último armário.
Arion abriu-o e vasculhou os diversos pacotes que abarrotavam as estantes, até que finalmente encontrou o que queria. Com um sorriso, puxou uma caixa preta com um design bastante gourmet e colocou-a sobre a bancada. Minerva se virou.
— Risoto? – perguntou num tom levemente descrente.
— Risoto de camarão – ele completou como se tivesse acabado de ter a ideia mais brilhante do mundo.
— E você sabe fazer?
Ele assentiu já se encaminhando para um armário à procura de panelas. Enquanto abria as portas, instruiu:
— Eu vou precisar de alho, limão, tomate, pimentão, sal... será que tem cubo de caldo de camarão?
Minerva fez uma careta.
— Não dá pra simplificar?
— A gente usa o que tiver – finalizou Arion colocando uma frigideira grande e uma panela sobre a pia.
A engenheira jogou os ingredientes que encontrou na geladeira sobre a pia e separou os utensílios de cozinha que usariam. Pegou uma tábua para picar a cebola, os tomates e os pimentões e empurrou tudo para Arion.
— Sabe fazer os camarões?
— Sei.
Ela fitou o engenheiro fazendo um biquinho, como se pudesse medir seu talento culinário pelas linhas do rosto, depois estalou os lábios e deu a volta na bancada avançando para a sala de TV.
— Vou colocar uma música – anunciou num tom que não deixava brecha para discussões. – Senão vou acabar dormindo em pé.
Abaixando-se, ligou o aparelho de som de Stark, que já não funcionava a base de fitas, nem mesmo de CDs. Mexeu nos controles até selecionar a música que queria. As vozes de seu conjunto preferido encheram a sala e a cozinha, e ela pôs-se a bater palmas no ritmo da música enquanto se dirigia para o frigobar. Arion espiou pelo canto do olho enquanto ela se balançava e um pequeno sorriso curvou seus lábios. De súbito, ela soltou uma exclamação de felicidade e sacou uma garrafa de vinho, erguendo-a para o alto num gesto de triunfo.
— Um risoto de camarão pede um vinho caro pago com dinheiro alheio!
Arion olhou preocupado para Minerva.
— Tem certeza que não vamos ter problemas com o Sr. Stark por abrir essa garrafa?
— Nossa... – Minerva fuçou nos armários e tirou de lá duas taças de cristal. – Você ainda chama o Tony de Sr. Stark? E não, não vai ter problema. Ele deve ter mais umas dez dessas em estoque. E, se não em estoque, ele poderia comprar 10 dessas agora, no meio da madrugada e a pronta entrega.
Sem um pingo de acanhamento ou culpa, Minerva forçou a rolha que saltou com um pequeno “ploc” pra fora do gargalo. Encheu quase metade da sua taça e esticou o braço para encher a de Arion, mas ele a impediu levantando a mão com a palma voltada para a garrafa.
— Eu não posso beber.
— Ah... É mesmo... – Minerva assumiu um tom um pouco acanhado. – Esqueci que você não se dá bem com álcool.
Ele deu um sorrisinho e voltou sua atenção à tábua em que picava os ingredientes. A engenheira espiou seu serviço, inclinando-se para o lado, e abafou uma exclamação de incredulidade.
— Arion! O que você está fazendo!?
Ela avançou bruscamente até a bancada da pia e arrancou a faca da mão do engenheiro. Parte do pimentão já estava cortada sobre a tábua, mas em pedaços enormes com um corte bastante tosco.
— Tem que ser bem pequeno pro gosto passar para os outros ingredientes mais facilmente, mas permanecendo sutil.
Arion arregalou os olhos para ela.
— Você... Você entende de cozinhar?
Minerva se sentiu um pouquinho ofendida, mas ao mesmo tempo sentiu suas bochechas esquentando com o tom de profundo interesse que ele utilizara.
— C-Claro que sim! – indignou-se ela tentando transparecer mais irritação do que de fato sentia. – Cozinhar é uma habilidade básica pra sobreviver. Fora que a minha mãe...
Sua voz foi morrendo ao perceber o rumo que suas lembranças tomavam. Ela se calou, de um pequeno pigarro e desviou os olhos para o chão.
— Sua mãe...? – incitou Arion, completamente alheio ao clima pesado que pesara ao redor de sua tutora.
Ela se virou de forma tristonha para a bancada girando a faca entre os dedos.
— Minha mãe morreu quando eu era pequena. Tive que aprender a fazer coisas muito cedo para ajudar meu pai. Éramos só eu e ele. E como eu ficava muito por minha conta, aprendi a cozinhar ainda quando criança.
Houve um silêncio entre os dois, mas por mais estranho que pareça, não foi um silêncio desconfortável. Era como se ambos estivessem esperando que uma coisa fosse dita. Por fim, foi Arion que falou sobre o som da música, o único que restara no ambiente:
— Isso foi muito legal da sua parte. Uma criança talentosa desde sempre.
— Ei! – protestou Minerva, indignada. – Eu não sou mais uma criança!
Ela esperou uma risada de Arion, na verdade, ela ansiou por isso. Mas a reação do engenheiro foi completamente inesperada (mais uma vez). Ele pousou uma mão sobre a dela que ainda segurava a faca e deu um aperto carinhoso, mas com uma pitada de ansiedade. Ele a olhou fundo nos olhos e disse:
— Não, você não é.
Minerva sentiu calor e falta de ar ao mesmo tempo quando seu coração disparou a galopar contra suas costelas. Foi só naquele momento que ela percebeu o quanto tinha se posicionado próxima a ele. Olhando em seus olhos alaranjados e sentindo sua respiração roçando a pele de seu rosto, ela percebeu que Arion estava perigosamente perto. Por impulso, ela deu um passo para trás, rezando para que ele não tivesse escondido um super poder como audição aguçada e estivesse ouvindo o quanto seu coração batia rápido.
— Vai ser um aprendizado eterno mesmo pra você – disse ela tentando desviar foco da conversa. – Ainda tem uma séria dificuldade de entender brincadeiras.
Arion a olhou, confuso, mas antes que ele tivesse a chance de fazer alguma pergunta, ela colocou a faca em sua mão e declarou:
— Vamos lá! Vou te ensinar a cortar da forma correta.
Ainda meio perdido, o engenheiro se posicionou diante da tábua e esperou instruções. De forma inconsciente, Minerva imitou os gestos de seu pai quando lhe ensinara a cortar ingredientes. Seu senso de instrução gritou mais alto que seu coração ainda agitado, e ela pousou as mãos sobre as de Arion para posicioná-las.
— Você segura assim e aqui, para dar mais firmeza, e no pimentão, você coloca os dedos assim. Você vai se adaptar inconscientemente à forma do ingrediente quando aprender a segurar. E então você vai fazer esse movimento...
E aquela foi a primeira lição na qual Arion não conseguiu se concentrar. Sua consciência estava completamente voltada para a sensação das mãos pequenas e calejadas de Minerva sobre as suas. Ela movia os braços com delicadeza, guiando seus movimentos. Um desejo estranho apossou-se de sua mente. Ele queria que ela fizesse isso sempre. Para sempre. Com tudo na vida dele. Queria que ela o guiasse, guiasse naquele planeta que ainda lhe era muito estranho. Porque, de alguma forma, ele sabia que Minerva poderia guia-lo para qualquer lugar, fosse entre as engrenagens que ela havia passado mais de um ano lhe mostrando, ou na direção das estrelas que ele tanto sentia falta.
Seus olhos se desligaram da realidade enquanto ele visualizava Minerva puxando-o pela mão, e ele inconscientemente ergueu os olhos para fita-la novamente. Ele só percebeu o que estava fazendo quando ela parou de falar. Ao ver sua expressão confusa, os olhos negros um pouco ariscos, Arion cedeu ao seu eterno hábito de dizer a primeira verdade que lhe ocorria à mente:
— Você é a melhor professora que eu já tive.
Minerva arregalou os olhos e sentiu o nervosismo dominando seus sentidos novamente. Ela soltou uma risada acanhada e desviou os olhos para baixo, soltando as mãos de Arion.
— Ach que é porque eu sou a única que te ensinou sobre três coisas diferentes. Mas... Poxa! Eu nem sou tão boa em cozinhar...
— Mas é melhor do que eu.
Minerva tornou a rir, mais alto dessa vez, e Arion adorou aquele som.
— De fato – concordou ela. – Por isso, vou te ensinar a ser autossuficiente com eficiência na cozinha.
Arion assentiu do seu jeito usualmente prático, mas dessa vez havia um sorriso em seus lábios, e aquilo fez o ritmo cardíaco de Minerva vacilar. O engenheiro fez um gesto indicando a faca.
— Pode me mostrar outra vez?
***
A preparação da receita seguiu com muitos risos de Minerva e uma frequência bastante anormal de risadas de Arion. A playlist de Earth, Wind and Fire fazia Minerva rodopiar e estalar os dedos enquanto se movimentava pela cozinha, arrancando sorrisos e olhares curiosos de Arion. No momento em que preparavam o camarão, Minerva roubou um e colocou-o ao lado do rosto de seu mais novo pupilo de culinária.
— Eu acho que finalmente descobri o que você é – ela estreitou os olhos numa careta analítica. – Um camarão!
Ela apontou para o crustáceo e depois para ele.
— Olha só! Igualzinho! Tudo laranja.
Ele ergueu a mão e tentou pegar o camarão de volta.
— Não sou um camarão – declarou ele com uma pontada muito sutil de indignação, mas que não passou despercebida a Minerva.
A engenheira aguardou que ele a corrigisse, dizendo que era um cristálien, mas a correção não veio. Ele apenas fez uma cara feia e tentou recuperar o crustáceo que ela balançava de um lado para o outro.
— Há, você entendeu dessa vez! – Minerva soltou uma risada. – Você não me corrigiu! Parabéns!
— Para com isso! – ralhou ele tentando segurar o riso. Ele lançou uma rápida olhadela para a bancada, onde a taça de vinho de Minerva estava pousada ainda meio cheia. O efeito das duas taças e meia que ela virara já começava a aparecer. Ela deu risadinhas, repetindo que ele entendera a intenção da comparação sem leva-la para o lado literal. Ela só parou de aporrinhá-lo quando ele a levou para a sala de TV, colocou a taça em suas mãos e ligou a televisão num programa aleatório. Ela se empertigou como uma criança que senta no sofá para assistir seu programa favorito e começou a bebericar o vinho. Arion permaneceu vigiando-a de longe, sentindo um estranho divertimento ao ver Minerva bêbada pela primeira vez. E, felizmente, nem mesmo seu estado entorpecido impediu-a de degustar o primeiro risoto de camarão feito por Arion, que ela alegou ser o melhor risoto que já tinha comido.
***
Quando Arion guardou a última panela no armário, virou-se e dirigiu-se para a sala de TV. Minerva estava encolhida num canto do enorme sofá, ressonando profundamente. Ele se aproximou com cuidado e se sentou no chão em frente a almofada em que a cabeça da engenheira estava pousada. Ele ficou ali, num silêncio repleto de sentimentos estranhos a ele enquanto observava Minerva dormir. Analisou cada mínimo detalhe de seu rosto, e percebeu com espanto que adorou perceber cada um deles. De súbito, sentiu um impulso muito forte de tocá-la. Ergueu a mão, mas seus sentidos racionais forçaram-no a hesitar. Entretanto, Arion já tinha quase certeza absoluta que aquilo que o movia não eram mais os pensamentos racionais que costumavam ocupar integralmente sua cabeça. Era algo que ele nunca sentira... por ninguém. Aquela sensação nova venceu sua racionalidade e seus dedos tocaram a pele cor de chocolate das bochechas de Minerva, e ele se espantou com o quanto eram macias. Traçou círculos com o indicador e o dedo médio e depois subiu para a testa, descendo pelo nariz e, por fim, se detiveram nos lábios. Ele traçou o desenho dos lábios cheios e bem desenhados de Minerva e depois acariciou-os com o polegar. O toque macio e quente delineou outro impulso em sua mente, um impulso que tomou conta rápido demais de seus pensamentos, e depois de seu corpo. Arion se inclinou, aproximando seus lábios dos de Minerva. Ele sentiu a respiração cadenciada dela em seu rosto, e uma sensação estranha fez seu coração se acelerar, o que acontecera apenas em situações de perigo. Mas aquela... Aquela não era uma situação de perigo, certo? Então, no final das contas, o que ele estava sentindo?
Seus pensamentos racionais dispararam furiosamente tentando arranjar uma explicação lógica, matematicamente explicável, para que estava acontecendo com ele. Mas, pela primeira vez, ele não queria a explicação. Ele queria apenas segui-la. Ver o que haveria no fim daquela sensação. Ele sentiu seu nariz roçar no nariz de Minerva, e a vontade de seguir em frente se intensificou. Ele avançou mais um pouco, e quanto jurou que seus lábios roçariam os dela, ele sentiu que ela inspirava profundamente e se mexia. Ele recuou instintivamente e assistiu, com desânimo sincero, ela se virar para o outro lado, encolhendo-se contra o encosto do sofá. Ele olhou para baixo e soltou uma risadinha. Enquanto ouvia Minerva ressonando, perguntou o que as pessoas de seu planeta diriam dele naquele momento.
Diriam que estava doente. Diriam que sua vez tinha chegado. A vez de pegar a doença inevitável para a perpetuação da espécie. Mas, do que sentira até agora, aquela doença não lhe parecia ruim. E ele sabia que não havia a questão “perpetuação de espécie” na equação. Era algo mais profundo, e independente de todo o resto.
Algo que dizia respeito apenas a ele.
Com uma risada, Arion percebeu que, talvez, tivesse obtido o primeiro fato interessante sobre si mesmo que seria digno de se anotar num de seus caderninhos. Se começasse um caderno sobre si mesmo, naquele dia, a primeira anotação seria:
“Fato #1: Contraiu a doença inevitável por uma terráquea chamada Minerva Bandele”.
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