Entre estações

4 Equinócio de Outono


Notas iniciais
E assim, por hora, encerro essa história. Ainda planejo um epílogo para o Solstício de Inverno mas o bonito ainda não conseguiu um rumo certo logo, fiquem com a minha parte favorita que narra o encontro de Veris e Autumnus no Equinócio de Outono.

A brisa quente não assentava a temperatura da estação, tão pouco a do corpo dela, que suava mesmo vestindo roupas leves e chinelo de dedo, que escorregavam pela sola dos pés dado ao suor. Tudo era e estava insuportavelmente quente todavia, o sorriso que sentia se alargando pelo rosto e notava em uma vitrine me fez perceber que tamanho incômodo não era de todo ruim. Muito pelo contrário. Um sentimento de perda se alastrava pelo peito a medida que os minutos corriam no ponteiro fininho do relógio que pulso que ela usava.

Em breve o verão terminaria.

E Marinette adorava os dias coloridos e as noites quentes de verão, tudo que envolvia a estação a agradava para além do normal e talvez por influência dela e de sua paixão pela estação, me sentia triste também, o que não deixava de ser curioso para mim. Logo eu, o outono, me sentir mal pela passagem natural das estações a ponto de afligir tristeza só pela minha vez estar próxima de chegar. Talvez fosse realmente por influência dela e de estar me acostumando a sua natureza desde a última passagem, não fora difícil encontrá-la novamente perto do ponto de passagem e por um motivo sem nome ainda que beirava a necessidade, o corpo de Marinette parecera me aceitar sem nenhum resquício de estranheza, como se eu já o pertencesse a muito mais tempo do que realmente era verídico. Sua consciência recebera a minha brandamente, como uma velha amiga a muito não vista, perguntando tudo e todas as coisas conforme me afogava em sua energia fervilhante — a jovem era a confirmação viva de oito ou oitenta — e não fora difícil poder verbalizar exposto os momentos dela compartilhados com Aki, o que trouxera uma sensação que ansiava desde a última passagem. O contentamento de dever cumprido.

E ali, observando o mar ao longe, marcando a linha do horizonte eu realmente conseguia abraçar tamanho contentamento.

Quem diria que ajudar minha contra parte poderia ser tão revigorante a ponto de trazer uma tranquilidade sem fim como aquela? Em breve seria outono e meu âmago não estava ansioso como de costume, não havia hesitação alguma diante da minha responsabilidade sazonal naquele hemisfério. Somente e apenas tranquilidade.

E não deixava de ser curioso como independente do receptáculo, eu conseguia reconhecê-lo com certa facilidade diante dos outros que sempre eram atraídos por sua energia como insetos pela luz de uma lâmpada. Chegava a ser simples apontá-lo diante dos demais semelhantes á ele em personalidade, mas não em naturalidade. O verão sempre seria natural diante dos outros. Sua luz e força descomunal eram grandes demais para serem contidas. Fosse pelo sorriso largo ou por sua risada grossa, que sempre aumentava em tom ao me ver, ele se destacava diante dos demais com a simplicidade de apenas ser. Andando com os braços abertos, prontos para um abraço que me fizera rodopiar com sua força.

Veris sempre seria fantástico, isso sem qualquer sombra de dúvida, e não seria um ato impossível o de me ver sendo contagiada por ele em um momento importante como aquele. Meu outono sempre sofreria por sua influência no início até se encontrar em essência do meio para o fim. Florescendo enquanto dorme, abrandando o calor para a chegada do frio, reunindo aquilo que o calor separa... A curiosidade de Marinette pareceu ascender ali, notando a familiaridade sobrenatural que emitíamos em nosso reencontro, até suceder ao silêncio novamente, se contentando em apenas observar algo que ela parecia reconhecer da vez em que nos conhecemos. O sentimento era o mesmo, só mudava de projetor. Agora era eu aquela que recebia a tarefa e a responsabilidade de ditar o clima daquele hemisfério.

O outono estava próximo e seu coração se alegrara em prospecto.

Mas era incômoda a sensação de ser eu a primeira a dizer algo naquele reencontro logo após ter os pés de volta ao chão depois de tanto rodopiar.

— Você fez um excelente trabalho dessa vez, irmão.

E ele rira em reposta, me afagando as mãos. Uma corrente elétrica corroendo meus sentidos e deixando Marinette levemente zonza ao olhá-lo com seus olhos uma vez antes de oferecê-los a mim novamente.

— Eu agradeço, irmã, assim como fico feliz em revê-la mais uma vez.

Marinette parecia estar contente também, não pelo surfista que estava a sua frente e parecia ter tomado mais doses diárias de sol do que Aki em um ano inteiro mas sim em conhecer o verão em pessoa. O que trouxera uma dúvida latente desde a última vez o que vira.

— Você está com ele a mais tempo do que de costume. Por que?

Veris começou a andar em direção ao mar, indicando com a cabeça para que eu o seguisse e só então notei as pranchas não muito ao longe, dispostas na areia.

— Já surfou com ela?

— É claro que não, e você não respondeu a minha pergunta.

O corpo dele se inclinou para pegar ambas as pranchas, oferecendo uma a mim e assim o nervosismo de Marinette saltou as alturas mais altas visto que pouco sabia boiar em água, dirá nadar ou como usar uma prancha devidamente.

— Luca tem uma irmã gêmea, pensei que não seria ruim fazer companhia a Veris por mais do que uma passagem ou duas.

— E ela simplesmente aceitou a ideia? Não era ela a única de nós a se recusar a mudar de receptáculo?

Uma prancha laranja e pequena o suficiente para da altura de Marinette tapara sua visão momentaneamente, a lembrando de que não se vestira adequadamente para entrar no mar naquele dia mas que, quando o vira novamente pudera sentir aquele pequeno incômodo caindo por terra.

— Acho que a sua ideia de fazer Hibernus mudar de ideia fez com que ela mudasse de ideia também. Sobre muitas coisas.

Uma expressão séria em um surfista não caía muito bem.

E saber que seu ímpeto em deixar sua contra parte feliz trouxera uma mudança ao equilíbrio natural das estações a deixara levemente orgulhosa. Para o outono dobrar a primavera seria quase impossível, se ela já não o houvesse feito e de repente, ela conseguia entendê-lo em sua seriedade. Aquilo, por mais simples que parecesse, mudava tudo. Toda a ordem antes estabelecida entre eles.

— Então ela deixou de ser retrógrada. Isso é bom, não?

Luca sorriu, seguindo em direção ao mar, a incentivando a fazer o mesmo.

O verão sempre mudava.

A água do mar era gelada, causando arrepios.

A primavera sempre constante.

Ele me mostrara como me equilibrar sobre a prancha e por vezes, senti o corpo de Marinete afundar na água salgada e cercada por grãos de areia, impedindo uma visão clara e por que não, ardida?

O inverno sempre recluso.

Até que houve um momento onde ela se mantivera firme e leve sobre a prancha e ele passara a ensinar como movê-la sobre a água.

Remadas longas e constantes.

Deixar que o mar mostrasse o caminho em direção as ondas e somente aí, virar-se na direção oposta.

E o outono, sempre em constante transformação.

Quando dei por mim o corpo de Marinette fora tragado por uma onda, ela se perdendo da prancha e segurando os pés, buscando se encolher, conforme o corpo era levado pela maré. Boiando até voltar a superfície e encontrar Luca de olhos saltados, lhe estendendo a mão, seguro, sobre sua prancha. Quando agarrara a mão estendida ela entendera que já era a hora exata do fim dele. O verão acabara por terminar em uma bela tarde de sol quente e água limpa para assim dar passagem a ela. Era chegada o tempo de mudança. Era a vez de o outono assumir seu lugar na passagem das estações.

— É a sua vez, irmã.

Então ela se lembrara de algo velho e antigo. Palavras ditas quando seu nome ruim fora proferido pela primeira vez e ela surgira das folhas secas de um salgueiro envelhecido pelo tempo de ocaso diante de uma colheita perdida pela chuva abundante do verão. "Tudo vem em partes, tanto para os homens como para a natureza. Não há colheita sem sementes e não existe a secura do sol sem a abundância iminente da chuva. Para que a fartura dê origem a estiagem existe um período de tribulação que as separa e assim, florescer o novo. Que esse tempo ímpio nos traga uma boa colheita no próximo ano". E que agora, ali, bem naquele momento onde dividia uma prancha na imensidão do mar com o verão, pareceram fazer algum sentido. Um sentido feliz ao menos.

Ela sempre pensara que o outono era próspero e ver que seu receptáculo concordava com ela fazia sua essência vibrar em júbilo.

Então ela apenas inclinara a testa sobre as mãos unidas e respirara fundo. A sensação de dever cumprido antes mesmo de começado se firmando em seu âmago.

— Obrigada, irmão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.